quinta-feira, 1 de junho de 2017

Porteiros do Neverland

Não os amei por razão menos interesseira do que o acesso às chaves do Neverland. 
É um mundo de céus azuis, pássaros coloridos, borboletas sem lagarta, cascatas de água morna que terminam em arco-íris que terminam em potes de ouro guardados por duendes de chapéu verde com uma pena no topo. Um mundo sem estações através do qual se caminha voando e onde a noite nos é leve porque chega e parte enquanto dormimos nas ervas altas da planície. Não existem o ontem e o amanhã. Ninguém nasce e ninguém morre. Falamos todos uma língua única. Desconhecem-se a dor, a fome, o frio, a falta. Não possuímos coisas. Quando nos aborrecemos, mudamos para a outra margem do rio; fazemos de uma árvore a nossa casa ou escavamos um castelo na areia. É-nos indiferente outra música, outra poesia, outra beleza que não aquela que carregamos dentro de nós ou conseguimos aprender nas flores.
Os homens que amei eram porteiros e zeladores do Neverland. Amei-os pelas suas funções e ninguém em sã consciência pode censurar-me por isso.

7 comentários:

  1. um mundo intemporal cara Cuca.
    sublime, como sempre.

    estranhamente recordou-me
    https://youtu.be/3JZaB92qUnY

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    1. "no-one's born, no-one dies,
      no-one loves, so no-one cries
      and we wait to see just what we will become"

      A música é lindíssima.

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    2. https://img.buzzfeed.com/buzzfeed-static/static/2014-10/1/14/enhanced/webdr09/anigif_enhanced-14332-1412189749-12.gif

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    3. Lady Kina, temos de estabelecer o acordo de partilha...

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