sexta-feira, 11 de novembro de 2016
quinta-feira, 10 de novembro de 2016
Desistência
Quando o céu se fecha e tudo se cala, por vezes, no silêncio invisível que pertence aos sonhos, a minha mente ainda segue o trilho da rebelião. É nessas alturas, entre o primeiro sono e o espaço da insónia, que te encontro.
Estamos sempre encurralados entre a opressora montanha e o infinito mar. Próximos mas não juntos. Separados pela espessa cortina de nevoeiro. É sempre madrugada, está sempre frio, a tua boca move-se e eu não consigo compreender o que dizes.
E, de todas as vezes, ainda antes de acordar, dou por mim, com escrúpulo milenar, a cumprir a desistência.
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
Demoquê?
O insólito, inesperado, inexplicável empate na eleição do futuro nome deste navio, além de demonstrar que entre a maravilha e o horror não há centésima que os separe, deixa sobre os meus ombros o terrível encargo da escolha.
Na solidão do convés (ou num restaurante em Nova Iorque) refleti muito, (ou fizeram-se estranhas coligações entre campanhas rivais) sobre a melhor forma de terminar com o impasse político que quase arrastava este navio para uma existência anónima.
Decidi (mas também há quem jure que foi um acordo entre os proponentes dos vários nomes) que este navio Pirata, afinal, já tinha um nome à sua espera: Aleph.
Nunca saberemos a verdade toda. E é por isso mesmo que precisamos de um Aleph, essa janela para a verdade que é a nossa.
Obrigada pelas vossas sugestões e pela participação neste ato eleitoral marcado por aquela especial forma de lisura que é timbre da pirataria.
Obrigada, especialmente, à Luísa (Asherah e o melhor nome a concurso), ao Onónimo Quiescente (Behemoth), ao Pipoco Mais Salgado (Conjurado), ao Manel Mau-Tempo (Driverswigger), à Mais Picante (barca do Desassossego), à Alexandra (Kraken) à Palmier Encoberto (a alucinante cimitarra de purpurinas) e ao Impontual que disse a palavra mágica que fez com que percebesse que o navio, afinal, já tinha nome.
E claro, o meu agradecimento especial à Lady Kina, sem a qual a democracia não teria a mesma graça.
(P.s. E o Pipoco Mais Salgado ganhou. Ele, no fundo, sempre quis que este navio se chamasse Aleph!!)
terça-feira, 8 de novembro de 2016
O Aleph
Na parte inferior do degrau, à direita, vi uma pequena esfera furta-cores, de brilho quase intolerável. Primeiro, supus que fosse giratória; depois compreendi que esse movimento era uma ilusão produzida pelos vertiginosos espectáculos que encerrava. O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava ali, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (o cristal do aparelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu a via claramente de todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a aurora e as tardes, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide, vi um quebrado labirinto (era Londres), vi intermináveis olhos próximos perscrutando em mim como um espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me reflectiu, vi num pátio da Rua Soler os mesmos ladrilhos que, há trinta anos, vi no saguão décima casa de Frey Bentos, vi cachos de uva, neve, tabaco, listas de metal, vapor de água, vi convexos desertos equatoriais e cada um dos grãos de areia, vi em Inverness uma mulher que não esquecerei, vi a violenta cabeleira, o altivo corpo, vi um cancro no peito, vi um circulo de terra seca numa vereda onde antes existira uma árvore (...) vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph de todos os pontos, vi o Aleph e no Aleph a terra, vi o meu rosto e as minhas vísceras, vi o teu rosto e senti vertigem e chorei, porque os meus olhos tinham visto esse objecto secreto e conjectural cujo nome os homens usurpam, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo.
O Aleph, Jorge Luis Borges (obras completas, volume I)
segunda-feira, 7 de novembro de 2016
Aviso
Queridos (e) leitores
Considerando a elevada afluência às urnas, com consequências ao nível do esgotamento dos boletins eleitorais, por um lado, e do aumento das baixas médicas com fundamento em tendinite, por outro, informa-se que o período de votação foi encurtado para amanhã, até às 23:59 horas.
Entretanto, deixo-vos, especialmente aos que votaram no nome proposto pela oposição, o inspirado poema da autoria do nosso poeta.
«Raciocínio lógico»
Que Desassossego esta votação,
Nem sei se hei-de votar Conjurado ou não,
Mas se até a pequena Cutxi votou,
No Asherah que ia à frente quando começou,
Agora nos post está uma discussão,
Sem se perceber onde está a razão,
Behemoth ou Driverswigger também são opções,
Mas têm poucos votos há outras soluções,
Qual Kraken mitológico,
Num raciocínio lógico,
Eis que surgem sem avisar,
Um nome sonante que está quase a ganhar,
Cimitarra de Purpurinas é o que lha chamam,
Se mudarem o voto ainda a apanham,
Este navio da Cuca já merecia um poema,
Tem muito assunto e um grande tema.
domingo, 6 de novembro de 2016
Um nome para este navio
Queridos leitores:
A incúria e a distração da autora deste blogue fizeram com que durante vários anos não se tivesse apercebido que a embarcação que por aqui pirateia não tem nome.
Esta deplorável falha está em vias de correção e ali, do lado direito, decorre uma votação de extrema relevância que acabará com a intolerável situação de anonimato.
Seis dos sete nomes colocados a votação são o produto do esforço criativo dos leitores deste blogue. São nomes lindos, maravilhosos, que captam o espírito deste navio e não nos envergonham em nenhum congresso da especialidade.
O sétimo nome corresponde à sugestão de uma blogger, ela própria com nome de bolo, feira após ingestão de vários copos de uma bebida alcoólica não identificada porém potente.
Foi ali colocado para vos dar a oportunidade de rejeitar o mal. Estudos científicos dizem que o ser humano liberta uma hormona que o faz sentir muito bem sempre que, sendo-lhe dada a oportunidade, rejeita o mal.
A capitã deste navio oferece-lhes o privilégio de uma trip, hormonal, gratuita e sem ressaca, ali ao vosso alcance, do lado direito. Tudo o que é preciso fazer é não votar no nome ridículo. Se não quiserem ter trabalho, votem no primeiro. Nem precisam ler tudo até ao fim. Mas se lerem até ao final, lembrem-se do estudo científico. Rejeitem o mal. Querendo, podem partilhar a sensacional experiência da trip hormonal provocada pela consciência do bem.
Antecipadamente grata.
sábado, 5 de novembro de 2016
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
quinta-feira, 3 de novembro de 2016
Diário de bordo
Quando os vi a todos rigorosamente vestidos, camisa com atilhos sobre o peito, chapéus, sabres, tapa-olhos e pernas de pau, comecei por pensar que, à revelia da minha expressa proibição de festejos importados de continentes bárbaros, estivessem a preparar-se para comemorar a noite das bruxas, mas em versão muito pior, como, em tudo, é timbre desta tripulação Pirata. Depois reparei nas expressões dramáticas, olhos lacrimejantes, postura nostálgico-saudosa, tudo devidamente acompanhado por lenços brancos prontos a ser esgrimidos em intermináveis acenos, e lá percebi que aquilo era uma festa de despedida.
Comuniquei-lhes que durante a minha ausência no congresso de piratas o comando do navio ficará entregue à Pequena Cutxi. Depois de uma das minhas aturadas reflexões de dez segundos, concluí que, entre todos, é o membro da tripulação que me oferece mais garantias de não conseguir provocar danos consideráveis na minha ausência. Além do mais, é tranquilizador saber que a devolução do comando do meu navio fica à distância de um triângulo de queijo ou, na pior das hipóteses, de uma bonita tiara de pechisbeque.
Parti no final daquela noite e cheguei às Caraíbas no dia seguinte.
O Pérola Negra não tem o conforto do nosso navio mas leva sobre ele a inegável vantagem de vir equipado com Jack Sparrow.
Sobre o lendário pirata, bom, direi apenas que me fez lembrar uma velha amiga e a sua bizarra filosofia relativamente a homens. Dizia ela que gostava muito de namorados intelectuais mas apenas durante o inverno. De verão, a praia, o sol, o mar, as longas madrugadas, bastava-lhe que fossem muito bonitos.
Nas Caraíbas é verão.
terça-feira, 1 de novembro de 2016
Dia dos mortos
Conheci a tristeza desolada de algumas mortes mas o permanente desgosto de uma única. A falta é um frio que nos encarquilha os ossos por dentro. É um órgão desenhado a vácuo que se instala entre os demais e reclama o seu espaço nas entranhas. Não admira, pois, que as nossas células trabalhem ativamente na sua rejeição.
O dia dos mortos é a terra de exílio das ausências desesperadas que o corpo já expulsou.
Um dia também eu conseguirei, neste dia, festejar o meu morto.
segunda-feira, 31 de outubro de 2016
domingo, 30 de outubro de 2016
A sexcentésima segunda noite
Como Xerazade ao rei Schahriar, também eu, na sexcentésima segunda noite, haverei de contar-te a história que já é a tua.
Serei gentil com as tuas fraquezas. Procurarei atenuá-las com rendas e cetins.
Indignar-te-ás com os traços de cobardia e não te reconhecerás no liso espelho.
Então, condenar-te-ás com uma dureza mil e uma vezes superior àquela de que eu seria capaz.
Depois adormeceremos em paz, apenas para que, no dia seguinte, te deixe viver um outro por-do-sol.
E tu, Cuca, o que fizeste com os sessenta minutos que os burocratas te ofereceram?
Trabalhei, já que ninguém explicou ao meu cão que era para dormir mais uma hora.
sábado, 29 de outubro de 2016
Seis graus de separação
It is the worst kind of yellowness to be so scared of yourself that you put blindfolds on rather than deal with yourself. To face ourselves - that's the hard thing.
The imagination - that's God's gift, to make the act of self-examination bearable.
Paul, in, Six degrees of separation
Rios de tinta
Veio ver-me num final de tarde de chuva.
Estava em pé em frente às grandes janelas a ver a água escorrer pela rua quando entraram para o anunciar.
A minha mão desenhou três frases na folha branca que dobrei em quatro e pedi que lhe entregassem.
Voltei a ocupar o meu lugar junto às janelas e fiquei por muito tempo, às vezes penso que para sempre, a ver a água escorrer pela rua.
Não voltei a aproximar-me das janelas, sobretudo, quando chove.
E nunca saberei qual a exata formação de letras que foi a arma do mais terrível dos meus crimes.
Registos
Mantenho o registo da existência própria em dois níveis antagónicos:
De um lado, numas asséticas agendas de capa preta onde informo um destinatário ignoto do detalhe da ocupação das horas públicas da minha vida.
Do outro, neste espaço virtual onde informo um destinatário ignoto do detalhe da ocupação dos pensamentos privados da minha vida.
No mais, destruo tudo:
- Comunicações, notas, fotografias e, sobretudo, o inútil rasto da memória.
Paraíso
Cheguei hoje ao Paraíso.
A empresa levou-me vários anos e custou-me penosas horas.
A verdade é que depois de passarmos pelo inferno e pelo purgatório já todos intuímos que o paraíso é a parte sobrevalorizada de qualquer obra. Também assim na de Dante.
Antes de fechar o livro, ajeitei cuidadosamente o marcador. É provável que vá ficar ali imóvel durante um longo período de tempo.
Adinal, o paraíso é uma excelente sala de espera para melhores dias.
A empresa levou-me vários anos e custou-me penosas horas.
A verdade é que depois de passarmos pelo inferno e pelo purgatório já todos intuímos que o paraíso é a parte sobrevalorizada de qualquer obra. Também assim na de Dante.
Antes de fechar o livro, ajeitei cuidadosamente o marcador. É provável que vá ficar ali imóvel durante um longo período de tempo.
Adinal, o paraíso é uma excelente sala de espera para melhores dias.
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
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