domingo, 20 de novembro de 2016

Até ao derradeiro segundo de vida

Havia um jardim de laranjeiras, morada permanente da primavera, estendido no cume de uma montanha, com vista para o deserto, a nascente, e para o mar, a poente. Foi lá que balouçámos as tardes até ao derradeiro segundo de vida do sol. 
Depois veio a noite e a sombra alta das árvores aprisionou-me os dias. 
Paguei a minha liberdade com o que de mais valioso trazia comigo: três versos de Herberto. 
Esses, que o vento haveria de semear pelo mundo existem, agora, na boca das crianças; na cauda das nuvens; no asfalto das pontes; na página impressa; na íris dos amantes. 
Esses, que me agrilhoam o pé à sombra de um jardim de laranjeiras.



6 comentários:

  1. num sonho certamente, abandonado de ar e fogo, sal de lágrimas derramado sobre um corpo de terra.
    mas volta a florir. o tempo é implacável, até sobre a memória.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O tempo é um pouco como deus, só existe para quem acredita nele.

      Eliminar
    2. ah, o Tempo, o grande carrasco, o único que lá estará, no fim de todas as coisas, na morte entrópica do universo.

      boa semana cara Pirata!

      Eliminar
    3. Devíamos revoltar-nos contra o tempo. Expulsá-lo do templo, abandoná-lo ao desprezo, esquecê-lo ...

      Eliminar