
Nos seis ou sete minutos que demoro a chegar ao meu local de trabalho só tenho tempo de ouvir duas músicas e eu ouço sempre Puccini, pela simples razão de que não posso começar um dia de trabalho sem ouvir Puccini.
Desde que fui dispensada do drama das filas de trânsito tornei-me numa rádio-excluída. Por isso, só agora soube que houve por aí uma grande e importantíssima operação em torno da qual se terão unido as rádios portuguesas e que, segundo consta, terá culminado num igualmente grande e suponho que importantíssimo momento, às 18h00.
Não vou comentar o desperdício de energia de tal união, o despropósito da iniciativa ou o ridículo de trocar sorrisos falsos com o condutor do lado. Para isso já temos os nossos funcionários, colegas de trabalho e os empregados dos restaurantes.
Aquilo que realmente impressiona é a constatação de que as pessoas, desde que devidamente confortadas pelo apoio psicológico do efeito manada, fazem tudo, mas tudo, aquilo que lhes mandem fazer. E isso, convenhamos, é coisa que, além de justificar muitas aparentemente injustificáveis barbáries, não deve dar nenhuma vontade de sorrir.
(Noutros dias de maiores cautelas, a tarde podia ter acabado francamente mal para um rapazinho que, percebo-o agora, entusiasmado pela iniciativa, já depois da hora e enquanto eu estacionava o carro, decidiu bater-me no vidro e aproximar-se para me oferecer um sorriso rasgado).