domingo, 14 de outubro de 2018
segunda-feira, 1 de outubro de 2018
Confissões
como boa ladra que sou, roubo com a mão direita aos poetas, aquilo que com a esquerda te estendo.
no mercado das almas, a poesia, ainda assim, é a menos indigna das moedas.
segunda-feira, 24 de setembro de 2018
sábado, 22 de setembro de 2018
Caderno de encargos
Habituar-me-ei à felicidade.
Será azul a sombra do pássaro,
leve o rasto de cada ausência,
certo o pulso da emoção.
Não deixarei culturas microbióticas
subirem por tábuas de gavetas fechadas
nem procurarei os telhados inclinados
para neles estender a corda de funambulista
Não ouvirei os sussurros que o medo
que vem do chão, deposita à noite na almofada
nem lhe retirarei todas as espadas
para que com o seu fio não me corte.
Será sempre inteira a lua,
estreita a corda de todos os Nós,
aberta a mão que se entrega.
Habituar-me-ei à felicidade.
Será azul a sombra do pássaro,
leve o rasto de cada ausência,
certo o pulso da emoção.
Não deixarei culturas microbióticas
subirem por tábuas de gavetas fechadas
nem procurarei os telhados inclinados
para neles estender a corda de funambulista
Não ouvirei os sussurros que o medo
que vem do chão, deposita à noite na almofada
nem lhe retirarei todas as espadas
para que com o seu fio não me corte.
Será sempre inteira a lua,
estreita a corda de todos os Nós,
aberta a mão que se entrega.
Habituar-me-ei à felicidade.
segunda-feira, 17 de setembro de 2018
Home
Quando os ossos se encaixaram, a combinação rasgou no peito uma porta inusitada.
Entre a quarta e a quinta costela fiz a enxerga onde me deitei a dormir.
Foi o sono dos animais, das crianças, dos inocentes.
Havia, enfim, chegado a casa.
domingo, 16 de setembro de 2018
sexta-feira, 14 de setembro de 2018
Capitão Strut
Um coração Pirata, vem nos livros da especialidade, só se deixa espelhar em coração de igual natureza. Podemos percorrer todos os mares de olhos abertos, apontar bússolas a rochedos escondidos, usar de um resto de boa fé para com meros mortais, ignorar os bons avisos do vento, recitar esses antigos códigos de ética de uma única frase. Tudo podemos fazer e tudo será em vão. Um coração Pirata nunca pertencerá a ninguém. E só se dará em penhor a outro coração Pirata.
Durante uma curta estada em Tortuga, nas tabernas de má fama, entre facas e dados, vi-o ao balcão. Os céus responderam com um eclipse e a lua foi de sangue.
Os códigos de acasalamento da minha gente não correspondem aos dos homens de bem. Envolvem tangos de rosas roídas, danças de espadas ao luar, palmas das mãos seladas em pactos e a certeza empírica das coisas de que, inevitavelmente, um dos dois terá de morrer.
O Capitão Strut partiu hoje para o mar do Norte.
Perdi as horas sentada na gávea entre um livro de Virgínia e o reflexo metálico que deixaram no mar as asas do meu capitão.
Neguei os três pratos que me estendeu Andrhiminir, o cozinheiro Viking adorador da bimby. Mandei calar o melhor verso de Álvaro de Campos. Ignorei os protestos dos presidiários. E quando a tripulação blogger, em desespero de causa, sugeriu chamar Tagik, o berbere contador de histórias, fiz saber que o deserto já não mora em mim.
Polly, o papagaio Pirata, pendurou-se no mastro de onde me grita insultos sobre a vulgaridade das mulheres apaixonadas.
Tenho uma campanha para fazer e todo o mar das Caraíbas para aterrorizar.
Mas o meu capitão partiu e num baú cerrado, em penhor, levou-me um músculo que me faz falta.
Dos diários
Não me assustam os registos das angústias, das dores fantasma, da tristeza ou, pior, do tédio. No mais profundo dos poços sempre se esconde, entre as avencas, uma ou outra metáfora que é nossa. A inquietação registada é um farol que alerta para a proximidade das escarpas. Ou o nível por onde se medem as águas altas.
O que já não suportaria era o registo desta luz dourada sob a pele, a que convencionaram chamar felicidade.
Se um dia a perder, prefiro não ter provas de que me pertenceu.
domingo, 9 de setembro de 2018
A sétima onda
esse espaço de tempo em que já se sabe que se mergulhará num mar revolto, mas em que, com os pés ainda bem assentes na areia, se contam as ondas pelos dedos da mão. Ao segundo dedo da mão esquerda, a sétima onda, esperar os exatos segundos necessários
e
mergulhar.
O medo que atrasa o passo, já o sabemos, é o mais curto caminho para o embate.
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
Um quadrado do céu
Para memória futura, arranquei um quadrado ao céu e guardei-o no bolso.
Para memória eterna, tatuei na retina o horizonte das três da tarde.
Percebi que já pouco mais posso querer do mundo.
Um quadrado de céu portátil e a impressão eterna do horizonte das três da tarde.
Para memória eterna, tatuei na retina o horizonte das três da tarde.
Percebi que já pouco mais posso querer do mundo.
Um quadrado de céu portátil e a impressão eterna do horizonte das três da tarde.
quarta-feira, 5 de setembro de 2018
segunda-feira, 3 de setembro de 2018
Ah, mas e a bruma
Descongelar um coração é um processo científico de elevada precisão.
Há um equilíbrio entre a temperatura externa e o tempo que deve ser rigorosamente respeitado.
Os desvios à fórmula podem tornar o órgão imprestável para utilizações posteriores.
A bruma, percebi-o agora, dessa forma incidental que é apanágio das melhores descobertas científicas, é uma condição atmosférica propícia à descongelação.
Há um equilíbrio entre a temperatura externa e o tempo que deve ser rigorosamente respeitado.
Os desvios à fórmula podem tornar o órgão imprestável para utilizações posteriores.
A bruma, percebi-o agora, dessa forma incidental que é apanágio das melhores descobertas científicas, é uma condição atmosférica propícia à descongelação.
terça-feira, 28 de agosto de 2018
O fim do verão
O meu corpo adianta-se sempre ao fim do verão. Tenho a pele coberta pelas folhas que começarão a cair e os olhos raiados pelas sombras dos jaracandás despidos. Aguardo ansiosamente pelas primeiras manhãs de frio na esperança que me devolvam a coerência das coisas.
A uma primavera a que faltei, seguiu-se um verão que não me pertenceu. Foi um sonho breve de sesta de canícula. O ruído da praia muito ao fundo e o tempo a escoar-se numa vala aberta. Preguiça e desistência. Foram os sabores mais vendidos na gelataria da esquina.
A uma primavera a que faltei, seguiu-se um verão que não me pertenceu. Foi um sonho breve de sesta de canícula. O ruído da praia muito ao fundo e o tempo a escoar-se numa vala aberta. Preguiça e desistência. Foram os sabores mais vendidos na gelataria da esquina.
segunda-feira, 27 de agosto de 2018
quinta-feira, 26 de julho de 2018
Ascensão
Mas depois, afinal, os interstícios da terra eram estéreis.
A aridez do ferro, sob os pés,
deixava feridas por entre os dedos.
E a cada passo surgia uma vala
e um fundo de enxofre atravessado por girinos.
O sol abrasava os ombros dos homens que caminhavam
de cabeça baixa,
como quem protege a fronte dos céus.
As pessoas, na sua fealdade, pareceram-me feitas de medo.
O medo saía-lhes da boca em forma de bolas de sabão
e, pesado, desfazia-se de encontro ao chão.
Perguntei-lhes pela poesia mas
logo percebi que ainda não tinham inventado a metáfora.
Aguentei seis dias estelares.
Ao sétimo,
subi por aquilo que me pareceu uma árvore
(Mas que também podia ser o fóssil de um sonho)
e ascendi ao espaço em branco
que fica entre dois versos do poema
de onde nunca deveria ter saído.
A aridez do ferro, sob os pés,
deixava feridas por entre os dedos.
E a cada passo surgia uma vala
e um fundo de enxofre atravessado por girinos.
O sol abrasava os ombros dos homens que caminhavam
de cabeça baixa,
como quem protege a fronte dos céus.
As pessoas, na sua fealdade, pareceram-me feitas de medo.
O medo saía-lhes da boca em forma de bolas de sabão
e, pesado, desfazia-se de encontro ao chão.
Perguntei-lhes pela poesia mas
logo percebi que ainda não tinham inventado a metáfora.
Aguentei seis dias estelares.
Ao sétimo,
subi por aquilo que me pareceu uma árvore
(Mas que também podia ser o fóssil de um sonho)
e ascendi ao espaço em branco
que fica entre dois versos do poema
de onde nunca deveria ter saído.
sábado, 21 de julho de 2018
Tangos
E depois de uma valsa ir-te-ás como uma
tristeza que atravessa a rua deserta
e haverá quem fique a olhar a lua
nalguma porta.
Do poema «Has Vuelto», de Evaristo Carriego, citado por Jorge Luis Borges em O Tango, Quetzal.
tristeza que atravessa a rua deserta
e haverá quem fique a olhar a lua
nalguma porta.
Do poema «Has Vuelto», de Evaristo Carriego, citado por Jorge Luis Borges em O Tango, Quetzal.
sexta-feira, 20 de julho de 2018
Um rato
Na mesma semana desisti de duas coisas que queria fazer apenas para evitar a melancolia que me teriam provocado. Na verdade, desisti da primeira e fugi da segunda. Outras pessoas, mais benevolentes, fariam notar que a maturidade ensina a proteger-nos, a não enfiar os dedos nas tomadas, a recusar os joelhos esfolados. Mas eu não sou outras pessoas e não admito reivindicar para mim a benevolência que não gasto nos outros. Reconheço a cobardia quando a vejo assim de perto,
ouvido no Super Bock Super Rock
«É a única pessoa por quem alguma vez senti nojo efetivo.»
Fiquei a pensar que, talvez, por contraposição ao nojo virtual.
Fiquei a pensar que, talvez, por contraposição ao nojo virtual.
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