terça-feira, 21 de setembro de 2010

uma moeda


deixa-me dar só mais uma voltinha...

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Eros, o delinquente


A minha formação humanista tem-me impedido de condenar à morte esta criatura desordeira.
Cansada dos seus desacatos e convicta da sua incapacidade de ressocialização, optei por o remeter aos calabouços do esquecimento para que aí apodrecesse. Em silêncio e longe da minha vista. Antes, arranquei-lhe a lira.
Num daqueles momentos em que a distração nos permite a estupidez da benevolência, lá deixei que lhe devolvessem a lira para que se entretivesse no escuro.
Mas, mesmo no breu, o miúdo malévolo soube tocar a música certa para me convencer a autorizar-lhe uma saída precária.
O resultado, como seria expectável, foi um rasto de destruição, seguido das habituais queixas e vítimas de serviço.
O delinquente foi sumariamente devolvido aos calabouços.
Quanto a mim, observo os restos da lira que parti em três ao mesmo tempo que me questiono sobre os fundamentos da minha tal formação humanista.
(Escultura: Eros e Psique, de Antonio Canova)

will you miss me...?


yes. every single second.


domingo, 19 de setembro de 2010

Let´s dance com Rimsky Korsavoc

O Cilício - Mortificação Voluntária Com Vista à Penitência de Pecados

cilício (latim cilicium, -ii, tecido de pêlo!pelo de cabra)
s. m.
1. Cinto áspero ou eriçado que alguns católicos trazem sobre a pele para mortificação e penitência.
2. Fig. Tormento ou mortificação voluntários.
Confrontar: silício
.
In Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Tu, a falares da tua vida como se ainda fosse minha. Mortificação voluntária com vista à penitência de pecados. Eu, incapaz de me concentrar na tarefa de fingir que te ouço. Fragmentos de amnésia que se espalham pelo meu cérebro. Nesta dimensão: A breve imagem de uma mulher que se maquilha. Com a firmeza de quem se mascara. A mão a desenrolar delicadamente uma meia preta. Colada à perna. Um copo de vodka que cai no chão. O momento em que a campainha anunciou a tua chegada. Inesperada solidez de cristal. A antecipação do som da porta que se há-de fechar nas tuas costas. À saída. Dois risos infantis a desembrulhar o mesmo presente. O nosso infinito, perpétuo, constante, imutável, insaciável e doentio desejo. A aliança a tingir o meu dedo de negro.
E de repente e sem aviso, ser atingida por estilhaços de memórias. Noutra dimensão: Um aeroporto com sotaque espanhol. O abraço do gelo na consolidação do destroço. A tua inexpressiva tenacidade de assassino. Eu a bater de encontro à porta. Os grandes espelhos do elevador a devolverem-me uma expressão absolutamente vazia. O lugar do teu corpo na cama substituído pelo ódio. A violência da dor.
E depois, a insuportável memória a diluir-se na ária de Puccini.
Novamente a mesma mulher ao espelho. Vestindo-se para ser despida. Mortificação voluntária com vista à penitência de pecados. Os teus olhos pousados nos meus sapatos. Um corpo que se encontra no espaço da tua presença. A ganhar terreno à trela da dona. Uma mentirosa sensação de conforto. A tua voz a embalar a garantia de que os aeroportos não têm sotaque espanhol. De que o olhar vazio que vi no elevador não era meu. O movimento dos teus lábios aos quais tirei o som. As tuas mãos na minha garganta. Finalmente o silêncio. O nosso ground zero. Aquele instante em que a anestesia aplaca a dor.
Fragmentos de amnésias e estilhaços de memórias. Estilhaços de memórias e fragmentos de amnésias.

Descalço uns sapatos prateados que não estou certa que me pertençam. Asseguras-me que não os roubei. Foste tu quem os comprou para mim. Embrulhados em papel vegetal branco. Dentro de uma caixa de veludo preto. Pedes-me que te estenda um pé para que o voltes a calçar. Entrego-te uma perna na obediência da cadela que dá a pata ao dono.
Quando já não estiveres aqui serei capaz de me lembrar que, afinal, sempre me pertenceram. Mas também me lembrarei que já não me servem.

Fragmentos de amnésias e estilhaços de memórias.

sábado, 18 de setembro de 2010

Esta semana, lá no meu trabalho (Quando a realidade supera a ficção)


- Quer então dizer que o senhor nega que estas armas tenham sido encontradas na sua posse, dentro do seu carro?
- Eu nego! Não tinha armas nenhumas comigo!
- Está bem! E tem alguma ideia dos motivos pelos quais três agentes da PSP haveriam de decidir inventar isto tudo, pondo a carreira deles em risco? Conhece-os de algum lado? Têm alguma coisa contra si?
- Er...bem...eu não sei, pode ter sido invejas.
- Inveja de quê, já agora?
- Invejas, sei lá...de mim, do meu carro...
-Do seu carro?? Mas diz aqui no auto de notícia que o carro era um Opel Corsa!!!
- É! Mas está em bom estado...

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Ao telefone

- Podemos jantar amanhã?
- Não.
- porquê?
- Porque estou demasiado dorida para apertar o cilício.

Étude Tableau Op. 39 n.2


Rogaram-me que subisse para um simples mas musculado pedestal. E apresentaram-me o meu povo. Apeteceu-me deitar-lhes fogo, mas faltava-me a lira.

Começa o recital. A russa e os seus dez dedos. Na plateia, palhaços tristes, cyborgs, bombistas e gente que nunca tinha visto um piano de perto. E personagens que habitam os anéis de Saturno.

De um dos buracos da cantaria, espreita uma barata que me diz, baixinho, que nem tudo de Rachmaninov lhe bate bem. Encolhe os ombros e some para dentro de uma mala de marca. O chão começa a escorrer de geleia, daquela que se faz em casa. Pouco espessa e vermelha-transparente. Mais uma cor composta. Impossível. A gosma vai acumulando junto à parede das janelas gradeadas. No lugar da russa, eles os dois: ela muito pequenina deliciada com as teclas todas de uma vez, ele a pedir desculpas porque prefere um improviso.

Volta a russa. E o pirata que se espera na praia. Rasgado por todo, sorridente e com trovoada no peito. Não larga o cigarro. E um calendário que desfolha para frente e para trás, fazendo o ano acabar e estagnar de novo e acabar e estagnar de novo, no hoje.

A russa já quase não tem piano. A mim, continuam a lamber os olhos. Muitos deles. O meu corpo a perder gramas, num ritmo certo. Encosto-me cada vez mais aos ossos. E cada adorno que me penduram pesa-me como Júpiter e Urano. Gargantilhas das clavículas até à mandíbula. Anéis. Alianças. Escravas. Alfinetes. Colares de muitas voltas. Negando a gravidade, cada nova jóia aumenta a altura do pedestal.

Pedem-me para experimentar, com a língua, o sabor das nuvens.

A russa acaba. Uma vénia marcada, ridícula, à frente de um banco preto.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

VERMES



Não sei quem foi o autor da popular metáfora das borboletas no estômago.
Sei que foi n´”O Deus das Pequenas Coisas” de Arundhati Roy que li, pela primeira vez, a metaforização da angústia numa traça alojada no peito.
Juntando as duas, parece-me legítimo concluir que as borboletas do estado inicial da paixão tendem a deslocar-se do estômago para o peito e a transformar-se em traças. Onde abrem as asas e esticam as patas. E passam o seu tempo a estraçalhar.
Não tenho nada contra borboletas. Mas sempre detestei as traças.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Sheherazade

- Oh homenzinho – replicou a princesa – eu venho de muito longe e ficaria muito aborrecida se tivesse que voltar para casa sem ter dado execução ao meu intento. Vós falais-me das dificuldades e do perigo de perder a vida, mas não me dizeis quais são essas dificuldades e em que consiste esse perigo. É que eu desejava saber tudo isso para ver se posso ter confiança na minha resolução, na minha coragem e nas minhas forças, ou se não a devo ter.
Então o dervixe repetiu à princesa Parizade tudo aquilo que tinha dito aos príncipes Bahmane e Perviz.
(…)
Quando o dervixe acabou, a princesa replicou:
- Pelo que percebo da vossa fala, a grande dificuldade para ser bem sucedido neste caso é, primeiramente, a de subir à gaiola sem ter medo da algazarra das vozes que se ouvem sem ver ninguém, e, em segundo lugar, a de não olhar para trás. No que respeita a esta última condição, espero que serei suficientemente senhora de mim para a cumprir. Quanto à primeira, julgo que essas vozes, tal como mas descreveis, são capazes de apavorar os mais valentes; mas como em todos os empreendimentos de grande importância e perigosos, não é proibido usar de certa manha, peço-vos que me digais se, neste caso, me posso servir dela, o que é para mim de grande importância.
- E qual era essa manha que desejáveis usar? – perguntou o dervixe.
- Parece-me – respondeu a princesa – que tapando os ouvidos com algodão em rama, por muito fortes e medonhas que possam ser essas vozes, elas seriam ouvidas com muito menos intensidade; como também me fariam menos impressão, eu estaria em melhores condições para não perder o uso da razão.
(…)
A princesa Parizade, depois de ter agradecido ao dervixe e de se ter despedido dele, montou no cavalo, atirou a bola e seguiu-a pelo caminho de onde ela ia a rolar, até que por fim lá parou ao pé da montanha.
A princesa desmontou; tapou os ouvidos com algodão em rama; e, depois de ter estudado bem o caminho que devia seguir para chegar ao cimo da montanha, começou a subir com um passo muito certo e com grande intrepidez. Ouviu as vozes e apercebeu-se então de que o algodão lhe servia de muito. Quanto mais ela ia avançando mais as vozes se tornavam mais fortes e se multiplicavam, mas não a ponto de lhe causar uma impressão capaz de a perturbar. Ouviu vários insultos e uns gracejos picantes relacionados com o seu sexo, a que não ligou e de que até se riu.
“Não me ofendo nem com os vossos insultos, nem com a vossa chacota – disse ela para consigo – podeis dizer mesmo coisas piores, que eu não faço caso nenhum, e vós não me impedireis de seguir o meu caminho.”
Ela subiu até tão alto que por fim já via a gaiola e a ave, a qual, de combinação com as vozes, tratou de a intimidar, gritando-lhe com uma voz tonitroante, apesar da pequenez do seu corpo:
- Doida, afasta-te, não te aproximes!
A princesa, ainda mais animada com isso, sobrou as passadas. Quando se viu perto do final daquela caminhada, atingiu o cimo da montanha onde o terreno era plano; correu direita à gaiola, pôs-lhe a mão em cima e disse para a ave:
- Ave, já te apanhei, embora contra a tua vontade, e tu agora já não me escapas.
(...)
In “História das duas irmãs invejosas da mais nova”, As Mil e Uma Noites, Editorial Estampa, Volume 6.
Post Sriptum: Avisam-se os leitores, aliás ingratos e mudinhos leitores, que a autora deste post se deu ao trabalho de transcrever o texto. Por conseguinte, façam favor de o ler. Todo.

Obsessões interpretativas

Já passei horas dentro deste quadro e ainda não sei o que pensar dele.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Identificação Olfativa


Às vezes a vida prega-nos rasteiras tão inesperadas que a única forma de aliviar o estrondo da queda passa pela auto-recriação.
Ao contrário do que se possa pensar, não há nada de errado em recriar um sistema que substitua um outro que está obsoleto. Na natureza, os animais fazem-no continuamente sem que os David Attenborough da vida andem para aí a apontar-lhes o dedo, alegando que deveriam ter preferido morrer a criar asas. Ou a deixar de as ter.
Os processos de auto-recriação em pessoas relativamente determinadas são fáceis, rápidos e eficazes. Mas precisam de um bom perfume. Uma constante e discreta presença que as lembre que não são um mero avatar de si próprias.
E foi assim que o facto de se ter tornado impossível adquirir o meu perfume em Portugal se transformou numa tragédia existencial com contornos niilistas.
Há mais nostalgia naquele momento em que saí da água fria da piscina e reencontrei o meu cheiro na toalha de praia usada do que no último encontro com algumas das muitas pessoas que já perdi.
De onde sou forçada a concluir que, ao contrário do que acontece com as pessoas, os cheiros, pela intensa capacidade de entranhamento, podem tornar-se absolutamente insubstituíveis.

domingo, 12 de setembro de 2010

Programa do Aleixo - 'Lambada'

Whatever works

Procurar a felicidade fora do circuito clássico é mais um acto de desistência do que de coragem.
Aliás, nas histórias que conheço, o amor outsider foi, precisamente, o prémio que se obteve por se ter desistido.
Raramente funciona.
Infelizmente, há preconceitos que assentam num profundo lastro racional.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Desligaste o som às gaivotas porque te fazem lembrar o sítio onde não poderás voltar

Quiseste a tua vida asséptica e desinfectada. Traçaste-a, assim, com linhas geométricas minimalistas. Sem beirais para andorinhas. Avenidas largas para passagens rápidas. Inexistentes obstáculos a atrasarem-te na prisão de um detalhe.
A condizer, arquitectaste uma casa branca sem cheiros, sais, ou molduras com sorrisos de mortos ou moribundos.
Apenas o permanente silvo do silêncio nas paredes vazias. Cheias da amplitude da tua existência. Para que nunca toques em nada. Para que nunca nada toque em ti. Para que tu e a tua sombra não se ouçam mutuamente.

Não tinhas má intenção. Limitaste-te a fugir da confusão circular de uma medina marroquina onde, por engano, na náusea das especiarias, acabaste por vomitar a alma.

Tens a tua vida asséptica e desinfectada. Como a desenhaste. Podes vivê-la na cápsula de vácuo que é a tua casa.

Mas o deserto, visto de perto, nunca é assim tão perfeito.
E o vento frio da noite faz feridas nos lábios. Daquelas que infectam.

No Reset

Receitas caseiras de chá calmante. Imersão corporal em banheiras de espuma. Meditação budista de nível dois. Exercícios cerebrais de exaustão mental. Conversas imaginárias com todo o tipo de divindades crueis. Horas de televendas com máquinas infernais que nos esculpem o corpo enquanto comemos bolachas de manteiga. Teletransporte para uma dimensão virtual com homens de orelhas nos pés. Aumentar a escuridão. Sair do quarto. Copos de pé alto com qualquer coisa que embebede. Voltar para o quarto. Diminuir a escuridão. Gente na BBC a discutir a importância da diminuição do gado ovino num lugar que não tenho a certeza que exista. Calor. Frio. Temperatura irritantemente perfeita. Drogas médicas que prometem o milagre da libertação da racionalidade. Escolher um quadro dentro do qual me pareça possível adormecer.
Noite após noite, após noite, após noite, após noite.
E hoje, outra vez, ela vai estar á minha espera, sentada num canto do quarto com um sorriso demente…

O tupi de quem fizeram um apache

Os pés sempre sujos de terra vermelha. Não sabe dizer ao certo quantas tonalidades de verde conhece. Nem descrever o peso das gotas de chuva que por vezes cai em cortina.
O tamanho dos bichos. O açúcar da fruta.


Vestiram-lhe couro em franjas. Trocaram-lhe as penas coloridas por outras, só pretas nas pontas. Calçaram-no. Partiram-lhe o arco e todas as flechas que trazia consigo, estas em três.

Um dia, quis voltar. Mandioca. Feijãocomarroz. Uma vontade louca.
Os bichos não eram os mesmos. Teve calor e quis tirar a roupa. Mas não conseguia descalçar as alpargatas. Desconforto.

Voltou para o hotel ***** com vista para o céu. Tomou um banho longo. Definitivo.
Quando olhou o espelho, era cara-pálida. Para sempre.

The bathtub



your skin is smoother, underwater.



quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Em casa

E tu…? Tu, que dizes?
Eu? Digo que vivo contigo.



Um palhaço triste e uma bailarina velha.
Uma casa de jantar. Sombras de mogno que escorrem para o tecto.
Molduras de livros, de músicas, de pinturas. Aqueles, só capas. As outras, riscadas. Estas, sem vida.

Cheira a flores finadas pelos pés. A fruta passada. A linho guardado.

Loiça de salão. Prata de lei. Cristais checos.

Casca de ovo.

As fotografias. Cartazes de peças. Estiveram em cartaz por um momento só. O público, fiel, era sempre o mesmo. Agora, nem público.

Veludo alemão. Brocados. Tacos. Em espinha.
Luzes sem brilho. Pedras geladas.
Coisas que perderam o entusiasmo de tanto ouvir o vosso silêncio.