quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Solstício de Inverno

Por razões de coerência astrológica, escolhemos o dia mais curto do ano para nos despedirmos. 
Despedimo-nos com a mesma urgência que usaríamos caso as horas restantes, até ao último fio de luz solar, fossem todo o crédito temporal das nossas vidas. 
Não lastimo a pressa na despedida. 
Sobrou-me imenso sol. 

Mercado de Natal

As avenidas estão cheias. Há sacos com laços coloridos pendurados em mangas de Vison. As montras exibem os objetos brilhantes que ainda há meia hora não sabíamos existir e sem os quais já não podemos viver. As luzes estão no ponto perfeito do espalhafato. Há mercados de Natal em várias esquinas e em todos cheira a chocolate e a fritos de Natal. É um cheiro feliz. 
É certo que no passeio da avenida, com a cabeça de encontro à calçada, jaz, não se percebe se vivo ou morto, um homem de meia idade, sapatos rotos e casaco esburacado. 
Mas estamos todos atrasados para o Natal e é até provável que o homem já ali esteja desde a Páscoa.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Cidades indormíveis

A cidade lá me deu o sol; o céu azul; o rio espelhado; a noite iluminada.
Aquilo que nunca tem a generosidade de me dar é uma noite isenta de insónia.

Diário de Bordo

Aleph, o navio pirata, navega agora pelos mares, iluminado do convés ao mastro, assumindo ele próprio a forma de uma enorme árvore de Natal que dança ao ritmo das ondas. 
Houve anos em que tentei proibir o Natal e outros em que fingi não o ver até ser por ele derrubada à saída de um canto mais escuro. Este ano, consciente de que ninguém escapa ao Natal, mudei de estratégia e em vez de esconder os enfeites e redigir regulamentos anti kitsch, decidi antecipar-me a esta valorosa tripulação e ser a primeira a aparecer com as famigeradas luzinhas das lojas dos chineses; neons em forma de estrela; pseudo renas que mais parecem cães com chifres e a habitual panóplia de bolas coloridas. Centrifugada pelo espírito, cometi até a excentricidade de comprar online vários conjuntos de anjos de asinhas de penas e halos dourados, com rosadas caras obesas e caracóis louros. Estão neste momento pendurados por todo o lado e, vistos da gávea, parecem pequenos espanta-gaivotas. 
Esta tarde, a habitual rotina do roubo, da extorsão e do sequestro, cedeu o lugar à instalação do Natal. 
Há qualquer coisa de comovente nesse anacronismo que é ver-se um bando de malfeitores, maioritariamente ateu, ou, pelo menos, suspeitoso da bondade do divino, tão empenhado em replicar cada um dos clichés do Natal. 
Andhriminir fez-nos um chocolate quente com rum; Gualtiero, o Italiano, cozinhou bolachas de gengibre; Álvaro de Campos, que há tanto tempo não aparecia nesta estória, preparou vinho quente; os poetas inventaram novas quadras de Natal; os ex presidiários, como sempre, fizeram o trabalho todo; os bloggers tiraram muitas fotografias, organizaram discussões sobre o melhor local para colocar a estrela e disseram muitas vezes que sabiam montar o Natal melhor do que todos os outros. 
No final do dia, quando a tripulação ainda zanzava pelo novíssimo barco-Natal, kitshezeando em grande animação, sentei-me sozinha no convés, vi a lua, dourada, enorme, baixa, a rasar as ondas do mar, e pensei que, apesar de tudo, tive muita sorte.
No rescaldo do esquecimento, ainda se salvou, mais ou menos imaculado, o Natal. 

sábado, 17 de dezembro de 2016

Dois destinos

A lua viu.
A sombra una
de dois destinos 
projetada nas águas vadias
de um braço de rio domado.

O rio viu.
O circulo completo da lua
iluminar dois destinos 
ensombrados na unidade
da efémera noite.

A sombra viu.
Um rio,
outra lua, 
equação noturna,
dois destinos.
Opostos.




sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Lisboa



Cheguei, antes que a cidade me surpreendesse, a tempo de ver todas as folhas que este outono caíram na minha rua. Caminhei devagarinho pelo tapete amarelo, pisando com especial cuidado as horas caídas da minha ausência. Guardaram-nas, assim no chão, para que ainda as pudesse ver. 
Depois, Lisboa deu por mim: fez-se fria e cinzenta. Como toda a velha amante abandonada.

A fazer as malas para o Natal




terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Fugiram os sonhos

Fugiram os sonhos pela frincha da porta blindada da casa branca, assética, desinfetada. Os sonhos escaparam à higiene, esquivaram-se ao minimalismo, evadiram-se dos antifúngicos. Oprimia-os a ditadura das linhas direitas da arquitetura da existência; os tectos altos; as luzes indiretas para melhor conforto dos olhos míopes. O edifício, de inteligência artificial, racional até aos alicerces, da consistência fria do aço, não era dream friendly. E os sonhos fugiram pela frincha da porta blindada e espalharam-se pelas ruas à procura de um pouco de lixo humano. Acumularam-se em esquinas sombrias. Espreitaram pelas janelas dos tugúrios ocupados por coisas antigas, como o sangue, o suor e as lágrimas. Treparam pelas paredes e enroscaram-se nos pés sujos das pessoas simples.
Não voltarão, os sonhos, a este edifício hermético e eficiente. Expurgado da dor, mas também da esperança. 

domingo, 11 de dezembro de 2016

Expiação (*)

Podia ter enterrado na carne o mais frio dos cilícios; espalhado vidro mal moído e ajoelhado-me sobre ele durante horas a fio; escaldado as solas dos pés nas pedras incandescentes do jardim ou mesmo ter-me perdido num deserto desconhecido e por ele me arrastar até que pelas minhas veias circulasse mais areia do que sangue. Mas em vez de qualquer uma destas boas velhas formas de autoflagelação, fiz a má escolha de ouvi-lo uma última vez mais.


* (também tenho o tal sinal)

Os racionalistas e o amor

Um sapo perguntou, um dia, a uma centopeia qual era a pata que ela pousava primeiro ao andar. E a centopeia nunca mais conseguiu andar.

Afonso Cruz, Mil Anos de Esquecimento, enciclopédia da estória universal, Alfaguara

sábado, 10 de dezembro de 2016

Cedem-se haiku de Bashô



Diga um número de 01 a 1002 e receba um haiku 
(Post em parceria com Matsuo Bashô)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Portas


Sumo de goiaba

— não se enlouquece tudo de uma vez. 
Disse eu ao coelho do relógio pendurado ao pescoço que caminhava para diante e para trás, nervosamente, enquanto proclamava que estávamos todos atrasados. A lagarta, sentada na estante dos livros de poesia, assentiu depois de uma baforada de fumo que inundou o convés e, assim incentivada, repeti como se tivesse acabado de descobrir o segredo da vida eterna: 
— não se enlouquece tudo de uma vez. 
O gato que ri materializou a ponta da cauda e os dentes e projetou uma gargalhada num estilo maléfico e totalmente descontextualizado. 
Olhei à volta para tentar perceber o efeito das minhas palavras na expressão do chapeleiro louco, mas em frente ao seu sumo de goiaba havia apenas uma cadeira vazia. Ouvi a minha voz, em eco, gritar "cortem-lhe a cabeça" e, então, disse-me a lagarta: — "não devias ter mandado cortar-lhe a cabeça". Pensei em iniciar um dissertação sobre Salomé, mas o coelho insistiu que estávamos todos atrasados. 
— para quê? 
Perguntei por perguntar enquanto inspecionava o verniz das unhas, optando por esconder as mãos nos bolsos do vestido.  
O coelho voltou a consultar o relógio e decretou que estávamos irremediavelmente atrasados para a vida. 
— não nos faz falta. 
Disse ao bigode esquerdo do gato que ri quando voltei a ouvir o eco da minha voz: "corteeeeem-lhe a cabeeeeça".

De madrugada acordei com uma insuportável dor na minha própria cabeça e, pela manhã, a primeira coisa que fiz foi proibir Adhrimhinnir de voltar a servir risoto de cogumelos selvagens. 
Mas estava escrito que o dia não terminaria sem receber um postal do capitão Sparrow. Continha um smiley a boiar no verso branco de uma fotografia do porto de Tortuga. 
Foi assim que soube que me esqueceu.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

dezembro

Dizem-me que em Lisboa já é Natal. 
Aqui, neste navio, não há meses nem estações. Só dias seguidos por noites seguidas por dias, embalados pelas ondas do mar. 
Reparei que, entretanto, todos deixámos de envelhecer. 

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Kübler-Ross

Com o tempo, abandona-nos o deplorável vício da recriação de um concreto quotidiano alheio. 
Foi assim que deixei de vê-lo caminhar, desajeitado, na direção do mar. Ou de ouvir a inoportuna gargalhada infantil. Ou de imaginar a sombra das costas projetada pela luz das velas; os dedos a arranharem as cordas da guitarra; a forma inusitada de pegar na chávena do café; uma ruga vertical na testa a anunciar um período de silêncio; o gesto de distender os músculos do pé. 
Então, todas essas insignificâncias, que foram ínfimas parcelas de um homem, perdem-se no universo e o vício da recriação do quotidiano é substituído por uma nova forma de culpa. 
Como os deuses e os crepúsculos, também tu te desvaneces por falta de quem te sonhe. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Ah, a poesia

na noite mais curta
lavo os pés
e adormeço vestido 

Matsuo Bashô, in O eremita viajante (haikus – obra completa), Assírio & Alvim

Dizia Borges que alguém (não importa quem) dizia que não era possível imaginar o universo sem um certo verso de Poe (não importa qual). 
Eu posso imaginar o universo sem Poe. Mas já não posso concebê-lo sem este haiku de Bashô. 
Ninguém nos explica a razão pela qual um verso pode espantar-nos como uma faca afiada no meio das omoplatas. 

sábado, 3 de dezembro de 2016

Alvíssaras

Perdi o olhar num dos espelhos das casas por onde passei. Sabemos que assim é quando, numa inútil tarde de chuva, distraídos e ao telefone, procuramos num dos cantos da boca a causa de uma irritação qualquer e, nesse estado de irreflexão, o espelho devolve-nos um olhar falsificado.
Perdi-o e só agora constatei a ausência. 
Talvez o tenha perdido no espelho do hall de entrada da que foi a minha primeira casa minha, na mais bonita rua de Lisboa, e onde o espaço era demasiado exíguo para arrumar tanta solidão.
Mas também posso tê-lo deixado, na urgência da saída, no espelho da sala de um antigo solar, entre as porcelanas e os castiçais de prata, vigiados por um morto que nos censurava do alto da parede onde o penduraram. Era uma casa rodeada de nevoeiro, perdida no meio do oceano, com vista para um prado interminável onde as vacas iam dormir.
É ainda possível, embora improvável, tê-lo esquecido no meio da planície alentejana, na casa que ficava em frente à praça onde os velhos gastavam a reforma na batota e que tinha um terraço onde, deitada, vi chegar e, depois, partir, a lenta primavera. 
Ou posso tê-lo perdido naquela casa, quase dentro do mar, onde o vento, à noite, me trazia a fúria das ondas de encontro às rochas, e eu aprendi a escutar-me na sinfonia do caos.
E pode ter-me sido roubado na saída de uma outra casa onde, junto ao meu próprio retrato pintado a acrílico, despojei a minha alma. É uma casa que fechei nas catacumbas do esquecimento e que jaz na imobilidade do gigantesco lençol branco com que escolhi cobrir a realidade. 
Sei, porém, que ainda o tinha à saída dessa outra última primeira casa, de paredes com palmeiras lilases ou rosas verdes pintadas, onde os verve tocavam de manhã à noite, aprendi a poesia, demos nomes aos objetos e foi sempre verão. Lembro-me de o ter visto no espelho do sr. Otis, o elevador, quando carreguei comigo o último dos caixotes.

Irremediavelmente, perdi-o na vasta geografia de um exílio tão longo que se fez pátria. 

Os fantasmas

Os fantasmas até podem aparecer-nos, mas não nos deixam alcançá-los.
Podemos escutar-lhes o silêncio debaixo da voz arrastada. Inventar uma intenção verbal que não se concretiza. Vê-los deslizar rente às paredes ou observá-los enquanto nos acenam um adeus enjoado à porta de nossa casa.
Mas os fantasmas nunca nos perguntarão como estamos. E, se acaso tentarmos abraçar algum, acabará por nos trespassar antes que lhe sintamos o peso. Chamam-lhes aparições porque só aparecem. Nunca estão. 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Adágio

Existe que uma relação de proporcionalidade direta entre a autoperceção da intensidade do amor e o tamanho do erro a que o amor serve de pretexto.