sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Tratado de Tortuga

Estávamos sentados, lado a lado, à mesa de um restaurante de Tortuga e lá fora caíam as primeiras chuvas quentes de novembro. Vi passar um casal que, pelas ruas desertas, caminhava de mãos dadas, encharcado até aos ossos, na lentidão de uma hora de sol manso. 
Entre as entradas e o prato principal ele revelou-me os seus projetos de enriquecimento meteórico. Era um bom plano e um bom enriquecimento e se havia no mundo pessoa capaz de o levar a cabo era ele. 
Disse-me ainda que, depois de enricar, tencionava, por fim, dedicar os seus dias a amar-me. Avaliei a proposta com os olhos fixos no casal que se afastava lentamente e não me pareceu completamente descabida.
Mas quando levei o copo à boca, percebi que o vinho azedara já na mesa.
Nunca antes, com tanta alegria, me haviam declarado um amor tão condicionado. 
Num ou noutro porto, já tinha conhecido pessoas que me fizeram sentir ignorante ou mesmo estúpida. Mas foi a primeira vez que alguém me fez sentir miseravelmente pobre. 



Cohen


quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Desistência

Quando o céu se fecha e tudo se cala, por vezes, no silêncio invisível que pertence aos sonhos, a minha mente ainda segue o trilho da rebelião. É nessas alturas, entre o primeiro sono e o espaço da insónia, que te encontro. 
Estamos sempre encurralados entre a opressora montanha e o infinito mar. Próximos mas não juntos. Separados pela espessa cortina de nevoeiro. É sempre madrugada, está sempre frio, a tua boca move-se e eu não consigo compreender o que dizes. 
E, de todas as vezes, ainda antes de acordar, dou por mim, com escrúpulo milenar, a cumprir a desistência. 


quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Demoquê?

O insólito, inesperado, inexplicável empate na eleição do futuro nome deste navio, além de demonstrar que entre a maravilha e o horror não há centésima que os separe, deixa sobre os meus ombros o terrível encargo da escolha. 
Na solidão do convés (ou num restaurante em Nova Iorque) refleti muito, (ou fizeram-se estranhas coligações entre campanhas rivais) sobre a melhor forma de terminar com o impasse político que quase arrastava este navio para uma existência anónima. 
Decidi (mas também há quem jure que foi um acordo entre os proponentes dos vários nomes) que este navio Pirata, afinal, já tinha um nome à sua espera: Aleph. 

Nunca saberemos a verdade toda. E é por isso mesmo que precisamos de um Aleph, essa janela para a verdade que é a nossa. 

Obrigada pelas vossas sugestões e pela participação neste ato eleitoral marcado por aquela especial forma de lisura que é timbre da pirataria. 

Obrigada, especialmente, à Luísa (Asherah e o melhor nome a concurso), ao Onónimo Quiescente (Behemoth), ao Pipoco Mais Salgado (Conjurado), ao Manel Mau-Tempo (Driverswigger), à Mais Picante (barca do Desassossego), à Alexandra (Kraken) à Palmier Encoberto (a alucinante cimitarra de purpurinas) e ao Impontual que disse a palavra mágica que fez com que percebesse que o navio, afinal, já tinha nome. 
E claro, o meu agradecimento especial à Lady Kina, sem a qual a democracia não teria a mesma graça. 

(P.s. E o Pipoco Mais Salgado ganhou. Ele, no fundo, sempre quis que este navio se chamasse Aleph!!)





  


terça-feira, 8 de novembro de 2016

Enquanto isso...


O Aleph

Na parte inferior do degrau, à direita, vi uma pequena esfera furta-cores, de brilho quase intolerável. Primeiro, supus que fosse giratória; depois compreendi que esse movimento era uma ilusão produzida pelos vertiginosos espectáculos que encerrava. O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava ali, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (o cristal do aparelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu a via claramente de todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a aurora e as tardes, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide, vi um quebrado labirinto (era Londres), vi intermináveis olhos próximos perscrutando em mim como um espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me reflectiu, vi num pátio da Rua Soler os mesmos ladrilhos que, há trinta anos, vi no saguão décima casa de Frey Bentos, vi cachos de uva, neve, tabaco, listas de metal, vapor de água, vi convexos desertos equatoriais e cada um dos grãos de areia, vi em Inverness uma mulher que não esquecerei, vi a violenta cabeleira, o altivo corpo, vi um cancro no peito, vi um circulo de terra seca numa vereda onde antes existira uma árvore (...) vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph de todos os pontos, vi o Aleph e no Aleph a terra, vi o meu rosto e as minhas vísceras, vi o teu rosto e senti vertigem e chorei, porque os meus olhos tinham visto esse objecto secreto e conjectural cujo nome os homens usurpam, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo.

O Aleph, Jorge Luis Borges (obras completas, volume I)

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Piratas do Parlamento



Aviso

Queridos (e) leitores

Considerando a elevada afluência às urnas, com consequências ao nível do esgotamento dos boletins eleitorais, por  um lado, e do aumento das baixas médicas com fundamento em tendinite, por outro, informa-se que o período de votação foi encurtado para amanhã, até às 23:59 horas. 
Entretanto, deixo-vos, especialmente aos que votaram no nome proposto pela oposição, o inspirado poema da autoria do nosso poeta

«Raciocínio lógico»

Que Desassossego esta votação,
Nem sei se hei-de votar Conjurado ou não,
Mas se até a pequena Cutxi votou,
No Asherah que ia à frente quando começou,
Agora nos post está uma discussão,
Sem se perceber onde está a razão,
Behemoth ou Driverswigger também são opções,
Mas têm poucos votos há outras soluções,
Qual Kraken mitológico,
Num raciocínio lógico,
Eis que surgem sem avisar,
Um nome sonante que está quase a ganhar,
Cimitarra de Purpurinas é o que lha chamam,
Se mudarem o voto ainda a apanham,
Este navio da Cuca já merecia um poema,
Tem muito assunto e um grande tema.

domingo, 6 de novembro de 2016

Um nome para este navio

Queridos leitores:

A incúria e a distração da autora deste blogue fizeram com que durante vários anos não se tivesse apercebido que a embarcação  que por aqui pirateia não tem nome.
Esta deplorável falha está em vias de correção e ali, do lado direito, decorre uma votação de extrema relevância que acabará com a intolerável situação de anonimato.
Seis dos sete nomes colocados a votação são o produto do esforço criativo dos leitores deste blogue. São nomes lindos, maravilhosos, que captam o espírito deste navio e não nos envergonham em nenhum congresso da especialidade.
O sétimo nome corresponde à sugestão de uma blogger, ela própria com nome de bolo, feira após ingestão de vários copos de uma bebida alcoólica não identificada porém potente.
Foi ali colocado para vos dar a oportunidade de rejeitar o mal. Estudos científicos dizem que o ser humano liberta uma hormona que o faz sentir muito bem sempre que, sendo-lhe dada a oportunidade, rejeita o mal. 
A capitã deste navio oferece-lhes o privilégio de uma trip, hormonal, gratuita e sem ressaca, ali ao vosso alcance, do lado direito. Tudo o que é preciso fazer é não votar no nome ridículo. Se não quiserem ter trabalho, votem no primeiro. Nem precisam ler tudo até ao fim. Mas se lerem até ao final, lembrem-se do estudo científico. Rejeitem o mal. Querendo, podem partilhar a sensacional experiência da trip hormonal provocada pela consciência do bem.

Antecipadamente grata. 


sábado, 5 de novembro de 2016

Entretanto, num navio pirata sem nome...






quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Diário de bordo

Quando os vi a todos rigorosamente vestidos, camisa com atilhos sobre o peito, chapéus, sabres, tapa-olhos e pernas de pau, comecei por pensar que, à revelia da minha expressa proibição de festejos importados de continentes bárbaros, estivessem a preparar-se para comemorar a noite das bruxas, mas em versão muito pior, como, em tudo, é timbre desta tripulação Pirata. Depois reparei nas expressões dramáticas, olhos lacrimejantes, postura nostálgico-saudosa, tudo devidamente acompanhado por lenços brancos prontos a ser esgrimidos em intermináveis acenos, e lá percebi que aquilo era uma festa de despedida.
Comuniquei-lhes que durante a minha ausência no congresso de piratas o comando do navio ficará entregue à Pequena Cutxi. Depois de uma das minhas aturadas reflexões de dez segundos, concluí que, entre todos, é o membro da tripulação que me oferece mais garantias de não conseguir provocar danos consideráveis na minha ausência. Além do mais, é tranquilizador saber que a devolução do comando do meu navio fica à distância de um triângulo de queijo ou, na pior das hipóteses, de uma bonita tiara de pechisbeque. 
Parti no final daquela noite e cheguei às Caraíbas no dia seguinte. 
O Pérola Negra não tem o conforto do nosso navio mas leva sobre ele a inegável vantagem de vir equipado com Jack Sparrow. 
Sobre o lendário pirata, bom, direi apenas que me fez lembrar uma velha amiga e a sua bizarra filosofia relativamente a homens. Dizia ela que gostava muito de namorados intelectuais mas apenas durante o inverno. De verão, a praia, o sol, o mar, as longas madrugadas, bastava-lhe que fossem muito bonitos.   
Nas Caraíbas é verão. 


terça-feira, 1 de novembro de 2016

Dia dos mortos

Conheci a tristeza desolada de algumas mortes mas o permanente desgosto de uma única. A falta é um frio que nos encarquilha os ossos por dentro. É um órgão desenhado a vácuo que se instala entre os demais e reclama o seu espaço nas entranhas. Não admira, pois, que as nossas células trabalhem ativamente na sua rejeição. 
O dia dos mortos é a terra de exílio das ausências desesperadas que o corpo já expulsou. 
Um dia também eu conseguirei, neste dia, festejar o meu morto. 

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Café Society

É o mais bonito filme de Allen.
Tudo é exatamente como tudo tem de ser.

domingo, 30 de outubro de 2016

A sexcentésima segunda noite

Como Xerazade ao rei Schahriar, também eu, na sexcentésima segunda noite, haverei de contar-te a história que já é a tua. 
Serei gentil com as tuas fraquezas. Procurarei atenuá-las com rendas e cetins. 
Indignar-te-ás com os traços de cobardia e não te reconhecerás no liso espelho. 
Então, condenar-te-ás com uma dureza mil e uma vezes superior àquela de que eu seria capaz. 
Depois adormeceremos em paz, apenas para que, no dia seguinte, te deixe viver um outro por-do-sol. 

E tu, Cuca, o que fizeste com os sessenta minutos que os burocratas te ofereceram?

Trabalhei, já que ninguém explicou ao meu cão que era para dormir mais uma hora.

sábado, 29 de outubro de 2016

Seis graus de separação

It is the worst kind of yellowness to be so scared of yourself that you put blindfolds on rather than deal with yourself. To face ourselves - that's the hard thing. 
The imagination - that's God's gift, to make the act of self-examination bearable.

Paul, in, Six degrees of separation 

Rios de tinta

Veio ver-me num final de tarde de chuva.
Estava em pé em frente às grandes janelas a ver a água escorrer pela rua quando entraram para o anunciar. 
A minha mão desenhou três frases na folha branca que dobrei em quatro e pedi que lhe entregassem. 
Voltei a ocupar o meu lugar junto às janelas e fiquei por muito tempo, às vezes penso que para sempre, a ver a água escorrer pela rua.
Não voltei a aproximar-me das janelas, sobretudo, quando chove. 
E nunca saberei qual a exata formação de letras que foi a arma do mais terrível dos meus crimes. 

Registos

Mantenho o registo da existência própria em dois níveis antagónicos:
De um lado, numas asséticas agendas de capa preta onde informo um destinatário ignoto do detalhe da ocupação das horas públicas da minha vida. 
Do outro, neste espaço virtual onde informo um destinatário ignoto do detalhe da ocupação dos pensamentos privados da minha vida. 
No mais, destruo tudo:
- Comunicações, notas, fotografias e, sobretudo, o inútil rasto da memória.

Paraíso

Cheguei hoje ao Paraíso.
A empresa levou-me vários anos e custou-me penosas horas.
A verdade é que depois de passarmos pelo inferno e pelo purgatório já todos intuímos que o paraíso  é a parte sobrevalorizada de qualquer obra. Também assim na de Dante.
Antes de fechar o livro, ajeitei cuidadosamente o marcador. É provável que vá ficar ali imóvel durante um longo período de tempo.
Adinal, o paraíso é uma excelente sala de espera para melhores dias.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

É a vida


Máquina do tempo

Enquanto te aborrecias, na rua, com a vida que não é tua por direito, fiquei acordada, em casa, a viver num livro de Virgínia.
Lá pela madrugada encontrámo-nos numa insónia comum. 
Era quase manhã aqui, noite adiantada aí. 
Na confusão do sono, não saberia dizer se foram muitos anos ou um único serão.
Tento calcular a minha própria idade nas linhas da mão.
É possível que este serão tenha durado uma década.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Inquietação

Este cansaço azul que me espreita das unhas chegou antes do final do verão e ficará até à primavera. 
Somos velhos conhecidos. 
Cruzámo-nos nos espelhos de vários foyers. Cada um com a sua idêntica moldura barroca a condizer com uma carpete puída que foi, outrora, imponente. 
A este cansaço, que resiste ao sono e se apresenta vestido logo pela manhã, conheço-o de tantos outros teatros. 
E quando o encontro, sei-o, chegou o tempo de partir. 

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Enquanto a trovoada.

Lembro-me de um outro final de tarde igual ao de hoje.
Os raios consumiram a terra e, com a mesma avidez, a chuva lavou as cinzas. 
O chão desfez-se sob os nossos pés nus, deixando à vista, do outro lado do mundo, o mar indiferente.
Quando tudo terminou, caiu uma noite que foi a mais leve e a mais pura de todas as noites. 
Então, aqueles de entre nós a quem não os afligiam os pecados abriram as janelas das suas casas e deixaram entrar o ar puro.
Aos outros, havia-nos recebido o mar.
Navegámos durante muitos dias. 
Como penitência, primeiro, por vocação, depois. 
No esquecimento, por fim. 

O mundo reorganiza-se sob a violência de uma antiga tempestade. Esse medo que vem do chão.



domingo, 23 de outubro de 2016

Diário de Bordo

Hoje de manhã chegou a este navio um envelope negro com a marca da caveira desenhada a giz na face interior. Nos primeiros instantes, e dado o trauma dos últimos dias, ainda pensei que fosse a própria morte em pessoa que agora lhe tivesse dado para me dirigir intimações escritas. Só depois me lembrei que isso da caveira faz parte da mitologia e das insígnias da corporação a que pertenço. 
A carta era de Sparrow, o Jack.
Não sou a única capitã que se aborrece nos mares dos sul e que tem passado os dias debruçada no convés a tatuar a retina com a imagem do imenso, profundo, tédio. Desde o final do verão que não há coisa que me suscite interesse. Nem os planos de assalto ao próximo petroleiro, nem o mistério da construção das milongas, nem os quatro volumes da obra completa de Borges, nem o segredo da perfeita cozedura da massa de muffins e nem sequer, imagine-se, os meus dedos torcidos sobre as teclas do piano. 
Vagueio pelos corredores do navio fingindo-me ocupada em cada escotilha quando, na realidade, a única tarefa que me consome é este maldito tédio que me envenena as veias.
Sparrow queixa-se de uma doença parecida e informa-me que decidiu organizar um congresso de capitães piratas, lá para os lados das Caraíbas, onde poderemos todos entediar-nos em conjunto, fazendo-o melhor e mais bem feito. 
Tenho a vaga ideia de o ter tentar tentado assassinar na última vez em que esteve neste navio mas, ainda assim, escrevo-lhe imediatamente a aceitar a hospedagem. 
Agora estou a comprar biquínis num site online de uma loja da especialidade. 



sábado, 22 de outubro de 2016

O que importa é que nunca se nos acabe o jazz

Os deuses escolheram um dia feio, de cinzenta chuva e mediana temperatura para reencaixarem as rodas da vida na ferrugenta engrenagem do universo. 
A vida esteve parada e não foi por nenhuma daquelas razões que normalmente justificam a nossa vontade de suspender o tempo. 
Metade dos dias estou consciente da minha condição de habitante da caixa de música de deuses relapsos. Às vezes esquecem-se de lhe dar corda e o mecanismo deixa-me, inerte, dobrada sobre mim própria, a meio de um passo de dança inexequível. Na outra metade, o Olimpo é o meu jardim e a moeda que tenho na mão tem a exata dimensão da ranhura. É deixá-la cair e esperar que as notas se espalhem. 
Dentro ou fora da caixa o que importa é que nunca se nos acabe o jazz.
Os deuses, dizia, escolheram um dia feio para reencaixarem as rodas da vida na ferrugenta engrenagem do universo. 
Quando a máquina deu um solavanco e voltou a deslizar sobre os carris, o jazz foi-me devolvido e morreu bela a tarde que nasceu feia. 


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Deserto

Posso apenas escrever sobre um deserto de bíblica extensão. 
E nada mais além de areia, manhã alta, noite fria. 
Nenhuma rosa, nenhuma alba ou crepúsculo.
O deserto que deixei para trás e o deserto que tenho pela frente. 
A areia que poderia servir para medir as horas e os dias se os desertos não fossem lugares abandonados pelo tempo. 


terça-feira, 18 de outubro de 2016

domingo, 16 de outubro de 2016

A raposa busca a asa do dragão

Os cronistas referem que a raposa obteve o seu perdão e dedicou a sua lenta velhice ao contrabando de ópio. Deixou de ser a viúva; tomou um nome cuja tradução espanhola é Brilho da Verdadeira Instrução.
"Desde aquele dia", escreve um historiador, "os barcos recuperaram a paz. Os quatro mares e os rios inumeráveis foram seguros e felizes caminhos.
Os lavradores puderam vender as espadas e comprar bois para o arado dos seus campos. Fizeram sacrifícios, ofereceram preces nos cumes das montanhas e regozijaram-se durante os dias cantando atrás de biombos."

Jorge Luis Borges, História Universal da Infâmia (sobre a Viúva Ching, Pirata)

Baixas expetativas

Ao terceiro dia de cerelac e sumo de laranja natural e sem conseguir estar acordada por mais de cinco minutos seguidos, o meu corpo deu o primeiro sinal de vitória sobre a gripe: consegui beber um café. 

Amore


sábado, 15 de outubro de 2016

Geografia

Sentou-se ao meu lado, segurou a minha mão na sua e brincou com os meus dedos, afastando-os e aproximando-os. 
Enquanto eu esperava, contou-me ao ouvido as suas estórias de rir. Rimo-nos juntos e o tempo encolheu. A espera foi doce.
À noite, fez seu o pesadelo da minha febre para que eu pudesse dormir serenamente. 
Senti-o abraçar-me na primeira luz da manhã. 
Tudo isto conseguiu fazer sem sequer precisar sair do outro hemisfério. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Dylan - obra quase completa

http://www.azlyrics.com/d/dylan.html

É manter a esperança. Por este andar, para o ano entregam o Nobel a um blogger.



terça-feira, 11 de outubro de 2016

Da cobardia

Quando, por fim, também eu segui esse caminho, submetendo-me à promessa de não olhar para trás, nada me disseram sobre a deposição dos meus poderes de bruxa.
Transpus a montanha e renasci, obediente, durante um entardecer numa praia a sul.
Um de nós morreu, o outro sobreviveu.
A sobrevivência, e não a vida, é a justa recompensa pela cobardia.
Agora olho o imenso mar e o azul é-me tão indecifrável como a linguagem do vento e das aves e das pedras escuras. É verdade que me devolveram o cenário da noite. Mas os sonhos são de papel pintado. É dentro deles que me sei mais néscia. 
Trocava esta idílica praia que não sei ler pela clarividência de uma antiga montanha mal assombrada. 
O mar que não me molha, por um resto de céu que me respire. 
E se já não olho para trás, não é por temor aos deuses. 
Antes, por me saber cega. 


Duetos improváveis


Ausência

Ausência 

Eu haverei de erguer a vasta vida
que ainda é o teu espelho:
cada manhã hei-de reconstruí-la.
Desde que te afastaste,
quantos lugares se tornaram vãos 
e sem sentido, iguais 
a luzes acesas de dia.
Tardes que te abrigaram a imagem,
música em que sempre me esperavas,
palavras desse tempo,
terei de as destruir com as minhas mãos.
Em que ribanceira esconderei a alma
para que não veja a tua ausência, 
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e sem piedade?
A tua ausência cerca-me
como a corda à garganta.
O mar ao que se afunda. 

Jorge Luis Borges, Obras Completas, I, Teorema

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Orçamento emocional

Se ao menos a lua estivesse cheia, ou viesse o siroco, encontraria um pretexto decente para vaguear de noite pela praia, desgrenhada e descalça, na minha camisa de dormir, branca e comprida, de louca. 
Como nada disso acontece, tenho de ficar dentro de casa, rasgando as unhas nas paredes de mate casca de ovo, sentada no cimo da estante de livros autorizados, vestindo a loucura com o meu mais sério twin set. 
O cão, que apreende todas as declinações da minha alma, traz-me a trela e pergunta-me se quero que me leve à rua.
Explico-lho que me sinto aprisionada nesta estação. É como se o verão tivesse apodrecido e o outono se recusasse a aparecer para o arrastar até ao ecoponto.

domingo, 9 de outubro de 2016

Lisboa

Tem múltiplas cambiantes, esta Lisboa onde coube o amanhecer cinzento por onde te vi partir mas cabe também a manhã de hoje: o rio de um azul que faz doer o olhar; um barco que parte e outro que chega; as árvores que em breve espalharão o ouro pelo chão. 
Cabe ainda a Lisboa que o espelho me trouxer. 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Sindicato das Musas


Era uma péssima musa.
Odiava toda a obra manchada pela mais ténue sombra de inspiração de fonte própria.
Pelos seus artistas nunca soube sentir mais do que a zanga profunda.
Ansiou o silêncio dos poetas, a cegueira dos pintores, a surdez dos músicos.
Cada uma das maravilhas que lhe deram, sentiu-a como se um filho que lhe roubassem.
De pés presos ao pedestal, olhos vazios, sorriso de mármore, invejou-lhes os ossos, as veias e a carne.
Desprezou-os pela mentira e pelo logro.
Não se ama uma boneca de pedra.
Adorou o vento norte, a chuva grave, o gelo noturno.
Essa tríade libertadora de musas exaustas.







Viagens na terra dos outros




Pelo Henrique Bento Fialho, Aqui

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Não me dou à despedida


Nunca parto inteiramente.
Vivo de duas vontades: 
Uma, presa à corrente, 
A outra, que vai na nascente,
Fica para ter saudades. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Purgatório

Descobri um paralelismo evidente entre a leitura da Divina Comédia de Dante, que já leva cinco longos, lentos, anos, e a minha existência.  Às vezes penso que deveria acelerar o processo e sair do purgatório onde estou retida há cerca de um par de anos. Não era necessário nada tão dramático como acabar o livro. Talvez nem sequer seja aconselhável. Sabe-se lá o que me espera depois da última página. Bastava, ao menos, chegar ao Paradiso

Moinhos de vento

Todos os dias passo por aquela varanda enfeitada por coloridas túlipas de plástico que giram ao ritmo do vento e todos os dias penso que há, que tem de haver, algo de excecionalmente mágico numa alma que escolhe enfeitar assim a varanda. 

sábado, 1 de outubro de 2016

Contrariedades

Eu, que toda a minha vida tive imensa boa sorte, tenho aquela teoria que um dia vives feliz e satisfeito no olimpo e aquilo que é essencial está tão solidamente construído debaixo dos teus pés que nem sequer te ocorre olhar para baixo e, de repente, uma inusitada contrariedade terrena; um insignificante grão de areia; uma inesperada folha que cai da árvore antes do seu tempo, inaugura toda uma existência de misérias e sortes malvadas que nunca antes sequer configuraste como possível que te pudessem acontecer a ti.
É por isso, e apenas por isso, que não consigo deixar de olhar com apreensão supersticiosa para aquela mensagem a que não me responderam. 


O sol quente de outubro

Durante a madrugada, enviaram-me, do outro lado do mundo, o November Rain, dos Guns N' Roses.
É um facto notório que é difícil segurar uma vela debaixo da fria chuva de novembro. 
Recebo-a, acesa, a meio desta manhã de sol quente do primeiro dia de outubro. 
É uma vela especial. Tem a magia das chamas que muitos invernos não souberam apagar. 

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Emergência da verdade

Com a canícula ainda agarrada à carne 
e a emergência da verdade nos restos do sonho da sesta 
declaro-te que não sei do que falas quando dizes amor. 

Há também aquele anjo de louça, 
ajoelhado em inútil oração, 
de castigo de encontro à porta da vizinha inglesa, 
e lamento-o, quando por ele passo, depois do cansaço do dia,

Mas não lhe digo que o amo. 

Ou a papoila selvagem que insiste em nascer de um resto de terra, 
entre a calçada e o canteiro, 
e é o meu pequeno milagre do fim do inverno, 
que nunca sobreviverá à primeira lua do verão. 

Mas também a ela não juro amor. 

Há o gato que coabita o meu telhado e,
no sol frio da manhã,
estende a pata ferida para verificar a eficácia das garras contidas. 

Não seria capaz de amá-lo.

Nem sequer ao louco que desfila na rua
e engole com os olhos dementes
 os meus mais tristes segredos,
para os guardar dentro da bizarra cartola
que nunca  o vi estender 
na direção dos outros transeuntes.

E este ser 
que é soma do anjo de louça, 
da papoila intermitente, 
do gato ferido e do louco vadio, 
declara não supor, 
sequer, 
do que falas, 
quanto dizes amor. 





segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Música dos deuses


Antes de os deuses enlouquecerem

Houve um jardim com rosas suspenso no cume de uma montanha.
O sol mergulhava à hora certa na sétima onda da praia esquecida
E podia-se vê-lo cruzar-se com uma lua que era sempre azul,
Ambos no passo lento das valsas mornas, 
que é o abraço ligeiro dos amantes 
mais antigos
do que o mundo.

Uma manhã os deuses enlouqueceram de ciúme pelo amor dos homens.
Os olhares que deceparam a última das rosas, atearam o fogo à montanha 
E restou a cortina de fumo, que engoliu o sol e regurgitou uma lua cinzenta.
Estendendo a cegueira aos corpos desencontrados,
que são o alheamento profundo dos amantes
mais antigos 
do que o mundo. 

Os que ainda trazem entre os dentes os restos de uma rosa,
mas já esqueceram o contorno da mão que a plantou.






domingo, 25 de setembro de 2016

Essa outra Pirata

A mim não me puxa a compaixão, estou do lado deles, homens ruins de gengivas rotas, sou eu a mulher que têm durante as travessias, mulher incompleta e de pau, a quem entregam todos os terrores,
todos os clamores,
a quem acendem velas e renovam promessas. Sou eu que sei dos seus últimos cuidados, quando perdem um pé neste mundo e entram com o segundo no outro. Homens rudes, que arregaçam as mangas e mostram as cicatrizes, as tatuagens, corpos martirizados, tornam-se outra vez tenros, iniciais, limpos e pequeninos e chamam pela mãe. Ninguém, só eu, os consegue ouvir na transição. 

Ana Margarida de Carvalho, in, Não se pode morar nos olhos de um gato, Teorema

Lago Tanganica - o verdadeiro comunicado

A intrépida tripulação que compõe este navio, zarpou ontem dos mares profundos onde se encontrava, rumando aos bancos de areia do Lago Tanganica, numa inédita operação de resgate dos três habitantes que desapareceram após o anúncio de uma cimeira secreta com vista à resolução do problema criado por aquilo do concurso do melhor blog do ano e, mais especificamente, pelo facto de nenhum dos habitantes do Lago ter sido nomeado.
Chegados ao Lago, embarcámos nos nossos botes insufláveis, aqueles que sobraram dos saldos de verão da loja dos chineses, e seguimos o rasto dos desaparecidos. Pese embora a natural tendência para transformar qualquer ninharia em epopéia, devo aqui admitir que a empresa não foi difícil. Bastou-nos seguir o fumo dos cohibas. 
Fomos dar com os cimeirados, num dos bancos de areia, atrás de uns arbustos, rodeados pelos restos de um festim de Barca Velha, paté de flamingo, estranhos casacos de griffe e dossiers secretos do conselho de ministros. Estavam os três semi inconscientes e num estado absolutamente deplorável, mesmo para os liberais critérios de uma tripulação pirata praticante do relativismo ético.
Recolhidos os organizadores da cimeira, os nossos propósitos humanitários de libertação e salvamento, como, aliás, já é timbre desta tripulação, foram objeto de um ligeiríssimo desvio. 
Vamos manter a Palmier, o Pipoco Mais Salgado e o Senhor Ministro entre nós até que nos rendam a fortuna ou, pelo menos, a glória de uma vitória no dito concurso, para o qual nos autonomeámos, corrigindo assim uma grave injustiça do sistema capitalista que a todos oprime e nem a pirataria deixa incólume.
Ou, pelo menos, até que acordem. 
Tenham medo. 


sábado, 24 de setembro de 2016

Miragem



"O conceito corrige os olhos."

Ortega y Gasset, in A Rebelião das Massas

Tangos


Cuidados continuados

Nós, os de doença de alma crónica, sabemos como é aborrecida a permanente vigilância, o cuidado na recolha da temperatura, o critério na escolha do agasalho certo, a medição programada do tamanho da sombra, a análise química dos poluentes em redor. Às vezes, as pessoas saudáveis dizem-nos que devemos tirar a máscara, molhar os pés nas poças de lama, apanhar a chuva da manhã, correr pelas florestas, fazer amizade com os micróbios. 
Às vezes parece-nos tão verdade que rasgamos as paredes da redoma. 
Mas cedo regressamos ao castigo do quarto asséptico, incapazes de respirar; com os músculos demasiado doridos para nos susterem o esqueleto e os sonhos poluídos pelos germes que trouxemos debaixo das unhas. 

Sombras Chinesas



Levei a Anatomia da Melancolia, de Burton, mas confiscaram-mo juntamente com todas as outras iCoisas. 
Abandonaram-me, durante mais de meia hora, deitada numa cama, num espaço exíguo e quente. Ocupei o improgramado tempo de não existência a projetar sombras chinesas na parede. Quando finalmente se lembraram de mim e me perguntaram se estava pronta, respondi que não, que faltava libertar a princesa. 
Olharam para mim como se estivesse louca.
As pessoas tendem a menosprezar a necessidade de encerrar todas e cada uma das estórias. 

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Dentro da caverna de Platão

Passámos tanto tempo com as sombras como horizonte que esquecemos que a vida concretiza-se no relevo e no peso. Saberia reconhecer o anti-reflexo do ser em três dimensões distintas. Mas foi o simples toque de uma mão que me encheu de espanto. Um espanto animal. De carne. De coisa viva. E a imensidão das sombras, por um instante, diluiu-se nas veias. 

domingo, 18 de setembro de 2016

À mercê da lua

À grande lua pesaram-lhe todas as histórias de amor do universo. Soltou-se do céu. Encontrei-a caída logo a seguir à primeira curva da auto-estrada. Enorme, de um ouro antigo e muito cansada. 
Lembrei-me do poema que diz que a lua é o teu espelho. 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

As lições de vida do facebook

Não basta anular as imagens. 
Se não apagares o facto que documentam, este permanecerá na memória do sistema. Então, será uma memória tão indistintamente partilhável como qualquer outra. E o sistema perguntar-te-á, num qualquer dia de menor atividade, se queres partilhar com mundo a memória do facto, agora devidamente acompanhada pelo quadrado em branco que é o correspetivo da imagem representativa que substitui a que apagaste.
A única coisa que, afinal, conseguiste destruir. 
Nessa altura, poderás ver um bonito coração vermelho; um verso do teu poeta preferido ou, pior ainda, uma frase que não seja falsa, fazer-se acompanhar pelo mais absurdo vazio. 
Se tiveres sorte, essa memória amputada de objeto parecer-te-á uma composição preferível à original. 

Atrofia


Boletim meteorológico

Amanheceu o cheiro da chuva hoje, pela primeira vez em demasiado tempo. 
A pele já havia esquecido como são frias as gotas da chuva quando nos caem entre o pescoço e as omoplatas e deslizam livres pelas costas. É a chuva boa.
A alma, percebi-o, não esqueceu o dia em que a chuva veio e na sua violência afogou as rosas, levou os caminhos, impôs o silêncio ao mar. É a chuva má. 

*E a alma dirigiu-se para o corpo que a feriu de amor*

Methinks I have a mistress yet to come,
And still I seek, I love, I know not whom.

Isto é verdade, sem dúvida, em relação ao amor casto e não natural, mas não em relação à paixão heróica, que é verdadeiramente luxúria ardente e animal, e da qual estamos a tratar. Falamos de olhos delirantes, lascivos, adúlteros, que, segundo diz o autor, "estão sempre à espreita como soldados e, quando notam que um inocente espectador se fixou neles, trespassaram-no com as suas flechas e, nesse preciso instante, enfeitiçam-no. Isto acontece, sobretudo, quando fixam os olhares entre si, como amantes impúdicos que, com essa comprazida disputa de olhos, participam mutuamente das suas almas". Do que foi dito podereis aperceber-vos de como é fácil, e rápido, apaixonar-nos, pois basta uma piscadela de olho para que os espíritos de Fedro contaminem, de maneira tão perniciosa, o sangue de Liceas. "Isto também não é espanto nenhum se consideramos pormenorizadamente quantas doenças se apanham, furtiva e inesperamente, por infeção: peste, icterícia, sarna, cólicas, etc." Desde que os espíritos tenham penetrado, quem os recebeu nunca mais terá descanso, ficando sujeito à irritação causada por eles. Idque petit corpus mens unde est saucia amore*". E podemos aperceber-nos de uma estranha extração dos espíritos, como quando o nariz do morto sangra se o seu assassino estiver presente.

Robert Burton (1577-1640), in Anatomia da Melancolia, Quetzal 

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Espelhos

Encontraram-se na varanda. Ambas empenhadas na observação desse pedaço que falta à lua e que, na incompletude, a faz parecer quase humana. Pendurada, uma, pelos pés descalços no telhado, sentada, a outra, numa cadeira de balouço. Olharam-se demoradamente no silêncio confortável que é exclusivo dos velhos casais e dos eternos inimigos. A que se pendurava na noite foi a primeira a quebrar a harmonia:
- é cedo para ti. Esta lua ainda não é tua. 
A que se balouçava no escuro respondeu-lhe sem a olhar:
- é tarde para ti. Esta lua já não é tua. 
Então, por um momento, coexistiram pacificamente no mesmo espaço, a primeira na saudade da lua que foi, a segunda na expectativa da lua que será. 
E a lua brilhou, na noite, indiferente à cegueira de qualquer uma das duas.

domingo, 11 de setembro de 2016

Uma espécie de felicidade

Não sei dizer o que veio primeiro: Se as áridas noites que agora durmo abandonadas pelos sonhos que não me dou ao incómodo de sonhar; se a sucessão de dias que agora vivo despovoados de objetivos longínquos que não me dou ao incómodo de traçar. Sei que há uma espécie de felicidade nesta coerência de imbecilidades. Como se, por fim, tivesse chegado o momento em que já não preciso de mentir a mim própria. 
Por vezes, acordo durante a noite e observo o meu cão enquanto sonha. 
É uma criatura mais complexa do que eu. 

sábado, 10 de setembro de 2016

Cinzas

Choveram cinzas durante três dias. 
E agora que a estranha chuva finalmente parou, ainda nos vamos descobrindo, distraídos, a olhar para o céu ou para as costas da mão, à procura do pó que nos serviu de oráculo. 
Depois, retomamos a expressão grave, adequada a quem regressa da incineração dos anjos. 

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Desconstrução da felicidade

A melhor desconstrução do mito da felicidade, encontrei-a em Italo Calvino, em As Cidades Invisíveis, a propósito da sua imaginada cidade de Zenóbia, mas, sobretudo, válida para os seres humanos: "Dito isto, não vale a pena determinar se de deve classificar Zenóbia entre as cidades felizes ou entre as infelizes. Não é nestas duas espécies que faz sentido dividir a cidade, mas noutras duas: as que continuam através dos anos e das mutações a dar forma aos desejos e aquelas em que os desejos ou conseguem aniquilar a cidade  ou são eles aniquilados."
É substituir cidade por pessoa. 

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Esmola

Como o mendigo cego de Borges, antes de partir e levar na palma da mão as minhas últimas pedras, sem que também eu lhe tenha ouvido os passos ou me haja voltado para o ver perder-se ao alvorecer,  igualmente poderia ele ter dito:

– "Não sei qual é a tua esmola, mas a minha é espantosa. Ficas com os dias e as noites, com o siso, com os hábitos, com o mundo."

O preço, sei-o agora, foi bagatelar. 


Dia de citar Borges

P.S. 1924 – Já sou um homem entre os homens. Na vigília sou o emérito Hermann Soergel, que mexo num ficheiro e que redijo trivialidades eruditas, mas ao amanhecer sei, por vezes, que o que sonha é o outro. De tarde em tarde surpreendem-me pequenas e fugazes memórias, que porventura são autênticas. 

Jorge Luis Borges, A Memória de Shakespeare e Nove Ensaios Dantescos, Quetzal

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Autorizada memória

São fragmentos indistintos que nem sequer a ordem que pertence ao tempo sabem respeitar: 
os primeiros sapatos, vermelhos, com franjas caídas sobre os tornozelos escanzelados; um balão que se desenrolou do pulso, perdendo-se para sempre no azul do céu de agosto; um edifício em ruínas sobre o mar por cujas janelas sem vidros entraram as silvas, a manhã e o amor; o jardim de laranjeiras onde uma inusitada cama de rede ainda balouça ao ritmo do vento norte; o sol a apagar-se no pó da interminável pista de um aeroporto esquecido; as fotografias antigas nas paredes de um quarto que cheirava a restos de praia; uma goma em forma de ovo estrelado sobre a almofada de um hotel madrileno e o chapéu alto do seu porteiro; o corredor estreito de um outro hotel que a ânsia de um abraço tornou interminável; o rasto de sangue que ficou na palma da mão aberta; as cortinas com desenhos de laranjas, pêras e bananas penduradas na janela de uma cozinha; a expressão da morte nos olhos de um homem exposta na capa de uma revista antiga; o único juramento sentido; o teor de uma mensagem escrita que não me era dirigida; a sombra das omoplatas na penumbra de uma sesta tropical; quatro versos de Borges; o assombro do amanhecer veneziano numa praça vazia; a lua cheia sobre as vinhas e o seu mesmo reflexo nas águas do mar; um copo de vodka numa tarde de início de novembro nos anos noventa; dois faróis separados por vinte anos e pela inocência; o meu primeiro Nabokov; a sensação deixada pelo pesadelo recorrente de um cão cego a atravessar uma rua de moradias baixas; o sorriso triste de acrílico que pintaram no meu retrato e o sofá onde se formou; os caixotes espalhados no chão de uma sala que nunca fiz minha; uma noite de febre nuns lençóis amarelos e a varanda com vista para Monsanto; o frio do deserto que se encapsulou na medula e se tornou permanente; a primeira letra do meu nome bordada num bibe de riscas verticais; a carta que destruí antes de ler e aquela outra que não deveria ter escrito; a terceira bandeira de uma praia de nevoeiro; o som do último bater da porta que sabia bater pela última vez; o cais das colunas numa madrugada de chuva; o anel que perdi propositadamente; esse abraço indesculpado que só eu sabia não ser o último; os nomes que demos aos objetos de uma casa com rosas gravadas nas paredes; a sonoridade do meu nome em sotaques diferentes; a memória da marca eterna de uma clavícula partida; o instante em que fui atingida pela evidência da minha própria falibilidade; os poemas inéditos de um poeta morto que rasguei num dia de raiva; aquelas duas horas em que conheci os cambiantes do medo; os pés do Eros de Caravaggio num museu de Berlim e dois outros pares de pés em duas outras ignotas partes do mundo; Adagio for Strings, de Bernstein e o Clair de Lune de Debussy; o sabor a romã na boca de um homem; o mergulho no mar de esta manhã.
E a tão pouco se pode resumir a autorizada memória de uma existência. 


sábado, 27 de agosto de 2016

prazo de validade

Foram tantos os regressos e tantas as partidas que a bagagem minimizou-se ao que coubesse em duas mãos cheias. Agora estás na minha frente e tudo o que consigo pensar é como foi possivel esquecer-me que és tão alto. Espreitamo-nos no fundo dos olhos mas só vislumbramos o que já trazíamos dentro de nós. Entretanto, correu um rio inteiro e as margens alargaram-se ao limite do intangível. Ouço-te falar sobre o tom do meu cabelo com o olhar de quem conta estórias sobre reinos longínquos de gigantes e unicórnios alados. Comovo-me com o equívoco. Estendo um braço mas não toco coisa alguma. Não te digo que já não existimos. O regresso é breve, a partida longa e um dia acabaremos por morrer.
Até a verdade tem um prazo de validade.

Funambulismo

Dentro de uma dessas caixas de papelão seladas por fita de seda cor-de-rosa está enrolada e arrumada a velha corda de funambulista por onde correram os meus pés descalços nas viagens entre os terraços dos arranha-céus da cidade.
O tempo limou dos pés as marcas desse vício mais antigo do que eu e o rasto que agora se cola à areia mostra um negativo igual ao de todos os outros. 
Não foi por medo de morrer que desisti de unir o cimo da cidade com as minhas cordas e fazer delas o caminho das estrelas. 
Foi por ter engolido a vertigem. 


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Diário de Bordo

Quando a minha tripulação vê o mês de agosto formar-se no horizonte, deixa de ser intrépida e valorosa e entrega-se à compulsão nacional burguesa que consiste num irresistível impulso para se enfiarem todos dentro de uma marina algarvia.
Foi assim que há cerca de 15 dias, rumando eu na direção da Noruega,  reparei que sempre que me afastava do leme, o navio, como se com foros de vontade sua, assumia imediatamente a rota algarvia. 
Uma noite, o Garcia Márquez e o seu livro de contos aliaram-se a esta tripulação viciada e viciosa, fazendo com que me distraísse no convés por largas horas. 
Adormeci com os pés civilizadamente frios, enrolados numa manta de arminho, e tive um pesadelo com mares sem cheiro.
Acordei afogada num charco de calor africano; mordeduras de melgas entre os dedos; pregões de bolinhas com e sem creme; a costa do Algarve, que estaria à vista, se não estivesse coberta por gente estendida nos areais... 
A minha tripulação, é claro, já se havia disperso por creparias, italianos, lojas de quinquilharia recordacional, saltitando feliz e veraneante entre as ondas e os pés do vizinho. 




segunda-feira, 8 de agosto de 2016

domingo, 7 de agosto de 2016

Éramos felizes e não sabíamos

Acordar com os gritos de Adhriminir, o cozinheiro pirata, a tentar apanhar o papagaio Polly para podermos ter carne ao almoço. Subir ao convés e tomar um brunch de panquecas de alga e ovos de gaivota. Escolher todos os dias uma peça de design nova para vender no OLX e garantir orçamento para livros. Usar tapa-olhos e chapéus comprados nos saldos de carnaval das lojas de chineses. Sentarmo-nos todos em frente ao espaço vazio onde antes foi a mesa de reuniões para planearmos um golpe exequível sem as armas que a nossa pobreza já não podia pagar. Assaltarmos botes de turistas pé descalço e no final do dia lutarmos uns contra os outros pelos três euros do saque. O cheiro da sopa de búzio e o sabor dos restos de rum diluídos em água do mar. 
Ah, a nostalgia dos dias em que ainda não não tínhamos aprendido a assaltar petroleiros...

sábado, 6 de agosto de 2016

Houve aquela tarde

Nunca consegui ensiná-lo a ver, não para além, mas através do aparato. 
Sentados no chão de terra batida, joelhos nus, mãos sujas, olhos límpidos, o sol a esvair-se para lá da montanha, eu a afiançar que podia ser apenas aquilo e ele ensurdecido pelo inoportuno tilintar das minhas pulseiras. 
Demorei muito tempo a perceber quão escura e densa é a cortina do aparato. Depois aprendi a amá-la. Daquela maneira como se ama a pequena cicatriz que se trouxe de lembrança de uma guerra que não foi ganha nem perdida.