segunda-feira, 7 de julho de 2014

Cantigas de Escárnio e Maldizer

III.

Ele

Nunca foi amor, foi um equívoco. 
Num início de tarde tu foste embora e a montanha recuperou o silêncio. Mas o silêncio não voltou vestido do branco da quietude, tilintando os acordes do fundo da paz. Foi um silêncio opaco e pesado como uma surdez eterna. Um silêncio de interior de caixão soterrado.
Primeiro dei pela falta de todos os pássaros e vi ninhos caírem vazios no chão. Depois percebi que as noites aumentaram no tamanho e no rigor, sem um rasgo de lua a cortar o negrume. Esperei o nascer do sol no cimo da montanha, mas ele não veio iluminar o mar que amanheceu para sempre cinzento.
E então fui para o porto, à procura de um barco que me devolvesse uma partícula de elemento vivo. Mas os barcos encalharam no molhe e transformaram-se noutra montanha. De madeira e metal e plástico inútil.
Nunca foi amor, foi um equívoco.
Vagueei durante dias pelas areias da costa à procura de uma clave de sol início de um som de vida que quebrasse o silêncio. O mar vomitou búzios vazios, conchas carcomidas pelos anos e algas mortas. Nenhuma semi breve.
Tentei ler o teu rosto nas nuvens mas nem essas assumiram outra forma que não a neblina profunda onde se confundem o início e o fim das coisas.
Contei as noites pelos dedos e perdi-me no último dedo grande do pé. 
Numa madrugada, esqueci-me dos contornos do teu rosto e percebi a decomposição imagética do homicídio. Nesse dia, quando enterrei o meu corpo na areia para dormir, sonhei com um piano e compus nele uma música que ecoasse a minha miséria.
Na manhã seguinte acordei numa cama que me disseram ser a minha. Aninhei-me nela na posição fetal que conservo.
Recordo vagamente, como uma sombra lunar, aquilo que me ensinaram de ti.
Nunca foi amor foi um equívoco.



2 comentários:

  1. :')
    Se o verbo for Amar:
    "Para evitar um equívoco verbal: o que deve ser activamente destruído precisa antes ter sido sustentado com firmeza total; o que desmorona desmorona, mas não pode ser destruído."

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    1. Na literatura piratística exagera-me muito :)

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