sábado, 23 de julho de 2011

debaixo do chaparro de klimt



nas franjas da Terra, iluminadas por faróis de luz rodopiante, vive-se como na pista 8 do tartan de atletismo – por mais que se corra vai-se sempre mais devagar que os outros, os das pistas 1 a 7. pelo que um acaba por habituar-se a não o fazer. de princípio, trota. quando encharcado de planície, caminha. devagar. acaba por sentar-se. e passa a preferir enxugar, em partilha com um amigo, a garrafa que magicamente flutua do freezer para os copos no chão, ao pé do sofá.

feliz.
foi assim que encontrei a Cuca.
de linhas apagadas - não que os poucos anos tenham sulcado o seu rosto, mas mais dormida e letárgica abria ainda mais o sorriso já grande, até fechar os olhos.


nas horas que passámos juntas, que por pouco não atingiram a centena, rimos meses e conversámos anos. a quatro braços foi mais fácil fechar portas de sótãos empoeirados e dolorosos e abrir à picareta novas janelas para a vida, daquelas que deixam entrar o sol para dentro da alma.


tudo sem grandes beijos nem abraços (que ambas dispensamos…).

partilhámos a autoria de um assassinato, deveras chocante para a comunidade de grilos da povoação. comunidade que se demitiu de cantar na noite que se seguiu ao massacre em exéquias à desgraçada (então já viúva) do casal de monstros que viveram atrás do sofá da sala. coerentes com o facto de apenas reciclarmos quando estão a olhar-nos, lançámos mão de armas químicas no escuro daquela noite. também não dispensámos o uso de grande violência.
o corpo esquartejado desapareceu, como por magia, da praça onde o deixámos. passámos o resto dos dias a temer uma vingança em bloco dos insectos da planície o que, por ora, não aconteceu.

levantámos em uníssono os respectivos sobrolhos esquerdos quando, na ideia de ir visitar uma fábrica de chocolate, nos achámos numa cozinha no topo de um barranco que quase arruinou os nossos saltos. gastámos 12 euros e cuspimos às gargalhadas os quadrados temperados com gengibre – (querida, espera até comeres uns em forma de pirâmide…). sítio querido, chocolates muito gostosos, mas que não resistiu à nossa ironia compulsiva. assim ali como o resto do Mundo – não poderia escapar.

atolámo-nos em marisco de tal forma que acho que pelo resto deste Verão vou dedicar-me às churrascadas.

assinei com a BIC laranja que comprei no quiosque da praça o atestado de insanidade da Cuca - aconteceu quando o israelita da Mossad apareceu a cavalo. aproveitei e obriguei-a a assinar o meu, que ficou muito feio e tremelicado pelas gargalhadas com que fazia baloiçar a casa. descobri que certas pessoas aparecem aos outros em câmara lenta, como nos filmes. é mesmo real. ambas as crinas – as do animal e as do animal que montava o animal, ondulavam ao vento e emolduravam um sorriso de mil searas ao sol.
nem palmas deu para bater pois fiquei muito gaga. e eu não sou de gaguejar.

entretanto, a areia das praias onde apanhámos banhos de sol juntou-se toda na barriga de baixo da ampulheta.


feliz.
foi assim que deixei a Cuca.
a sorrir muito, na sua praça de far-west. tal era o vagar do seu sorriso que, juro, vi crescerem raízes que agarravam os seus pés à terra daquele local. acho que que a minha amiga já não mora lá – está plantada.

na bagagem, um projecto comum. inexequível como a nossa própria vida vista do passado: vamos voltar. para viver num monte de cuja porta se pode ver a casa toda. e dedicar-nos à bruxaria. fiquei de levar as sementes de reineta.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Eu não sei de onde sai tanta gente a precisar de um coração

Fui acusada de fingir o amor
à conta de umas mortes por aí,
mas eu garanto que não fiz mais que cantar;
e agradecer as flores que recebi.

Porém há tanto homem infeliz
que necessita de muita atenção,
depois confunde tudo o que se diz e vai
embriagar-se por qualquer razão.

Eu não sei de onde sai
tanta gente a precisar de um coração
que me toma por um anjo,
nem pergunta se eu desejo
a sua afeição.

Foi nessa noite tensa de luar,
a casa quente e cheia a gritar "Bis!"
que o americano entrou louco no camarim
impondo "I've gotta have you! You're my star!".

Eu recusei, não gosto de patrões,
ele jurou que me ia arrepender;
disse que comandava mais de 100 nações,
que o mundo inteiro iria estremecer.

Eu não sei de onde sai
tanta gente a precisar de um coração
que me toma por um anjo,
nem pergunta se eu desejo
a sua afeição.


Lili & o Americano, 1970, JP Simões

Não ficou nada




“We´ll always have Paris” traduz uma mesquinhez e um apoucamento de espírito que podem servir a sonsa da Ilse mas que, no que me diz respeito, parecem-me especialmente desprezíveis.
Além disso, não nos lembrámos de ir a Paris ou a qualquer outro lugar suficientemente pretensioso para encher, sequer, meio cliché.
Assassinámos os lugares comuns.
Nós não teremos nada. Para sempre.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Uma aventura na planície

Incapaz de resolver sozinha o mistério do faroleiro e das coisas que, nesta terra, nunca são o que parecem e com os dias a esgotarem-se, decidi chamar reforços.
Foi então que Medusa chegou à casa na pradaria...

outros caleidoscópios

domingo, 17 de julho de 2011

sexta-feira, 15 de julho de 2011

uma casa na pradaria

- Já experimentou varrer as formigas antes de as tentar matar com biokill?
- Já. Mas a história está cheia de condenados ao exílio que regressam e arranjam problemas. A pena de morte é mais eficaz.
- Não devia dizer esse tipo de coisas…
- Ainda estamos a falar de formigas, não estamos?
- Sou um homem do campo. Não gosto de ver matar bichos. Especialmente aqueles que são resistentes, organizados e lutadores.
- Pois, pois. E que se infiltram dentro da casa das pessoas sem ninguém os chamar…
- Não se arme em santa. Se aqui apareceram é porque fez qualquer coisa para as atrair.
- Eu? Estava aqui sentada quietinha a ler o meu livro quando você apareceu montado no seu cavalo.
- Já não estamos a falar de formigas, pois não?
- Ainda por cima cheira a cavalo.
- Tendo em conta que vim de cavalo, se cheirasse a cão é que seria um fenómeno.

crucificadíssima

Das despedidas (mais uma outra vez)

Não há tarefa que a prática não aperfeiçoe.
Desta vez, não me acantonei cobardemente no meu gabinete à espera que o edifício se esvaziasse para, finalmente, fazer uma deprimente marcha do adeus, durante a noite e sozinha, pelos corredores vazios de gente até à sala reduzida à sua real significância.
Também não lhes dei oportunidade de me encurralarem numa visita surpresa colectiva, apanhando-me entre dois telefonemas e um e-mail, dentro daquele espaço onde, por ser a minha área de segurança, mais facilmente me conseguem fazer deslizar para a proibidíssima exibição de emoções.
Fiz os exercícios respiratórios que me ensinaram, tranquei no rosto um plácido sorriso Gioncondiando e caminhei segura e decidida até aos lugares deles. Distribuí apertos de mão, agradecimentos pela infinita paciência, votos de um resto de vida cheio daquilo que lhes apeteça e a coisa correu-me tão bem que ainda consegui ameaçá-los com o meu regresso.
Depois, terminei como sempre me disseram que deveria ter começado.
Entrei na sala grande e, invertendo posições, sentei-me no lugar que destinam àqueles cujos destinos me entregam.
É um exercício perigoso e pouco recomendável a quem nasceu com a limitação da incapacidade de acreditar na milagrosa orientação divina.

Ao contrário do que dizem, só deve ser feito à saída.
Abandonei o edifício, em paz comigo própria e convencida que, apesar de tudo, este ano falhei menos.
Agora, que este povo já não é meu e o próximo ainda não me conhece, estou pronta para me estender na praia à sombra da tranquilidade de ser apenas uma mulher.

passagem de ano

Há pessoas para quem, à semelhança do que acontece com as crianças, o ano termina no início das férias grandes.
O nosso ano termina hoje.
À Estrelita e à Medusa para que às zero horas iniciem o melhor de todos os anos.

XBAG





parto carregada. de todas as pessoas bonitas que me aconteceram aqui.



quinta-feira, 14 de julho de 2011

O tal do toque de Midas mas ao contrário

Ninguém erra tanto. Há os limites da capacidade de dissimulação. Uma pessoa percebe estas coisas. Nem sequer existem crápulas a pontapé.
A história da minha vida é uma impossibilidade estatística.
Só aceito uma explicação:
Eles eram todos excelentes pessoas até que nas suas vidas lhes aconteci eu.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

party hard

batalhas



i hope you have a good life


esperei-te todos os dias, todo o santo dia. mesmo quando não estive só.


em todo o lugar onde procurei paz sentaste-te ao meu lado. a sorrir e a pedir para nos rirmos. e o meu sorriso de volta era tão dolorido que chegou a secar todo um largo repleto de jacarandás.



recorre o sonho de uma viagem numa estrada ladeada de verde e a cheirar ao mar que brilha em prata, ao longe. mas não tem fim porque nunca chego à praia. é, pois, um pesadelo.



sei que vou viver o resto desta vida com o teu nó na minha garganta.

e sim. perdi a capacidade de escrever coisas bonitas.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

sábado, 9 de julho de 2011

dos regressos

Pensei que poderia viver sem Puccini e ofereci-o. Descobri que estava enganada e readquiri-o. Quando se oferece uma coisa que nos pertence, comprar outra igual para a substituir é de uma batota imperdoável. Mas em minha defesa devo invocar que ainda não conheci integridade moral que sobreviva a uma necessidade fundamental.


Hoje perdi-me na planície, ao som de Puccini no carro, com a cabeça vazia, os pés sujos de areia e seis livros novos à minha espera dentro de casa.


Afinal, a felicidade compra-se na FNAC.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

regalo


corri toda a Baixa à procura de um presente.


acabei por fazer, eu própria, este fraco origami.



depois percebi que o que realmente gostaria de lhe oferecer era o intervalo entre os dias.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Do tão pouco que ainda interessa




De qualquer forma, ambos sabíamos, sempre soubemos, que ser-me-ia impossível passar todas as noites da minha vida com um homem que não me lesse poemas.

maldições



quando se é um sanatório assombrado é compreensível que fujam de nós. é da ordem natural das coisas.



mesmo quando alberguemos uma alma penada adorável e fácil de mimar.



mesmo que guardemos a esperança e a ilusão num sorriso franco: apesar da redoma partida e depois de se ter descoberto que, afinal, o unicórnio não passava de um cavalo caiado e torturado pelo elástico que lhe segurava na testa um chifre de cartão canelado.

why don't you just go f***ck yourself...?

domingo, 3 de julho de 2011

viuvez aracnídea



sei que nem te importas mais mas... só tu.


só tu colocaste tudo em perspectiva.

Miúdas com muito estilo: Hera

Aristophanes

Animais da planície

O meu senhorio, israelita da Mossad, rapaz com peito para suportar o meu nome inteiro tatuado em times new roman, voltou de Espanha e enviou-me uma SMS.
Quando a abri foi o cheiro da planície que se espalhou por esta sala de cidade, fazendo-a logo parecer mais pequena, mais insonsa, mais formal.
Dizia assim, a SMS:
Temos saudades das suas manias e estamos aborrecidos por não haver mais ninguém com quem gozar. Volte logo.



Ia responder com uma prelecção sobre o respeito que me é devido e a inconveniência das gracinhas tolas.



Mas antes que tivesse tempo de acabar a primeira palavra, já memória da planície tinha dominado o meu cérebro como uma droga de acção rápida.



Carreguei no delete, larguei o telemóvel e fui fazer as malas.



Amanhã volto para a também já minha terra.



...

Apenas um punhado de areia na ampulheta...
...Já de menos para o tanto que ainda faltava acontecer.

sábado, 2 de julho de 2011

Guerras que mais valia ter perdido

O amor é tão exasperantemente aborrecido que até nos contornos do desgosto não consegue oferecer mais nem melhor do que aquilo que já se viveu.
No fundo, é como se o desgosto de amor fosse coisa de que só é possível sofrer uma única vez. Depois do primeiro, todos os outros parecem cómicas réplicas do mesmo sismo.
Há qualquer coisa de hilariante em ver a terra abanar, ter o instintivo medo de que as estruturas se danifiquem e, pelo meio, tomar consciência que já não há nenhuma estrutura para ruir.


Nas réplicas, até a dor tem o entediante gosto da comida requentada.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

cat power: !


would you let me walk down your street
naked if I want to?
can I fire fireworks on the fourth of every single July?
can I buy an amplifier, oh, on time?
my sweet time

well I ain't got no money
i will pay this time
and I ain't got no money
but I will pay you before I die

and would you let me walk down your street
naked if I want to?
can I fire fireworks on the fourth of every single July?
can I buy an aeroplane while i'm high in all the sky?
and I got no mercy
i will pay this time
and I got no mercy
i will pay you before I die

domingo, 26 de junho de 2011

voltamos àquela mania do domingo como dia de elevação espiritual

Ensaio Sobre a Lucidez

“Quando nascemos, quando entramos neste mundo, é como se firmássemos um pacto para toda a vida, mas pode acontecer que um dia tenhamos que nos perguntar Quem assinou isto por mim (…)”


Graças ao Expresso, caiu-me no colo o Ensaio Sobre a Lucidez, de José Saramago, que, de outra forma, embora sem nenhuma razão especial, dificilmente me lembraria de comprar.
Sobre este livro, publicado em 2004, e a propósito da poderosa caricatura das instituições democráticas, Saramago terá dito que só não provocaria polémica se a sociedade estivesse adormecida. Já na altura, pior do que adormecida, estava embrenhada no actual transe hipnótico. O livro não provocou polémica. E foi pena.

disarm



chegou e ela já tinha a armadura completa. espada embainhada. e inteira reluzia, sentada ao espelho.

ele sorriu, franco. ela não disse nada. mas pediu com olhos que ele lhe escovasse o cabelo. tirou o elmo. devagar. e deixou que ele o fizesse como quis. porque ela só queria fechar os olhos e esquecer por um pouco as tantas feridas que em cicatrizes não se transformavam, sempre em chagas permanentes, que nunca saravam e voltavam a sangrar vezes demais. estava exausta de as lavar em alfazema. de as untar com mel. de as esconder nas tiras de linho. exausta de lhe doerem constantemente debaixo das placas de ferro. e estas: cada vez mais pesadas.

com o deslizar da escova, entre dois arrepios de gozo, pensou se valeria assim tanto a pena viver couraçada para proteger um coração tão rasgado. se o exibisse entre os trapos de uma mortalha de mendigo nem iam dar por ele, tal o seu estado. pelo que entre o andrajo e o peso do ferro, imaginou a sua vida dentro do primeiro. e teve uns segundos de pura alegria.

sábado, 25 de junho de 2011

lisa ekdahl - l'aurore


À l'aurore, quand le ciel est cousu d'or
Doucement, je me rendors, je veux encore rêver de toi
Rêver que c'est l'aurore, d'un amour qui vient d'éclore.
Les feux multicolores de l'aurore me font rêver de toi.

Le ciel flamboie et c'est le ciel qui t'envoie jusqu'à moi
Car l'aurore, chaque jour, m'apporte un trésor.
Les feux multicolores de l'aurore me font rêver de toi.

Car l'aurore, chaque jour, m'apporte un trésor.
Les feux multicolores de l'aurore me font rêver de toi.
Et j'aime rêver de toi.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Eis que no destino de Cuca e Estrelita se desenha mais uma viagem

Desta vez não vamos pedir contas a Perseu dos seus desaguisados com a nossa amiga Medusa.

Vamos desvendar os mistérios da caça ao cachalote.

... durante looongos três meses.

Raptaram os velhos da praça




Regressei ontem a esta terra após dez dias de angustiada ausência.
Privada da planície, sofri uma ressaca tão violenta como a da abstinência de cafeína. Na falta da linha do horizonte ao alcance de um piscar de olhos fui dominada pela estranha sensação de que o mundo inteiro encolheu. Não me sentia assim desde a última vez que fiz uma viagem de onze horas num daqueles aviões concebidos para passageiros sem pernas.
Pus-me ao caminho antes de anoitecer com o duplo objectivo de evitar o massacre de mais lebres na estrada e de ainda chegar a tempo de um jogo da poker com os velhos da praça. Os últimos dias na cidade abalaram o meu orçamento mensal e planeei constituir um fundo para ir aos saldos com dinheiro extorquido à reforma dos velhos. O pequeno pormenor de não ter jeito para o jogo resolver-se-ia com o facto de ser eu a ensinar-lhes as regras.
Mas, pela primeira vez, os velhos da praça não estavam no seu lugar.
Ainda pensei que se tivessem debandado para um qualquer bailarico clandestino na sede da “associação cultural”. Fui lá ver e nada. Esperei pelo final da hora do jantar. Nada na mesma. Tentei atraí-los com a invencível fórmula janelas abertas mais Puccini a tocar dentro de casa. Outra vez, nada de velhos.
Com o programa da noite arruinado por falta de comparência dos artistas principais, deu-me para ir vigiar as actividades do faroleiro. Voltei para casa frustrada depois de confirmar que a luz continua a demorar 63 segundos a dar uma volta completa e que o faroleiro continua a não se deixar ver. Entretanto, alguém me explicou que aquilo é tudo orientado por computador e que o Faroleiro, se calhar, com a crise, já nem sequer existe.
Achei que o desaparecimento dos velhos cabia no conceito de "problema com suficiente densidade para justificar um telefonema ao meu senhorio". Atendeu-me uma espanhola a dizer que o telefone estava desligado.
Adormeci amuada mas acordei reconciliada com a desfeita. Ensaiei o meu melhor sorriso para o oferecer aos olhares impávidos que fixam as minhas janelas quando, todas as manhãs, abro as portadas e os encontro nos seus postos a vigiar a minha vida.
Deparei-me com uma praça novamente vazia.
Fui pedir satisfações à falsa dona da papelaria de fachada que me informou que os velhos foram, ontem ao amanhecer, recolhidos por um daqueles autocarros de cinquenta lugares. Ela ainda tentou convencer-me que foram em excursão ao centro comercial Vasco da Gama. Mas isto é a terra em que nada é o que parece e eu sou aquela que não acredita em ninguém.
Desconfiada que o meu senhorio os levou para um campo de treino da Mossad, algures do outro lado da fronteira, telefonei para a GNR para reportar o desaparecimento de uma povoação inteira.
Infelizmente, os GNRs tinham ar de quem não se deixaria enganar no poker e, com isto tudo, amanhã não tenho dinheiro para ir gastar nos saldos.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Lost in Translation

Vivi uma crise de jet lag num Japão incompreensível contigo a fazer de Bill Murray e eu a orientar-me por uma swotização escrita em Braille.
Ao fundo, alguém traduzia para linguagem gestual os balidos dos cordeiros. Os do sacrifício, claro.
Não foi uma experiência nada parecida com a confecção de bolos.

domingo, 19 de junho de 2011

i hope you enjoy it, now that i've switched into self-destruct mode



don´t burn it

"O fumo contém benzeno, nitrosaminas, formaldeído e cianeto de hidrogénio"...
... E, ainda assim, o amor parece-me muito mais perigoso.



A vã esperança de uma criatura

Talvez exista mesmo um guião secreto onde alguém se deu ao trabalho de escrever tudo.
E nem todos os estranhos destinos serão fabulosos.
Talvez ao criar a minha personagem o escritor tenha decidido que farei, sozinha, todas as coisas importantes. Até aquelas, sobretudo aquelas, que em princípio seria impossível fazer sozinha.
Se assim for, só me resta esperar que, pelo menos, o estilo literário não seja o realismo mágico.

Quadro de Magritte

quarta-feira, 15 de junho de 2011

alquimia




qualquer antídoto compõe-se do veneno ele próprio.
fui buscar um frasco cheio. se não me curar é porque a Panacea me enganou.

terça-feira, 14 de junho de 2011

come back and haunt me

come up to meet ya, tell you I'm sorry
you don't know how lovely you are
i had to find you, tell you I need ya
and tell you I set you apart
tell me your secrets, and nurse me your questions
oh let's go back to the start
running in circles, coming in tails
heads on a science apart

nobody said it was easy
it's such a shame for us to part
nobody said it was easy
no one ever said it would be this hard
oh take me back to the start

i was just guessing at numbers and figures
pulling the puzzles apart.
questions of science, science and progress
don't speak as loud as my heart.
tell me you love me, and come back and haunt me,
oh, when I rush to the start
running in circles, chasing tails
coming back as we are.

nobody said it was easy
it's such a shame for us to part
nobody said it was easy.
no one ever said it would be so hard
i'm going back to the start.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

para a K.





quisera eu proteger-te de todas as fúrias, dos desgostos. arredondar-te as dificuldades.
ensolarar-te os dias mais negros de chuva no teu coração.
afastar os demónios. travar as tuas batalhas. levar em cheio no peito as balas a ti destinadas.

mas espero, antes, saber ensinar-te a amar a tua vida como eu amo a minha. e ensinar-te a olhar para trás e ver as pedras onde tropeçaste, as que te atiraram, as que engoliste e deitaste fora e as que carregas, todas sem excepção, a brilhar com a força de um luar no campo.

quadras de santo antónio

Em guerra contra Eros cerro os dentes
Sem tempo para menores delinquentes
Quando conseguir eliminar o cabecilha
logo me ocupo do resto da quadrilha.

senhores equilibristas

Nas grandes horas em que a insónia avulta
Como um novo universo doloroso,
E a mente é clara com um ser que insulta
O uso confuso com que o dia é ocioso,
Cismo, embebido em sombras de repouso
Onde habitam fantasmas e a alma é oculta,
Em quanto errei e quanto ou dor ou gozo
Me farão nada, como frase estulta.
Cismo, cheio de nada, e a noite é tudo.
Meu coração, que fala estando mudo,
Repete seu monótono torpor
Na sombra, no delírio da clareza,
E não há Deus, nem ser, nem Natureza
E a própria mágoa melhor fora dor.


Fernando Pessoa

Anorexia sentimental

Disseram-me que sofro de anorexia sentimental.
Mesmo sem saber o que isso é, pessoalmente, arriscaria antes na bulimia...

Pão-de-ló



És um cacto, c.
Comem-te os burros!

sem emenda. nem remendo.

o sonho é a pior das cocaínas, porque é a mais natural de todas. assim se insinua nos hábitos com a facilidade que uma das outras não tem, se prova sem se querer, como um veneno dado. não dói, não descora, não abate – mas a alma que dele usa fica incurável, porque não há maneira de se separar do seu veneno, que é ela mesma.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

la nuit

na rua, começam a deixar de passar as pessoas com os cães.

de regresso a casa. pelos caminhos ondulantes de uma bebida fresca.
sem sapatos. no sofá.
janela aberta.
na cabeça, tanta coisa floreada. riem juntos.

num discurso de gargalhadas tentou explicar que estudou a sequência dos semáforos do Largo durante três quartos de hora. no fim da tarde de ontem. enquanto lanchou na pastelaria de esquina. determinou o momento de funcionamento das luzes em que há mais trânsito a entrecruzar-se sob as sombras dos jacarandás.

silêncio. e de novo riso, tanto riso que ele quase não conseguiu dar um nó nas meias de ligas. fez delas uma venda sobre os olhos dela. "para que é que queres isto, querida?"

é daquelas noites em que nem tentou pentear o cabelo. e vestiu um vestido verde.
vai, descalça, brincar à roleta russa para o meio do cruzamento.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

terça-feira, 7 de junho de 2011

Disney Channel



Nesta terra, desenvolvi um reflexo condicionado. Sempre que tenho um problema, pego no telemóvel e marco o número do meu senhorio. Por problema entenda-se tanto o quadro da luz desligado, como não conseguir abrir a tampa de um frasco, afastar a osga da entrada da sala ou, mais raro mas já ocorrido, ficar trancada dentro de casa.
Ele também desenvolveu um reflexo condicionado. Sempre que recebe um telefonema meu aparece-me à porta ainda antes de eu ter desligado o telefone. Em tronco nu. Já era assim em Março e a tendência não melhorou com a chegada da primavera. Atribuo a prontidão à convicção crescente de que ele habita o buraco da salamandra que não existe. Para o facto de estar sempre semi nu ainda não desenvolvi nenhuma explicação esotérica.
Pouco confiante da minha capacidade de associação mental, hoje cometeu a falta de subtileza de me aparecer a cavalo.
Encarei a ousadia como uma ofensa pessoal à minha inteligência e fiquei amuada.
Os velhos da praça fingiram não reagir à aparição do cavaleiro mas bem os vi trocar risinhos trocistas enquanto dobravam as apostas na mesa de madeira.
- diga lá, o que foi desta vez?
- er… tenho o fecho do vestido encravado.
- você andou outra vez a ver telenovelas mexicanas?
- sempre é melhor que tentar imitar heróis da Disney…
- acho que isto representa uma revolta do seu inconsciente contra a racionalidade compulsiva na gestão dos afectos.
- oh, também andou a ler Freud?
- não. Dormi com algumas gajas snobs de Lisboa.

drive all night. in a 4 door maverick.



the rain disregards any agenda under the stars.
the stars are still too far to get you out or by and far.
the rain and the cracklin' light throwing thick thunder and showing off the night.
get it going.
get it gone.
when the lightning can't touch you and you can't go wrong...
in a 4 door maverick.
the roads out here are twice as wide.
when it rains it pours then we slide...
in a 4 door maverick.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

na bagunça, meu sangue errou de veia. e se perdeu.



ah, se já perdemos a noção da hora
se juntos já jogamos tudo fora
me conta agora como hei de partir
se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
rompi com o mundo, queimei meus navios
me diz pra onde é que inda posso ir
se nós, nas travessuras das noites eternas
já confundimos tanto as nossas pernas
diz com que pernas eu devo seguir
se entornaste a nossa sorte pelo chão
se na bagunça do teu coração
meu sangue errou de veia e se perdeu
como, se na desordem do armário embutido
meu paletó enlaça o teu vestido
e o meu sapato inda pisa no teu
como, se nos amamos feito dois pagãos
teus seios inda estão nas minhas mãos
me explica com que cara eu vou sair
não, acho que estás te fazendo de tonta
te dei meus olhos pra tomares conta
agora conta como hei de partir.

domingo, 5 de junho de 2011

a bipolarização do processo de escolha

Se há gesto que eu aprendi a fazer na perfeição, é o de enfiar a cabeça na areia.
Coerentemente com a minha nova natureza, acordei do dia de reflexão com apenas duas dúvidas:
Factor de protecção 20 ou 30?
Carvalhal ou Zambujeira do Mar?

a alegria da democracia




agora já voto na academia (mesa 6).


tarde de eleições em cidades pequenas. incomparável.
e se pudessem os votantes atirar tartes de chantilly à cara dos caciques...





sábado, 4 de junho de 2011

o cliché da morte

Por um minuto o nosso passado caiu dentro do buraco que se abriu quando o alcatrão da estrada se desfez à minha volta.
Por um inteiro minuto consegui esquecer a imagem do holocausto e do teu olhar plácido pousado nela.
Calou-se o som terrível do bater da porta atrás das minhas costas. Esvaiu-se da boca o sabor a deserto. Dissolveu-se a areia da boca.
Durante sessenta segundos vivi a idílica experiência do perdão.
Tempo suficiente para sentir como é branco o espaço que ocupa o contínuo esforço da tua neutralização.
Mas depois disseram-me que, afinal, não estavas morto.
A estrada recompôs-se no meu campo de visão.
E no segundo seguinte voltei a ser a tua viúva.

Chamaeleonidae



Mas a sós com o espelho, o que é que fica?


para o M. que me fez estar em casa fora de casa. para a M. que não quer me ver partir.

- tens a certeza que queres ir jantar comigo? só comigo?
+ sim.
- hum… é que já não estamos juntas há algum tempo.
+ pois não. de ti não aceito cobranças nem ofereço nada em penhor, tem paciência. mas é hoje e vamos a pé. vens ajudar-me a despedir-me.
- ah, já percebeste… então.
+ já.

+ é cómico quererem colocar um prato à tua frente.
- pois é. deixa estar, não contraries. e então…?
+ tem sido difícil. muito. tu sabes.
- sei. tenho estado calada à espera que a moeda se gaste e o brinquedo pare de dar voltas. tu, que até enjoas.
+ e como!
- e como… não podes com nada que gire e eras a criança que nos passeios da escola tinha que ir nos bancos da frente do autocarro, ao pé dos professores... ai. não acredito que vais pedir gnocchi.
+ ela fazia-os tão bem.
- por isso mesmo!
+ estou com saudades…
- vai te calhar mal…
+ és uma desconfiada. preciso que me ajudes a superar os truques.
- que truques?
+ no passeio de volta vou tos apontar.
- ah já sei… os antiquários da D. Pedro V, aquela colina esparramada à frente de S. Pedro de Alcântara.
+ sabes, ainda não sei a quem vou deixar a minha colecção de calçadas. talvez à M.



















+ à vinda para cá descobri que da Rua Maestro Pedro de Freitas Branco vê-se a cúpula iluminada da Estrela...
- deixa-te disso.
+ já deixei, querida. já deixei.
- essas exuberâncias cansam tanto como a praia. cheira-me a fim de Agosto.
+ a mim também, não penses que endoideci.
- sei que não. sei que estás aí dentro. algures…
+ não sejas idiota. não havia outra forma de suportar isto senão distraída. com borboletas. mercados de flores. quiosques de limonada. colecção de céus e de raios de sol. mas sempre de bússola no bolso.
- …











+ por isso deixei de lhes falar. a todos. já tinha os meus de casa a boicotarem-me com as humidades do amor saudoso e sofrido pelo meu desterro. e o M. que não se cansa de mim. eu que me fui tornando cada vez mais espaçosa lá em casa…
- ninguém levou a mal.
+ não sei. isso ainda vou ver. falta pouco e por isso é que ainda menos posso falar-lhes. ou é a sabotagem do final, que se quer pacífico. já não tenho forças.
- estão todos à espera. sossega.
+ receio. dizes-lhes que logo que recupere as 240 horas de sono que tenho em atraso…
- está caladinha que isso nem parece teu. daqui a nada vais começar…
+ a cidade encheu-se de sardinhas decoradas… tenho que levar uma.
- daqui a nada estás é a dizer que gostas de festas populares na rua, poupa-me! queria ver-te nessa alegria romântica no S. João do Rio Largo a levar uma navalhada!
+ é tudo no plano que só plana, menina. não pousa. bem sabes que não bisei sequer o S. João do Porto…



+ tenho sete pedras de gelo, redondas, na groselha. formam uma flor a boiar, repara!
- só tu... ninguém te conhece... a vocês, que somos duas!
+ pois somos. e gosto tanto de estar connosco.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Alone With Everybody

Alone With Everybody


the flesh covers the bone
and they put a mind
in there and
sometimes a soul,
and the women break
vases against the walls
and the men drink too
much
and nobody finds the one
but keep
looking crawling in and out
of beds.
flesh covers
the bone and the
flesh searches
for more than
flesh.

there's no chance
at all:
we are all trapped
by a singular
fate.

nobody ever finds
the one.

the city dumps fill
the junkyards fill
the madhouses fill
the hospitals fill
the graveyards fill
nothing else fills.

Anonymous submission

Charles Bukowski

domingo, 29 de maio de 2011

Um resto de tudo



No fundo das caixas há a decadência. Uma casa sem alma não parece mais vazia quando as nossas coisas saem pela janela. Parece apenas maior. Mais limpa. Limpa de nós. E se temos vontade de ficar dentro dela, a respirá-la, assim vazia, devemos concluir que fizemos tudo mal.
Os caixotes que não abrimos durante inteiros doze meses não nos pertencem. Merecem que os deixemos partir. Reciclar é melhor que congelar. Porque o gelo queima e a reciclagem purifica. Mesmo que não consigamos resistir à tentação de os abrir, já à distância de meio metro do papelão onde incineraremos os ossos da nossa vida. Mesmo que ao abri-los nos caiam aos pés álbuns de fotografias. Sobretudo se essa celulose estiver impregnada do nosso sorriso feliz. Sobretudo se for um sorriso que já não conseguiremos imitar.
É preciso livrar-nos dos restos. Neles estão os rastos. Aqueles que nos habituamos a seguir quando estamos demasiado perdidos para nos conseguirmos lembrar de quem somos. É um exercício fraudulento. Os rastos deixados pelos restos apenas nos conduzem à falsa memória do que fomos. Por vezes, a verdade do que se é está numa casa vazia.
Ou nas mãos penduradas no nada junto ao portão de saída.
Nessas vezes, claro, temos que concluir que fizemos tudo mal.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

segunda-feira, 23 de maio de 2011

planar

domingo, 22 de maio de 2011

AlmaNaque ::: o ultraje dos jacarandás


"oh por favor, toda a gente sabe que quando repetidamente a agulha corre do início ao fim do disco, sem emitir um único som, tens que a trocar. ou esquecer aquelas faixas. de vez!"

*

ja-ca-ran-dá
[do tupi yakara'nda]
s. m.
1. bot.; nome de várias plantas da família das bignoniáceas e das leguminosas.
2. bot.; árvore (jacaranda mimosaefolia) da família das bignoniáceas, originária da Argentina e Bolívia, de porte médio e flores violáceas em forma de campânula.

são tangos que florescem em Maio.
enchem o Largo onde vivo.
inflamam os meus adeus de um arroxeado de crítica definição.
perturbam as minhas noites com o seu perfume amargoso que me tem empurrado para a beira-rio. em busca da aragem do mar.

*

ao espelho, na penumbra. não o partiu. a primeira vontade de o fazer escorreu e se perdeu pelas fendas que o desalento fez no chão de tábuas corridas.

saiu sentindo a necessidade de inexistir. inexistir completamente.

just trying to have a (happy) life















sobre a banda de sonora que escolheste para as nossas saudades em

http://starsmythicalcreatures.blogspot.com/2011/05/banda-sonora-escolhida.html

Esta semana, lá no meu trabalho (Quando a realidade supera a ficção)

- deixe-me ver se percebi: o senhor partiu a arma com um martelo e depois foi entregá-la aos pedaços à GNR.
- isso mesmo, fui.
- hum… e tinha a arma para quê?
- estava para lá. Tinha sido do meu avô e depois do meu pai.
- e não sabe que ter armas sem licença é crime?
- sei, sei. Mas estava para lá.
- e porque é que se lembrou de a partir com um martelo, já agora?
- para evitar dar um tiro na minha mulher...
- er… hum...
- ...e mesmo assim fui entregá-la partida. Sabe porquê?
- nem imagino.
- porque a minha vontade de lhe dar um tiro era tanta que aquilo era capaz de voltar a colar-se tudo só com a força da minha cabeça.

O amor é fútil



Os sentimentos justificam-se pelos detalhes, pelas insignificâncias, por aquilo que é absolutamente acessório e não interessa nada.
Ocorreu-me isso quando hoje olhei para os meus pés sujos de areia e senti saudades de sentir aquilo que sentia quando ele me lavava os meus pés sujos de areia.