domingo, 16 de julho de 2017

Fim de ano

Por aqui contamos os dias pelas férias grandes. 
O meu ano chegou ao fim. O balanço, que a cobardia me promete ser inútil, ficará por fazer. Os maus dias não enchem duas mãos e o mar já há muito os levou. Os bons são todos os outros. Na contabilidade dos dias, aqueles em que nada foi são igualmente dias ganhos.
O exílio físico terminou por decreto. Um final de tarde, quando estava na casa de banho, fui informada que Lisboa me aceitou de volta. Assim. Sem o abraço da poesia ou a proteção de um céu azul.
O outro exílio, o da alma, estará muito além de um carimbo no passaporte nas mãos dos burocratas.
Não faço juras de fidelidade a essa puta que é Lisboa. Pago-lhe, como sempre paguei, com a moeda que tenho na mão. 
O coração, ou o que dele resta, deixo-o penhorado ao sul. 
E desta vez não me despeço. Não saberia fazê-lo. 

10 comentários:

  1. Bem vinda à cidade da luz. A luz dos meus olhos.
    Boas águas te tragam, ó pirata!

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  2. Vai gostar disto. Temos escadas rolantes e tudo.

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    1. isso deve ser perigoso. Sou vou por causa daquela coisa do jantar dos bloggers. Para estar mais perto!

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  3. Escadarias, muita escadaria tem Lisboa e por muito delas já passei eu a caminho de lado nenhum nas corridas com que enfrento a madrugada. Fica sabendo que não faltam escadas para apagar pecados, diluir raivas, afogar desejos ou, pura e simplesmente, empurrar pensamentos. Se te aprouver, posso recomendar-te a escada certa para a altura errada, pois é fácil confundi-las e isso faz com que apenas gastes sola e suor.

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    1. E elevadores, não há?
      Assim um bom elevador onde diluir a raiva...

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  4. Não, Cuca, não vá!
    A metrópole sequestra o espírito do mais feroz e temível pirata!

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    1. Sequestrarei a metrópole antes que ela me veja.

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  5. Ó minha cara Cuca, existem três elevadores com terapêuticas diferentes para os mesmos males. O da Glória é enganoso, promete-nos a dita cuja enquanto começamos sem ver ao que vamos mas, após uma breve curva, mostra tudo o que há a pagar para a raiva apagar. Oferece a benesse de um bom grafitti no último terço.
    O da Bica deixa no ar um breve aroma de diversão nocturna do dia anterior, mas dado o seu traçado é mais para pagamentos rápidos e intensos, não tanto para raiva mais densa.
    Menos conhecido, o do Lavra é o meu favorito. Pagamentos intimistas, face a face com o elevador e, se chegados lá acima ainda tivermos ânsias de pagar, liga a uma escadaria paralela, para nos mostrar que há limites para além dos limites.

    Para todos eles recomendo um consumo ao raiar do dia ;)

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    1. Até o nome é perfeito. Lavra a raiva,
      Devias escrever um guia da cidade para ex-exilados.

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