quinta-feira, 23 de junho de 2016

Anatomia de todas as insónias

A insónia saiu de Lisboa, onde pertence, percorreu vários quilómetros e encontrou-se comigo a sul. Passámos juntas a última madrugada, sentadas numa cadeira, na varanda, a ouvir os gritos das gaivotas e a comer gelados.
Juntaram-se-nos os dos costume: Preocupações irresolúveis de índole burocrática que nunca surgem em período diurno; rastos de culpa por pecados prescritos; listas amarelecidas de decisões que não chegaram a ser tomadas; a lembrança de todas as mensagens que ficaram por responder; a sensação de uma antiga presença que é sombra da própria insónia e a acompanha para todo o lado. O cão veio visitar-nos por três vezes e de todas regressou à cama, aliviado, por aquela insónia não ser sua. Reparei que entre a noite e o dia fica uma faixa temporal, índigo, de não mais de dez minutos. 
O tempo exato que precisava para revogar todas as decisões conscientes que tomei na vida. 
Às vezes penso que aquelas pessoas que não se arrependem de nada são as mesmas que não conhecem a insónia. 

terça-feira, 21 de junho de 2016

Je te laisserai des mots


Aprender as despedidas

E quem visse o desapego, um abraço moderado entre os três e os quatro segundos, um último olhar dentro dos olhos, a expressão alienada de quem já está noutro destino, o silêncio do pragmatismo, o ligeiro aceno de cabeça que importei de Hollywood, nenhuma auréola vermelha em redor dos olhos secos, dez passos firmes na direção oposta, o pescoço obediente que não se voltou, e quem visse o desapego, dizia, nada suspeitaria sobre a convulsão engolida, os batimentos do coração a desfazerem os tímpanos, a falta de um chão sob os pés, a vertigem súbita da saudade. A violência de tudo aquilo que é definitivo. 
Para não estar ali, por não suportar estar ali, por não querer que ele me visse ali, fiquei a observar-me de cima, isenta, orgulhosa, quase, da anulação desse último resto de humano que há na indignidade de uma despedida. 



segunda-feira, 20 de junho de 2016

Terá de bastar um solstício



Por mais que se anseie por uma chuva de sapos, ou um horizonte em tons de ouro e cinza que nos seja inesquecível, ou uma noite de violenta trovoada no mar, ou um cometa que nos caia junto aos pés, ou qualquer outro marco iconoclasta que sirva os propósitos da catarse, por vezes, não há ruído que nos venha arrancar à letargia. 
Nessas alturas, terá de bastar um solstício.  


(Imagem de George Grie, trazida pela Flor e demasiado bonita para ficar numa caixa de comentários)

domingo, 19 de junho de 2016

Esta noite a lua

Pendurei-me novamente pelos pés para, daqui, do cimo do mastro, assistir ao estender dessa manta lilás que é a noite do sul. 
Veio a lua grande e trouxe-o. 
A lua é a janela por onde o espreito. 
Se olhar com atenção consigo ver o velho porto e os barcos que, a esta hora, balouçam vazios. Com exceção de um, que  se move devagar e deixa o rasto de espuma que se desenha na lua. 
Se seguir essa estrada consigo ver a baía onde agora ancora um homem. Sai do barco, senta-se numa rocha e, imóvel, escrutina a lua. 
E se olhar com ainda maior atenção, consigo vê-lo observar-me. Os seus olhos acompanham os movimentos do meu corpo agrilhoado pelos pés. Balanço-me na direção da lua e posiciono-me de frente. 
Sorrimos um para o outro.
Até que acabe de cair a noite. 



sexta-feira, 17 de junho de 2016

De cuore


A forma como te sei. 
Decorado.
Guardado no coração. 

quinta-feira, 16 de junho de 2016

O piano é o meu rosebud

E de tudo quanto consegui alcançar, nada me fez tão contente como essa pequena absoluta inutilidade de, por fim, ter aprendido a tocar satisfatoriamente o Für Elise, de Beethoven.



segunda-feira, 13 de junho de 2016

Campeonatos

A despeito da minha indiferença pelo fenómeno, foi durante um jogo de futebol que vivi os três minutos mais instrutivos da minha vida. 
Foi há muito tempo, noutro Europeu e num outro porto do Atlântico . 
Quando a equipa nacional marcou um golo, penso que nem sequer cheguei a saber contra quem, levantámo-nos ao mesmo tempo que toda a cidade para o comemorar. Então, uma qualquer força ignota derrubou os diques que construí com tanto método e, sem que nada o pudesse prever, travar ou justificar, encontrámo-nos nos braços um do outro e o meu corpo ficou colado ao dele durante muito mais tempo do que aquele que corresponde a um abraço de comemoração de um golo, um festejo entusiasmado, uma alegria partilhada.  Três inteiros, completos minutos. Disse-me um dia quem na altura cronometrou. E foi como se, naquele abraço, não apenas o meu peito e os meus ombros e as minhas mãos e a minha pele, mas o próprio cosmos se tivesse encaixado. E já todas as pessoas haviam regressado aos seus lugares e já a bola rolava num relvado qualquer e já o contador marcava um tempo, quando os nossos cérebros nos devolveram à praça e a uma plateia de atenções divididas entre o ecrã gigante e  aquele indecoroso abraço. 
E foi assim que todos, nós e a cidade, em simultâneo e em partes iguais, descobrimos o amor e o pecado. 

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Do alheamento

O mundo enlouquece devagarinho, no limite da dimensão intangível em que decidi abandoná-lo quando fiz uma fogueira no meio da sala, queimei os livros técnicos que acumulava e vim para Pirata. 
A última vez que vi um noticiário na televisão, foi numa língua que não entendo e apenas porque me avisaram que a guerra tinha chegado às fronteiras do país onde eu estava. Há quatro anos que não compro um jornal e outros tantos que não leio nenhum. Em regra, também não abro os links para as notícias que se espalham pelas redes sociais. Quando o faço arrependo-me sempre. 
Talvez o mundo não esteja mais demente do que sempre foi e a diferença se fique apenas na facilidade com que se espalham as notícias da sua loucura. 
Não tenho nenhum orgulho no meu alheamento. É fundado no mais profundo egoísmo. 
Também não tenho qualquer intenção de revertê-lo. 
Gosto muito de ser egoísta. 

terça-feira, 7 de junho de 2016

The Gipsy man




Lê-me a fortuna em três linhas da mão estendida. Roubou ao matemático que se debate com uma equação irresolúvel a expressão que me oferece. Esquece-se de me devolver a mão. Tenho um sinal na parte interior do segundo terço do terceiro dedo da mão direita. Em compensação, promete-me a última canção da noite. Ouço a estória de um cigano que partirá na manhã seguinte. Quando acordares já aqui não estarei. Diz a música. Danço-a, de madrugada, vestida com as argolas de ouro. Não quis saber o meu destino. Mas vi nas linhas da sua mão uma outra. Com um sinal na parte interior do segundo terço do terceiro dedo. Quando acordei já havia partido. Levou consigo a minha fortuna. 

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Remédios contra o amor

Enquanto é possível, e brandos são os impulsos que te agitam o coração 
se estás arrependido, sustém o passo logo à primeira porta;
esmaga, enquanto são novas, as sementes más de tão súbita doença, 
e que o teu cavalo, logo no começo, resista a avançar.
Verdade seja que a delonga dá forças; a delonga amadurece as tenras uvas
e transforma em searas robustas o que antes era erva;
a árvore que fornece abundante sombra ao viandante 
era, no momento primeiro em que foi plantada, um arbusto; 
podia, então, ser arrancada à mão da face da terra;
firma, agora, raízes nas profundezas, com toda a sua força.
Como é aquilo a que tens amor, observa-o com espírito ligeiro 
e livra o teu pescoço do jugo que há-de feri-lo.
Contraria logo ao princípio; tarde vem o remédio, 
quando o mal ganhou força em prolongadas delongas. 

Remédios contra o amor, Ovídio. 

Mão amiga, a minha própria - e logo a direita que é de todas a mão mais amiga que tenho - ciente que se traçam por aí planos de conquista e destruição desse órgão inútil que carrego do lado esquerdo do peito, tirou da estante, daquela parte que fica por trás dos livros que as visitas podem saber que leio, o Remédios contra o Amor e, com pouca subtileza, devo admito-lo, pousou-o sobre o iPad. 
É verdade que foi escrito por volta de 70 a.c., mas isso só faz dele um remédio milenar. Confiável, portanto. 

domingo, 5 de junho de 2016

O mais bonito conto de Nabokov

Tendo regressado da aldeia à sua mansão a pé pela neve escurecida, Sleptsov sentou-se a um canto, numa cadeira estofada que não se recordava de ter usado antes. Era o tipo de coisa que acontece após uma grande calamidade. Não é um irmão, mas um conhecido de acaso, um qualquer vizinho da região a quem nunca se prestou grande atenção, com quem, em tempos normais, mal trocamos uma palavra, quem nos conforta com sensatez e gentileza e nos entrega o chapéu que deixámos cair depois de terminado o serviço fúnebre, quando vacilamos de desgosto, os dentes batem, as lágrimas cegam os olhos. O mesmo se pode dizer de objectos inanimados. Um quarto, mesmo o mais acolhedor e absurdamente pequeno na ala menos usada de uma grande casa de campo, tem um canto não vivido. E foi num canto desses que Sleptsov se sentou.
Natal, Contos Completos, Volume I, Teorema. 

Nabokov não sabia apenas das palavras e é por isso que é um escritor inigualável. Sabia das coisas. Das pequenas coisas. Das nanocoisas. 
Aquele degrau junto à soleira da porta. A arca encostada à parede do hall de entrada. Uma mesa redonda de café. A laje da casa de banho. Os lugares que o corpo escolhe para se deixar cair quando  o choque, a dor, a náusea, fazem com que, ainda que por breves instantes, não se consiga caber em nenhum sítio conhecido.

To be a rock and not to roll


sábado, 4 de junho de 2016

Diário de Bordo

Talvez por ação das ampolas de sargenor que tenho tomado para tentar disfarçar, se não o cansaço, pelo menos o tédio, esta manhã acordei antes de todos dominada pelo surpreendente desígnio de querer trabalhar. Considerando que o meu emprego é dominar o mundo, conquistar os mares e espalhar o terror, patati patatá, ocorreu-me que talvez pudesse começar por pilhar uma embarcação que, muito ao longe, avistei da minha janela.
Fui acordar Anhrminir que ressonava sonhos conturbados deitado na rede que instalou na frente da porta do meu quarto e ordenei-lhe que acordasse a tripulação. Andhriminnir protestou com os mesmos grunhos incompreensíveis que usa para manifestar todas as três emoções ao seu alcance, mas depois de lhe ter virado a rede ao contrário, atirando-o para o chão, lá se dignou obedecer.
Uma hora depois - estes piratas estão impregnados de manias burguesas como duches matinais, máscaras de beleza e outras excentricidades - estávamos todos sentados no convés do Navio, em redor de uma mesa de trabalho. 
Apesar do entusiasmo que coloquei na defesa do projeto e da utilização discursiva de muitos hey oh e arrrrg, a tripulação dividiu-se entre a inexpressividade e o ar levemente assustado de quem escuta uma alma perturbada. 
Quando terminei, os primeiros a falar foram os ex presidiários que, representados por Gualtiero, o Italiano, fizeram saber que, agora, não trabalham aos sábados. Seguiram-se os bloggers que pediram a palavra para dizer que aos sábados de manhã estão demasiado ocupados a fazer posts com fotografias de imaculados lençóis de riscas azuis e tabuleiros com pequenos almoços compostos por mueslis e fruta em taças de barro com florinhas. Os poetas fingiram nem sequer ter compreendido e disseram-se que se queria que escrevessem uma ode tinha de esperar pelo domingo à noite que é quando a musa angústia mais favorece as suas causas. 
Andhruminir e o papagaio Polly, nos últimos tempos inseparáveis amigos, dormitavam o outro sobre o um encostados a um mastro próximo.
A embarcação que decidi assaltar era agora um minúsculo ponto intermitente perdido no horizonte. 
Endureci a voz e disse-lhes que ainda que não me acompanhassem, iria eu, acompanhada pela minha espada, saquear aquele barco.
Um coro em acelerada dispersão desejou-me boa sorte. 
E agora, para salvar a dignidade, estou aqui no meio do mar, enfiada num bote, com este chapéu de capitã quentíssimo e uma espada demasiado pesada, a fazer de conta que ataco a reles traineira de pesca que tive a má sorte de ver da minha janela quando ainda estava com vontade de trabalhar. 




O bolero de Crimson

Abençoadas as manhãs de baunilha nesta varanda onde falta um espanta espíritos a tilintar a brisa que me gela as pernas e faz mais quente o café derramado sobre os joelhos.  
King Crimson toca para mim o seu bolero. 
Na praia, daqui a pouco, hei de apanhar  o que a maré me tiver devolvido.  
Nada pode correr mal num dia que nasce de uma manhã assim.


quinta-feira, 2 de junho de 2016

Do verbo querer


Salvamentos

No linho da cama que balouça sobre a maré vimos a noite dissolver o dia. Estendes sobre os meus pés nus uma manta de constelações e, ao ouvido, contas-me estórias do oriente. 
Falas-me do jardim de laranjeiras, dos cavalos alados de um vizir e da princesa moura que se aprisionou nas ameias de um castelo longínquo. 
As gaivotas vêm abrigar-se na tua sombra lunar e eu sei, daquela forma como se sabem as coisas que são, que a minha adaga, esta noite, não será manchada pelo teu sangue. 




domingo, 29 de maio de 2016

Linha editorial

Como manter um blog de dor de corno sem dor de corno? 
 

sábado, 28 de maio de 2016

DOLIDZE, IOANE

pretendia crucificar a Humanidade sem usar madeira e pregos. Dizia para os homens caminharem na direcção uns dos outros de braços abertos, crucificados na promessa de um abraço. 

Afonso Cruz, As Reencarnacões de Pitágoras, Alfaguara.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Selvagem é o vento


Comunicações intergalácticas

És um poeta morto. 
E és um bom poeta mas um péssimo morto. 
Bons mortos são aqueles que disfarçados de vento nos vêm uivar à janela. Os que nos eriçam os pelos do pescoço em anticiclones caseiros que nos gelam momentaneamente. Os que, furiosos, fazem bater as portas em sinal de protesto contra as nossas escolhas de vivos. Os que deitam o fogo à cama. Os que nos escondem os anéis. Os que nos escrevem a sangue nos vestidos de veludo. Nota que nem sequer aspiro a recados no espelho embaciado pelo vapor do banho; velas que se acendem sozinhas; uma papoila a voar debaixo dos meus pés  ou enigmas deixados na areia lisa da maré. Suspeitava que não te resignarias a esse papel pop de fantasma de Hollywood. 
Ainda assim, até para os extremos padrões de tolerância com que sempre me abstive de julgar os teus atos, devo dizer-to, és uma miséria de morto.
Nunca te deste ao incómodo de me aparecer em sonhos com diretrizes inspiradas sobre os intricados caminhos da minha existência. Nas raras noites em te sonhei estavas entretido com uma banalidade qualquer e não te dignaste a uma interação memorável. Não me escreveste mails. Não me enviaste do além um único olhar capaz de me trespassar as costas. 
És um morto que teima num contínuo projeto de inexistência infinita. 
Um dia conheci uma mulher que jurava que cada um de nós traz consigo todos os seus mortos e arrasta-os pelo mundo para onde quer que vá. Tentei levar-te a lugares bonitos. Pensei que gostasses dos arranha céus de Nova Iorque, das vinhas de Chianti, ou que te sentisses confortável nos céus da Capadócia. Evitei, para tua exclusiva comodidade, repartições de finanças, centros médicos, supermercados em horas de ponta. 
A tua ingratidão revelou-se tão definitiva quanto a tua morte. 
És o meu primeiro morto. Até a morte me ensinaste. 
E és um péssimo morto. 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Passaporte para o exílio

Uma vez por ano, invariavelmente no último dia de maio, escolho renovar o passaporte para o exílio. Perguntaram-me, numa tarde de outro maio, do que é que fujo. 
Uma vez por ano ocorre-me que, se algum dia soube a resposta certa a essa pergunta, já a esqueci. 

naked summer sky

the process of my words profane
the poems i still breathe
the soothing silent masterpieces
hanging on the breeze
that brushed me with your spirit
and left my head at ease
that woke me up and lifted me
to see a moment freeze
i still see you naked
in my naked eye
underneath the honeysuckle
naked summer sky
far off dreams i lead with you
in other lives
that gently pass us by
we may never speak again
or wonder why
you woke me up and lifted me
to see a moment freeze
it made me cry
the quiet waters by
and by

Crónica de muitas mortes anunciadas

A forma como nos despedimos é o negativo da imagem do centro da alma.
As únicas despedidas aceitáveis são aquelas que são rápidas, decididas, irrevogáveis.
Não se pode confiar em quem não sabe arrancar o adesivo da pele num gesto firme.


quarta-feira, 25 de maio de 2016

Princípio da igualdade


Insignificância

Agora, àquela distância que só a proximidade permite, com a lua fria ao alcance dos dedos, o coração de uma ave na palma das mãos, ou o crepúsculo no interior das pálperas, sei que foi a vulgaridade a nossa única tragédia.

domingo, 22 de maio de 2016

Mãos nos bolsos

Um desgosto, uma falta, uma angústia, qualquer saudade, é companhia constante; sombra infalível; testemunha do nosso quotidiano; cão fiel que às vezes nos segue e outras vezes nos guia e sempre nos mantém ocupados, na expressão contida e ligeiramente ausente de quem resolve em permanência um puzzle matemático. 
Sinto-me pois desocupada; inútil; alienada do alienante; enfio as mãos nos bolsos do vestido; esquecendo-me, ainda olho para trás como se para dar passagem à saudade; tomo consciência da minha melhor expressão de estupidez e, em suma, não tenho nada para fazer.
Não imagino porque razão lhe chamam paz de espírito. 

sábado, 21 de maio de 2016

A pantufa desirmanada

Não foi caso único o de Palomar, personagem de Italo Calvino no livro a que deu igual nome, que, de um bazar de pantufas no oriente, regressou à sua terra com uma pantufa maior do que a outra. 
É inevitável, bem o sei, enquanto se coxeia pela rua abaixo, pensar-se naquele que, vítima do mesmo desacerto do grande mercador, noutro lugar do mundo, arrasta consigo um pé apertado pela pantufa que deveria estar calçada no nosso. 
Refletiu Palomar "talvez ele também esteja a pensar em mim neste momento, esperando encontrar-me para proceder à troca. A relação que nos liga é mais concreta e clara do que grande parte das relações que se estabelecem entre os seres humanos. E no entanto nunca nos encontraremos".
Mas ao contrário de Palomar, que continuou a usar as pantufas desirmanadas para manter viva a complementaridade com o seu companheiro de infortúnio, a mim foi-me dada a oportunidade de, fazendo a troca, desfazer o erro. 
Os meus pés estão agora calçados com duas pantufas que me servem e posso também, finalmente, deixar de pensar numa sombra longínqua que, noutra qualquer rua, coxeou a pantufa que me pertence por direito.
Palomar, que tanto pensou sobre este assunto, nada conjeturou, porém, sobre os efeitos da claudicação prolongada na coluna vertebral. 
Há erros do grande mercador que sobrevivem ao milagre da sua própria correção. 

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Enfadonha intempestividade

Depusemos as facas, as espadas, deixámos cair a rosa. 
O soalho ecoou os passos de um tango cansado e feito de gestos repetidos. Quando caiu uma noite artificial, a lua envergonhou-se atrás das árvores e as estrelas, creio, desistiram de aparecer. 
Havia uma voz ao fundo que prometia a eternidade ao som de uma guitarra de cordas feridas.
Ouvi o que disse a voz, vi a nossa sombra nos espelhos e pensei que o incorrigível defeito das coisas eternas é a sua constante, enfadonha, intempestividade. 




quarta-feira, 18 de maio de 2016

Os fazedores de chuva


Chama-anjos

Levei comigo, para lho entregar, um chama-anjos avariado. 
Na primeira vez que lho quis dar, ainda a prata não tinha escurecido no contacto com o meu pescoço e não estava avariado. Nessa ocasião, devolveu-mo à palma da mão que fechou dentro das suas e disse-me que ficasse antes com ele, que não suportaria saber-me desanjada.
Desta vez fui eu que, no último instante, decidi não lho entregar. 
É evidente que, entre os dois, é a mim que um chama-anjos avariado faz mais falta. 

terça-feira, 17 de maio de 2016

Sudários

Quando o céu me surge por baixo dos pés e o chão me pesa nos ombros e as árvores nascem lá em cima e o avesso do mundo tem costuras tão ásperas que ameaçam trespassar-me os ossos, como, por exemplo, agora mesmo, visto a minha t-shirt cinzenta de pirata. Não há desnorte que confunda esta velha t-shirt cinzenta de pirata. É impossível perder o que quer que seja enquanto a mantiver vestida. 
O seu super poder: o sudário de um abraço mais antigo do que o medo.

domingo, 15 de maio de 2016

Inventário

- Um poema manuscrito sobre aves que fazem ninho no meu corpo.
- Meio búzio em estado bastante degradado.
- Um calendário incompleto de pés egípcios em atividades quotidianas diversas.
- Um CD pirateado com duas músicas de Nicolaj Grandjean.
- A figuração da paixão em acrílico sobre cartolina. 
- A constelação Orion em estado natural, como nova. 
- A fotografia de uma baía mágica, bastante usada. 
- A lua cheia.
- Dezenas de músicos de jazz de nomes impronunciáveis.
- A figuração musical da morte em vida, versão piano.
- Uma verdade e uma mentira (indistintas). 
- Uma fava do mar (bem conservada). 

... O inventário da minha loucura. 



Segundas oportunidades


E a quem pode censurar-se a ambição da oportunidade de falhar melhor? 


sábado, 14 de maio de 2016

Mil, setecentos e treze dias

Respiração reversa

Estou há muitas horas, imóvel, sentada nesta cadeira. Foi aqui que esperei a manhã. A madrugada, atravessei-a no mais denso dos silêncios e o frio exterior foi um raro momento de coerência equilibrada com essa outra forma de frio, que nasce por dentro. Quando ambas as temperaturas coincidem, o coração ganha uma amenidade que, apesar de falsificada, quase nos faz voltar a sentir humanos. 
Enquanto o dia rompia, nos seus tons violeta degradé, ocorreu-me que o degelo do coração não é um processo menos violento e arriscado do que o que envolve a sua congelação. Talvez seja ainda mais arriscado. Até os mais leigos em matéria de culinária, entre os quais me incluo, sabem que não há organismo que, depois de descongelado, possa voltar a congelar-se sem grave perda das suas propriedades essenciais.
Vou ficar à espera da noite, sentada nesta mesma cadeira, de onde vi formar-se a manhã. 
Amanhã, sei-o, acordarei com um coração novo, fresco, pronto a consumir. Um coração de utilização única, integral. Daqueles que já não se podem reservar para mais tarde. Daqueles que, de ora em diante, não mais poderão deixar de bater.


terça-feira, 10 de maio de 2016

O estranho caso dos personagens que desapareciam da história

Num maio distante e de má memória, por ocasião do dia em que o céu se partiu e desfez-se em minúsculas pedras geladas que se espalharam pelo mundo, entrei em casa e abri as janelas para deixar entrar as gaivotas que se vieram abrigar na minha varanda.
Para acompanhar a terrível música do céu a desfazer-se de encontro à calçada, sentei-me ao piano e toquei as primeiras notas. 
Quando o quinto dedo da mão direita repetiu um sol sustenido vi entrar pela janela uma mulher vestida de verde que trazia pendurada no rosto a expressão marmórea dos que abandonaram. Seguiu-a um homem de olhos verdes que exibiam a firmeza de quem viajou o mundo. E um governante escondido por um ramo de flores no passo apressado de quem está atrasado para um encontro. E uma mulher de óculos de massa e camisa branca que seguia o governante. Foi então que, pela mesma janela, entrou uma mulher que carregava junto ao peito um livro cujas letras se sumiam em contínuo anticonto e um mágico que, na sua varinha, dir-se-ia procurar a mulher que um dia fez sumir. 
Levantei-me do piano e chamei Martinica para que servisse um chá àqueles que, soube-o muito depois, eram personagens exiladas das suas próprias estórias. 
Nada perguntei e, confesso, nenhuma estranheza senti. Aceitei há muito que a bizarria é o labirinto no jardim do mundo. Em comum, tinham apenas uma rara obsessão com vozes intermináveis que saíam de telefones e das quais, de uma forma ou de outra e pelas mais diversas razões, todos pareciam fugir. 
Martinica confessou-me então que, não gostando de bizarrias em dias em o que céu se desfaz em pedaços, deu-lhes um chá de sumiço. Sugeriu-me que os fotografasse para memória futura. Expliquei-lhe que me ensinaram que é na memória, e apenas nesta, que devem guardar-se as melhores imagens.
Terminado o chá, a sala ficou subitamente vazia, as pedras deixaram de cair do céu e eu regressei ao piano.
E também esta estória hei de esquecer um dia. 

As origens, aqui. 
E os desenvolvimentos, aqui.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

sometime ago

se ficasse mais um segundo, as mãos pousadas na linha imaginária da clavícula, meia frase que se desfaz, a boca entreaberta, um medo que vem do chão, a contabilidade da razão, se ficasse mais um segundo, a paz que pode conter um sorriso, certa música partilhada, os sábados de manhã de chuva, o final de uma canção, o farol iluminado pela lua, o livro de poemas na cadeira de baloiço, se ficasse mais um segundo, a respiração no meu pescoço, a transposição metafísica da distância, as notas de jazz espalhadas no chão, uma febre que vem do início dos tempos, as palavras que nada podem.
Não saberia regressar.

sábado, 7 de maio de 2016

Lisboa insone

A cidade onde eu nunca durmo. 

Desertos

Fomos atravessando o deserto. A lonjura, medimo-la pela nossa pele moribunda, de poros sufocados de areia.  Do cimo das dunas, cumprindo o ancestral saber dos magos, não olhámos nunca nem para trás nem para a frente. O passado foi já demasiado longe para que possamos regressar, o futuro  será ainda uma miragem a poente. Fixámos o olhar rente aos pés, num presente de cansaço, sede e dormência.
E esperamos. Esperamos, apenas, que o desenho dos nossos trilhos volte a cruzar-nos. Que então se abra no deserto um mar azul. 


sexta-feira, 6 de maio de 2016

Desquecer

Esqueci-o inúmeras vezes pois o problema nunca foi o esquecimento. Começo sempre por esmorecer-lhe os contornos do rosto. O meu processo de esquecimento é uma miopia progressiva. Mas há uma ligeira imperfeição, um espaço demasiado grande entre dois dentes, uma marca de varicela na sobrancelha direita, um desnível mínimo na cana do nariz, esses defeitos que o tornam humano, que são a estrutura da minha memória. 
Então, uma manhã, diante de uma chávena de café, a mesa posta na varanda, uma gaivota que se afasta, um cão que a persegue, o gesto de soltar os cabelos de dentro da camisa, diante de uma dessas ninharias, assalta-me esse outro nada que é uma das imperfeições do seu rosto. E a partir desse detalhe, desquecendo-o, reconstruo-lhe o olhar distraído, um sorriso que nasce do fundo do estômago, o andar balançado, a imagem das suas omoplatas a erguer-se de uma multidão anónima, a minha mão muito pequena dentro da sua, uma voz sussurrada.
Esqueci-o inúmeras vezes pois o problema nunca foi o esquecimento. 

domingo, 1 de maio de 2016

Kierkegaard, o Cão Pirata



Esse ingrato, que nem um desenho do dia da mãe foi capaz de me oferecer...

De um reggae de domingo

Há apenas três sítios no mundo onde ainda se ouve uma certa música:
Lá longe, do outro lado do mar, quando a bruma se entranha na pele e uma alma inquieta se debate contra as paredes da sua cela; na minha sala, como sucedâneo figurado de uma boa velha lâmina nas veias, mas isenta de pingos de sangue na carpete e marcas inestéticas no pulso; neste lounge estendido na areia, de abril a novembro, onde, podia jurá-lo, escolhe a música quem também um dia se perdeu nela.

sábado, 30 de abril de 2016

Gente sem destino

Sentávamo-nos à mesa e estendíamos sobre o mundo  um cruel meridiano que separava os fracos dos fortes. O destino era um berlinde de vidro com muitas cores no centro que fazíamos girar na palma da mão direita. Lá em baixo, a terra esperava-nos imóvel, muda, domesticada. Sabíamos muitas coisas. Nenhuma que nos houvesse sido ensinada pelo coração, esse órgão supérfluo entre deuses banidos.
Só havia um tempo e uma razão e estavam fundidos nas nossas certezas.
Reinávamos sob o sol e tudo colhemos como nosso. 

Depois fez-se o entardecer, com os seus crepúsculos de cansaço. O jardim fechado, o balouço vazio, um brinquedo partido. A sombra baça do prenúncio de nada num canto do pátio, a espraiar-se. Enquanto a terra se desvanecia ao ritmo da vertigem, as certezas arrefeciam.

E foi assim que entrámos na noite, com o destino a deslizar por entre os dedos da mão e a perder-se debaixo dos nossos pés. Uma distância intransponível. O horizonte sem terra. A ignorância do coração a tornar-nos fracos até ao sono. Deuses de coroa de lata ou, pior ainda, apenas gente sem destino. 


sexta-feira, 29 de abril de 2016

Contos do Lago Tanganica - a vitória

Num início de tarde de domingo, numa medina marroquina, achámo-nos em frente de uma porta prateada com tachas da mais fina porcelana do azul dos olhos berberes. Tagik, o berbere, convidou-nos a entrar e cobrou-nos cinco euros por duas estórias. Juntamente com a túnica branca, despi o pó das ruas e sentei-me descalça na fresca penumbra, a fumar o cachimbo de água que me estendeu, concentrada no tom hipnótico da voz profunda que em francês me jurava, "reza a lenda que, num lago rodeado por um jardim de laranjeiras, mas Alá sabe mais..."
Cinco euros por duas estórias é modesto preço para quem as coleciona ao ponto de, em tempos, delas ter dependido para adormecer e de, agora, as pedir a desconhecidos. Mas quando Tagik, o berbere, me ofereceu uma terceira estória, pedi-lhe que a guardasse para a contar a um desconhecido que a não pudesse pagar. Então Tagik perguntou-me se estaria interessada em comprar-lhe um espelho mágico que, reza a lenda, mas Alá sabe mais, faria parte de nada menos que do espólio da madrasta da branca de neve. O insuspeito espelho viajou muitos quilómetros e acabou de costas voltadas para o mundo - que é a forma como penduram os espelhos os titulares de consciências duvidosas - na parede do meu quarto.
Pôs ontem fim à sua milenar mudez. Atormentada pela incerteza dos caminhos de uma guerra fratricida, rodeada de inocentes reféns e desapossada de um certificado oficial de preferida do sanção de Tanganica, enfrentei o espelho e fiz-lhe a pergunta terrível.
O espelho, que não conhece a mentira, disse-me que sou a preferida da Palmier Encoberto. 
Foi assim que, ganha a guerra, voluntariamente decidi libertar os reféns.
Contar-vos-ão outras estórias. Em cada um dos habitantes do Lago vive Tagik, o berbere. É essa a sua magia.
Porém, só o espelho não conhece a mentira. 
E, diz-se, Alá sabe ainda mais.





quinta-feira, 28 de abril de 2016

O paradoxo Nabokov

Nabokov escreveu os mais bonitos contos de sempre. Talvez nem sequer seja possível suplantar-se a perfeição dos contos de Nabokov. Até hoje, que o saiba, não foi feito. Faltava-me o esgotado segundo volume dos contos de Nabokov. Há lacunas que nos preenchem. São os tesouros que sabemos só ainda não ter encontrado.
Agora que nada me falta, sobra-me a tristeza de pressentir que absorvi o expoente máximo da beleza.

Pavese sonhou-nos

E então nós cobardes
que amávamos a noite
rumorosa, as casas,
os caminhos do rio,
as luzes vermelhas e sujas
daqueles lugares, a dor
mansa e calada—
arrancámos as mãos 
da cadeia viva
e calámo-nos, mas o coração 
sobressaltou-se de sangue,
e não houve mais doçura,
não houve mais abandono
ao caminho do rio—
agora livres, soubemos
que estávamos sozinhos e vivos.

Cesare Pavese, Trabalhar Cansa, Livros Cotovia

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Entretanto, muito longe do Lago do Tanganica...

Será que a minha mamã me abandonou?
In, Pequena Cutxi, ex cadela da Palmier Encoberto.

terça-feira, 26 de abril de 2016

24 horas


Diário de Bordo - A traição de Palmier Encoberto

Foi há tantos setenta anos que ainda eu nem sequer era Pirata. Tinha uma profissão quase honesta e vivia desgastada entre os incómodos de uma existência real e um, admito-o agora, desesperado, projeto de fuga para África com vista à corrupção capitalista de uma qualquer tribo selvagem que me abrigasse. Um dia, que recordo de céu azul-sonho e sol dourado-prozac, recebi o meu primeiro tesouro blogosférico. Era uma medalha de metal fundido por ancestrais mãos de fada, adornada a pó de estrelas e cravada de diamantes feitos de lágrimas de riso de sereia. Tinha a seguinte misteriosa inscrição: "A preferida de Pipoco Mais Salgado". Guardei o meu tesouro por muitos setenta anos. Nas frias noites de amargo nevoeiro, logo a seguir a ser abandonada por mais um namorado desistente que me haveria de render centenas de posts melodramáticos, segurava aquela medalha na minha elegante e pequena não (porém de dedos compridíssimos) e sabia instantaneamente que tudo haveria de ficar bem. Diz-se por aí, pouco importa agora se com verdade ou mentira, que do fundo do meu peito chegou a fazer-se ouvir uma voz gollumniana que murmurava em tom pouco saudável as palavras "my precious".
Por muitos setenta anos me acompanhou a minha medalha, ora exibida no decote, ora protegida de olhares dentro de uma das minhas arcas de Pirata.
Até ontem.
Palmier Encoberto, não há porque proteger da infâmia gatunos, aquela que eu considerava uma espécie de Mary Reed no meu universo de Anne Boney, sob pretexto de querer assistir às comemorações de 25 de abril na Bang & Olufsen que neste navio instalámos de propósito para o efeito (usar o verbo comprar já seria manifesto exagero), instalou-se ontem entre nós.
Quando esta noite fui confrontada com isto, corri ao baú onde guardo o de mais valioso que a vida me deu (o cartão de crédito; uma carta já rota de tanto lida em que um louco promete amar-me; um búzio estropiado; uma fotografia de quando era nova; os poemas do Borges e a medalha de preferida do Pipoco Mais Salgado). 
Sem espanto algum verifiquei que essa senhora com nome de bolo de pobre que antes cheguei a considerar uma Mary Reed, apropriou-se da minha medalha e anda por aí a exibi-la.
Não gosto de arrastar esta brava tripulação pirata para empresas de finalidades individuais. Mas quando a honra de uma capitã está em causa, o único caminho possível é a espada. 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

O que nos salva

Salva-nos uma frase que há muitos anos sublinhámos num livro esquecido; um pedaço da conversa de dois desconhecidos sentados na mesa de trás; um pôr do sol que por nenhuma razão discernível suplanta um outro; uma conta de vidro fosco que deu à costa na praia e a forma perfeita do búzio que lhe serviu de abrigo; a inigualável expressão de sofrimento da viúva do pescador; a imagem congelada daquele céu apocalíptico que é a vitória do sol sobre a chuva torrencial; as boas e as más palavras dos amigos; uma afortunada conjugação de notas que, há muitos séculos, o compositor descobriu no final de uma manhã de tédio; o traço seguro da figura humana desenhada numa gruta do Egipo; o desenho geométrico do pano que o vento balouça num mercado de África; a expressão da mãe que embala a filha; a promessa que reside numa boa manhã de início de verão; um verso de Borges que ficou por decifrar; o parágrafo oculto desse livro que ainda nos falta ler; um diálogo de John Cassavetes; a mais abominável das mentiras, contada debaixo de uma constelação ignota nesta parte do mundo; o poema que um dia conseguiremos escrever e a música que um dia seremos capazes de tocar; esse resto de memória de um amor inútil que nos isenta a ambos do pecado da mediocridade. 

Post sriptum:

E também o que nos condena, pela Flor em A Faca Não Corta o Fogo 

Dia da Liberdade

O homem sem memória, sem filosofia e sem escrita não é nada. Também não é nada sem tristeza, sem fatalismo, sem violência e paixões. Como um sequestro da política pela economia e um sequestro da liberdade pela segurança, há também um sequestro do conhecimento humanistico em nome do utilitário.

Ricardo Menendez Salmón, citado na revista LER, primavera 2016.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Pianology

Aprender piano com o objetivo de melhorar a musicalidade da escrita pode não ser uma excelente solução quando se é obsessivo. 
Tende-se a deixar de escrever. E a deixar de ler. E a deixar de ver televisão. E a deixar de sair de casa. E, em suma, a deixar de fazer qualquer outra coisa que não seja aprender piano. 

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O Inferno são os outros

O mundo estava cheio de crueldade e a infâmia passeava-se pelas avenidas largas de rebordos decorados a tílias. As pessoas destilavam a mesquinhez e a ignorância debaixo dos mais variados outfits éticos. A honra era uma memória bolorenta no olhar vago dos retratos dos bisavós; a verdade, composta por mil nuances em tons de cinza; a coragem, a designação que se dava à frontalidade dos anónimos e à verborreia dos estúpidos. 
A vida era o inferno Sartriano.  
Mas depois vim para Pirata, adquiri competências em crueldade na ótica do utilizador e um lindo sol passou a brilhar sobre as magníficas águas azuis do oceano.  

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Space Dementia

A montanha esqueceu-me.
Havia uma árvore com o meu nome nela inscrito mas o vento derrubou-a e os pássaros já lá não fazem ninho. 

A casa esqueceu-me.
Ninguém sabe quem pintou o quadro pendurado na biblioteca e lavaram do chão da sala a nódoa de vinho. 

O cais esqueceu-me.
Há um barco a mais nas noites de luar que já não dança com as ondas um tango de destino. 

A praia esqueceu-me.
Mil grandes marés desfizeram o palácio de areia, promontório de estrelas onde perdemos o caminho. 

Devolvo-te inocentes as ruas, 
purificados os crepúsculos, 
desinfetados os sonhos, 
esquecidos todos os olhares.

E este meu silêncio 
é o cumprir da música 
na montanha; 
na casa; 
no cais;
na praia.

A paz que se levanta do tempo e que nos torna insignificantes. 
Outra vez.
Uma outra vez
Mais.










domingo, 17 de abril de 2016

Um céu colecionável

Pouso o livro nos joelhos para seguir o rasto das asas da gaivota. Cruza um céu que é de primavera sobre o mar. São os meus céus diurnos favoritos. Contêm a promessa de uma infinidade de redenções. Só existem nesta terra.


quarta-feira, 13 de abril de 2016

O novo protocolo da morte

Há um novo protocolo da morte na era das redes sociais. A confirmação da notícia veio através de um grupo de chat, cuidadosamente escolhido para o efeito. Alguns dos visados puderam compartilhar a sua incredulidade  em direto, perante um grupo heterogéneo de pessoas que não eram todas conhecidas umas das outras. O grupo de chat, em poucos minutos, transforma-se num grupo de enlutados anónimos, em que uns partilham a sua indignação e desgosto e outros, sofrendo a mesma indignação e desgosto, prontamente disponibilizam o conforto institucional adequado com recurso a variantes letradas da frase “é a vida". Uns manifestam o pesar pelos horrores do quotidiano e falta de tempo para fazer aquilo que verdadeiramente importa e que é passar tempo com os amigos e mostrar-lhes o quanto os amamos. Os mais dinâmicos não perdem tempo e combinam encontros ali mesmo, naquele grupo de chat criado para anunciar a morte de um amigo comum. Não há um tom festivo na promessa do encontro, há um pesar, mas, parece-me, menos pela morte do que pela urgência na obrigação de rever os amigos vivos antes que também estes morram. Nem todos os elementos do grupo vêem as mensagens em simultâneo. Os que só agora chegam, interrompem as combinações dos almoços para manifestar o seu choque e pesar, sendo prontamente apoiados por aqueles que há uma hora atrás foram eles próprios destinatários das mensagens de consolação e que, agora, refeitos do pasmo, retribuem com nova variante da mesma frase "é a vida". As pessoas fornecem ainda detalhadas justificações das razões pelas quais só agora viram as mensagens, relatando os seus afazeres quotidianos e lamentando-se pela falta de tempo para aquilo que verdadeira importa, que é estar com os amigos e mostrar-lhes quanto os amam. E se a notícia da morte é abruta porque não pode ser de outra forma, a causa da morte é anunciada suavemente através do silêncio geral que se segue à pergunta repetida pelos mais desatentos. Ao fim de algum tempo, as pessoas deixam de perguntar qual a causa da morte, interpretando corretamente o silêncio coletivo e manifestando uma nova incredulidade ou redobrando as manifestações de pesar, porque, efetivamente, nem todas as cores da morte colhem o mesmo nível de desgosto. Umas horas depois, é anunciada a hora do funeral. Os retardatários ainda estão a marcar encontros e há novas palavras de consolação para aqueles que só agora chegaram à conversa. A comunicação da hora do funeral desencadeia uma nova dinâmica no grupo. As pessoas aproveitam aquela mesma conversa para organizarem boleias, acordarem locais de recolha, trocarem números de telemóvel. Simultaneamente, há quem considere importante explicar ao grupo que não pode comparecer no funeral, colocando no detalhe da justificação da falta o mesmo cuidado que teria se estivesse perante o próprio morto. Reparo que as pessoas que comunicam a sua futura falta ao funeral, invariavelmente, insistem em manifestar uma vez mais o seu desolo, como se a duplicação do desgosto aliviasse qualquer grão de areia na consciência ou como se quisessem assegurar aos outros elementos do grupo que se não vão é mesmo porque não podem e não porque não estarem tristes com a notícia e não preferirem que o amigo continuasse vivo. Entre o choque, a ausência da pergunta do dia, as manifestações de carinho e apoio, as combinações e as justificações das faltas, ainda há quem chame a atenção para os textos de homenagem escritos naquela mesma rede social, recomendado leituras.
Entre as pessoas daquele grupo de conversação, não estão os amigos mais íntimos do morto. Presumo que a organização estabelecida pelo novo protocolo da morte seja de tal forma perfeita que, paralelamente, exista um outro grupo de conversa, exclusivo aos amigos íntimos, onde todas as perguntas sobre a causa da morte sejam prontamente esclarecidas e onde as histórias felizes que se relembram em homenagem ao morto tenham menos anos.
Não sou ingrata nem cínica. Reconheço as vantagens do novo protocolo. O protocolo, novo ou antigo, qualquer protocolo, serve essencialmente para manter emoções sob controlo, evitando gestos desadequados e contendo danos. A intenção é sempre boa e esta nova forma é prática e eficaz. A informação útil flui, a inútil alivia quem a presta, os cuidados básicos ao nível do apoio psicológico são imediatamente prestados pelos enlutados anónimos. Não se incomoda quem não deve ser incomodado. Os comportamentos que descrevi em cima, também os tive. Estas pessoas, tenho válidas razões para o presumir, estavam a ser sinceras no seu desgosto. O método não chocaria o próprio morto que tantas vezes recorreu às redes sociais gritando pelo socorro que, é evidente, nenhum de nós estava habilitado a prestar-lhe.
O que não consigo deixar de pensar é que na eficiência pragmática deste novo protocolo da morte - sem voz nem olhos - há o sabor amargo do mesmo veneno que está na génese de factos idênticos ao agora protocolado.

"É a vida!"

terça-feira, 12 de abril de 2016

A necrologia possível

Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega

Herberto Helder, A Faca não Corta o Fogo 

Existencialistas

Existencialistas, são as gaivotas que vieram passar a noite na varanda do meu quarto, contando, com os seus gritos insuportáveis, as mais incompreensíveis histórias de aflição. 



domingo, 10 de abril de 2016

Verão indiano

Naquele início de verão partiu para a Índia com uma mochila às costas. 
Em Lisboa, cumpríamos a tradição dos verões lentos e insuportáveis. A ausência escaldava as noites espremidas num apartamento demasiado apertado e a solução vinha da frescura que o rio prometia. Foi um verão vodka limão com noites brancas antecedidas pela imobilidade das tardes nas esplanadas. O postal perdeu-se nas intrincadas linhas do destino. Enquanto nada acontecia, como sempre sucede, abria-se o espaço à vida.
Regressou já depois das primeiras folhas do outono. Trouxe na mochila os sete metros de seda que escondi na última gaveta da cómoda das dezenas de casas que desde então foram minhas. Estendeu-mo no colo, dizendo, desajeitado, que era um vestido de noiva indiano. Comprou-o no seu segundo dia na Índia, carregando-o pela monção fora,   para o fazer meu à chegada. Foi a única vez na vida que o vi comover-se.
Sessenta dias foram demasiadas noites no verão lento de Lisboa. Recebi-o numa casa encaixotada na direção de um outro futuro. O nome e o endereço do destinatário estavam escritos por todas as ruas de Lisboa. 
Nunca chegou a ver-me vestida com o sari. Usei-o uma única vez. Anos depois, à distância de dois aviões, na noite fria que se seguiu ao dia em que foi sepultado.
Hoje vi um sari num estendal, a lutar contra o vento, e lembrei-me desse longínquo verão indiano em que os astros decidiram escrever um conto pulp fiction. 

sábado, 9 de abril de 2016

Diário de Bordo

Duas vezes por semana, Reboredo, o médico ortopedista, personagem ofertada, dá-me aulas de dança no convés do navio. Mandei vir um gira-discos e uns velhos discos em vinil de tangos argentinos, encomendei uns sapatos de dança e meia dúzia daqueles vestidos às flores, de cintura estreita e saia rodada. No início, o médico resistiu às minhas insistências para que enfiasse uma rosa entre os dentes, fazendo os possíveis por me convencer que, na realidade, o tango não se dança assim. Mas os meus problemas com a interiorização do conceito realidade são de tal forma notórios e públicos que o bom doutor acabou por entender aquilo que mais tarde ou mais cedo todos entendem: que contrariar-me é, em igual medida, inútil e perigoso. 
Ultrapassado este obstáculo, passámos, duas vezes por semana, a ser muito felizes na pista de dança improvisada, ao som do tango argentino e sob a vigilância de uma lua estupefacta.
Reboredo, o médico ortopedista, é demasiado existencialista para poder algum dia ser pirata, mas além de se ter revelado um excelente professor de dança é a única pessoa neste navio com quem posso discutir filosofia sem correr o risco de ter um motim a bordo.
Ontem, durante a lição de dança, tivemos a seguinte conversa filosófica:
- Nabokov diz que além da noite exterior, todos conhecemos a noite interior num ou noutro momento do dia.
- Capitã, saiba que todas as noites se iluminam com velas.
- Ora, Reboredo... Mas estou a falar daquela escuridão que nos circula nas veias. Uma escuridão cega à luz dos astros.
- Capitã, saiba que os astros são a solução para qualquer tipo de noite.
- Não estou a perceber a sua metáfora. Terá de ser mais explícito.
- Serei. A capitã precisa de um namorado.
- Não conheço esse livro. Quem é o autor.

Nessa altura reparei que Reboredo, o paciente médico ortopedista, cuspiu a rosa e por muito pouco não me deixou cair.


Uma última vez mais


Praia

A outra ocupante da praia está a vinte metros de distância, deitada, vestida e calçada, sobre uma toalha desfiada por vários verões. Tem uns phones que parecem protege-la do mundo. Desde que cheguei não dirigiu um único olhar na minha direção. Canta alto, na sua esplêndida voz de negra, indiferente à minha presença, canções que desconheço. 
Descalço os ténis e observo os dedos dos pés que parecem ter encolhido. Enterro-os na areia para afastar este pensamento. Ao fundo há um veleiro que desliza lentamente até ficar escondido por uma rocha. Um dia, o mar não terá nenhum nome tatuado e eu poderei descansar a memória junto às ondas. E também este pensamento afugento, agora, com uma página da revista. A mulher move-se. Apoia a cabeça no braço esquerdo e continua a cantar. Devolvo-me à minha revista mas sei que depressa encontrarei outro pensamento que serei obrigada a expulsar. O ócio obriga-me a uma atividade intelectual extenuante. Dói-me a cabeça. Tenho calos nas dedos à força de tanto varrer pensamentos incómodos. Volto a olhar para aquela mulher que canta como se só ela existisse na praia e tenho certeza que não está a pensar em nada. 
E eu invejo-a, com o tipo de inveja mesquinha que é a matriz do ódio e da doença. E esqueço o sol, a areia nos pés, o veleiro que desapareceu atrás da rocha, todos os nomes, a revista. 
Somos só eu, uma mulher que canta e a minha inveja. 

terça-feira, 5 de abril de 2016

Hamsters

De uma forma ou de outra, somos todos pequenos hamsters brancos, de olhos vermelhos, patinhas encolhidas, fechados numa gaiola cuja única fonte de animação consiste na roda estúpida onde nos entretemos a girar com o objetivo de ficarmos tontos. 
Às vezes também gostamos de fingir que estamos a roer as grades. 

domingo, 3 de abril de 2016

As cidades inesquecíveis

Embora fosse eu a viajante e ele o Imperador, naquela noite, deitados no jardim suspenso do palácio, foi sua a descrição da cidade e meu o silêncio. 
Falou-me sobre cada uma daquelas pequenas rochas no mar que eram afinal as ilhas onde, à noite, os miúdos maltrapilhos reinavam, devolvendo aos pescadores, antes do amanhecer, os barcos que roubavam para as suas migrações noturnas. Descreveu-me o fundo do mar forrado de estrelas vermelhas e vigiado pelo deslizar lento das mantas, que, dizia, quando vínhamos por bem, para soltar das redes uma tartaruga aprisionada ou para jogar às escondidas com o lírio albino que se dizia ter cem anos, nos enlaçavam num abraço macio que haveria de fazer com que fosse impossível esquecê-lo. Contou-me sobre as cascatas, em cujas águas quentes, ao crepúsculo, se banhavam sereias, reunidas pelo chamamento do mais triste dos cantos. Revelou-me uma baía assombrada pelo fantasma único de dois amantes separados que, a cada lua cheia, regressavam para se amarem, trazendo espelhados no olhar o branco das nuvens e da espuma do mar de uma tarde longínqua. Contou-me sobre as grutas que os homens esculpiram debaixo da terra e que eram a invisível cidade onde corriam a esconder-se quando os piratas se aproximavam da costa e desembarcavam dos seus grandes navios em busca de alimento e amor. 
E para mim, que antes julgara conhecer a cidade, tornaram-se-me invisíveis as chaminés, as casas de basalto, as ruas circulares de pedra escura, um pelourinho solitário, os moinhos de vento, e passei a circular por entre as lendas, comprando o pão a sereias, fazendo vénias a crianças que eram governadores de ilhas mágicas, recebendo o abraço inesquecível das mantas, amando em baías assombradas e aceitando a inevitabilidade da chegada do navio pirata que haveria de me levar.

———

Entre KUBLAI KHAN e MARCO POLO, segundo diz Italo Calvino, em As Cidades Invisíveis, editorial teorema, terá sucedido o seguinte diálogo:


"POLO: – ... Talvez este jardim só exponha os seus terraços para o lago da nossa mente...
kUBLAI: – ... E por mais longe que nos levem as nossas atribuladas empresas de guerreiros e de mercadores, ambos guardamos dentro de nós está sombra silenciosa, esta conversa pausada, está noite sempre igual.
POLO: –A menos que eu se dê a hipótese oposta: de os que se afadigam nos acampamentos e nos portos só existirem porque pensamos neles nós dois, encerrados entre estas sebes de bambu, imóveis desde sempre.
KUBLAI: – De que não existam a fadiga, os bezerros, as pragas, o fedor, mas só esta planta de azálea.
POLO: – E de que os carregadores, os calceteiros, os varredores, as cozinheiras que limpam as vísceras das galinhas, as lavadeiras ajoelhadas sobre a pedra, as mães de família que mexem os arroz aleitando os recém-nascidos, só existam porque nós pensamos neles.
KUBLAI: – Essa conjectura não me parece que nos convenha. Sem eles nunca poderíamos ficar a balançar encasulados nas nossas camas de rede.
POLO: – Então a hipótese é de excluir. Portanto será verdadeira a outra: a de que existam eles e não nós.
KUBLAI: – Assim demonstrámos que se nós existíssemos, não existiríamos.
POLO: – De facto, aqui estamos."

Da coleção de céus


O céu deste instante.

sábado, 2 de abril de 2016

O facto não é horrível

Trezentas e sessenta e cinco tardes, voltei-me para poente e vi o sol morrer no mar. Não esperei por outra coisa se não pelo ocaso. Há uma alegria insólita na verificação empírica do cumprimento das promessas astrais. Em cada um dos dias, o sol nasceu na montanha para mais tarde se afundar no mar. Entre um e outro instante esvairam-se no fio da inutilidade os anseios dos homens. Na trigésima sexagésima sexta tarde, julguei ter compreendido a sabedoria das pedras; dos livros antigos; dos animais e do vento.
"Não espero nada. O facto não é horrível. Desde que o resolvi, ganhei tranquilidade."
A citação é retirada de A Invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares 

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Dia das mentiras

"As mentiras mais cruéis são frequentemente ditas em silêncio."
Robert Stevenson 

Arrependo-me de uma infinidade de mentiras. Essas, têm todas em comum o facto de serem mentiras que usei contra mim própria. Aquelas que disse aos outros, só o pecado do defeito as mancha. 

O Espelho que há em Pavese

Vens sempre do mar 
e do mar tens a voz rouca,
e sempre os olhos secretos,
de água viva entre silvas,
A fronte baixa como
um céu de nuvens baixas.
De cada vez renasces 
como uma coisa antiga 
e selvagem, que o coração 
já sabia e cala.

De cada vez é um rasgão, 
de cada vez é a morte.
Combatemo-nos sempre. 
Quem aceita o choque
tomou o gosto à morte 
e leva-o no sangue.
Como bons inimigos 
que não mais se odeiam
somos uma mesma
voz, uma mesma pena 
e vivemos ofendidos 
sob um céu miserável. 
Entre nós não há a insídia, 
não há coisas inúteis - 
combateremos sempre. 

Combateremos ainda, 
combateremos sempre.
Pois perseguimos o sono
da morte lado a lado,
e a nossa voz é rouca
a fronte baixa e selvagem 
e um céu idêntico.
Fomos feitos para isso.
Se um de nós cede ao choque,
segue uma longa noite
que não é paz nem trégua 
e não é morte verdadeira.
Tu já não existes. Os braços 
agitam-se em vão.

Até que o coração nos trema.
Disseram um dos teus nomes.
A morte recomeça.
Coisa ignota e selvagem
renasceste do mar.

Cesare Pavese, in Trabalhar Cansa 

A nêspera que fica deitada