sábado, 27 de agosto de 2016

prazo de validade

Foram tantos os regressos e tantas as partidas que a bagagem minimizou-se ao que coubesse em duas mãos cheias. Agora estás na minha frente e tudo o que consigo pensar é como foi possivel esquecer-me que és tão alto. Espreitamo-nos no fundo dos olhos mas só vislumbramos o que já trazíamos dentro de nós. Entretanto, correu um rio inteiro e as margens alargaram-se ao limite do intangível. Ouço-te falar sobre o tom do meu cabelo com o olhar de quem conta estórias sobre reinos longínquos de gigantes e unicórnios alados. Comovo-me com o equívoco. Estendo um braço mas não toco coisa alguma. Não te digo que já não existimos. O regresso é breve, a partida longa e um dia acabaremos por morrer.
Até a verdade tem um prazo de validade.

Funambulismo

Dentro de uma dessas caixas de papelão seladas por fita de seda cor-de-rosa está enrolada e arrumada a velha corda de funambulista por onde correram os meus pés descalços nas viagens entre os terraços dos arranha-céus da cidade.
O tempo limou dos pés as marcas desse vício mais antigo do que eu e o rasto que agora se cola à areia mostra um negativo igual ao de todos os outros. 
Não foi por medo de morrer que desisti de unir o cimo da cidade com as minhas cordas e fazer delas o caminho das estrelas. 
Foi por ter engolido a vertigem. 


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Diário de Bordo

Quando a minha tripulação vê o mês de agosto formar-se no horizonte, deixa de ser intrépida e valorosa e entrega-se à compulsão nacional burguesa que consiste num irresistível impulso para se enfiarem todos dentro de uma marina algarvia.
Foi assim que há cerca de 15 dias, rumando eu na direção da Noruega,  reparei que sempre que me afastava do leme, o navio, como se com foros de vontade sua, assumia imediatamente a rota algarvia. 
Uma noite, o Garcia Márquez e o seu livro de contos aliaram-se a esta tripulação viciada e viciosa, fazendo com que me distraísse no convés por largas horas. 
Adormeci com os pés civilizadamente frios, enrolados numa manta de arminho, e tive um pesadelo com mares sem cheiro.
Acordei afogada num charco de calor africano; mordeduras de melgas entre os dedos; pregões de bolinhas com e sem creme; a costa do Algarve, que estaria à vista, se não estivesse coberta por gente estendida nos areais... 
A minha tripulação, é claro, já se havia disperso por creparias, italianos, lojas de quinquilharia recordacional, saltitando feliz e veraneante entre as ondas e os pés do vizinho. 




segunda-feira, 8 de agosto de 2016

domingo, 7 de agosto de 2016

Éramos felizes e não sabíamos

Acordar com os gritos de Adhriminir, o cozinheiro pirata, a tentar apanhar o papagaio Polly para podermos ter carne ao almoço. Subir ao convés e tomar um brunch de panquecas de alga e ovos de gaivota. Escolher todos os dias uma peça de design nova para vender no OLX e garantir orçamento para livros. Usar tapa-olhos e chapéus comprados nos saldos de carnaval das lojas de chineses. Sentarmo-nos todos em frente ao espaço vazio onde antes foi a mesa de reuniões para planearmos um golpe exequível sem as armas que a nossa pobreza já não podia pagar. Assaltarmos botes de turistas pé descalço e no final do dia lutarmos uns contra os outros pelos três euros do saque. O cheiro da sopa de búzio e o sabor dos restos de rum diluídos em água do mar. 
Ah, a nostalgia dos dias em que ainda não não tínhamos aprendido a assaltar petroleiros...

sábado, 6 de agosto de 2016

Houve aquela tarde

Nunca consegui ensiná-lo a ver, não para além, mas através do aparato. 
Sentados no chão de terra batida, joelhos nus, mãos sujas, olhos límpidos, o sol a esvair-se para lá da montanha, eu a afiançar que podia ser apenas aquilo e ele ensurdecido pelo inoportuno tilintar das minhas pulseiras. 
Demorei muito tempo a perceber quão escura e densa é a cortina do aparato. Depois aprendi a amá-la. Daquela maneira como se ama a pequena cicatriz que se trouxe de lembrança de uma guerra que não foi ganha nem perdida. 

domingo, 31 de julho de 2016

Deslucidez

Como o padre António Isabel do conto de Gabriel Garcia Márquez, "Um Dia depois do sábado", também eu acredito, em momentos de menor lucidez, que é possível alcançar a felicidade na terra, quando não está muito calor. 

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Gaiolas

Pendurados na grande gaiola de grades da cor do falso ouro, despedimo-nos o número de vezes suficiente para entreter uma plateia de deuses entediada até à crueldade. 
Despedir-nos para sempre foi o número circense em que nos tornámos exímios. Creio que vieram de longe, deixando um rasto de pó de estrelas, antes de se sentarem em apinhadas nuvens a ver-nos dançar tangos últimos, uns atrás dos outros. 
Da última vez substituíram-nos o mar por um rio. Há qualquer coisa de definitivo nos rios que não se pressente na infinitude de um oceano único. 
Veio uma noite maior do que as outras e os deuses cobriram a gaiola com um pano de seda azul e esqueceram-se de nós, aqui presos, ao som de uma milena desafinada e sem outro ofício que não seja o de nos despedirmos para sempre. 

Hearts


quinta-feira, 28 de julho de 2016

Palavras

A bem da libertação das palavras, queimou todas as cartas físicas e apagou as eletrónicas. Então as palavras soltaram-se da triste prisão da sua história e voaram livres pelos céus, em bandos migratórios, na busca de um reino onde um resto de verdade lhes restituísse o sentido da sua existência. Da varanda do convés, vi-as passar esta manhã. Voavam demasiado alto para que as pudesse alcançar com os braços erguidos. E, de uma forma ou de outra, nenhuma delas me pertenceu de verdade.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Diário de Bordo

O mundo todo

O adágio chegou ao fim e eu recebi o silêncio sem leve sombra de comoção. Não me soube comover a música, ou a lua, ou um verso, ou qualquer uma das auroras que se seguiram. 
É assim que deve ser.
O mundo encolheu até ao absurdo tamanho de um berlinde de vidro colorido.
Pode ver-se através dele.
Essa pequena esfera que transporto junto ao corpo e que há de ficar esquecida na areia da praia, dentro de um dos bolsos dos calções, é o mundo todo. 

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Disso, da magia dos blogues


Outro Entre, in, TalqualmenteOutro 

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Desertos


A mim, que sou do mar, não sei de onde me vem esta saudade do deserto. Uma aurora feita de pó, o sabor da areia na boca, a recordação de um fio de azul a reaparecer por entre as dunas, o cheiro da gruta onde desenhámos o que talvez fosse o futuro. 
Essa noite feita de estrelas e de frio à qual sempre regresso quando adormeço. 

sábado, 16 de julho de 2016

Outros ciganos


Olhar para trás

A propósito de passagem sobre a mulher de Lot, em Caim (de José Saramago), lembro-me de Orfeu e Eurídice, esses desgraçados, e pergunto-me o que tanto enfurece os deuses nas pessoas que olham para trás. A mulher de Lot, transformada em estátua de sal por ter ousado voltar o rosto para as chamas que, nas suas costas, consumiam sodoma e gomorra. Eurídice, devolvida às profundezas do reino dos mortos, pela indiscrição ansiosa de Orfeu, que olhou para trás, para avistar a amada.
Olhar para trás não é apenas uma forma de evitar os espelhos, é a única maneira de compreender o seu reflexo. Talvez os deuses incriminem a autoconsciência. Essa empresa concorrente no negócio monopolista do destino. 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Resumo do dia

Mas em mau.

Filhos de deus

Pela fé, Abel ofereceu a Deus um sacrifício melhor do que o de Caim. Por causa da sua fé, Deus considerou-o seu amigo e aceitou com agrado as suas ofertas. E é pela fé que Abel, embora tenha morrido, ainda fala.
(Hebreus, 11, 4)
LIVRO DOS DISPARATES

Citação retirada de Caim, José Saramago. 

Todos os homicídios têm dezenas de justificações possíveis. É inútil tentar compreendê-las. 

Das férias grandes

Como as crianças, conto os anos começando pelo mês de setembro. 
Este ano termina hoje. 
Teve horas a mais. Vivi ocasos a menos. Perdi duas ou três luas. Esqueci alguns encontros com o mar. Não colecionei todos os céus. Dei mais aos livros do que às pessoas. Recebi incomparavelmente mais das pessoas do que dos livros. Descobri que a música é uma obsessão de eficácia superior à compulsão para fazer muffins. Renovei o exílio por outro ano. Talvez seja a minha pátria. Continuei a falhar, mas falhei melhor. 



quinta-feira, 14 de julho de 2016

terça-feira, 12 de julho de 2016

uma música para a noite


LEBENSWEISHEITSPIELEREI

A enfraquecer, cai a luz do sol
Na tarde. Os orgulhoso e os fortes
Já partiram.

Aqueles que restaram são os incompletos,
Os finalmentemente humanos,
Nativos de uma esfera diminuída 

A sua indigência é uma indigência 
Que é a indigência da luz 
Uma palidez estelar pendurada nos fios

Aos poucos, a pobreza 
do vazio outonal transforma-se
Num olhar, em poucas palavras ditas.

Cada pessoa toca-nos por completo 
Com aquilo que é e como é, 
Na estéril grandeza da anulação.  

Wallace Stevens, traduzido do inglês por Cuca, a Pirata


Weaker and weaker, the sunlight falls
In the afternoon. The proud and the strong
Have departed.

Those that are left are the unaccomplished,

The finally human,
Natives of a dwindled sphere.

Their indigence is an indigence

That is an indigence of the light,
A stellar pallor that hangs on the threads.

Little by little, the poverty

Of autumnal space becomes
A look, a few words spoken.

Each person completely touches us

With what he is and as he is,
In the stale grandeur of annihilation.

(Versão original)

Poemness

À tardinha, naquela hora definitiva que precede o esmorecer do dia, quando a casa parece subitamente mais vazia e se repara no ondular embalado das cortinas de linho e não há jazz que encha o espaço e os miúdos que brincam na rua já recolheram ao banho e sabemos que nada poderemos fazer para agarrar o dia que começa a dissolver-se na noite, preciso, às vezes, de um poema. Então procuro-o na estante e em folhas soltas e em cadernos de notas, e acontece-me, às vezes, não o encontrar em Fiama, em Stevens e nem sequer nos vários volumes de Borges. E então esqueço o Globo, que fica, assim, suspenso, a ondular ao ritmo das cortinas, que é também o ritmo do vento e do mar, e procuro melhor o poema que me falta.
E, às vezes, sabes, não consigo encontrá-lo em canto em canto algum, porque o poema que me falta pertence à superfície plana que é o teu espólio dos poemas que me faltam, à tardinha, naquela hora que precede o esmorecer do dia, quando a casa parece subitamente mais vazia, e apenas tu o podes encontrar por, para, mim. Às vezes.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Os homens que nos amam a todas


Um dos motivos pelos quais vim para Pirata foi para fugir dos homens que me amam. 
Neste navio ninguém me ama e, parecendo que não, esse é um factor não desprezível no aumento da minha qualidade de vida. 
Como a minha existência tem o condão de se pautar pela falta de originalidade, sou obrigada a presumir que não haja mulher com mais de trinta e cinco anos que se preze que não tenha pelo menos cinco homens na sua vida que se dedicam à tarefa de amarem loucamente. Claro que falo de um amor especial. Falo daquele tipo de amor louco, permanente e insistente que alguns homens conseguem manter durante toda a vida, enquanto vivem a dita, a fazer outras coisas mais interessantes, como por exemplo, ir viver para África, viajar pelo mundo inteiro e estar casado com outras.
Os homens que me amam são pessoas fantásticas que, contrariando o mito de que o sexo masculino não consegue fazer mais do que uma tarefa de cada vez, ocupam-se da atividade de me amar profundamente ao mesmo tempo que fazem safaris no Quénia, enfiam anéis de brilhantes da Tiffanys a outras, limpam o ranho dos filhos e compram tampões para as respetivas mulheres nas raras fases em que não estão grávidas.
Estas criaturas maravilhosas carregam com elas o seu eterno e omnipresente amor por mim enquanto vão vivendo vidas feitas de um sacrifício atroz, sempre em nome de um interesse superior, que tanto pode ser a necessidade de construir uma carreira internacional como a simples obediência ao dever moral de estarem para ali, até que a morte os colha.
Quando o tédio do quotidiano os faz sentir tão miseráveis que até parece que estão já mortos, resta-lhes o consolo interior de se saberem pessoas especiais, consistindo tal especialidade na circunstância de me amarem para sempre. Nessas alturas, imbuídos pela grandeza da paixão que há tantos anos sentem por mim, os olhos brilham-lhes, os lábios entreabrem-se para deixar escapar um profundo suspiro, a consciência desse sentimento garante-lhes a congregação das duas gotas de adrenalina que lhes circulam nas veias, as suas vidas assumem as cores do grandioso sacrifício que fizeram e o espelho lá de casa devolve-lhes a imagem de um Ulisses que um dia há-de retornar a coisa nenhuma.
Os homens que me amam seriam mais suportáveis se aquela nefasta reunião das duas gotas de adrenalina que ainda lhes restam não os levasse, invariavelmente, à urgente necessidade de entrarem em contacto comigo - estatisticamente falando, quando eu estou a dormir, a trabalhar ou a comprar sapatos -  para me comunicarem o facto de, contra todas as expetativas e pese embora as minhas preces noturnas, ainda me amarem loucamente. Depois da comunicação sofredora, uma vez cometida esta loucura arriscadíssima que quase mudou radicalmente o curso das suas vidas, as harmonas lá se recompõem, África parece mais confortável, o ranho dos filhos mais doce, os tampões das mulheres menos deprimentes e torna-se mais fácil retornarem à tarefa de me amar loucamente enquanto vivem as suas vidas.
Estes homens que me privilegiam com o seu amor, é claro, não me têm qualquer préstimo. Não me mudam os pneus do carro, não me fazem canja quando tenho gripe, não me lavam o cabelo, não testemunham a minha vida, nem sequer me aparecem na frente. A sua missão é carregarem ao longo das suas vidas o seu inútil amor por mim e comunicar-mo comovidamente, pelo menos, a cada seis meses. Também me telefonam todos no dia do meu aniversário, normalmente, de seguida, por forma a que, nalguns anos, já me interroguei se estariam todos na fila da mesma cabine telefónica.
Os homens que me amam, antes de eu vir para Pirata e cortar amarras com a minha existência anterior, eram uma praga metafísica na minha vida.
Além de me interromperem o sono, o trabalho e o prazer da aquisição de sapatos, eram a armadilha dos dias maus. Aqueles em que a falta de horas dormidas, o cansaço da labuta ou a inexistência do número 36 naquelas sandálias fantásticas, me rasteiravam um pé e eu caía na asneira de me perguntar se a minha vida poderia ter sido mais feliz se se desse o caso de algum desses homens que me amam não ser tão obscenamente cobarde.
Aqui, sentada no deck deste navio, com o "Estudos Sobre o Amor", do Gasset, caído sobre o colo e a lua a brilhar na minha frente, não tenho a menor dúvida que a resposta é uma rotunda negativa.




domingo, 10 de julho de 2016

Sódio


Tenho nos ombros os restos do mesmo mar que esta manhã te lambeu os pés. 

É o suportável limite de intimidade. 

Diário de Bordo

Neste navio não há ar condicionado. Suporto com facilidade todas as outras limitações civilizacionais inerentes ao facto de viver no meio do mar, acompanhada por intrépidos piratas. Não sinto falta da televisão que antes me fazias as vezes de aquário ou de lareira, consoante a estação do ano; nem das livrarias, que se tornam prescindíveis quando se descobrem os cinco ou seis livros de onde derivam todos os outros; nem dos cinemas, agora transformados em salas de piquenique fast food; nem dos serviços de estética, que são inúteis quando se assume que a castidade continua a ser a maneira mais inteligente de evitar o amor. 
Tenho, contudo, a nostalgia do ar condicionado. Não há brisa marítima que se compare ao luxo de carregar num botão que, em três minutos, nos destempere. 
Fui ao baú buscar o leque vermelho de bolinhas negras que comprei em Sevilha quando ainda era burguesa, deitei-me no convés com um livro e pedi a Andrhiminir, o cozinheiro pirata, que me abanasse com ele durante meia hora. Mas o imprestável viking, no geral pouco comunicativo, aproveita-se destes momentos para reivindicar melhores condições de trabalho, como uma segunda bimbi ou uma faca de cozinha elétrica que viu num folheto promocional, e faz mais barulho do que o motor dos ares condicionados antigos. 
Foi então que me lembrei que nunca assaltámos nenhum bacalhoeiro e que essa é uma desculpa tão boa como outra qualquer para abandonarmos as Caraíbas e rumarmos aos Fiordes. 
A verdade é que o meu sonho sempre foi ter um icebergue para uso exclusivo.

Ouvido à saída da praia

- erradicar não existe.
- ah, existe, existe.
- não. O que existe é irradiar. Estás a inventar coisas.
- existe! Irradiar é para o calor.
- não existe erradicar!
- quando chegarmos a casa já te mostro o que é quer dizer!

Dado o tom exaltado da discussão, ocorreu-me que o meio de prova que ele tinha em mente talvez não fosse um inocente dicionário. 

sábado, 9 de julho de 2016

35•

Trinta e cinco graus. Ainda.
Esqueci o chá de romã no congelador e quando regressei estava ultrapassado aquele ponto em que o chá gelado se transforma em gelado de chá.
O cão continua deitado no chão, onde o deixei, indiferente ao suborno do biscoito, desesperado por um pouco de frescura e a olhar para mim como se me responsabilizasse por este inferno. 
Estando fora de questão suportar a praia debaixo deste calor, ocorreu-me que a coisa mais próxima que poderia fazer era comprar biquínis. Comprei muitos. Alguns com lantejoulas e pregadeiras. Não servem para a praia mas ficam muito bem no mosaico da sala. Único sítio onde eu e o cão conseguimos existir. Aqui deitados, lado a lado, responsabizando-nos mutuamente, ele pelo calor, eu pelas minhas dores nas costas.
Lá fora, numa varanda próxima, um rapaz canta o Nessun Dorma de Puccini. Desligo a música para o ouvir. 
As gaivotas também não dormem já há várias noites. 
Estão trinta e cinco graus e faltam oito dias para as férias grandes. 
Daqui, do chão da sala, de onde vos escrevo, o mundo parece-me cada vez mais estranho.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

O admirável mundo dos relaxantes musculares

Parece-me que o sol já era tórrido e infernal quando, às duas e meia da manhã, fui arrancada da onírica sensação de deserto por uma insuportável dor nas costas. Não estava deitada na areia, coberta pelos panos da tenda berbere, mas a cama sabia àquilo que sabem cada um dos meio-dia no deserto.
Já alguém deve ter estabelecido uma correlação científica de proporcionalidade inversa entre as temperaturas demasiado elevadas e o grau de tolerância à dor. É tão óbvia que julgo impossível não estar documentada.
Mais de doze horas e muitos ibuprofenos e paracetamois de diversas cores depois, apresentaram-me essa maravilha da medicina que dá pelo nome genérico de relaxante muscular. 
A perspetiva empírica permite-me jurar que a alma é um músculo. 
Há toda uma lixeira de angústias, pequenos e grandes afazeres, preocupações quotidianas de vários níveis de gravidade. 
E depois há o efeito incinerador de um comprimido de tamanho inofensivo que faz desaparecer as dores nas costas e todo o globo que sobre elas assenta. 
É noite e lá fora, dizem-me, estão trinta e cinco graus. 

domingo, 3 de julho de 2016

Sorria, está a tocar o Danúbio Azul

Na terceira linha da pauta estava inscrita a palavra simile - que, partilho com quem não sabe, na música, é uma instrução de repetição - e que foi por mim assumida como Smile
Então, juntaram-se a minha rigorosa determinação em aprender sem aldrabices, a cega odediência aos comandos, o terror ao leve desvio à composição e as inoportunas férias da minha professora de piano. 
Apesar das dores nos dedos da mão esquerda, de uma certa frustração por não acertar com o ritmo e de alguma perplexidade com aquela instrução,  consegui passar um considerável número de horas a esforçar-me por sorrir sempre que tentava tocar aquela frase do Danúbio Azul. 
E agora hei-de sorrir, para sempre e sem esforço, de todas as vezes que voltar a tocar aquela passagem, assim se comprovando, ainda que de uma estranha forma, aquela coisa dos vícios de má aprendizagem.

Sanidade mental

Todas as cidades deveriam ter um cemitério de amores perdidos. Uma aliança entre a geografia e a desilusão. Comprávamos amorosas lápides de mármore branco que, em ocasionais mas sentidas visitas, decoraríamos com coroas fúnebres de violetas ou margaridas. 
E um nome inscrito em letras douradas, ali, entre milhares de outros nomes, sob o sol e sob a chuva, a desvanecer-se ao ritmo do nosso esquecimento.
Como seria terapêutico, ter um depósito de amores perdidos. Um sítio onde os deixar, quando já não nos trazem qualquer préstimo e nem sequer cabem na organização doméstica.

sábado, 2 de julho de 2016

O velho, o rapaz e o burro


Os que nos envergonharam por termos chorado Paris, são os mesmos que nos condenam por calarmos Istambul. 

Verões indignos

Sonhei, em tempos, com um pátio andaluz, balouços de verga e almofadas de linho, com vista para a porta de madeira vermelha de uma casa térrea. Era o entardecer e uma guitarra descansava de encontro à cal da parede impossivelmente branca. 
Perguntou-me se os últimos verões foram dignos e, por vício de contradição, obstei ao conceito de dignidade das estações. Então lembrei-me de pequenas felicidades, como a camisola a acordar os nervos dos ombros salgados, a areia encharcada que a última maré do dia estende aos resistentes, o barco abandonado nos juncos que ensombram a barragem vazia, aquele instante em que o corpo cai no sono num colchão a flutuar na piscina silenciosa. Todos eles foram há demasiado tempo.
Percebi o que me queria dizer o sonho. 
É preciso restaurar a dignidade das estações. 


segunda-feira, 27 de junho de 2016

Inconsciência

Disse Emil Cioran que a insconsciência é uma pátria e a consciência o exílio. Não sei qual dos dois seria desconhecido de Cioran: a inconsciência ou o exílio. Exilamo-nos quando a consciência torna a pátria um lugar inóspito, inabitável. 

Nós, os dos setenta anos de blogues...

... Sabemos que às vezes não temos nada para dizer. Também sabemos que não vale a pena entrar em pânico e anunciar o fim do blogue. Se ignorarmos a falta de inspiração, se nos sentarmos a reler Borges, se olharmos para este miserável fiapo de lua, se, por sorte, um dos cem canais nos oferecer um filme decente, se nos cruzarmos com a música que precisamos, se entrarmos no elevador certo à hora que as estrelas marcaram, se uma fotografia acordar os nossos sentidos, Tagik, o berbere contador de estórias que há em nós, há de encontar qualquer coisa de imprescindível partilha.

(E se nada disso quiser acontecer, podemos inventar que estivemos de férias)

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Anatomia de todas as insónias

A insónia saiu de Lisboa, onde pertence, percorreu vários quilómetros e encontrou-se comigo a sul. Passámos juntas a última madrugada, sentadas numa cadeira, na varanda, a ouvir os gritos das gaivotas e a comer gelados.
Juntaram-se-nos os dos costume: Preocupações irresolúveis de índole burocrática que nunca surgem em período diurno; rastos de culpa por pecados prescritos; listas amarelecidas de decisões que não chegaram a ser tomadas; a lembrança de todas as mensagens que ficaram por responder; a sensação de uma antiga presença que é sombra da própria insónia e a acompanha para todo o lado. O cão veio visitar-nos por três vezes e de todas regressou à cama, aliviado, por aquela insónia não ser sua. Reparei que entre a noite e o dia fica uma faixa temporal, índigo, de não mais de dez minutos. 
O tempo exato que precisava para revogar todas as decisões conscientes que tomei na vida. 
Às vezes penso que aquelas pessoas que não se arrependem de nada são as mesmas que não conhecem a insónia. 

terça-feira, 21 de junho de 2016

Je te laisserai des mots


Aprender as despedidas

E quem visse o desapego, um abraço moderado entre os três e os quatro segundos, um último olhar dentro dos olhos, a expressão alienada de quem já está noutro destino, o silêncio do pragmatismo, o ligeiro aceno de cabeça que importei de Hollywood, nenhuma auréola vermelha em redor dos olhos secos, dez passos firmes na direção oposta, o pescoço obediente que não se voltou, e quem visse o desapego, dizia, nada suspeitaria sobre a convulsão engolida, os batimentos do coração a desfazerem os tímpanos, a falta de um chão sob os pés, a vertigem súbita da saudade. A violência de tudo aquilo que é definitivo. 
Para não estar ali, por não suportar estar ali, por não querer que ele me visse ali, fiquei a observar-me de cima, isenta, orgulhosa, quase, da anulação desse último resto de humano que há na indignidade de uma despedida. 



segunda-feira, 20 de junho de 2016

Terá de bastar um solstício



Por mais que se anseie por uma chuva de sapos, ou um horizonte em tons de ouro e cinza que nos seja inesquecível, ou uma noite de violenta trovoada no mar, ou um cometa que nos caia junto aos pés, ou qualquer outro marco iconoclasta que sirva os propósitos da catarse, por vezes, não há ruído que nos venha arrancar à letargia. 
Nessas alturas, terá de bastar um solstício.  


(Imagem de George Grie, trazida pela Flor e demasiado bonita para ficar numa caixa de comentários)

domingo, 19 de junho de 2016

Esta noite a lua

Pendurei-me novamente pelos pés para, daqui, do cimo do mastro, assistir ao estender dessa manta lilás que é a noite do sul. 
Veio a lua grande e trouxe-o. 
A lua é a janela por onde o espreito. 
Se olhar com atenção consigo ver o velho porto e os barcos que, a esta hora, balouçam vazios. Com exceção de um, que  se move devagar e deixa o rasto de espuma que se desenha na lua. 
Se seguir essa estrada consigo ver a baía onde agora ancora um homem. Sai do barco, senta-se numa rocha e, imóvel, escrutina a lua. 
E se olhar com ainda maior atenção, consigo vê-lo observar-me. Os seus olhos acompanham os movimentos do meu corpo agrilhoado pelos pés. Balanço-me na direção da lua e posiciono-me de frente. 
Sorrimos um para o outro.
Até que acabe de cair a noite. 



sexta-feira, 17 de junho de 2016

De cuore


A forma como te sei. 
Decorado.
Guardado no coração. 

quinta-feira, 16 de junho de 2016

O piano é o meu rosebud

E de tudo quanto consegui alcançar, nada me fez tão contente como essa pequena absoluta inutilidade de, por fim, ter aprendido a tocar satisfatoriamente o Für Elise, de Beethoven.



segunda-feira, 13 de junho de 2016

Campeonatos

A despeito da minha indiferença pelo fenómeno, foi durante um jogo de futebol que vivi os três minutos mais instrutivos da minha vida. 
Foi há muito tempo, noutro Europeu e num outro porto do Atlântico . 
Quando a equipa nacional marcou um golo, penso que nem sequer cheguei a saber contra quem, levantámo-nos ao mesmo tempo que toda a cidade para o comemorar. Então, uma qualquer força ignota derrubou os diques que construí com tanto método e, sem que nada o pudesse prever, travar ou justificar, encontrámo-nos nos braços um do outro e o meu corpo ficou colado ao dele durante muito mais tempo do que aquele que corresponde a um abraço de comemoração de um golo, um festejo entusiasmado, uma alegria partilhada.  Três inteiros, completos minutos. Disse-me um dia quem na altura cronometrou. E foi como se, naquele abraço, não apenas o meu peito e os meus ombros e as minhas mãos e a minha pele, mas o próprio cosmos se tivesse encaixado. E já todas as pessoas haviam regressado aos seus lugares e já a bola rolava num relvado qualquer e já o contador marcava um tempo, quando os nossos cérebros nos devolveram à praça e a uma plateia de atenções divididas entre o ecrã gigante e  aquele indecoroso abraço. 
E foi assim que todos, nós e a cidade, em simultâneo e em partes iguais, descobrimos o amor e o pecado. 

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Do alheamento

O mundo enlouquece devagarinho, no limite da dimensão intangível em que decidi abandoná-lo quando fiz uma fogueira no meio da sala, queimei os livros técnicos que acumulava e vim para Pirata. 
A última vez que vi um noticiário na televisão, foi numa língua que não entendo e apenas porque me avisaram que a guerra tinha chegado às fronteiras do país onde eu estava. Há quatro anos que não compro um jornal e outros tantos que não leio nenhum. Em regra, também não abro os links para as notícias que se espalham pelas redes sociais. Quando o faço arrependo-me sempre. 
Talvez o mundo não esteja mais demente do que sempre foi e a diferença se fique apenas na facilidade com que se espalham as notícias da sua loucura. 
Não tenho nenhum orgulho no meu alheamento. É fundado no mais profundo egoísmo. 
Também não tenho qualquer intenção de revertê-lo. 
Gosto muito de ser egoísta. 

terça-feira, 7 de junho de 2016

The Gipsy man




Lê-me a fortuna em três linhas da mão estendida. Roubou ao matemático que se debate com uma equação irresolúvel a expressão que me oferece. Esquece-se de me devolver a mão. Tenho um sinal na parte interior do segundo terço do terceiro dedo da mão direita. Em compensação, promete-me a última canção da noite. Ouço a estória de um cigano que partirá na manhã seguinte. Quando acordares já aqui não estarei. Diz a música. Danço-a, de madrugada, vestida com as argolas de ouro. Não quis saber o meu destino. Mas vi nas linhas da sua mão uma outra. Com um sinal na parte interior do segundo terço do terceiro dedo. Quando acordei já havia partido. Levou consigo a minha fortuna. 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Remédios contra o amor

Enquanto é possível, e brandos são os impulsos que te agitam o coração 
se estás arrependido, sustém o passo logo à primeira porta;
esmaga, enquanto são novas, as sementes más de tão súbita doença, 
e que o teu cavalo, logo no começo, resista a avançar.
Verdade seja que a delonga dá forças; a delonga amadurece as tenras uvas
e transforma em searas robustas o que antes era erva;
a árvore que fornece abundante sombra ao viandante 
era, no momento primeiro em que foi plantada, um arbusto; 
podia, então, ser arrancada à mão da face da terra;
firma, agora, raízes nas profundezas, com toda a sua força.
Como é aquilo a que tens amor, observa-o com espírito ligeiro 
e livra o teu pescoço do jugo que há-de feri-lo.
Contraria logo ao princípio; tarde vem o remédio, 
quando o mal ganhou força em prolongadas delongas. 

Remédios contra o amor, Ovídio. 

Mão amiga, a minha própria - e logo a direita que é de todas a mão mais amiga que tenho - ciente que se traçam por aí planos de conquista e destruição desse órgão inútil que carrego do lado esquerdo do peito, tirou da estante, daquela parte que fica por trás dos livros que as visitas podem saber que leio, o Remédios contra o Amor e, com pouca subtileza, devo admito-lo, pousou-o sobre o iPad. 
É verdade que foi escrito por volta de 70 a.c., mas isso só faz dele um remédio milenar. Confiável, portanto. 

domingo, 5 de junho de 2016

O mais bonito conto de Nabokov

Tendo regressado da aldeia à sua mansão a pé pela neve escurecida, Sleptsov sentou-se a um canto, numa cadeira estofada que não se recordava de ter usado antes. Era o tipo de coisa que acontece após uma grande calamidade. Não é um irmão, mas um conhecido de acaso, um qualquer vizinho da região a quem nunca se prestou grande atenção, com quem, em tempos normais, mal trocamos uma palavra, quem nos conforta com sensatez e gentileza e nos entrega o chapéu que deixámos cair depois de terminado o serviço fúnebre, quando vacilamos de desgosto, os dentes batem, as lágrimas cegam os olhos. O mesmo se pode dizer de objectos inanimados. Um quarto, mesmo o mais acolhedor e absurdamente pequeno na ala menos usada de uma grande casa de campo, tem um canto não vivido. E foi num canto desses que Sleptsov se sentou.
Natal, Contos Completos, Volume I, Teorema. 

Nabokov não sabia apenas das palavras e é por isso que é um escritor inigualável. Sabia das coisas. Das pequenas coisas. Das nanocoisas. 
Aquele degrau junto à soleira da porta. A arca encostada à parede do hall de entrada. Uma mesa redonda de café. A laje da casa de banho. Os lugares que o corpo escolhe para se deixar cair quando  o choque, a dor, a náusea, fazem com que, ainda que por breves instantes, não se consiga caber em nenhum sítio conhecido.

To be a rock and not to roll


sábado, 4 de junho de 2016

Diário de Bordo

Talvez por ação das ampolas de sargenor que tenho tomado para tentar disfarçar, se não o cansaço, pelo menos o tédio, esta manhã acordei antes de todos dominada pelo surpreendente desígnio de querer trabalhar. Considerando que o meu emprego é dominar o mundo, conquistar os mares e espalhar o terror, patati patatá, ocorreu-me que talvez pudesse começar por pilhar uma embarcação que, muito ao longe, avistei da minha janela.
Fui acordar Anhrminir que ressonava sonhos conturbados deitado na rede que instalou na frente da porta do meu quarto e ordenei-lhe que acordasse a tripulação. Andhriminnir protestou com os mesmos grunhos incompreensíveis que usa para manifestar todas as três emoções ao seu alcance, mas depois de lhe ter virado a rede ao contrário, atirando-o para o chão, lá se dignou obedecer.
Uma hora depois - estes piratas estão impregnados de manias burguesas como duches matinais, máscaras de beleza e outras excentricidades - estávamos todos sentados no convés do Navio, em redor de uma mesa de trabalho. 
Apesar do entusiasmo que coloquei na defesa do projeto e da utilização discursiva de muitos hey oh e arrrrg, a tripulação dividiu-se entre a inexpressividade e o ar levemente assustado de quem escuta uma alma perturbada. 
Quando terminei, os primeiros a falar foram os ex presidiários que, representados por Gualtiero, o Italiano, fizeram saber que, agora, não trabalham aos sábados. Seguiram-se os bloggers que pediram a palavra para dizer que aos sábados de manhã estão demasiado ocupados a fazer posts com fotografias de imaculados lençóis de riscas azuis e tabuleiros com pequenos almoços compostos por mueslis e fruta em taças de barro com florinhas. Os poetas fingiram nem sequer ter compreendido e disseram-se que se queria que escrevessem uma ode tinha de esperar pelo domingo à noite que é quando a musa angústia mais favorece as suas causas. 
Andhruminir e o papagaio Polly, nos últimos tempos inseparáveis amigos, dormitavam o outro sobre o um encostados a um mastro próximo.
A embarcação que decidi assaltar era agora um minúsculo ponto intermitente perdido no horizonte. 
Endureci a voz e disse-lhes que ainda que não me acompanhassem, iria eu, acompanhada pela minha espada, saquear aquele barco.
Um coro em acelerada dispersão desejou-me boa sorte. 
E agora, para salvar a dignidade, estou aqui no meio do mar, enfiada num bote, com este chapéu de capitã quentíssimo e uma espada demasiado pesada, a fazer de conta que ataco a reles traineira de pesca que tive a má sorte de ver da minha janela quando ainda estava com vontade de trabalhar. 




O bolero de Crimson

Abençoadas as manhãs de baunilha nesta varanda onde falta um espanta espíritos a tilintar a brisa que me gela as pernas e faz mais quente o café derramado sobre os joelhos.  
King Crimson toca para mim o seu bolero. 
Na praia, daqui a pouco, hei de apanhar  o que a maré me tiver devolvido.  
Nada pode correr mal num dia que nasce de uma manhã assim.


quinta-feira, 2 de junho de 2016

Do verbo querer


Salvamentos

No linho da cama que balouça sobre a maré vimos a noite dissolver o dia. Estendes sobre os meus pés nus uma manta de constelações e, ao ouvido, contas-me estórias do oriente. 
Falas-me do jardim de laranjeiras, dos cavalos alados de um vizir e da princesa moura que se aprisionou nas ameias de um castelo longínquo. 
As gaivotas vêm abrigar-se na tua sombra lunar e eu sei, daquela forma como se sabem as coisas que são, que a minha adaga, esta noite, não será manchada pelo teu sangue. 




domingo, 29 de maio de 2016

Linha editorial

Como manter um blog de dor de corno sem dor de corno? 
 

sábado, 28 de maio de 2016

DOLIDZE, IOANE

pretendia crucificar a Humanidade sem usar madeira e pregos. Dizia para os homens caminharem na direcção uns dos outros de braços abertos, crucificados na promessa de um abraço. 

Afonso Cruz, As Reencarnacões de Pitágoras, Alfaguara.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Selvagem é o vento


Comunicações intergalácticas

És um poeta morto. 
E és um bom poeta mas um péssimo morto. 
Bons mortos são aqueles que disfarçados de vento nos vêm uivar à janela. Os que nos eriçam os pelos do pescoço em anticiclones caseiros que nos gelam momentaneamente. Os que, furiosos, fazem bater as portas em sinal de protesto contra as nossas escolhas de vivos. Os que deitam o fogo à cama. Os que nos escondem os anéis. Os que nos escrevem a sangue nos vestidos de veludo. Nota que nem sequer aspiro a recados no espelho embaciado pelo vapor do banho; velas que se acendem sozinhas; uma papoila a voar debaixo dos meus pés  ou enigmas deixados na areia lisa da maré. Suspeitava que não te resignarias a esse papel pop de fantasma de Hollywood. 
Ainda assim, até para os extremos padrões de tolerância com que sempre me abstive de julgar os teus atos, devo dizer-to, és uma miséria de morto.
Nunca te deste ao incómodo de me aparecer em sonhos com diretrizes inspiradas sobre os intricados caminhos da minha existência. Nas raras noites em te sonhei estavas entretido com uma banalidade qualquer e não te dignaste a uma interação memorável. Não me escreveste mails. Não me enviaste do além um único olhar capaz de me trespassar as costas. 
És um morto que teima num contínuo projeto de inexistência infinita. 
Um dia conheci uma mulher que jurava que cada um de nós traz consigo todos os seus mortos e arrasta-os pelo mundo para onde quer que vá. Tentei levar-te a lugares bonitos. Pensei que gostasses dos arranha céus de Nova Iorque, das vinhas de Chianti, ou que te sentisses confortável nos céus da Capadócia. Evitei, para tua exclusiva comodidade, repartições de finanças, centros médicos, supermercados em horas de ponta. 
A tua ingratidão revelou-se tão definitiva quanto a tua morte. 
És o meu primeiro morto. Até a morte me ensinaste. 
E és um péssimo morto. 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Passaporte para o exílio

Uma vez por ano, invariavelmente no último dia de maio, escolho renovar o passaporte para o exílio. Perguntaram-me, numa tarde de outro maio, do que é que fujo. 
Uma vez por ano ocorre-me que, se algum dia soube a resposta certa a essa pergunta, já a esqueci. 

naked summer sky

the process of my words profane
the poems i still breathe
the soothing silent masterpieces
hanging on the breeze
that brushed me with your spirit
and left my head at ease
that woke me up and lifted me
to see a moment freeze
i still see you naked
in my naked eye
underneath the honeysuckle
naked summer sky
far off dreams i lead with you
in other lives
that gently pass us by
we may never speak again
or wonder why
you woke me up and lifted me
to see a moment freeze
it made me cry
the quiet waters by
and by

Crónica de muitas mortes anunciadas

A forma como nos despedimos é o negativo da imagem do centro da alma.
As únicas despedidas aceitáveis são aquelas que são rápidas, decididas, irrevogáveis.
Não se pode confiar em quem não sabe arrancar o adesivo da pele num gesto firme.


quarta-feira, 25 de maio de 2016

Princípio da igualdade


Insignificância

Agora, àquela distância que só a proximidade permite, com a lua fria ao alcance dos dedos, o coração de uma ave na palma das mãos, ou o crepúsculo no interior das pálperas, sei que foi a vulgaridade a nossa única tragédia.

domingo, 22 de maio de 2016

Mãos nos bolsos

Um desgosto, uma falta, uma angústia, qualquer saudade, é companhia constante; sombra infalível; testemunha do nosso quotidiano; cão fiel que às vezes nos segue e outras vezes nos guia e sempre nos mantém ocupados, na expressão contida e ligeiramente ausente de quem resolve em permanência um puzzle matemático. 
Sinto-me pois desocupada; inútil; alienada do alienante; enfio as mãos nos bolsos do vestido; esquecendo-me, ainda olho para trás como se para dar passagem à saudade; tomo consciência da minha melhor expressão de estupidez e, em suma, não tenho nada para fazer.
Não imagino porque razão lhe chamam paz de espírito. 

sábado, 21 de maio de 2016

A pantufa desirmanada

Não foi caso único o de Palomar, personagem de Italo Calvino no livro a que deu igual nome, que, de um bazar de pantufas no oriente, regressou à sua terra com uma pantufa maior do que a outra. 
É inevitável, bem o sei, enquanto se coxeia pela rua abaixo, pensar-se naquele que, vítima do mesmo desacerto do grande mercador, noutro lugar do mundo, arrasta consigo um pé apertado pela pantufa que deveria estar calçada no nosso. 
Refletiu Palomar "talvez ele também esteja a pensar em mim neste momento, esperando encontrar-me para proceder à troca. A relação que nos liga é mais concreta e clara do que grande parte das relações que se estabelecem entre os seres humanos. E no entanto nunca nos encontraremos".
Mas ao contrário de Palomar, que continuou a usar as pantufas desirmanadas para manter viva a complementaridade com o seu companheiro de infortúnio, a mim foi-me dada a oportunidade de, fazendo a troca, desfazer o erro. 
Os meus pés estão agora calçados com duas pantufas que me servem e posso também, finalmente, deixar de pensar numa sombra longínqua que, noutra qualquer rua, coxeou a pantufa que me pertence por direito.
Palomar, que tanto pensou sobre este assunto, nada conjeturou, porém, sobre os efeitos da claudicação prolongada na coluna vertebral. 
Há erros do grande mercador que sobrevivem ao milagre da sua própria correção. 

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Enfadonha intempestividade

Depusemos as facas, as espadas, deixámos cair a rosa. 
O soalho ecoou os passos de um tango cansado e feito de gestos repetidos. Quando caiu uma noite artificial, a lua envergonhou-se atrás das árvores e as estrelas, creio, desistiram de aparecer. 
Havia uma voz ao fundo que prometia a eternidade ao som de uma guitarra de cordas feridas.
Ouvi o que disse a voz, vi a nossa sombra nos espelhos e pensei que o incorrigível defeito das coisas eternas é a sua constante, enfadonha, intempestividade. 




quarta-feira, 18 de maio de 2016

Os fazedores de chuva


Chama-anjos

Levei comigo, para lho entregar, um chama-anjos avariado. 
Na primeira vez que lho quis dar, ainda a prata não tinha escurecido no contacto com o meu pescoço e não estava avariado. Nessa ocasião, devolveu-mo à palma da mão que fechou dentro das suas e disse-me que ficasse antes com ele, que não suportaria saber-me desanjada.
Desta vez fui eu que, no último instante, decidi não lho entregar. 
É evidente que, entre os dois, é a mim que um chama-anjos avariado faz mais falta. 

terça-feira, 17 de maio de 2016

Sudários

Quando o céu me surge por baixo dos pés e o chão me pesa nos ombros e as árvores nascem lá em cima e o avesso do mundo tem costuras tão ásperas que ameaçam trespassar-me os ossos, como, por exemplo, agora mesmo, visto a minha t-shirt cinzenta de pirata. Não há desnorte que confunda esta velha t-shirt cinzenta de pirata. É impossível perder o que quer que seja enquanto a mantiver vestida. 
O seu super poder: o sudário de um abraço mais antigo do que o medo.

domingo, 15 de maio de 2016

Inventário

- Um poema manuscrito sobre aves que fazem ninho no meu corpo.
- Meio búzio em estado bastante degradado.
- Um calendário incompleto de pés egípcios em atividades quotidianas diversas.
- Um CD pirateado com duas músicas de Nicolaj Grandjean.
- A figuração da paixão em acrílico sobre cartolina. 
- A constelação Orion em estado natural, como nova. 
- A fotografia de uma baía mágica, bastante usada. 
- A lua cheia.
- Dezenas de músicos de jazz de nomes impronunciáveis.
- A figuração musical da morte em vida, versão piano.
- Uma verdade e uma mentira (indistintas). 
- Uma fava do mar (bem conservada). 

... O inventário da minha loucura. 



Segundas oportunidades


E a quem pode censurar-se a ambição da oportunidade de falhar melhor? 


sábado, 14 de maio de 2016

Mil, setecentos e treze dias

Respiração reversa

Estou há muitas horas, imóvel, sentada nesta cadeira. Foi aqui que esperei a manhã. A madrugada, atravessei-a no mais denso dos silêncios e o frio exterior foi um raro momento de coerência equilibrada com essa outra forma de frio, que nasce por dentro. Quando ambas as temperaturas coincidem, o coração ganha uma amenidade que, apesar de falsificada, quase nos faz voltar a sentir humanos. 
Enquanto o dia rompia, nos seus tons violeta degradé, ocorreu-me que o degelo do coração não é um processo menos violento e arriscado do que o que envolve a sua congelação. Talvez seja ainda mais arriscado. Até os mais leigos em matéria de culinária, entre os quais me incluo, sabem que não há organismo que, depois de descongelado, possa voltar a congelar-se sem grave perda das suas propriedades essenciais.
Vou ficar à espera da noite, sentada nesta mesma cadeira, de onde vi formar-se a manhã. 
Amanhã, sei-o, acordarei com um coração novo, fresco, pronto a consumir. Um coração de utilização única, integral. Daqueles que já não se podem reservar para mais tarde. Daqueles que, de ora em diante, não mais poderão deixar de bater.


terça-feira, 10 de maio de 2016

O estranho caso dos personagens que desapareciam da história

Num maio distante e de má memória, por ocasião do dia em que o céu se partiu e desfez-se em minúsculas pedras geladas que se espalharam pelo mundo, entrei em casa e abri as janelas para deixar entrar as gaivotas que se vieram abrigar na minha varanda.
Para acompanhar a terrível música do céu a desfazer-se de encontro à calçada, sentei-me ao piano e toquei as primeiras notas. 
Quando o quinto dedo da mão direita repetiu um sol sustenido vi entrar pela janela uma mulher vestida de verde que trazia pendurada no rosto a expressão marmórea dos que abandonaram. Seguiu-a um homem de olhos verdes que exibiam a firmeza de quem viajou o mundo. E um governante escondido por um ramo de flores no passo apressado de quem está atrasado para um encontro. E uma mulher de óculos de massa e camisa branca que seguia o governante. Foi então que, pela mesma janela, entrou uma mulher que carregava junto ao peito um livro cujas letras se sumiam em contínuo anticonto e um mágico que, na sua varinha, dir-se-ia procurar a mulher que um dia fez sumir. 
Levantei-me do piano e chamei Martinica para que servisse um chá àqueles que, soube-o muito depois, eram personagens exiladas das suas próprias estórias. 
Nada perguntei e, confesso, nenhuma estranheza senti. Aceitei há muito que a bizarria é o labirinto no jardim do mundo. Em comum, tinham apenas uma rara obsessão com vozes intermináveis que saíam de telefones e das quais, de uma forma ou de outra e pelas mais diversas razões, todos pareciam fugir. 
Martinica confessou-me então que, não gostando de bizarrias em dias em o que céu se desfaz em pedaços, deu-lhes um chá de sumiço. Sugeriu-me que os fotografasse para memória futura. Expliquei-lhe que me ensinaram que é na memória, e apenas nesta, que devem guardar-se as melhores imagens.
Terminado o chá, a sala ficou subitamente vazia, as pedras deixaram de cair do céu e eu regressei ao piano.
E também esta estória hei de esquecer um dia. 

As origens, aqui. 
E os desenvolvimentos, aqui.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

sometime ago

se ficasse mais um segundo, as mãos pousadas na linha imaginária da clavícula, meia frase que se desfaz, a boca entreaberta, um medo que vem do chão, a contabilidade da razão, se ficasse mais um segundo, a paz que pode conter um sorriso, certa música partilhada, os sábados de manhã de chuva, o final de uma canção, o farol iluminado pela lua, o livro de poemas na cadeira de baloiço, se ficasse mais um segundo, a respiração no meu pescoço, a transposição metafísica da distância, as notas de jazz espalhadas no chão, uma febre que vem do início dos tempos, as palavras que nada podem.
Não saberia regressar.

sábado, 7 de maio de 2016

Lisboa insone

A cidade onde eu nunca durmo. 

Desertos

Fomos atravessando o deserto. A lonjura, medimo-la pela nossa pele moribunda, de poros sufocados de areia.  Do cimo das dunas, cumprindo o ancestral saber dos magos, não olhámos nunca nem para trás nem para a frente. O passado foi já demasiado longe para que possamos regressar, o futuro  será ainda uma miragem a poente. Fixámos o olhar rente aos pés, num presente de cansaço, sede e dormência.
E esperamos. Esperamos, apenas, que o desenho dos nossos trilhos volte a cruzar-nos. Que então se abra no deserto um mar azul. 


sexta-feira, 6 de maio de 2016

Desquecer

Esqueci-o inúmeras vezes pois o problema nunca foi o esquecimento. Começo sempre por esmorecer-lhe os contornos do rosto. O meu processo de esquecimento é uma miopia progressiva. Mas há uma ligeira imperfeição, um espaço demasiado grande entre dois dentes, uma marca de varicela na sobrancelha direita, um desnível mínimo na cana do nariz, esses defeitos que o tornam humano, que são a estrutura da minha memória. 
Então, uma manhã, diante de uma chávena de café, a mesa posta na varanda, uma gaivota que se afasta, um cão que a persegue, o gesto de soltar os cabelos de dentro da camisa, diante de uma dessas ninharias, assalta-me esse outro nada que é uma das imperfeições do seu rosto. E a partir desse detalhe, desquecendo-o, reconstruo-lhe o olhar distraído, um sorriso que nasce do fundo do estômago, o andar balançado, a imagem das suas omoplatas a erguer-se de uma multidão anónima, a minha mão muito pequena dentro da sua, uma voz sussurrada.
Esqueci-o inúmeras vezes pois o problema nunca foi o esquecimento. 

domingo, 1 de maio de 2016

Kierkegaard, o Cão Pirata



Esse ingrato, que nem um desenho do dia da mãe foi capaz de me oferecer...

De um reggae de domingo

Há apenas três sítios no mundo onde ainda se ouve uma certa música:
Lá longe, do outro lado do mar, quando a bruma se entranha na pele e uma alma inquieta se debate contra as paredes da sua cela; na minha sala, como sucedâneo figurado de uma boa velha lâmina nas veias, mas isenta de pingos de sangue na carpete e marcas inestéticas no pulso; neste lounge estendido na areia, de abril a novembro, onde, podia jurá-lo, escolhe a música quem também um dia se perdeu nela.