quarta-feira, 27 de junho de 2018

No elevador

Inspecionámos mutuamente o interior dos olhos e tomámos o peso à alma uma da outra. À distância de vinte centímetros, sozinhas, fechadas num elevador, só por três segundos fomos duas mulheres que amaram o mesmo homem. Depois, fomos a superfície de um só mar num dia de junho, o espelho manchado pela história de uma casa de praia, o reflexo da lua na areia molhada de uma baía. Quando os nossos olhares, finalmente, se descolaram, foi como se fossem minhas as cicatrizes dela e suas as marcas que escondo debaixo da pele. Moldou-nos a alma o mesmo barro e, afinal, perdemos as duas. Não trocámos uma palavra mas, na despedida, ambas sorrimos de alívio. Tínhamos acabado de ler o coração da outra e creio nada termos encontrado que nos envergonhasse. Ainda mais.
Noutras circunstâncias, percebemo-lo hoje, teríamos sido grandes amigas.

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