sábado, 22 de outubro de 2016

O que importa é que nunca se nos acabe o jazz

Os deuses escolheram um dia feio, de cinzenta chuva e mediana temperatura para reencaixarem as rodas da vida na ferrugenta engrenagem do universo. 
A vida esteve parada e não foi por nenhuma daquelas razões que normalmente justificam a nossa vontade de suspender o tempo. 
Metade dos dias estou consciente da minha condição de habitante da caixa de música de deuses relapsos. Às vezes esquecem-se de lhe dar corda e o mecanismo deixa-me, inerte, dobrada sobre mim própria, a meio de um passo de dança inexequível. Na outra metade, o Olimpo é o meu jardim e a moeda que tenho na mão tem a exata dimensão da ranhura. É deixá-la cair e esperar que as notas se espalhem. 
Dentro ou fora da caixa o que importa é que nunca se nos acabe o jazz.
Os deuses, dizia, escolheram um dia feio para reencaixarem as rodas da vida na ferrugenta engrenagem do universo. 
Quando a máquina deu um solavanco e voltou a deslizar sobre os carris, o jazz foi-me devolvido e morreu bela a tarde que nasceu feia. 


8 comentários:

  1. Sim, o Jazz e a vontade de Dançar, num "deserto" que afinal não é impenetrável ou indiferente a aspectos diversos d'O Belo.

    Abraço, cara Cuca. O Deserto é um sítio agreste para uma Pirata.

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  2. O dia sobre nós, vale muito pouco se pensarmos o quanto são diferentes, os mesmos dias acima da cabeça de diferentes gentes, que vivem o mesmo dia da gente! O teu dia o meu dia, cinzento ou amarelo cor do sol...mas tão igual no final! Feliz!!

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    1. O nosso dia vale sempre mais do que os dos outros.
      :)

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