domingo, 13 de maio de 2018

Num qualquer outro maio

Não sei há quantos anos foi. Depois desse dia, deixei de contar os seguintes.
O mar devolveu-me um homem que, afinal, tinha morrido, fazendo de mim a mais idiossincrática das viúvas.
Há muitas formas de se morrer para sempre. Pelo menos tantas quantas as formas de se matar alguém. Deixar de respirar não é a pior de todas.
Procurei-lhe um resto de vida nos olhos, na voz, nas mãos, no andar. 
Soprei-lhe nos lábios um grito de memória. O seu fantasma ergueu-se do corpo e dançou comigo até ser dia.
Mas as manhãs são sempre lúcidas.
Lacrei o coração no último abraço que dei ao homem morto.
Devolvi ambos ao mar. 
Não gosto de mortos.
Nem de corações.

2 comentários:

  1. Morrer em vida, há lá coisa mais triste.
    ~CC~

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    1. Enviuvar de um homem que morreu em vida. Porventura ainda mais deprimente.

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