(Amanhecer)
Desce da lua
uma gaivota azul
que tinge o céu
domingo, 13 de novembro de 2016
Irrazão
«A irrazão derrota-se a si mesmo», disse Ibn Rushd a Ghazali, pó ao pó, «devido à sua irrazoabilidade. A razão pode fazer uma soneca por algum tempo, mas o irracional está na maior parte das vezes em coma. No final, será o irracional a ficar para sempre enjaulado em sonhos, enquanto a razão vencerá.»
«O mundo com que os homens sonham», respondeu Ghazali, «é o mundo que tentam fazer.»
Salman Rushdie, Dois Anos, Oito Meses e Vinte e Oito Noites, D. Quixote, pg. 158, 159.
Uma destas manhãs
O Moby cantava na sala One of These Mornings. O cão pousou o cabeça nos meus joelhos. Um qualquer Tagik, o berbere contador de histórias, esperava dentro do livro aberto. O vizinho de baixo assava peixe na varanda. Uma nuvem tapou momentaneamente o sol. O telefone imitou o som de um sino. O cão levantou a cabeça dos meus joelhos. Eu já me tinha ido embora.
Haiku
Apaixonado
O gato esquece o arroz
colado aos bigodes
Tan Taigi (1709-1771)
(Roubado da net, de um site cujo endereço não guardei)
(Roubado da net, de um site cujo endereço não guardei)
sábado, 12 de novembro de 2016
Salman Rushdie e Trump
Fui há tempos a uma dessas livrarias conhecidas tentar comprar o último livro de Salman Rushdie. Não me lembrava do nome do livro e a menina que estava ao balcão nunca tinha ouvido falar de Salman Rushdie (mesmo depois de lhe soletrar o nome). Perguntou-me por um outro título que tivesse escrito e eu respondi-lhe com o óbvio Versículos Satânicos. A menina disse-me, notoriamente incomodada, que ali não vendiam livros "desses". Desproporcionadamente irritada, dirigi-me à mesa, a dez metros de distância, onde estavam expostos uns bons quilos de um livro infantil escrito pelo autor e entreguei-lhe um exemplar explicando-lhe que aquele era o autor de quem ela nunca tinha ouvido falar. Perguntou-me, então, sobre o que é que ele escrevia mas, infelizmente, não consegui encontrar resposta adequada a tão bizarra pergunta vinda de alguém que trabalha numa conceituada livraria. Isto passou-se em Lisboa, na semana anterior à anunciada chegada de Rushdie a Portugal.
Dois Anos, Oito meses e Vinte e Oito Noites, o livro em questão, e que agora tenho no colo, desconfio, foi escrito a pensar na menina que estava ao balcão da livraria. Rushdie podia ter contado esta boa estória da mesma forma genial que contou a história de Os Filhos da Meia Noite ou dos Versículos Satânicos. Mas, em vez disso, decidiu voluntariamente surfar esse tsunami da democratização da cultura e escrever um livro muito explicadinho que qualquer pessoa que saiba juntar letras pode compreender. Segundo li numa entrevista dada ao público, terá ficado muito satisfeito por a crítica ter dito que o livro é engraçado. Vivemos, pois, num mundo em que os génios da literatura querem escrever coisas engraçadas que possam ser do agrado da classe de pessoas que nunca ouviram falar de Rushdie. E, assim de repente, com este livro no colo, que podia ser genial mas é um livro engraçado, fiquei aqui a pensar para mim que este tipo de democratização - que é o mesmo que permitiu a Trump ganhar as eleições nos Estados Unidos da América - é resultado, contrariamente ao que se diz por aí, não de as elites não ouvirem o povo, mas antes de quererem fingir que o povo está certo e de o seguirem em vez de o dirigirem.
Nocturne op. 9/2
E enquanto luto com o piano ocorre-me que a humanidade, que controla a energia, as horas, a temperatura da terra, os efeitos das marés, os vírus, o desenvolvimento das células, é composta por pessoas maioritariamente incapazes de controlarem os seus próprios dedos das mãos.
sexta-feira, 11 de novembro de 2016
Tratado de Tortuga
Estávamos sentados, lado a lado, à mesa de um restaurante de Tortuga e lá fora caíam as primeiras chuvas quentes de novembro. Vi passar um casal que, pelas ruas desertas, caminhava de mãos dadas, encharcado até aos ossos, na lentidão de uma hora de sol manso.
Entre as entradas e o prato principal ele revelou-me os seus projetos de enriquecimento meteórico. Era um bom plano e um bom enriquecimento e se havia no mundo pessoa capaz de o levar a cabo era ele.
Disse-me ainda que, depois de enricar, tencionava, por fim, dedicar os seus dias a amar-me. Avaliei a proposta com os olhos fixos no casal que se afastava lentamente e não me pareceu completamente descabida.
Mas quando levei o copo à boca, percebi que o vinho azedara já na mesa.
Nunca antes, com tanta alegria, me haviam declarado um amor tão condicionado.
Num ou noutro porto, já tinha conhecido pessoas que me fizeram sentir ignorante ou mesmo estúpida. Mas foi a primeira vez que alguém me fez sentir miseravelmente pobre.
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Jack Sparraw
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
Desistência
Quando o céu se fecha e tudo se cala, por vezes, no silêncio invisível que pertence aos sonhos, a minha mente ainda segue o trilho da rebelião. É nessas alturas, entre o primeiro sono e o espaço da insónia, que te encontro.
Estamos sempre encurralados entre a opressora montanha e o infinito mar. Próximos mas não juntos. Separados pela espessa cortina de nevoeiro. É sempre madrugada, está sempre frio, a tua boca move-se e eu não consigo compreender o que dizes.
E, de todas as vezes, ainda antes de acordar, dou por mim, com escrúpulo milenar, a cumprir a desistência.
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
Demoquê?
O insólito, inesperado, inexplicável empate na eleição do futuro nome deste navio, além de demonstrar que entre a maravilha e o horror não há centésima que os separe, deixa sobre os meus ombros o terrível encargo da escolha.
Na solidão do convés (ou num restaurante em Nova Iorque) refleti muito, (ou fizeram-se estranhas coligações entre campanhas rivais) sobre a melhor forma de terminar com o impasse político que quase arrastava este navio para uma existência anónima.
Decidi (mas também há quem jure que foi um acordo entre os proponentes dos vários nomes) que este navio Pirata, afinal, já tinha um nome à sua espera: Aleph.
Nunca saberemos a verdade toda. E é por isso mesmo que precisamos de um Aleph, essa janela para a verdade que é a nossa.
Obrigada pelas vossas sugestões e pela participação neste ato eleitoral marcado por aquela especial forma de lisura que é timbre da pirataria.
Obrigada, especialmente, à Luísa (Asherah e o melhor nome a concurso), ao Onónimo Quiescente (Behemoth), ao Pipoco Mais Salgado (Conjurado), ao Manel Mau-Tempo (Driverswigger), à Mais Picante (barca do Desassossego), à Alexandra (Kraken) à Palmier Encoberto (a alucinante cimitarra de purpurinas) e ao Impontual que disse a palavra mágica que fez com que percebesse que o navio, afinal, já tinha nome.
E claro, o meu agradecimento especial à Lady Kina, sem a qual a democracia não teria a mesma graça.
(P.s. E o Pipoco Mais Salgado ganhou. Ele, no fundo, sempre quis que este navio se chamasse Aleph!!)
terça-feira, 8 de novembro de 2016
O Aleph
Na parte inferior do degrau, à direita, vi uma pequena esfera furta-cores, de brilho quase intolerável. Primeiro, supus que fosse giratória; depois compreendi que esse movimento era uma ilusão produzida pelos vertiginosos espectáculos que encerrava. O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava ali, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (o cristal do aparelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu a via claramente de todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a aurora e as tardes, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide, vi um quebrado labirinto (era Londres), vi intermináveis olhos próximos perscrutando em mim como um espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me reflectiu, vi num pátio da Rua Soler os mesmos ladrilhos que, há trinta anos, vi no saguão décima casa de Frey Bentos, vi cachos de uva, neve, tabaco, listas de metal, vapor de água, vi convexos desertos equatoriais e cada um dos grãos de areia, vi em Inverness uma mulher que não esquecerei, vi a violenta cabeleira, o altivo corpo, vi um cancro no peito, vi um circulo de terra seca numa vereda onde antes existira uma árvore (...) vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph de todos os pontos, vi o Aleph e no Aleph a terra, vi o meu rosto e as minhas vísceras, vi o teu rosto e senti vertigem e chorei, porque os meus olhos tinham visto esse objecto secreto e conjectural cujo nome os homens usurpam, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo.
O Aleph, Jorge Luis Borges (obras completas, volume I)
segunda-feira, 7 de novembro de 2016
Aviso
Queridos (e) leitores
Considerando a elevada afluência às urnas, com consequências ao nível do esgotamento dos boletins eleitorais, por um lado, e do aumento das baixas médicas com fundamento em tendinite, por outro, informa-se que o período de votação foi encurtado para amanhã, até às 23:59 horas.
Entretanto, deixo-vos, especialmente aos que votaram no nome proposto pela oposição, o inspirado poema da autoria do nosso poeta.
«Raciocínio lógico»
Que Desassossego esta votação,
Nem sei se hei-de votar Conjurado ou não,
Mas se até a pequena Cutxi votou,
No Asherah que ia à frente quando começou,
Agora nos post está uma discussão,
Sem se perceber onde está a razão,
Behemoth ou Driverswigger também são opções,
Mas têm poucos votos há outras soluções,
Qual Kraken mitológico,
Num raciocínio lógico,
Eis que surgem sem avisar,
Um nome sonante que está quase a ganhar,
Cimitarra de Purpurinas é o que lha chamam,
Se mudarem o voto ainda a apanham,
Este navio da Cuca já merecia um poema,
Tem muito assunto e um grande tema.
domingo, 6 de novembro de 2016
Um nome para este navio
Queridos leitores:
A incúria e a distração da autora deste blogue fizeram com que durante vários anos não se tivesse apercebido que a embarcação que por aqui pirateia não tem nome.
Esta deplorável falha está em vias de correção e ali, do lado direito, decorre uma votação de extrema relevância que acabará com a intolerável situação de anonimato.
Seis dos sete nomes colocados a votação são o produto do esforço criativo dos leitores deste blogue. São nomes lindos, maravilhosos, que captam o espírito deste navio e não nos envergonham em nenhum congresso da especialidade.
O sétimo nome corresponde à sugestão de uma blogger, ela própria com nome de bolo, feira após ingestão de vários copos de uma bebida alcoólica não identificada porém potente.
Foi ali colocado para vos dar a oportunidade de rejeitar o mal. Estudos científicos dizem que o ser humano liberta uma hormona que o faz sentir muito bem sempre que, sendo-lhe dada a oportunidade, rejeita o mal.
A capitã deste navio oferece-lhes o privilégio de uma trip, hormonal, gratuita e sem ressaca, ali ao vosso alcance, do lado direito. Tudo o que é preciso fazer é não votar no nome ridículo. Se não quiserem ter trabalho, votem no primeiro. Nem precisam ler tudo até ao fim. Mas se lerem até ao final, lembrem-se do estudo científico. Rejeitem o mal. Querendo, podem partilhar a sensacional experiência da trip hormonal provocada pela consciência do bem.
Antecipadamente grata.
sábado, 5 de novembro de 2016
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
quinta-feira, 3 de novembro de 2016
Diário de bordo
Quando os vi a todos rigorosamente vestidos, camisa com atilhos sobre o peito, chapéus, sabres, tapa-olhos e pernas de pau, comecei por pensar que, à revelia da minha expressa proibição de festejos importados de continentes bárbaros, estivessem a preparar-se para comemorar a noite das bruxas, mas em versão muito pior, como, em tudo, é timbre desta tripulação Pirata. Depois reparei nas expressões dramáticas, olhos lacrimejantes, postura nostálgico-saudosa, tudo devidamente acompanhado por lenços brancos prontos a ser esgrimidos em intermináveis acenos, e lá percebi que aquilo era uma festa de despedida.
Comuniquei-lhes que durante a minha ausência no congresso de piratas o comando do navio ficará entregue à Pequena Cutxi. Depois de uma das minhas aturadas reflexões de dez segundos, concluí que, entre todos, é o membro da tripulação que me oferece mais garantias de não conseguir provocar danos consideráveis na minha ausência. Além do mais, é tranquilizador saber que a devolução do comando do meu navio fica à distância de um triângulo de queijo ou, na pior das hipóteses, de uma bonita tiara de pechisbeque.
Parti no final daquela noite e cheguei às Caraíbas no dia seguinte.
O Pérola Negra não tem o conforto do nosso navio mas leva sobre ele a inegável vantagem de vir equipado com Jack Sparrow.
Sobre o lendário pirata, bom, direi apenas que me fez lembrar uma velha amiga e a sua bizarra filosofia relativamente a homens. Dizia ela que gostava muito de namorados intelectuais mas apenas durante o inverno. De verão, a praia, o sol, o mar, as longas madrugadas, bastava-lhe que fossem muito bonitos.
Nas Caraíbas é verão.
terça-feira, 1 de novembro de 2016
Dia dos mortos
Conheci a tristeza desolada de algumas mortes mas o permanente desgosto de uma única. A falta é um frio que nos encarquilha os ossos por dentro. É um órgão desenhado a vácuo que se instala entre os demais e reclama o seu espaço nas entranhas. Não admira, pois, que as nossas células trabalhem ativamente na sua rejeição.
O dia dos mortos é a terra de exílio das ausências desesperadas que o corpo já expulsou.
Um dia também eu conseguirei, neste dia, festejar o meu morto.
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