terça-feira, 11 de outubro de 2016

Da cobardia

Quando, por fim, também eu segui esse caminho, submetendo-me à promessa de não olhar para trás, nada me disseram sobre a deposição dos meus poderes de bruxa.
Transpus a montanha e renasci, obediente, durante um entardecer numa praia a sul.
Um de nós morreu, o outro sobreviveu.
A sobrevivência, e não a vida, é a justa recompensa pela cobardia.
Agora olho o imenso mar e o azul é-me tão indecifrável como a linguagem do vento e das aves e das pedras escuras. É verdade que me devolveram o cenário da noite. Mas os sonhos são de papel pintado. É dentro deles que me sei mais néscia. 
Trocava esta idílica praia que não sei ler pela clarividência de uma antiga montanha mal assombrada. 
O mar que não me molha, por um resto de céu que me respire. 
E se já não olho para trás, não é por temor aos deuses. 
Antes, por me saber cega. 


Duetos improváveis


Ausência

Ausência 

Eu haverei de erguer a vasta vida
que ainda é o teu espelho:
cada manhã hei-de reconstruí-la.
Desde que te afastaste,
quantos lugares se tornaram vãos 
e sem sentido, iguais 
a luzes acesas de dia.
Tardes que te abrigaram a imagem,
música em que sempre me esperavas,
palavras desse tempo,
terei de as destruir com as minhas mãos.
Em que ribanceira esconderei a alma
para que não veja a tua ausência, 
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e sem piedade?
A tua ausência cerca-me
como a corda à garganta.
O mar ao que se afunda. 

Jorge Luis Borges, Obras Completas, I, Teorema

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Orçamento emocional

Se ao menos a lua estivesse cheia, ou viesse o siroco, encontraria um pretexto decente para vaguear de noite pela praia, desgrenhada e descalça, na minha camisa de dormir, branca e comprida, de louca. 
Como nada disso acontece, tenho de ficar dentro de casa, rasgando as unhas nas paredes de mate casca de ovo, sentada no cimo da estante de livros autorizados, vestindo a loucura com o meu mais sério twin set. 
O cão, que apreende todas as declinações da minha alma, traz-me a trela e pergunta-me se quero que me leve à rua.
Explico-lho que me sinto aprisionada nesta estação. É como se o verão tivesse apodrecido e o outono se recusasse a aparecer para o arrastar até ao ecoponto.

domingo, 9 de outubro de 2016

Lisboa

Tem múltiplas cambiantes, esta Lisboa onde coube o amanhecer cinzento por onde te vi partir mas cabe também a manhã de hoje: o rio de um azul que faz doer o olhar; um barco que parte e outro que chega; as árvores que em breve espalharão o ouro pelo chão. 
Cabe ainda a Lisboa que o espelho me trouxer. 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Sindicato das Musas


Era uma péssima musa.
Odiava toda a obra manchada pela mais ténue sombra de inspiração de fonte própria.
Pelos seus artistas nunca soube sentir mais do que a zanga profunda.
Ansiou o silêncio dos poetas, a cegueira dos pintores, a surdez dos músicos.
Cada uma das maravilhas que lhe deram, sentiu-a como se um filho que lhe roubassem.
De pés presos ao pedestal, olhos vazios, sorriso de mármore, invejou-lhes os ossos, as veias e a carne.
Desprezou-os pela mentira e pelo logro.
Não se ama uma boneca de pedra.
Adorou o vento norte, a chuva grave, o gelo noturno.
Essa tríade libertadora de musas exaustas.







Viagens na terra dos outros




Pelo Henrique Bento Fialho, Aqui

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Não me dou à despedida


Nunca parto inteiramente.
Vivo de duas vontades: 
Uma, presa à corrente, 
A outra, que vai na nascente,
Fica para ter saudades. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Purgatório

Descobri um paralelismo evidente entre a leitura da Divina Comédia de Dante, que já leva cinco longos, lentos, anos, e a minha existência.  Às vezes penso que deveria acelerar o processo e sair do purgatório onde estou retida há cerca de um par de anos. Não era necessário nada tão dramático como acabar o livro. Talvez nem sequer seja aconselhável. Sabe-se lá o que me espera depois da última página. Bastava, ao menos, chegar ao Paradiso

Moinhos de vento

Todos os dias passo por aquela varanda enfeitada por coloridas túlipas de plástico que giram ao ritmo do vento e todos os dias penso que há, que tem de haver, algo de excecionalmente mágico numa alma que escolhe enfeitar assim a varanda. 

sábado, 1 de outubro de 2016

Contrariedades

Eu, que toda a minha vida tive imensa boa sorte, tenho aquela teoria que um dia vives feliz e satisfeito no olimpo e aquilo que é essencial está tão solidamente construído debaixo dos teus pés que nem sequer te ocorre olhar para baixo e, de repente, uma inusitada contrariedade terrena; um insignificante grão de areia; uma inesperada folha que cai da árvore antes do seu tempo, inaugura toda uma existência de misérias e sortes malvadas que nunca antes sequer configuraste como possível que te pudessem acontecer a ti.
É por isso, e apenas por isso, que não consigo deixar de olhar com apreensão supersticiosa para aquela mensagem a que não me responderam. 


O sol quente de outubro

Durante a madrugada, enviaram-me, do outro lado do mundo, o November Rain, dos Guns N' Roses.
É um facto notório que é difícil segurar uma vela debaixo da fria chuva de novembro. 
Recebo-a, acesa, a meio desta manhã de sol quente do primeiro dia de outubro. 
É uma vela especial. Tem a magia das chamas que muitos invernos não souberam apagar. 

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Emergência da verdade

Com a canícula ainda agarrada à carne 
e a emergência da verdade nos restos do sonho da sesta 
declaro-te que não sei do que falas quando dizes amor. 

Há também aquele anjo de louça, 
ajoelhado em inútil oração, 
de castigo de encontro à porta da vizinha inglesa, 
e lamento-o, quando por ele passo, depois do cansaço do dia,

Mas não lhe digo que o amo. 

Ou a papoila selvagem que insiste em nascer de um resto de terra, 
entre a calçada e o canteiro, 
e é o meu pequeno milagre do fim do inverno, 
que nunca sobreviverá à primeira lua do verão. 

Mas também a ela não juro amor. 

Há o gato que coabita o meu telhado e,
no sol frio da manhã,
estende a pata ferida para verificar a eficácia das garras contidas. 

Não seria capaz de amá-lo.

Nem sequer ao louco que desfila na rua
e engole com os olhos dementes
 os meus mais tristes segredos,
para os guardar dentro da bizarra cartola
que nunca  o vi estender 
na direção dos outros transeuntes.

E este ser 
que é soma do anjo de louça, 
da papoila intermitente, 
do gato ferido e do louco vadio, 
declara não supor, 
sequer, 
do que falas, 
quanto dizes amor. 





segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Música dos deuses


Antes de os deuses enlouquecerem

Houve um jardim com rosas suspenso no cume de uma montanha.
O sol mergulhava à hora certa na sétima onda da praia esquecida
E podia-se vê-lo cruzar-se com uma lua que era sempre azul,
Ambos no passo lento das valsas mornas, 
que é o abraço ligeiro dos amantes 
mais antigos
do que o mundo.

Uma manhã os deuses enlouqueceram de ciúme pelo amor dos homens.
Os olhares que deceparam a última das rosas, atearam o fogo à montanha 
E restou a cortina de fumo, que engoliu o sol e regurgitou uma lua cinzenta.
Estendendo a cegueira aos corpos desencontrados,
que são o alheamento profundo dos amantes
mais antigos 
do que o mundo. 

Os que ainda trazem entre os dentes os restos de uma rosa,
mas já esqueceram o contorno da mão que a plantou.






domingo, 25 de setembro de 2016

Essa outra Pirata

A mim não me puxa a compaixão, estou do lado deles, homens ruins de gengivas rotas, sou eu a mulher que têm durante as travessias, mulher incompleta e de pau, a quem entregam todos os terrores,
todos os clamores,
a quem acendem velas e renovam promessas. Sou eu que sei dos seus últimos cuidados, quando perdem um pé neste mundo e entram com o segundo no outro. Homens rudes, que arregaçam as mangas e mostram as cicatrizes, as tatuagens, corpos martirizados, tornam-se outra vez tenros, iniciais, limpos e pequeninos e chamam pela mãe. Ninguém, só eu, os consegue ouvir na transição. 

Ana Margarida de Carvalho, in, Não se pode morar nos olhos de um gato, Teorema

Lago Tanganica - o verdadeiro comunicado

A intrépida tripulação que compõe este navio, zarpou ontem dos mares profundos onde se encontrava, rumando aos bancos de areia do Lago Tanganica, numa inédita operação de resgate dos três habitantes que desapareceram após o anúncio de uma cimeira secreta com vista à resolução do problema criado por aquilo do concurso do melhor blog do ano e, mais especificamente, pelo facto de nenhum dos habitantes do Lago ter sido nomeado.
Chegados ao Lago, embarcámos nos nossos botes insufláveis, aqueles que sobraram dos saldos de verão da loja dos chineses, e seguimos o rasto dos desaparecidos. Pese embora a natural tendência para transformar qualquer ninharia em epopéia, devo aqui admitir que a empresa não foi difícil. Bastou-nos seguir o fumo dos cohibas. 
Fomos dar com os cimeirados, num dos bancos de areia, atrás de uns arbustos, rodeados pelos restos de um festim de Barca Velha, paté de flamingo, estranhos casacos de griffe e dossiers secretos do conselho de ministros. Estavam os três semi inconscientes e num estado absolutamente deplorável, mesmo para os liberais critérios de uma tripulação pirata praticante do relativismo ético.
Recolhidos os organizadores da cimeira, os nossos propósitos humanitários de libertação e salvamento, como, aliás, já é timbre desta tripulação, foram objeto de um ligeiríssimo desvio. 
Vamos manter a Palmier, o Pipoco Mais Salgado e o Senhor Ministro entre nós até que nos rendam a fortuna ou, pelo menos, a glória de uma vitória no dito concurso, para o qual nos autonomeámos, corrigindo assim uma grave injustiça do sistema capitalista que a todos oprime e nem a pirataria deixa incólume.
Ou, pelo menos, até que acordem. 
Tenham medo. 


sábado, 24 de setembro de 2016

Miragem



"O conceito corrige os olhos."

Ortega y Gasset, in A Rebelião das Massas

Tangos


Cuidados continuados

Nós, os de doença de alma crónica, sabemos como é aborrecida a permanente vigilância, o cuidado na recolha da temperatura, o critério na escolha do agasalho certo, a medição programada do tamanho da sombra, a análise química dos poluentes em redor. Às vezes, as pessoas saudáveis dizem-nos que devemos tirar a máscara, molhar os pés nas poças de lama, apanhar a chuva da manhã, correr pelas florestas, fazer amizade com os micróbios. 
Às vezes parece-nos tão verdade que rasgamos as paredes da redoma. 
Mas cedo regressamos ao castigo do quarto asséptico, incapazes de respirar; com os músculos demasiado doridos para nos susterem o esqueleto e os sonhos poluídos pelos germes que trouxemos debaixo das unhas.