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domingo, 3 de julho de 2011

Animais da planície

O meu senhorio, israelita da Mossad, rapaz com peito para suportar o meu nome inteiro tatuado em times new roman, voltou de Espanha e enviou-me uma SMS.
Quando a abri foi o cheiro da planície que se espalhou por esta sala de cidade, fazendo-a logo parecer mais pequena, mais insonsa, mais formal.
Dizia assim, a SMS:
Temos saudades das suas manias e estamos aborrecidos por não haver mais ninguém com quem gozar. Volte logo.



Ia responder com uma prelecção sobre o respeito que me é devido e a inconveniência das gracinhas tolas.



Mas antes que tivesse tempo de acabar a primeira palavra, já memória da planície tinha dominado o meu cérebro como uma droga de acção rápida.



Carreguei no delete, larguei o telemóvel e fui fazer as malas.



Amanhã volto para a também já minha terra.



terça-feira, 7 de junho de 2011

Disney Channel



Nesta terra, desenvolvi um reflexo condicionado. Sempre que tenho um problema, pego no telemóvel e marco o número do meu senhorio. Por problema entenda-se tanto o quadro da luz desligado, como não conseguir abrir a tampa de um frasco, afastar a osga da entrada da sala ou, mais raro mas já ocorrido, ficar trancada dentro de casa.
Ele também desenvolveu um reflexo condicionado. Sempre que recebe um telefonema meu aparece-me à porta ainda antes de eu ter desligado o telefone. Em tronco nu. Já era assim em Março e a tendência não melhorou com a chegada da primavera. Atribuo a prontidão à convicção crescente de que ele habita o buraco da salamandra que não existe. Para o facto de estar sempre semi nu ainda não desenvolvi nenhuma explicação esotérica.
Pouco confiante da minha capacidade de associação mental, hoje cometeu a falta de subtileza de me aparecer a cavalo.
Encarei a ousadia como uma ofensa pessoal à minha inteligência e fiquei amuada.
Os velhos da praça fingiram não reagir à aparição do cavaleiro mas bem os vi trocar risinhos trocistas enquanto dobravam as apostas na mesa de madeira.
- diga lá, o que foi desta vez?
- er… tenho o fecho do vestido encravado.
- você andou outra vez a ver telenovelas mexicanas?
- sempre é melhor que tentar imitar heróis da Disney…
- acho que isto representa uma revolta do seu inconsciente contra a racionalidade compulsiva na gestão dos afectos.
- oh, também andou a ler Freud?
- não. Dormi com algumas gajas snobs de Lisboa.