terça-feira, 27 de setembro de 2016

Emergência da verdade

Com a canícula ainda agarrada à carne 
e a emergência da verdade nos restos do sonho da sesta 
declaro-te que não sei do que falas quando dizes amor. 

Há também aquele anjo de louça, 
ajoelhado em inútil oração, 
de castigo de encontro à porta da vizinha inglesa, 
e lamento-o, quando por ele passo, depois do cansaço do dia,

Mas não lhe digo que o amo. 

Ou a papoila selvagem que insiste em nascer de um resto de terra, 
entre a calçada e o canteiro, 
e é o meu pequeno milagre do fim do inverno, 
que nunca sobreviverá à primeira lua do verão. 

Mas também a ela não juro amor. 

Há o gato que coabita o meu telhado e,
no sol frio da manhã,
estende a pata ferida para verificar a eficácia das garras contidas. 

Não seria capaz de amá-lo.

Nem sequer ao louco que desfila na rua
e engole com os olhos dementes
 os meus mais tristes segredos,
para os guardar dentro da bizarra cartola
que nunca  o vi estender 
na direção dos outros transeuntes.

E este ser 
que é soma do anjo de louça, 
da papoila intermitente, 
do gato ferido e do louco vadio, 
declara não supor, 
sequer, 
do que falas, 
quanto dizes amor. 





segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Música dos deuses


Antes de os deuses enlouquecerem

Houve um jardim com rosas suspenso no cume de uma montanha.
O sol mergulhava à hora certa na sétima onda da praia esquecida
E podia-se vê-lo cruzar-se com uma lua que era sempre azul,
Ambos no passo lento das valsas mornas, 
que é o abraço ligeiro dos amantes 
mais antigos
do que o mundo.

Uma manhã os deuses enlouqueceram de ciúme pelo amor dos homens.
Os olhares que deceparam a última das rosas, atearam o fogo à montanha 
E restou a cortina de fumo, que engoliu o sol e regurgitou uma lua cinzenta.
Estendendo a cegueira aos corpos desencontrados,
que são o alheamento profundo dos amantes
mais antigos 
do que o mundo. 

Os que ainda trazem entre os dentes os restos de uma rosa,
mas já esqueceram o contorno da mão que a plantou.






domingo, 25 de setembro de 2016

Essa outra Pirata

A mim não me puxa a compaixão, estou do lado deles, homens ruins de gengivas rotas, sou eu a mulher que têm durante as travessias, mulher incompleta e de pau, a quem entregam todos os terrores,
todos os clamores,
a quem acendem velas e renovam promessas. Sou eu que sei dos seus últimos cuidados, quando perdem um pé neste mundo e entram com o segundo no outro. Homens rudes, que arregaçam as mangas e mostram as cicatrizes, as tatuagens, corpos martirizados, tornam-se outra vez tenros, iniciais, limpos e pequeninos e chamam pela mãe. Ninguém, só eu, os consegue ouvir na transição. 

Ana Margarida de Carvalho, in, Não se pode morar nos olhos de um gato, Teorema

Lago Tanganica - o verdadeiro comunicado

A intrépida tripulação que compõe este navio, zarpou ontem dos mares profundos onde se encontrava, rumando aos bancos de areia do Lago Tanganica, numa inédita operação de resgate dos três habitantes que desapareceram após o anúncio de uma cimeira secreta com vista à resolução do problema criado por aquilo do concurso do melhor blog do ano e, mais especificamente, pelo facto de nenhum dos habitantes do Lago ter sido nomeado.
Chegados ao Lago, embarcámos nos nossos botes insufláveis, aqueles que sobraram dos saldos de verão da loja dos chineses, e seguimos o rasto dos desaparecidos. Pese embora a natural tendência para transformar qualquer ninharia em epopéia, devo aqui admitir que a empresa não foi difícil. Bastou-nos seguir o fumo dos cohibas. 
Fomos dar com os cimeirados, num dos bancos de areia, atrás de uns arbustos, rodeados pelos restos de um festim de Barca Velha, paté de flamingo, estranhos casacos de griffe e dossiers secretos do conselho de ministros. Estavam os três semi inconscientes e num estado absolutamente deplorável, mesmo para os liberais critérios de uma tripulação pirata praticante do relativismo ético.
Recolhidos os organizadores da cimeira, os nossos propósitos humanitários de libertação e salvamento, como, aliás, já é timbre desta tripulação, foram objeto de um ligeiríssimo desvio. 
Vamos manter a Palmier, o Pipoco Mais Salgado e o Senhor Ministro entre nós até que nos rendam a fortuna ou, pelo menos, a glória de uma vitória no dito concurso, para o qual nos autonomeámos, corrigindo assim uma grave injustiça do sistema capitalista que a todos oprime e nem a pirataria deixa incólume.
Ou, pelo menos, até que acordem. 
Tenham medo. 


sábado, 24 de setembro de 2016

Miragem



"O conceito corrige os olhos."

Ortega y Gasset, in A Rebelião das Massas

Tangos


Cuidados continuados

Nós, os de doença de alma crónica, sabemos como é aborrecida a permanente vigilância, o cuidado na recolha da temperatura, o critério na escolha do agasalho certo, a medição programada do tamanho da sombra, a análise química dos poluentes em redor. Às vezes, as pessoas saudáveis dizem-nos que devemos tirar a máscara, molhar os pés nas poças de lama, apanhar a chuva da manhã, correr pelas florestas, fazer amizade com os micróbios. 
Às vezes parece-nos tão verdade que rasgamos as paredes da redoma. 
Mas cedo regressamos ao castigo do quarto asséptico, incapazes de respirar; com os músculos demasiado doridos para nos susterem o esqueleto e os sonhos poluídos pelos germes que trouxemos debaixo das unhas. 

Sombras Chinesas



Levei a Anatomia da Melancolia, de Burton, mas confiscaram-mo juntamente com todas as outras iCoisas. 
Abandonaram-me, durante mais de meia hora, deitada numa cama, num espaço exíguo e quente. Ocupei o improgramado tempo de não existência a projetar sombras chinesas na parede. Quando finalmente se lembraram de mim e me perguntaram se estava pronta, respondi que não, que faltava libertar a princesa. 
Olharam para mim como se estivesse louca.
As pessoas tendem a menosprezar a necessidade de encerrar todas e cada uma das estórias. 

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Dentro da caverna de Platão

Passámos tanto tempo com as sombras como horizonte que esquecemos que a vida concretiza-se no relevo e no peso. Saberia reconhecer o anti-reflexo do ser em três dimensões distintas. Mas foi o simples toque de uma mão que me encheu de espanto. Um espanto animal. De carne. De coisa viva. E a imensidão das sombras, por um instante, diluiu-se nas veias. 

domingo, 18 de setembro de 2016

À mercê da lua

À grande lua pesaram-lhe todas as histórias de amor do universo. Soltou-se do céu. Encontrei-a caída logo a seguir à primeira curva da auto-estrada. Enorme, de um ouro antigo e muito cansada. 
Lembrei-me do poema que diz que a lua é o teu espelho. 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

As lições de vida do facebook

Não basta anular as imagens. 
Se não apagares o facto que documentam, este permanecerá na memória do sistema. Então, será uma memória tão indistintamente partilhável como qualquer outra. E o sistema perguntar-te-á, num qualquer dia de menor atividade, se queres partilhar com mundo a memória do facto, agora devidamente acompanhada pelo quadrado em branco que é o correspetivo da imagem representativa que substitui a que apagaste.
A única coisa que, afinal, conseguiste destruir. 
Nessa altura, poderás ver um bonito coração vermelho; um verso do teu poeta preferido ou, pior ainda, uma frase que não seja falsa, fazer-se acompanhar pelo mais absurdo vazio. 
Se tiveres sorte, essa memória amputada de objeto parecer-te-á uma composição preferível à original. 

Atrofia


Boletim meteorológico

Amanheceu o cheiro da chuva hoje, pela primeira vez em demasiado tempo. 
A pele já havia esquecido como são frias as gotas da chuva quando nos caem entre o pescoço e as omoplatas e deslizam livres pelas costas. É a chuva boa.
A alma, percebi-o, não esqueceu o dia em que a chuva veio e na sua violência afogou as rosas, levou os caminhos, impôs o silêncio ao mar. É a chuva má. 

*E a alma dirigiu-se para o corpo que a feriu de amor*

Methinks I have a mistress yet to come,
And still I seek, I love, I know not whom.

Isto é verdade, sem dúvida, em relação ao amor casto e não natural, mas não em relação à paixão heróica, que é verdadeiramente luxúria ardente e animal, e da qual estamos a tratar. Falamos de olhos delirantes, lascivos, adúlteros, que, segundo diz o autor, "estão sempre à espreita como soldados e, quando notam que um inocente espectador se fixou neles, trespassaram-no com as suas flechas e, nesse preciso instante, enfeitiçam-no. Isto acontece, sobretudo, quando fixam os olhares entre si, como amantes impúdicos que, com essa comprazida disputa de olhos, participam mutuamente das suas almas". Do que foi dito podereis aperceber-vos de como é fácil, e rápido, apaixonar-nos, pois basta uma piscadela de olho para que os espíritos de Fedro contaminem, de maneira tão perniciosa, o sangue de Liceas. "Isto também não é espanto nenhum se consideramos pormenorizadamente quantas doenças se apanham, furtiva e inesperamente, por infeção: peste, icterícia, sarna, cólicas, etc." Desde que os espíritos tenham penetrado, quem os recebeu nunca mais terá descanso, ficando sujeito à irritação causada por eles. Idque petit corpus mens unde est saucia amore*". E podemos aperceber-nos de uma estranha extração dos espíritos, como quando o nariz do morto sangra se o seu assassino estiver presente.

Robert Burton (1577-1640), in Anatomia da Melancolia, Quetzal 

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Espelhos

Encontraram-se na varanda. Ambas empenhadas na observação desse pedaço que falta à lua e que, na incompletude, a faz parecer quase humana. Pendurada, uma, pelos pés descalços no telhado, sentada, a outra, numa cadeira de balouço. Olharam-se demoradamente no silêncio confortável que é exclusivo dos velhos casais e dos eternos inimigos. A que se pendurava na noite foi a primeira a quebrar a harmonia:
- é cedo para ti. Esta lua ainda não é tua. 
A que se balouçava no escuro respondeu-lhe sem a olhar:
- é tarde para ti. Esta lua já não é tua. 
Então, por um momento, coexistiram pacificamente no mesmo espaço, a primeira na saudade da lua que foi, a segunda na expectativa da lua que será. 
E a lua brilhou, na noite, indiferente à cegueira de qualquer uma das duas.

domingo, 11 de setembro de 2016

Uma espécie de felicidade

Não sei dizer o que veio primeiro: Se as áridas noites que agora durmo abandonadas pelos sonhos que não me dou ao incómodo de sonhar; se a sucessão de dias que agora vivo despovoados de objetivos longínquos que não me dou ao incómodo de traçar. Sei que há uma espécie de felicidade nesta coerência de imbecilidades. Como se, por fim, tivesse chegado o momento em que já não preciso de mentir a mim própria. 
Por vezes, acordo durante a noite e observo o meu cão enquanto sonha. 
É uma criatura mais complexa do que eu. 

sábado, 10 de setembro de 2016

Cinzas

Choveram cinzas durante três dias. 
E agora que a estranha chuva finalmente parou, ainda nos vamos descobrindo, distraídos, a olhar para o céu ou para as costas da mão, à procura do pó que nos serviu de oráculo. 
Depois, retomamos a expressão grave, adequada a quem regressa da incineração dos anjos. 

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Desconstrução da felicidade

A melhor desconstrução do mito da felicidade, encontrei-a em Italo Calvino, em As Cidades Invisíveis, a propósito da sua imaginada cidade de Zenóbia, mas, sobretudo, válida para os seres humanos: "Dito isto, não vale a pena determinar se de deve classificar Zenóbia entre as cidades felizes ou entre as infelizes. Não é nestas duas espécies que faz sentido dividir a cidade, mas noutras duas: as que continuam através dos anos e das mutações a dar forma aos desejos e aquelas em que os desejos ou conseguem aniquilar a cidade  ou são eles aniquilados."
É substituir cidade por pessoa. 

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Esmola

Como o mendigo cego de Borges, antes de partir e levar na palma da mão as minhas últimas pedras, sem que também eu lhe tenha ouvido os passos ou me haja voltado para o ver perder-se ao alvorecer,  igualmente poderia ele ter dito:

– "Não sei qual é a tua esmola, mas a minha é espantosa. Ficas com os dias e as noites, com o siso, com os hábitos, com o mundo."

O preço, sei-o agora, foi bagatelar. 


Dia de citar Borges

P.S. 1924 – Já sou um homem entre os homens. Na vigília sou o emérito Hermann Soergel, que mexo num ficheiro e que redijo trivialidades eruditas, mas ao amanhecer sei, por vezes, que o que sonha é o outro. De tarde em tarde surpreendem-me pequenas e fugazes memórias, que porventura são autênticas. 

Jorge Luis Borges, A Memória de Shakespeare e Nove Ensaios Dantescos, Quetzal

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Autorizada memória

São fragmentos indistintos que nem sequer a ordem que pertence ao tempo sabem respeitar: 
os primeiros sapatos, vermelhos, com franjas caídas sobre os tornozelos escanzelados; um balão que se desenrolou do pulso, perdendo-se para sempre no azul do céu de agosto; um edifício em ruínas sobre o mar por cujas janelas sem vidros entraram as silvas, a manhã e o amor; o jardim de laranjeiras onde uma inusitada cama de rede ainda balouça ao ritmo do vento norte; o sol a apagar-se no pó da interminável pista de um aeroporto esquecido; as fotografias antigas nas paredes de um quarto que cheirava a restos de praia; uma goma em forma de ovo estrelado sobre a almofada de um hotel madrileno e o chapéu alto do seu porteiro; o corredor estreito de um outro hotel que a ânsia de um abraço tornou interminável; o rasto de sangue que ficou na palma da mão aberta; as cortinas com desenhos de laranjas, pêras e bananas penduradas na janela de uma cozinha; a expressão da morte nos olhos de um homem exposta na capa de uma revista antiga; o único juramento sentido; o teor de uma mensagem escrita que não me era dirigida; a sombra das omoplatas na penumbra de uma sesta tropical; quatro versos de Borges; o assombro do amanhecer veneziano numa praça vazia; a lua cheia sobre as vinhas e o seu mesmo reflexo nas águas do mar; um copo de vodka numa tarde de início de novembro nos anos noventa; dois faróis separados por vinte anos e pela inocência; o meu primeiro Nabokov; a sensação deixada pelo pesadelo recorrente de um cão cego a atravessar uma rua de moradias baixas; o sorriso triste de acrílico que pintaram no meu retrato e o sofá onde se formou; os caixotes espalhados no chão de uma sala que nunca fiz minha; uma noite de febre nuns lençóis amarelos e a varanda com vista para Monsanto; o frio do deserto que se encapsulou na medula e se tornou permanente; a primeira letra do meu nome bordada num bibe de riscas verticais; a carta que destruí antes de ler e aquela outra que não deveria ter escrito; a terceira bandeira de uma praia de nevoeiro; o som do último bater da porta que sabia bater pela última vez; o cais das colunas numa madrugada de chuva; o anel que perdi propositadamente; esse abraço indesculpado que só eu sabia não ser o último; os nomes que demos aos objetos de uma casa com rosas gravadas nas paredes; a sonoridade do meu nome em sotaques diferentes; a memória da marca eterna de uma clavícula partida; o instante em que fui atingida pela evidência da minha própria falibilidade; os poemas inéditos de um poeta morto que rasguei num dia de raiva; aquelas duas horas em que conheci os cambiantes do medo; os pés do Eros de Caravaggio num museu de Berlim e dois outros pares de pés em duas outras ignotas partes do mundo; Adagio for Strings, de Bernstein e o Clair de Lune de Debussy; o sabor a romã na boca de um homem; o mergulho no mar de esta manhã.
E a tão pouco se pode resumir a autorizada memória de uma existência. 


sábado, 27 de agosto de 2016

prazo de validade

Foram tantos os regressos e tantas as partidas que a bagagem minimizou-se ao que coubesse em duas mãos cheias. Agora estás na minha frente e tudo o que consigo pensar é como foi possivel esquecer-me que és tão alto. Espreitamo-nos no fundo dos olhos mas só vislumbramos o que já trazíamos dentro de nós. Entretanto, correu um rio inteiro e as margens alargaram-se ao limite do intangível. Ouço-te falar sobre o tom do meu cabelo com o olhar de quem conta estórias sobre reinos longínquos de gigantes e unicórnios alados. Comovo-me com o equívoco. Estendo um braço mas não toco coisa alguma. Não te digo que já não existimos. O regresso é breve, a partida longa e um dia acabaremos por morrer.
Até a verdade tem um prazo de validade.

Funambulismo

Dentro de uma dessas caixas de papelão seladas por fita de seda cor-de-rosa está enrolada e arrumada a velha corda de funambulista por onde correram os meus pés descalços nas viagens entre os terraços dos arranha-céus da cidade.
O tempo limou dos pés as marcas desse vício mais antigo do que eu e o rasto que agora se cola à areia mostra um negativo igual ao de todos os outros. 
Não foi por medo de morrer que desisti de unir o cimo da cidade com as minhas cordas e fazer delas o caminho das estrelas. 
Foi por ter engolido a vertigem. 


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Diário de Bordo

Quando a minha tripulação vê o mês de agosto formar-se no horizonte, deixa de ser intrépida e valorosa e entrega-se à compulsão nacional burguesa que consiste num irresistível impulso para se enfiarem todos dentro de uma marina algarvia.
Foi assim que há cerca de 15 dias, rumando eu na direção da Noruega,  reparei que sempre que me afastava do leme, o navio, como se com foros de vontade sua, assumia imediatamente a rota algarvia. 
Uma noite, o Garcia Márquez e o seu livro de contos aliaram-se a esta tripulação viciada e viciosa, fazendo com que me distraísse no convés por largas horas. 
Adormeci com os pés civilizadamente frios, enrolados numa manta de arminho, e tive um pesadelo com mares sem cheiro.
Acordei afogada num charco de calor africano; mordeduras de melgas entre os dedos; pregões de bolinhas com e sem creme; a costa do Algarve, que estaria à vista, se não estivesse coberta por gente estendida nos areais... 
A minha tripulação, é claro, já se havia disperso por creparias, italianos, lojas de quinquilharia recordacional, saltitando feliz e veraneante entre as ondas e os pés do vizinho. 




segunda-feira, 8 de agosto de 2016

domingo, 7 de agosto de 2016

Éramos felizes e não sabíamos

Acordar com os gritos de Adhriminir, o cozinheiro pirata, a tentar apanhar o papagaio Polly para podermos ter carne ao almoço. Subir ao convés e tomar um brunch de panquecas de alga e ovos de gaivota. Escolher todos os dias uma peça de design nova para vender no OLX e garantir orçamento para livros. Usar tapa-olhos e chapéus comprados nos saldos de carnaval das lojas de chineses. Sentarmo-nos todos em frente ao espaço vazio onde antes foi a mesa de reuniões para planearmos um golpe exequível sem as armas que a nossa pobreza já não podia pagar. Assaltarmos botes de turistas pé descalço e no final do dia lutarmos uns contra os outros pelos três euros do saque. O cheiro da sopa de búzio e o sabor dos restos de rum diluídos em água do mar. 
Ah, a nostalgia dos dias em que ainda não não tínhamos aprendido a assaltar petroleiros...

sábado, 6 de agosto de 2016

Houve aquela tarde

Nunca consegui ensiná-lo a ver, não para além, mas através do aparato. 
Sentados no chão de terra batida, joelhos nus, mãos sujas, olhos límpidos, o sol a esvair-se para lá da montanha, eu a afiançar que podia ser apenas aquilo e ele ensurdecido pelo inoportuno tilintar das minhas pulseiras. 
Demorei muito tempo a perceber quão escura e densa é a cortina do aparato. Depois aprendi a amá-la. Daquela maneira como se ama a pequena cicatriz que se trouxe de lembrança de uma guerra que não foi ganha nem perdida. 

domingo, 31 de julho de 2016

Deslucidez

Como o padre António Isabel do conto de Gabriel Garcia Márquez, "Um Dia depois do sábado", também eu acredito, em momentos de menor lucidez, que é possível alcançar a felicidade na terra, quando não está muito calor. 

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Gaiolas

Pendurados na grande gaiola de grades da cor do falso ouro, despedimo-nos o número de vezes suficiente para entreter uma plateia de deuses entediada até à crueldade. 
Despedir-nos para sempre foi o número circense em que nos tornámos exímios. Creio que vieram de longe, deixando um rasto de pó de estrelas, antes de se sentarem em apinhadas nuvens a ver-nos dançar tangos últimos, uns atrás dos outros. 
Da última vez substituíram-nos o mar por um rio. Há qualquer coisa de definitivo nos rios que não se pressente na infinitude de um oceano único. 
Veio uma noite maior do que as outras e os deuses cobriram a gaiola com um pano de seda azul e esqueceram-se de nós, aqui presos, ao som de uma milena desafinada e sem outro ofício que não seja o de nos despedirmos para sempre. 

Hearts


quinta-feira, 28 de julho de 2016

Palavras

A bem da libertação das palavras, queimou todas as cartas físicas e apagou as eletrónicas. Então as palavras soltaram-se da triste prisão da sua história e voaram livres pelos céus, em bandos migratórios, na busca de um reino onde um resto de verdade lhes restituísse o sentido da sua existência. Da varanda do convés, vi-as passar esta manhã. Voavam demasiado alto para que as pudesse alcançar com os braços erguidos. E, de uma forma ou de outra, nenhuma delas me pertenceu de verdade.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Diário de Bordo

O mundo todo

O adágio chegou ao fim e eu recebi o silêncio sem leve sombra de comoção. Não me soube comover a música, ou a lua, ou um verso, ou qualquer uma das auroras que se seguiram. 
É assim que deve ser.
O mundo encolheu até ao absurdo tamanho de um berlinde de vidro colorido.
Pode ver-se através dele.
Essa pequena esfera que transporto junto ao corpo e que há de ficar esquecida na areia da praia, dentro de um dos bolsos dos calções, é o mundo todo. 

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Disso, da magia dos blogues


Outro Entre, in, TalqualmenteOutro 

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Desertos


A mim, que sou do mar, não sei de onde me vem esta saudade do deserto. Uma aurora feita de pó, o sabor da areia na boca, a recordação de um fio de azul a reaparecer por entre as dunas, o cheiro da gruta onde desenhámos o que talvez fosse o futuro. 
Essa noite feita de estrelas e de frio à qual sempre regresso quando adormeço. 

sábado, 16 de julho de 2016

Outros ciganos


Olhar para trás

A propósito de passagem sobre a mulher de Lot, em Caim (de José Saramago), lembro-me de Orfeu e Eurídice, esses desgraçados, e pergunto-me o que tanto enfurece os deuses nas pessoas que olham para trás. A mulher de Lot, transformada em estátua de sal por ter ousado voltar o rosto para as chamas que, nas suas costas, consumiam sodoma e gomorra. Eurídice, devolvida às profundezas do reino dos mortos, pela indiscrição ansiosa de Orfeu, que olhou para trás, para avistar a amada.
Olhar para trás não é apenas uma forma de evitar os espelhos, é a única maneira de compreender o seu reflexo. Talvez os deuses incriminem a autoconsciência. Essa empresa concorrente no negócio monopolista do destino. 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Resumo do dia

Mas em mau.

Filhos de deus

Pela fé, Abel ofereceu a Deus um sacrifício melhor do que o de Caim. Por causa da sua fé, Deus considerou-o seu amigo e aceitou com agrado as suas ofertas. E é pela fé que Abel, embora tenha morrido, ainda fala.
(Hebreus, 11, 4)
LIVRO DOS DISPARATES

Citação retirada de Caim, José Saramago. 

Todos os homicídios têm dezenas de justificações possíveis. É inútil tentar compreendê-las. 

Das férias grandes

Como as crianças, conto os anos começando pelo mês de setembro. 
Este ano termina hoje. 
Teve horas a mais. Vivi ocasos a menos. Perdi duas ou três luas. Esqueci alguns encontros com o mar. Não colecionei todos os céus. Dei mais aos livros do que às pessoas. Recebi incomparavelmente mais das pessoas do que dos livros. Descobri que a música é uma obsessão de eficácia superior à compulsão para fazer muffins. Renovei o exílio por outro ano. Talvez seja a minha pátria. Continuei a falhar, mas falhei melhor. 



quinta-feira, 14 de julho de 2016

terça-feira, 12 de julho de 2016

uma música para a noite


LEBENSWEISHEITSPIELEREI

A enfraquecer, cai a luz do sol
Na tarde. Os orgulhoso e os fortes
Já partiram.

Aqueles que restaram são os incompletos,
Os finalmentemente humanos,
Nativos de uma esfera diminuída 

A sua indigência é uma indigência 
Que é a indigência da luz 
Uma palidez estelar pendurada nos fios

Aos poucos, a pobreza 
do vazio outonal transforma-se
Num olhar, em poucas palavras ditas.

Cada pessoa toca-nos por completo 
Com aquilo que é e como é, 
Na estéril grandeza da anulação.  

Wallace Stevens, traduzido do inglês por Cuca, a Pirata


Weaker and weaker, the sunlight falls
In the afternoon. The proud and the strong
Have departed.

Those that are left are the unaccomplished,

The finally human,
Natives of a dwindled sphere.

Their indigence is an indigence

That is an indigence of the light,
A stellar pallor that hangs on the threads.

Little by little, the poverty

Of autumnal space becomes
A look, a few words spoken.

Each person completely touches us

With what he is and as he is,
In the stale grandeur of annihilation.

(Versão original)

Poemness

À tardinha, naquela hora definitiva que precede o esmorecer do dia, quando a casa parece subitamente mais vazia e se repara no ondular embalado das cortinas de linho e não há jazz que encha o espaço e os miúdos que brincam na rua já recolheram ao banho e sabemos que nada poderemos fazer para agarrar o dia que começa a dissolver-se na noite, preciso, às vezes, de um poema. Então procuro-o na estante e em folhas soltas e em cadernos de notas, e acontece-me, às vezes, não o encontrar em Fiama, em Stevens e nem sequer nos vários volumes de Borges. E então esqueço o Globo, que fica, assim, suspenso, a ondular ao ritmo das cortinas, que é também o ritmo do vento e do mar, e procuro melhor o poema que me falta.
E, às vezes, sabes, não consigo encontrá-lo em canto em canto algum, porque o poema que me falta pertence à superfície plana que é o teu espólio dos poemas que me faltam, à tardinha, naquela hora que precede o esmorecer do dia, quando a casa parece subitamente mais vazia, e apenas tu o podes encontrar por, para, mim. Às vezes.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Os homens que nos amam a todas


Um dos motivos pelos quais vim para Pirata foi para fugir dos homens que me amam. 
Neste navio ninguém me ama e, parecendo que não, esse é um factor não desprezível no aumento da minha qualidade de vida. 
Como a minha existência tem o condão de se pautar pela falta de originalidade, sou obrigada a presumir que não haja mulher com mais de trinta e cinco anos que se preze que não tenha pelo menos cinco homens na sua vida que se dedicam à tarefa de amarem loucamente. Claro que falo de um amor especial. Falo daquele tipo de amor louco, permanente e insistente que alguns homens conseguem manter durante toda a vida, enquanto vivem a dita, a fazer outras coisas mais interessantes, como por exemplo, ir viver para África, viajar pelo mundo inteiro e estar casado com outras.
Os homens que me amam são pessoas fantásticas que, contrariando o mito de que o sexo masculino não consegue fazer mais do que uma tarefa de cada vez, ocupam-se da atividade de me amar profundamente ao mesmo tempo que fazem safaris no Quénia, enfiam anéis de brilhantes da Tiffanys a outras, limpam o ranho dos filhos e compram tampões para as respetivas mulheres nas raras fases em que não estão grávidas.
Estas criaturas maravilhosas carregam com elas o seu eterno e omnipresente amor por mim enquanto vão vivendo vidas feitas de um sacrifício atroz, sempre em nome de um interesse superior, que tanto pode ser a necessidade de construir uma carreira internacional como a simples obediência ao dever moral de estarem para ali, até que a morte os colha.
Quando o tédio do quotidiano os faz sentir tão miseráveis que até parece que estão já mortos, resta-lhes o consolo interior de se saberem pessoas especiais, consistindo tal especialidade na circunstância de me amarem para sempre. Nessas alturas, imbuídos pela grandeza da paixão que há tantos anos sentem por mim, os olhos brilham-lhes, os lábios entreabrem-se para deixar escapar um profundo suspiro, a consciência desse sentimento garante-lhes a congregação das duas gotas de adrenalina que lhes circulam nas veias, as suas vidas assumem as cores do grandioso sacrifício que fizeram e o espelho lá de casa devolve-lhes a imagem de um Ulisses que um dia há-de retornar a coisa nenhuma.
Os homens que me amam seriam mais suportáveis se aquela nefasta reunião das duas gotas de adrenalina que ainda lhes restam não os levasse, invariavelmente, à urgente necessidade de entrarem em contacto comigo - estatisticamente falando, quando eu estou a dormir, a trabalhar ou a comprar sapatos -  para me comunicarem o facto de, contra todas as expetativas e pese embora as minhas preces noturnas, ainda me amarem loucamente. Depois da comunicação sofredora, uma vez cometida esta loucura arriscadíssima que quase mudou radicalmente o curso das suas vidas, as harmonas lá se recompõem, África parece mais confortável, o ranho dos filhos mais doce, os tampões das mulheres menos deprimentes e torna-se mais fácil retornarem à tarefa de me amar loucamente enquanto vivem as suas vidas.
Estes homens que me privilegiam com o seu amor, é claro, não me têm qualquer préstimo. Não me mudam os pneus do carro, não me fazem canja quando tenho gripe, não me lavam o cabelo, não testemunham a minha vida, nem sequer me aparecem na frente. A sua missão é carregarem ao longo das suas vidas o seu inútil amor por mim e comunicar-mo comovidamente, pelo menos, a cada seis meses. Também me telefonam todos no dia do meu aniversário, normalmente, de seguida, por forma a que, nalguns anos, já me interroguei se estariam todos na fila da mesma cabine telefónica.
Os homens que me amam, antes de eu vir para Pirata e cortar amarras com a minha existência anterior, eram uma praga metafísica na minha vida.
Além de me interromperem o sono, o trabalho e o prazer da aquisição de sapatos, eram a armadilha dos dias maus. Aqueles em que a falta de horas dormidas, o cansaço da labuta ou a inexistência do número 36 naquelas sandálias fantásticas, me rasteiravam um pé e eu caía na asneira de me perguntar se a minha vida poderia ter sido mais feliz se se desse o caso de algum desses homens que me amam não ser tão obscenamente cobarde.
Aqui, sentada no deck deste navio, com o "Estudos Sobre o Amor", do Gasset, caído sobre o colo e a lua a brilhar na minha frente, não tenho a menor dúvida que a resposta é uma rotunda negativa.




domingo, 10 de julho de 2016

Sódio


Tenho nos ombros os restos do mesmo mar que esta manhã te lambeu os pés. 

É o suportável limite de intimidade. 

Diário de Bordo

Neste navio não há ar condicionado. Suporto com facilidade todas as outras limitações civilizacionais inerentes ao facto de viver no meio do mar, acompanhada por intrépidos piratas. Não sinto falta da televisão que antes me fazias as vezes de aquário ou de lareira, consoante a estação do ano; nem das livrarias, que se tornam prescindíveis quando se descobrem os cinco ou seis livros de onde derivam todos os outros; nem dos cinemas, agora transformados em salas de piquenique fast food; nem dos serviços de estética, que são inúteis quando se assume que a castidade continua a ser a maneira mais inteligente de evitar o amor. 
Tenho, contudo, a nostalgia do ar condicionado. Não há brisa marítima que se compare ao luxo de carregar num botão que, em três minutos, nos destempere. 
Fui ao baú buscar o leque vermelho de bolinhas negras que comprei em Sevilha quando ainda era burguesa, deitei-me no convés com um livro e pedi a Andrhiminir, o cozinheiro pirata, que me abanasse com ele durante meia hora. Mas o imprestável viking, no geral pouco comunicativo, aproveita-se destes momentos para reivindicar melhores condições de trabalho, como uma segunda bimbi ou uma faca de cozinha elétrica que viu num folheto promocional, e faz mais barulho do que o motor dos ares condicionados antigos. 
Foi então que me lembrei que nunca assaltámos nenhum bacalhoeiro e que essa é uma desculpa tão boa como outra qualquer para abandonarmos as Caraíbas e rumarmos aos Fiordes. 
A verdade é que o meu sonho sempre foi ter um icebergue para uso exclusivo.

Ouvido à saída da praia

- erradicar não existe.
- ah, existe, existe.
- não. O que existe é irradiar. Estás a inventar coisas.
- existe! Irradiar é para o calor.
- não existe erradicar!
- quando chegarmos a casa já te mostro o que é quer dizer!

Dado o tom exaltado da discussão, ocorreu-me que o meio de prova que ele tinha em mente talvez não fosse um inocente dicionário. 

sábado, 9 de julho de 2016

35•

Trinta e cinco graus. Ainda.
Esqueci o chá de romã no congelador e quando regressei estava ultrapassado aquele ponto em que o chá gelado se transforma em gelado de chá.
O cão continua deitado no chão, onde o deixei, indiferente ao suborno do biscoito, desesperado por um pouco de frescura e a olhar para mim como se me responsabilizasse por este inferno. 
Estando fora de questão suportar a praia debaixo deste calor, ocorreu-me que a coisa mais próxima que poderia fazer era comprar biquínis. Comprei muitos. Alguns com lantejoulas e pregadeiras. Não servem para a praia mas ficam muito bem no mosaico da sala. Único sítio onde eu e o cão conseguimos existir. Aqui deitados, lado a lado, responsabizando-nos mutuamente, ele pelo calor, eu pelas minhas dores nas costas.
Lá fora, numa varanda próxima, um rapaz canta o Nessun Dorma de Puccini. Desligo a música para o ouvir. 
As gaivotas também não dormem já há várias noites. 
Estão trinta e cinco graus e faltam oito dias para as férias grandes. 
Daqui, do chão da sala, de onde vos escrevo, o mundo parece-me cada vez mais estranho.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

O admirável mundo dos relaxantes musculares

Parece-me que o sol já era tórrido e infernal quando, às duas e meia da manhã, fui arrancada da onírica sensação de deserto por uma insuportável dor nas costas. Não estava deitada na areia, coberta pelos panos da tenda berbere, mas a cama sabia àquilo que sabem cada um dos meio-dia no deserto.
Já alguém deve ter estabelecido uma correlação científica de proporcionalidade inversa entre as temperaturas demasiado elevadas e o grau de tolerância à dor. É tão óbvia que julgo impossível não estar documentada.
Mais de doze horas e muitos ibuprofenos e paracetamois de diversas cores depois, apresentaram-me essa maravilha da medicina que dá pelo nome genérico de relaxante muscular. 
A perspetiva empírica permite-me jurar que a alma é um músculo. 
Há toda uma lixeira de angústias, pequenos e grandes afazeres, preocupações quotidianas de vários níveis de gravidade. 
E depois há o efeito incinerador de um comprimido de tamanho inofensivo que faz desaparecer as dores nas costas e todo o globo que sobre elas assenta. 
É noite e lá fora, dizem-me, estão trinta e cinco graus. 

domingo, 3 de julho de 2016

Sorria, está a tocar o Danúbio Azul

Na terceira linha da pauta estava inscrita a palavra simile - que, partilho com quem não sabe, na música, é uma instrução de repetição - e que foi por mim assumida como Smile
Então, juntaram-se a minha rigorosa determinação em aprender sem aldrabices, a cega odediência aos comandos, o terror ao leve desvio à composição e as inoportunas férias da minha professora de piano. 
Apesar das dores nos dedos da mão esquerda, de uma certa frustração por não acertar com o ritmo e de alguma perplexidade com aquela instrução,  consegui passar um considerável número de horas a esforçar-me por sorrir sempre que tentava tocar aquela frase do Danúbio Azul. 
E agora hei-de sorrir, para sempre e sem esforço, de todas as vezes que voltar a tocar aquela passagem, assim se comprovando, ainda que de uma estranha forma, aquela coisa dos vícios de má aprendizagem.

Sanidade mental

Todas as cidades deveriam ter um cemitério de amores perdidos. Uma aliança entre a geografia e a desilusão. Comprávamos amorosas lápides de mármore branco que, em ocasionais mas sentidas visitas, decoraríamos com coroas fúnebres de violetas ou margaridas. 
E um nome inscrito em letras douradas, ali, entre milhares de outros nomes, sob o sol e sob a chuva, a desvanecer-se ao ritmo do nosso esquecimento.
Como seria terapêutico, ter um depósito de amores perdidos. Um sítio onde os deixar, quando já não nos trazem qualquer préstimo e nem sequer cabem na organização doméstica.

sábado, 2 de julho de 2016

O velho, o rapaz e o burro


Os que nos envergonharam por termos chorado Paris, são os mesmos que nos condenam por calarmos Istambul. 

Verões indignos

Sonhei, em tempos, com um pátio andaluz, balouços de verga e almofadas de linho, com vista para a porta de madeira vermelha de uma casa térrea. Era o entardecer e uma guitarra descansava de encontro à cal da parede impossivelmente branca. 
Perguntou-me se os últimos verões foram dignos e, por vício de contradição, obstei ao conceito de dignidade das estações. Então lembrei-me de pequenas felicidades, como a camisola a acordar os nervos dos ombros salgados, a areia encharcada que a última maré do dia estende aos resistentes, o barco abandonado nos juncos que ensombram a barragem vazia, aquele instante em que o corpo cai no sono num colchão a flutuar na piscina silenciosa. Todos eles foram há demasiado tempo.
Percebi o que me queria dizer o sonho. 
É preciso restaurar a dignidade das estações. 


segunda-feira, 27 de junho de 2016

Inconsciência

Disse Emil Cioran que a insconsciência é uma pátria e a consciência o exílio. Não sei qual dos dois seria desconhecido de Cioran: a inconsciência ou o exílio. Exilamo-nos quando a consciência torna a pátria um lugar inóspito, inabitável. 

Nós, os dos setenta anos de blogues...

... Sabemos que às vezes não temos nada para dizer. Também sabemos que não vale a pena entrar em pânico e anunciar o fim do blogue. Se ignorarmos a falta de inspiração, se nos sentarmos a reler Borges, se olharmos para este miserável fiapo de lua, se, por sorte, um dos cem canais nos oferecer um filme decente, se nos cruzarmos com a música que precisamos, se entrarmos no elevador certo à hora que as estrelas marcaram, se uma fotografia acordar os nossos sentidos, Tagik, o berbere contador de estórias que há em nós, há de encontar qualquer coisa de imprescindível partilha.

(E se nada disso quiser acontecer, podemos inventar que estivemos de férias)

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Anatomia de todas as insónias

A insónia saiu de Lisboa, onde pertence, percorreu vários quilómetros e encontrou-se comigo a sul. Passámos juntas a última madrugada, sentadas numa cadeira, na varanda, a ouvir os gritos das gaivotas e a comer gelados.
Juntaram-se-nos os dos costume: Preocupações irresolúveis de índole burocrática que nunca surgem em período diurno; rastos de culpa por pecados prescritos; listas amarelecidas de decisões que não chegaram a ser tomadas; a lembrança de todas as mensagens que ficaram por responder; a sensação de uma antiga presença que é sombra da própria insónia e a acompanha para todo o lado. O cão veio visitar-nos por três vezes e de todas regressou à cama, aliviado, por aquela insónia não ser sua. Reparei que entre a noite e o dia fica uma faixa temporal, índigo, de não mais de dez minutos. 
O tempo exato que precisava para revogar todas as decisões conscientes que tomei na vida. 
Às vezes penso que aquelas pessoas que não se arrependem de nada são as mesmas que não conhecem a insónia. 

terça-feira, 21 de junho de 2016

Je te laisserai des mots


Aprender as despedidas

E quem visse o desapego, um abraço moderado entre os três e os quatro segundos, um último olhar dentro dos olhos, a expressão alienada de quem já está noutro destino, o silêncio do pragmatismo, o ligeiro aceno de cabeça que importei de Hollywood, nenhuma auréola vermelha em redor dos olhos secos, dez passos firmes na direção oposta, o pescoço obediente que não se voltou, e quem visse o desapego, dizia, nada suspeitaria sobre a convulsão engolida, os batimentos do coração a desfazerem os tímpanos, a falta de um chão sob os pés, a vertigem súbita da saudade. A violência de tudo aquilo que é definitivo. 
Para não estar ali, por não suportar estar ali, por não querer que ele me visse ali, fiquei a observar-me de cima, isenta, orgulhosa, quase, da anulação desse último resto de humano que há na indignidade de uma despedida. 



segunda-feira, 20 de junho de 2016

Terá de bastar um solstício



Por mais que se anseie por uma chuva de sapos, ou um horizonte em tons de ouro e cinza que nos seja inesquecível, ou uma noite de violenta trovoada no mar, ou um cometa que nos caia junto aos pés, ou qualquer outro marco iconoclasta que sirva os propósitos da catarse, por vezes, não há ruído que nos venha arrancar à letargia. 
Nessas alturas, terá de bastar um solstício.  


(Imagem de George Grie, trazida pela Flor e demasiado bonita para ficar numa caixa de comentários)

domingo, 19 de junho de 2016

Esta noite a lua

Pendurei-me novamente pelos pés para, daqui, do cimo do mastro, assistir ao estender dessa manta lilás que é a noite do sul. 
Veio a lua grande e trouxe-o. 
A lua é a janela por onde o espreito. 
Se olhar com atenção consigo ver o velho porto e os barcos que, a esta hora, balouçam vazios. Com exceção de um, que  se move devagar e deixa o rasto de espuma que se desenha na lua. 
Se seguir essa estrada consigo ver a baía onde agora ancora um homem. Sai do barco, senta-se numa rocha e, imóvel, escrutina a lua. 
E se olhar com ainda maior atenção, consigo vê-lo observar-me. Os seus olhos acompanham os movimentos do meu corpo agrilhoado pelos pés. Balanço-me na direção da lua e posiciono-me de frente. 
Sorrimos um para o outro.
Até que acabe de cair a noite. 



sexta-feira, 17 de junho de 2016

De cuore


A forma como te sei. 
Decorado.
Guardado no coração. 

quinta-feira, 16 de junho de 2016

O piano é o meu rosebud

E de tudo quanto consegui alcançar, nada me fez tão contente como essa pequena absoluta inutilidade de, por fim, ter aprendido a tocar satisfatoriamente o Für Elise, de Beethoven.



segunda-feira, 13 de junho de 2016

Campeonatos

A despeito da minha indiferença pelo fenómeno, foi durante um jogo de futebol que vivi os três minutos mais instrutivos da minha vida. 
Foi há muito tempo, noutro Europeu e num outro porto do Atlântico . 
Quando a equipa nacional marcou um golo, penso que nem sequer cheguei a saber contra quem, levantámo-nos ao mesmo tempo que toda a cidade para o comemorar. Então, uma qualquer força ignota derrubou os diques que construí com tanto método e, sem que nada o pudesse prever, travar ou justificar, encontrámo-nos nos braços um do outro e o meu corpo ficou colado ao dele durante muito mais tempo do que aquele que corresponde a um abraço de comemoração de um golo, um festejo entusiasmado, uma alegria partilhada.  Três inteiros, completos minutos. Disse-me um dia quem na altura cronometrou. E foi como se, naquele abraço, não apenas o meu peito e os meus ombros e as minhas mãos e a minha pele, mas o próprio cosmos se tivesse encaixado. E já todas as pessoas haviam regressado aos seus lugares e já a bola rolava num relvado qualquer e já o contador marcava um tempo, quando os nossos cérebros nos devolveram à praça e a uma plateia de atenções divididas entre o ecrã gigante e  aquele indecoroso abraço. 
E foi assim que todos, nós e a cidade, em simultâneo e em partes iguais, descobrimos o amor e o pecado. 

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Do alheamento

O mundo enlouquece devagarinho, no limite da dimensão intangível em que decidi abandoná-lo quando fiz uma fogueira no meio da sala, queimei os livros técnicos que acumulava e vim para Pirata. 
A última vez que vi um noticiário na televisão, foi numa língua que não entendo e apenas porque me avisaram que a guerra tinha chegado às fronteiras do país onde eu estava. Há quatro anos que não compro um jornal e outros tantos que não leio nenhum. Em regra, também não abro os links para as notícias que se espalham pelas redes sociais. Quando o faço arrependo-me sempre. 
Talvez o mundo não esteja mais demente do que sempre foi e a diferença se fique apenas na facilidade com que se espalham as notícias da sua loucura. 
Não tenho nenhum orgulho no meu alheamento. É fundado no mais profundo egoísmo. 
Também não tenho qualquer intenção de revertê-lo. 
Gosto muito de ser egoísta. 

terça-feira, 7 de junho de 2016

The Gipsy man




Lê-me a fortuna em três linhas da mão estendida. Roubou ao matemático que se debate com uma equação irresolúvel a expressão que me oferece. Esquece-se de me devolver a mão. Tenho um sinal na parte interior do segundo terço do terceiro dedo da mão direita. Em compensação, promete-me a última canção da noite. Ouço a estória de um cigano que partirá na manhã seguinte. Quando acordares já aqui não estarei. Diz a música. Danço-a, de madrugada, vestida com as argolas de ouro. Não quis saber o meu destino. Mas vi nas linhas da sua mão uma outra. Com um sinal na parte interior do segundo terço do terceiro dedo. Quando acordei já havia partido. Levou consigo a minha fortuna. 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Remédios contra o amor

Enquanto é possível, e brandos são os impulsos que te agitam o coração 
se estás arrependido, sustém o passo logo à primeira porta;
esmaga, enquanto são novas, as sementes más de tão súbita doença, 
e que o teu cavalo, logo no começo, resista a avançar.
Verdade seja que a delonga dá forças; a delonga amadurece as tenras uvas
e transforma em searas robustas o que antes era erva;
a árvore que fornece abundante sombra ao viandante 
era, no momento primeiro em que foi plantada, um arbusto; 
podia, então, ser arrancada à mão da face da terra;
firma, agora, raízes nas profundezas, com toda a sua força.
Como é aquilo a que tens amor, observa-o com espírito ligeiro 
e livra o teu pescoço do jugo que há-de feri-lo.
Contraria logo ao princípio; tarde vem o remédio, 
quando o mal ganhou força em prolongadas delongas. 

Remédios contra o amor, Ovídio. 

Mão amiga, a minha própria - e logo a direita que é de todas a mão mais amiga que tenho - ciente que se traçam por aí planos de conquista e destruição desse órgão inútil que carrego do lado esquerdo do peito, tirou da estante, daquela parte que fica por trás dos livros que as visitas podem saber que leio, o Remédios contra o Amor e, com pouca subtileza, devo admito-lo, pousou-o sobre o iPad. 
É verdade que foi escrito por volta de 70 a.c., mas isso só faz dele um remédio milenar. Confiável, portanto. 

domingo, 5 de junho de 2016

O mais bonito conto de Nabokov

Tendo regressado da aldeia à sua mansão a pé pela neve escurecida, Sleptsov sentou-se a um canto, numa cadeira estofada que não se recordava de ter usado antes. Era o tipo de coisa que acontece após uma grande calamidade. Não é um irmão, mas um conhecido de acaso, um qualquer vizinho da região a quem nunca se prestou grande atenção, com quem, em tempos normais, mal trocamos uma palavra, quem nos conforta com sensatez e gentileza e nos entrega o chapéu que deixámos cair depois de terminado o serviço fúnebre, quando vacilamos de desgosto, os dentes batem, as lágrimas cegam os olhos. O mesmo se pode dizer de objectos inanimados. Um quarto, mesmo o mais acolhedor e absurdamente pequeno na ala menos usada de uma grande casa de campo, tem um canto não vivido. E foi num canto desses que Sleptsov se sentou.
Natal, Contos Completos, Volume I, Teorema. 

Nabokov não sabia apenas das palavras e é por isso que é um escritor inigualável. Sabia das coisas. Das pequenas coisas. Das nanocoisas. 
Aquele degrau junto à soleira da porta. A arca encostada à parede do hall de entrada. Uma mesa redonda de café. A laje da casa de banho. Os lugares que o corpo escolhe para se deixar cair quando  o choque, a dor, a náusea, fazem com que, ainda que por breves instantes, não se consiga caber em nenhum sítio conhecido.

To be a rock and not to roll


sábado, 4 de junho de 2016

Diário de Bordo

Talvez por ação das ampolas de sargenor que tenho tomado para tentar disfarçar, se não o cansaço, pelo menos o tédio, esta manhã acordei antes de todos dominada pelo surpreendente desígnio de querer trabalhar. Considerando que o meu emprego é dominar o mundo, conquistar os mares e espalhar o terror, patati patatá, ocorreu-me que talvez pudesse começar por pilhar uma embarcação que, muito ao longe, avistei da minha janela.
Fui acordar Anhrminir que ressonava sonhos conturbados deitado na rede que instalou na frente da porta do meu quarto e ordenei-lhe que acordasse a tripulação. Andhriminnir protestou com os mesmos grunhos incompreensíveis que usa para manifestar todas as três emoções ao seu alcance, mas depois de lhe ter virado a rede ao contrário, atirando-o para o chão, lá se dignou obedecer.
Uma hora depois - estes piratas estão impregnados de manias burguesas como duches matinais, máscaras de beleza e outras excentricidades - estávamos todos sentados no convés do Navio, em redor de uma mesa de trabalho. 
Apesar do entusiasmo que coloquei na defesa do projeto e da utilização discursiva de muitos hey oh e arrrrg, a tripulação dividiu-se entre a inexpressividade e o ar levemente assustado de quem escuta uma alma perturbada. 
Quando terminei, os primeiros a falar foram os ex presidiários que, representados por Gualtiero, o Italiano, fizeram saber que, agora, não trabalham aos sábados. Seguiram-se os bloggers que pediram a palavra para dizer que aos sábados de manhã estão demasiado ocupados a fazer posts com fotografias de imaculados lençóis de riscas azuis e tabuleiros com pequenos almoços compostos por mueslis e fruta em taças de barro com florinhas. Os poetas fingiram nem sequer ter compreendido e disseram-se que se queria que escrevessem uma ode tinha de esperar pelo domingo à noite que é quando a musa angústia mais favorece as suas causas. 
Andhruminir e o papagaio Polly, nos últimos tempos inseparáveis amigos, dormitavam o outro sobre o um encostados a um mastro próximo.
A embarcação que decidi assaltar era agora um minúsculo ponto intermitente perdido no horizonte. 
Endureci a voz e disse-lhes que ainda que não me acompanhassem, iria eu, acompanhada pela minha espada, saquear aquele barco.
Um coro em acelerada dispersão desejou-me boa sorte. 
E agora, para salvar a dignidade, estou aqui no meio do mar, enfiada num bote, com este chapéu de capitã quentíssimo e uma espada demasiado pesada, a fazer de conta que ataco a reles traineira de pesca que tive a má sorte de ver da minha janela quando ainda estava com vontade de trabalhar. 




O bolero de Crimson

Abençoadas as manhãs de baunilha nesta varanda onde falta um espanta espíritos a tilintar a brisa que me gela as pernas e faz mais quente o café derramado sobre os joelhos.  
King Crimson toca para mim o seu bolero. 
Na praia, daqui a pouco, hei de apanhar  o que a maré me tiver devolvido.  
Nada pode correr mal num dia que nasce de uma manhã assim.


quinta-feira, 2 de junho de 2016

Do verbo querer


Salvamentos

No linho da cama que balouça sobre a maré vimos a noite dissolver o dia. Estendes sobre os meus pés nus uma manta de constelações e, ao ouvido, contas-me estórias do oriente. 
Falas-me do jardim de laranjeiras, dos cavalos alados de um vizir e da princesa moura que se aprisionou nas ameias de um castelo longínquo. 
As gaivotas vêm abrigar-se na tua sombra lunar e eu sei, daquela forma como se sabem as coisas que são, que a minha adaga, esta noite, não será manchada pelo teu sangue.