domingo, 7 de fevereiro de 2016

Andhriminir

Não é pouca a inveja que me despertam as loas que uma parte da blogosfera, nos últimos dias, tem tecido às almas que lhe cuidam da alimentação do corpo. 
A mim calhou-me em má sorte, Andrhiminir, o cozinheiro Pirata, sádico Viking de nome impronunciável e irrepetível na sua forma.
Andrhiminir foi a mais trágica contratação deste navio. Bem sei que deveria ter previsto a situação quando entre monossilábicos humrrfff me fez saber que estava interessado no emprego pela oportunidade de torturar pessoas. Mas a verdade é que os seus dois metros de selvagem e o facto de se fazer acompanhar por um omnipresente arpão daqueles de caçar baleias, fizeram-me lembrar o Queequeg, da Moby Dick de Melville, e pensei que se o louco capitão Ahab teve o seu selvagem canibal, eu bem poderia ter um sádico Viking. Ameniza a minha culpa a circunstância de o Viking ter falsificado os testes psicotécnicos, dando-os a fazer ao papagaio Polly que, apesar de igualmente estúpido, sempre tem alguma humanidade.
Andhriminir não cozinha os meus pratos preferidos; não me faz bolinhos; é indiferente ao meu estado de saúde; não se incomoda em decorar se o café é com ou sem açúcar e, não, nunca, absolutamente não e Deus me livre, entra no meu quarto para me despertar para o dia. 
O Viking mantém-nos a todos sob a chantagem dos seus humores, ora lá torrando um bife, ora servindo algas, ora apresentando um robalo cru grunhindo ser sushi, de acordo com um critério aleatório e imprevisível, em que as únicas constantes são o rancor e o humor psicopata. 
Apesar de já ter tentando de tudo para educá-lo, Andrhiminir é resiliente. Comprei-lhe uma Bimby, mandei vir os meus antigos livros de receitas da Vaqueiro, paguei-lhe um workshop de cozinha marítima, deixei-o, em desespero de causa, torturar um ou outro prisioneiro... A tudo isto respondeu com o mesmo amuo e a obstinada manutenção do status quo culinário da bizarria.
Mas o problema do cozinheiro não se fica pela cozinha. Nos seus tempos livres, que são aqueles que ele assim entende como tal, Andhriminir, dando mostras de odiar a companhia de todos menos a minha, entretém-se a torturar-me, plantando-se atrás de mim se estou a ler, ao meu lado se estou ao telefone e à minha frente se estou a andar, trespassando-me com aquele insistente olhar psicopata que, em conjunto com o arpão em que se apoia em jeito de bengala, povoa os meus mais tenebrosos pesadelos. 
Pese embora a péssima comida, o horrendo humor, os perdigotos que lança na minha direção, a mancha de ódio com que me cobre com o olhar, não me ocorreria desfazer-me do homem que me cuida da alimentação do corpo. Afinal, cada um tem os monstros que cria e eu convivo pacificamente com as leis do destino. O facto de ter a certeza que não hesitaria em usar o seu arpão contra mim se ousasse despedi-lo, naturalmente, não tem qualquer relação com este rasto de budismo de última hora. 

11 comentários:

  1. Foi um pesadelo ler isto, o cozinheiro que matou a minha vaca e ainda por cima estorricou os seus bifes...
    Agora que me faça também lembrar o quanto sou perseguida por um ser assim, diariamente, (mas sem arpão) já passa para o lado do aterrador. Ainda bem que me sentei.
    :)

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    1. Tenho, e não precisei de o inventar, realmente existe! :))

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    2. Achas que podíamos combinar deixar os nossos monstros brincar um com o outro? Assim só naquela de ver o que acontece? :)

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    3. Talvez seja boa ideia, Cuca. O meu matava o teu, ainda consegue ser pior, acorda-me todas as manhãs.:)
      Mas entretanto, eu...

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  2. gosto de pensar que podia ser pior...



    mas neste caso julgo que nã pode:)

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    1. Pode sim. Podia acordar-me todas as manhãs!

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    2. até me arrepiei...

      estou a imagina-lo com pantufas da ovelha choné e o arpão na mão, abrindo o pequeno estore que corre sobre a escotilha... murmura qualquer coisa como "bom dia" mas a mim pareceu-me "vou-te estrelar os olhos!"...

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    3. Tirando isso da ovelha choné, que não sei o que seja, é exatamente assim que aparece nos meus pesadelos ...

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  3. Uma criatura deveras arrepiante...:)
    Mas inveja, tenho eu, que nem alma caridosa, nem tão pouco monstruosa, para me assistir.

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    1. Ora Luísa... a auto-suficiência é uma benção! :))

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