sábado, 5 de fevereiro de 2011

Mais uma manhã de sol na minha esplanada em frente ao mar


O sol pensa que é Maio. A melhor mesa da esplanada está livre. O empregado já conseguiu aprender que o café é com adoçante e os pastéis de nata são sem canela. A minha revista cheira a novo. Um telefonema liberta-me as horas seguintes. Nem sequer há gente a mais.
O mundo é um local perfeito até o silêncio da mesa do lado me começar a incomodar.
É então que reparo no casal pálido e olheirento, vestido como se fosse para a neve, com uma criança com o carapuço enfiado pela cabeça e a cabeça, por sua vez, enfiada debaixo da mesa, a jogar PSP. Nenhum dos três abriu a boca durante a primeira meia hora. Ela olha de frente para o mar e ele olha de lado para o mundo. Há doze anos atrás foram excelente matéria-prima para românticas fotografias de casamento em pose apaixonada e com o por-do-sol estrategicamente colocado entre lábios unidos por um beijo moderado mas sincero. Uma dessas fotografias deve estar emoldurada na mesinha de cabeceira do quarto deles. Provavelmente, ao lado de uma outra com o miúdo devidamente mascarado de baptizando deitado em cima da colcha de cetim, que ainda deve ser a mesma. De lá para cá o marido engordou dez quilos e a mulher entrou numa cruzada espiritual contra a maquilhagem e a depilação. Não se falam, não se olham, não se tocam. Tão pouco se vêem. Não estão distraídos com um jornal, separados por um pensamento, interrompidos por um telefonema. Nem sequer estão zangados um com o outro. Pura e simplesmente, não têm mais nada para se dizer. São manequins de uma loja, aprisionados numa montra, com o ar vazio e deprimido de um cachorro em exibição numa loja de animais.
São a personificação das minhas fobias, a génese das minhas exigências, a doença que eu rastreio. Apetece-me pegar nos três e deixá-los, assim, a serem eles próprios, no palco de um anfiteatro, enquanto encho a plateia com todos aqueles que me acusam de intransigência.
Meia hora depois, ele abre a boca para se queixar que tem frio. Ela acena a cabeça e confirma que sim, que está muito frio. O miúdo aquece-se com o homicídio de mais um extra-terrestre e se pensasse alguma coisa também pensaria que estava frio.
Um cão aproxima-se, fareja-os, e afasta-se a ganir.

Na literatura, assim como na vida

Na literatura, as personagens masculinas humanizam-se pela dúvida e as femininas pelo erro.
Tendo em conta que a humanização das personagens passa pela criação do anti-herói, constata-se que, de acordo com o estereotipo, apesar de os homens serem os que estão sempre seguros que têm razão, as mulheres são as que nunca falham.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A mãe de todas as guerras

As minhas desavenças com Eros, o caótico deus menor - no duplo sentido de idade e significância -, ultrapassaram o patamar da mera antipatia e profundo desprezo.
Já nem sequer se dá ao trabalho de se disfarçar em ambientes botticellianos, com fingidas faces rosadas e atrás das saias de Afrodite que, por sinal, não costumam chegar a ser pintadas.
Agora assume-se nesta pose bélica de perigoso terrorista disposto a assassinar-me à mais leve distracção.
O que existe entre mim e Eros já não é um conflito diplomático, uma insubordinação de arruaça ou uma sessão de ataques esporádicos com o propósito de mostrar quem é que manda.
É a guerra declarada. Não se resolve com clausuras, liras partidas ou vacinas feitas de doses imoderadas de boleros.
A minha vida está ameaçada e eu não descanso enquanto não exterminar esta criatura.
Estátua de Alfred Gilbert R. A., em Piccaddily Circus

Operação sorriso


Nos seis ou sete minutos que demoro a chegar ao meu local de trabalho só tenho tempo de ouvir duas músicas e eu ouço sempre Puccini, pela simples razão de que não posso começar um dia de trabalho sem ouvir Puccini.
Desde que fui dispensada do drama das filas de trânsito tornei-me numa rádio-excluída. Por isso, só agora soube que houve por aí uma grande e importantíssima operação em torno da qual se terão unido as rádios portuguesas e que, segundo consta, terá culminado num igualmente grande e suponho que importantíssimo momento, às 18h00.
Não vou comentar o desperdício de energia de tal união, o despropósito da iniciativa ou o ridículo de trocar sorrisos falsos com o condutor do lado. Para isso já temos os nossos funcionários, colegas de trabalho e os empregados dos restaurantes.

Aquilo que realmente impressiona é a constatação de que as pessoas, desde que devidamente confortadas pelo apoio psicológico do efeito manada, fazem tudo, mas tudo, aquilo que lhes mandem fazer. E isso, convenhamos, é coisa que, além de justificar muitas aparentemente injustificáveis barbáries, não deve dar nenhuma vontade de sorrir.

(Noutros dias de maiores cautelas, a tarde podia ter acabado francamente mal para um rapazinho que, percebo-o agora, entusiasmado pela iniciativa, já depois da hora e enquanto eu estacionava o carro, decidiu bater-me no vidro e aproximar-se para me oferecer um sorriso rasgado).

História de uma estória

Atribuí à minha limitada generosidade, já que sabia não se tratar de falta de tentativas, a responsabilidade pelo facto de nunca ter conseguido escrever uma estória para um destinatário concreto. Os meus contos, mesmo aqueles que foram escritos como se fossem dirigidos a alguém, foram criados na absoluta orfandade de interlocutor.
Houve uma dessas estórias que se decidiu vingar de mim e, agora, depois de escrita, numa espécie de twist em jeito de mundo ao contrário, encontrou o sentido que lhe neguei à nascença.
Percebi finalmente a natureza da minha incapacidade de escrever contos para pessoas concretas: a insuportável angústia de saber que a estória nunca conseguirá estar à altura do seu destinatário.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

descubra as diferenças*

obsessão
s. f.
1. Importunação perseverante.
2. Perseguição diabólica.
3. Ideia fixa.
4. Preocupação contínua.
Confrontar: obcecação.

paixão
s. f.
1. Impressão viva.
2. Perturbação ou movimento desordenado do ânimo.
3. Grande inclinação ou predilecção!predileção.
4. Afecto!Afeto violento, amor ardente.
5. O objecto!objeto desse amor.
6. Pena, cuidado, trabalho.
7. Grande desgosto, grande pesar.
8. Parcialidade.
9. Sofrimento ou martírio (falando-se de Cristo ou dos santos martirizados).
10. Parte do Evangelho que narra a Paixão de Cristo.
11. Filos. Impressão recebida de um agente.
12. Aveiro Cada uma das estacas em que se arma o botirão.


In Dicionário Primberam da Língua Portuguesa

* E depois descreva-mas.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

As vitórias que realmente me fascinam

36 anos depois de tudo, Cuca conseguiu descobrir que se puser o pão duro no micro-ondas ele fica novamente comestível.

A internacionalização do crime ao serviço da educação tuga

Os portugueses que andaram durante os vários anos do processo casa pia a tirar o seu cursinho de direito com especialização na vertente criminal têm agora, durante o processo Renato Seabra, a oportunidade de prosseguir os seus estudos através da frequência de um Master em direito da common law.
O nível de disparate dos docentes da telescola também entrou em condicente ascensão estratosférica.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

furtos literários


Damos festas, abandonamos as nossas famílias para vivermos sós no Canadá, batalhamos para escrever livros que não mudam o mundo apesar das nossas dádivas e dos nossos melhores esforços, das nossas absurdas esperanças. Vivemos as nossas vidas, fazemos seja o que for que fazemos e depois dormimos: é tão simples e tão normal como isso. Alguns atiram-se de janelas, ou afogam-se ou tomam comprimidos; um número maior morre por acidente, e a maioria, a imensa maioria é lentamente devorada por alguma doença ou, com muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas uma consolação: uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as expectativas, abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imaginámos, embora todos, excepto as crianças (e talvez até elas) saibamos que a estas horas se seguirão inevitavelmente outras, muito mais negras e mais difíceis. Mesmo assim, adoramos a cidade, a manhã, mesmo assim desejamos, acima de tudo, mais.
Só Deus sabe porque amamos tanto isso.
Michael Cunningham, in, As Horas, gradiva

Marionetas

Somos a excêntrica fantasia do outro que se desenvolve na imaginação de um lugar ocupado a espaços intermitentes.
Como não somos reais, não existimos e nem sequer pesamos, estamos libertos da obrigação de fazer sentido.
Somos marionetas dos nossos desejos, presos entre duas dimensões que se sustentam na intangibilidade.
Mas foi num calendário real e deste mundo que hoje contei os dias que me separam de ti.

domingo, 30 de janeiro de 2011

(...)

In parting.— Not how one soul comes close to another but how it moves away shows me their kinship and how much they belong together.


Friedrich Nietzsche

O equilibrismo aplicado às relações


O segredo do equilibrismo é a sincronia absoluta entre o espaço e o tempo. Um gesto fora do segundo certo pode precipitar uma queda no abismo. Nas cordas mais estreitas o acerto dos movimentos só se consegue obter através do esvaziamento cerebral. É preciso manter um balanço constante e contínuo em que o ritmo é ditado pelo posicionamento do corpo e a mente se demite de qualquer outra actividade que não seja a de fazer adaptar o espaço ao tempo.
É por isso que não se pode parar, observar o abismo debaixo dos pés, ou tecer concepções lógicas sobre a actividade que se está a desenvolver.
Medir os riscos, quando já se está em cima da corda, tem tanto de inútil como de perigoso.

Antony and The Jonhsons



I am a bird girl now
I've got my heart
Here in my hands now
I've been searching
For my wings some time
I'm gonna be born
Into soon the sky
'Cause I'm a bird girl
And the bird girls go to heaven
I'm a bird girl
And the bird girls can fly
Bird girls can fly

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Telefonemas do inferno

Havia um telefonema que eu não queria atender.
Atendi-o ontem.
Pela voz entusiasmada do homem dir-se-ia que eu tinha ganho uma casa num daqueles sorteios de enciclopédias que não estou certa que existam.
E mesmo não tendo havido sorteio algum, nem eu tendo comprado enciclopédias, o homem não deixou de me anunciar uma nova casa. Numa nova cidade. A muitos quilómetros de todos os meus lugares.
Será a minha 14.ª casa. E suspeito que jamais venha a ser um lugar meu.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Ascensões e quedas


Foi numa tarde de Agosto, em Veneza, que vivi o mais próximo daquilo que se costuma chamar uma experiência mística.
O santo padroeiro da trip foi Giovanni Antonio Fumiani.
Atrasada para um almoço tardio com uns amigos, acabei por me desorientar nas praças de Veneza e perdi-me. Se não se desse o caso de ter sido apanhada por uma súbita e improvável tempestade de verão, dificilmente teria entrado na igreja de St. Pantalon. Inexplicavelmente, não vem na maior parte dos guias turísticos e o aspecto exterior da igreja não é convidativo. Para mais, St. Pantalon é uma igreja com serviço religioso regular, menos frequentada por turistas do que por velhos paroquianos.
Quando entrei na igreja com o único objectivo de evitar que a chuva me estragasse a maquilhagem, aborrecida e atrasada, fui imediatamente esmagada por Fumiani. Tive uma ligeira sensação de desmaio, sentei-me no primeiro banco que vi e passei os quarenta minutos seguintes com os olhos fixos no tecto, num estado de semi-nirvana.
Fumiani pintou a subida das almas ao céu através do tecto da igreja. Mas pintou-as de uma forma tridimensional, com um movimento frenético e um ritmo tão intenso que, logo que se entra, é-se assolado pela visão de um corropio de almas em hora de ponta que escolheram o tecto de St. Pantalon para o momento da ascensão.
Sugestionado, o meu cérebro convenceu-se que também eu estava morta e desencadeou um processo pavloviano de libertação de qualquer coisa que temo que fosse a minha alma.
Foi a única vez que a senti.
Fumiani nasceu em 1645 em Veneza, andou por Bolonha, pintou algumas coisas de que nunca ninguém normal ouviu falar e depois voltou para Veneza onde passou vinte e quatro anos a pintar o tecto que quase me desalmou. A poucas pinceladas do final, diz-se, desequilibrou-se enquanto pintava, caiu do escadote e morreu. Está lá enterrado até hoje.
Quando a minha alma estava quase a ver-se livre de mim apareceu um padre antipático que correu comigo para fora da igreja e terminou abruptamente o processo de ascensão aos céus.
Só espero que, se tiver mesmo uma alma, coisa que ainda não decidi, a interrupção selvagem não lhe tenha provocado nenhum trauma que a aprisione para sempre neste mundo de gente doida. Ou que, tendo-se habituado ao melhor, insista em só ascender através do tecto de Fumiani.
Pelo sim, pelo não, recuso-me a morrer fora de Veneza.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Presidenciais


Disseram-me que ontem decorreram umas eleições para presidente da república. Ou isso. Não é totalmente inverosímil. Quando saí à rua para o meu passeio matinal de Domingo havia menos cães pela trela e mais gente vestida como se fosse à missa.
Expliquei logo que esse assunto não me interessa nada.
Descobri recentemente as vantagens de viver em negação e tenciono elevar o estado de graça ao nível da desorientação geográfica. Para todos os efeitos, eu vivo em Los Angeles, Malibu, em frente à praia onde atléticos adolescentes em rollerblades se cruzam com descapotáveis conduzidos por trintões com o nariz operado.
O meu presidente não pode ter vindo de Boliqueime. Nasceu em Honolulu e chama-se Barack Hussein Obama.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Excesso de bagagem

Se eu traçasse o mapa de todos os meus sítios e tu traçasses o mapa de todos os teus sítios e juntássemos os dois para, assim, obter um mapa mundi ocupado por forças alienígenas, ainda haveria uma Suíça onde nos pudéssemos exilar?
E se houvesse essa Suiça e se nos deixassem viver nela e se nos exilássemos um no outro, o que faríamos das histórias que não poderíamos levar connosco por pertencerem a outras pessoas?

O preço do amor

Estive uma boa parte do meu dia a ouvir os boleros que comprei ontem numa daquelas lojas francesas que também vendem televisões. Passar várias horas embrenhada na melancolia dos boleros é uma terapia preventiva anti-amor semelhante àquelas sessões de hipnose que fazem com que se enjoe o tabaco. Na luta contra Eros, a criança assassina, devemos rodearmo-nos de armas insólitas porque, como se sabe, igualmente insólitos são os seus mais temíveis ataques.
Além do mais, cinco euros parece-me um justo preço a pagar por todas as histórias de paixão profunda, traição, ciúme, amor, ódio e saudade que vêm lá dentro da caixa.
Dei por mim a pensar que o justo valor de mercado do amor, mesmo fora da caixa dos CDs, não será muito diferente.
Cinco euros. Nem mais um cêntimo.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Versões melhoradas

O problema das versões melhoradas é que tendem a defraudar as expectativas dos puristas.

musiquinha de um sábado de manhã