sábado, 21 de maio de 2016

A pantufa desirmanada

Não foi caso único o de Palomar, personagem de Italo Calvino no livro a que deu igual nome, que, de um bazar de pantufas no oriente, regressou à sua terra com uma pantufa maior do que a outra. 
É inevitável, bem o sei, enquanto se coxeia pela rua abaixo, pensar-se naquele que, vítima do mesmo desacerto do grande mercador, noutro lugar do mundo, arrasta consigo um pé apertado pela pantufa que deveria estar calçada no nosso. 
Refletiu Palomar "talvez ele também esteja a pensar em mim neste momento, esperando encontrar-me para proceder à troca. A relação que nos liga é mais concreta e clara do que grande parte das relações que se estabelecem entre os seres humanos. E no entanto nunca nos encontraremos".
Mas ao contrário de Palomar, que continuou a usar as pantufas desirmanadas para manter viva a complementaridade com o seu companheiro de infortúnio, a mim foi-me dada a oportunidade de, fazendo a troca, desfazer o erro. 
Os meus pés estão agora calçados com duas pantufas que me servem e posso também, finalmente, deixar de pensar numa sombra longínqua que, noutra qualquer rua, coxeou a pantufa que me pertence por direito.
Palomar, que tanto pensou sobre este assunto, nada conjeturou, porém, sobre os efeitos da claudicação prolongada na coluna vertebral. 
Há erros do grande mercador que sobrevivem ao milagre da sua própria correção. 

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Enfadonha intempestividade

Depusemos as facas, as espadas, deixámos cair a rosa. 
O soalho ecoou os passos de um tango cansado e feito de gestos repetidos. Quando caiu uma noite artificial, a lua envergonhou-se atrás das árvores e as estrelas, creio, desistiram de aparecer. 
Havia uma voz ao fundo que prometia a eternidade ao som de uma guitarra de cordas feridas.
Ouvi o que disse a voz, vi a nossa sombra nos espelhos e pensei que o incorrigível defeito das coisas eternas é a sua constante, enfadonha, intempestividade. 




quarta-feira, 18 de maio de 2016

Os fazedores de chuva


Chama-anjos

Levei comigo, para lho entregar, um chama-anjos avariado. 
Na primeira vez que lho quis dar, ainda a prata não tinha escurecido no contacto com o meu pescoço e não estava avariado. Nessa ocasião, devolveu-mo à palma da mão que fechou dentro das suas e disse-me que ficasse antes com ele, que não suportaria saber-me desanjada.
Desta vez fui eu que, no último instante, decidi não lho entregar. 
É evidente que, entre os dois, é a mim que um chama-anjos avariado faz mais falta. 

terça-feira, 17 de maio de 2016

Sudários

Quando o céu me surge por baixo dos pés e o chão me pesa nos ombros e as árvores nascem lá em cima e o avesso do mundo tem costuras tão ásperas que ameaçam trespassar-me os ossos, como, por exemplo, agora mesmo, visto a minha t-shirt cinzenta de pirata. Não há desnorte que confunda esta velha t-shirt cinzenta de pirata. É impossível perder o que quer que seja enquanto a mantiver vestida. 
O seu super poder: o sudário de um abraço mais antigo do que o medo.

domingo, 15 de maio de 2016

Inventário

- Um poema manuscrito sobre aves que fazem ninho no meu corpo.
- Meio búzio em estado bastante degradado.
- Um calendário incompleto de pés egípcios em atividades quotidianas diversas.
- Um CD pirateado com duas músicas de Nicolaj Grandjean.
- A figuração da paixão em acrílico sobre cartolina. 
- A constelação Orion em estado natural, como nova. 
- A fotografia de uma baía mágica, bastante usada. 
- A lua cheia.
- Dezenas de músicos de jazz de nomes impronunciáveis.
- A figuração musical da morte em vida, versão piano.
- Uma verdade e uma mentira (indistintas). 
- Uma fava do mar (bem conservada). 

... O inventário da minha loucura. 



Segundas oportunidades


E a quem pode censurar-se a ambição da oportunidade de falhar melhor? 


sábado, 14 de maio de 2016

Mil, setecentos e treze dias

Respiração reversa

Estou há muitas horas, imóvel, sentada nesta cadeira. Foi aqui que esperei a manhã. A madrugada, atravessei-a no mais denso dos silêncios e o frio exterior foi um raro momento de coerência equilibrada com essa outra forma de frio, que nasce por dentro. Quando ambas as temperaturas coincidem, o coração ganha uma amenidade que, apesar de falsificada, quase nos faz voltar a sentir humanos. 
Enquanto o dia rompia, nos seus tons violeta degradé, ocorreu-me que o degelo do coração não é um processo menos violento e arriscado do que o que envolve a sua congelação. Talvez seja ainda mais arriscado. Até os mais leigos em matéria de culinária, entre os quais me incluo, sabem que não há organismo que, depois de descongelado, possa voltar a congelar-se sem grave perda das suas propriedades essenciais.
Vou ficar à espera da noite, sentada nesta mesma cadeira, de onde vi formar-se a manhã. 
Amanhã, sei-o, acordarei com um coração novo, fresco, pronto a consumir. Um coração de utilização única, integral. Daqueles que já não se podem reservar para mais tarde. Daqueles que, de ora em diante, não mais poderão deixar de bater.


terça-feira, 10 de maio de 2016

O estranho caso dos personagens que desapareciam da história

Num maio distante e de má memória, por ocasião do dia em que o céu se partiu e desfez-se em minúsculas pedras geladas que se espalharam pelo mundo, entrei em casa e abri as janelas para deixar entrar as gaivotas que se vieram abrigar na minha varanda.
Para acompanhar a terrível música do céu a desfazer-se de encontro à calçada, sentei-me ao piano e toquei as primeiras notas. 
Quando o quinto dedo da mão direita repetiu um sol sustenido vi entrar pela janela uma mulher vestida de verde que trazia pendurada no rosto a expressão marmórea dos que abandonaram. Seguiu-a um homem de olhos verdes que exibiam a firmeza de quem viajou o mundo. E um governante escondido por um ramo de flores no passo apressado de quem está atrasado para um encontro. E uma mulher de óculos de massa e camisa branca que seguia o governante. Foi então que, pela mesma janela, entrou uma mulher que carregava junto ao peito um livro cujas letras se sumiam em contínuo anticonto e um mágico que, na sua varinha, dir-se-ia procurar a mulher que um dia fez sumir. 
Levantei-me do piano e chamei Martinica para que servisse um chá àqueles que, soube-o muito depois, eram personagens exiladas das suas próprias estórias. 
Nada perguntei e, confesso, nenhuma estranheza senti. Aceitei há muito que a bizarria é o labirinto no jardim do mundo. Em comum, tinham apenas uma rara obsessão com vozes intermináveis que saíam de telefones e das quais, de uma forma ou de outra e pelas mais diversas razões, todos pareciam fugir. 
Martinica confessou-me então que, não gostando de bizarrias em dias em o que céu se desfaz em pedaços, deu-lhes um chá de sumiço. Sugeriu-me que os fotografasse para memória futura. Expliquei-lhe que me ensinaram que é na memória, e apenas nesta, que devem guardar-se as melhores imagens.
Terminado o chá, a sala ficou subitamente vazia, as pedras deixaram de cair do céu e eu regressei ao piano.
E também esta estória hei de esquecer um dia. 

As origens, aqui. 
E os desenvolvimentos, aqui.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

sometime ago

se ficasse mais um segundo, as mãos pousadas na linha imaginária da clavícula, meia frase que se desfaz, a boca entreaberta, um medo que vem do chão, a contabilidade da razão, se ficasse mais um segundo, a paz que pode conter um sorriso, certa música partilhada, os sábados de manhã de chuva, o final de uma canção, o farol iluminado pela lua, o livro de poemas na cadeira de baloiço, se ficasse mais um segundo, a respiração no meu pescoço, a transposição metafísica da distância, as notas de jazz espalhadas no chão, uma febre que vem do início dos tempos, as palavras que nada podem.
Não saberia regressar.

sábado, 7 de maio de 2016

Lisboa insone

A cidade onde eu nunca durmo. 

Desertos

Fomos atravessando o deserto. A lonjura, medimo-la pela nossa pele moribunda, de poros sufocados de areia.  Do cimo das dunas, cumprindo o ancestral saber dos magos, não olhámos nunca nem para trás nem para a frente. O passado foi já demasiado longe para que possamos regressar, o futuro  será ainda uma miragem a poente. Fixámos o olhar rente aos pés, num presente de cansaço, sede e dormência.
E esperamos. Esperamos, apenas, que o desenho dos nossos trilhos volte a cruzar-nos. Que então se abra no deserto um mar azul. 


sexta-feira, 6 de maio de 2016

Desquecer

Esqueci-o inúmeras vezes pois o problema nunca foi o esquecimento. Começo sempre por esmorecer-lhe os contornos do rosto. O meu processo de esquecimento é uma miopia progressiva. Mas há uma ligeira imperfeição, um espaço demasiado grande entre dois dentes, uma marca de varicela na sobrancelha direita, um desnível mínimo na cana do nariz, esses defeitos que o tornam humano, que são a estrutura da minha memória. 
Então, uma manhã, diante de uma chávena de café, a mesa posta na varanda, uma gaivota que se afasta, um cão que a persegue, o gesto de soltar os cabelos de dentro da camisa, diante de uma dessas ninharias, assalta-me esse outro nada que é uma das imperfeições do seu rosto. E a partir desse detalhe, desquecendo-o, reconstruo-lhe o olhar distraído, um sorriso que nasce do fundo do estômago, o andar balançado, a imagem das suas omoplatas a erguer-se de uma multidão anónima, a minha mão muito pequena dentro da sua, uma voz sussurrada.
Esqueci-o inúmeras vezes pois o problema nunca foi o esquecimento. 

domingo, 1 de maio de 2016

Kierkegaard, o Cão Pirata



Esse ingrato, que nem um desenho do dia da mãe foi capaz de me oferecer...

De um reggae de domingo

Há apenas três sítios no mundo onde ainda se ouve uma certa música:
Lá longe, do outro lado do mar, quando a bruma se entranha na pele e uma alma inquieta se debate contra as paredes da sua cela; na minha sala, como sucedâneo figurado de uma boa velha lâmina nas veias, mas isenta de pingos de sangue na carpete e marcas inestéticas no pulso; neste lounge estendido na areia, de abril a novembro, onde, podia jurá-lo, escolhe a música quem também um dia se perdeu nela.

sábado, 30 de abril de 2016

Gente sem destino

Sentávamo-nos à mesa e estendíamos sobre o mundo  um cruel meridiano que separava os fracos dos fortes. O destino era um berlinde de vidro com muitas cores no centro que fazíamos girar na palma da mão direita. Lá em baixo, a terra esperava-nos imóvel, muda, domesticada. Sabíamos muitas coisas. Nenhuma que nos houvesse sido ensinada pelo coração, esse órgão supérfluo entre deuses banidos.
Só havia um tempo e uma razão e estavam fundidos nas nossas certezas.
Reinávamos sob o sol e tudo colhemos como nosso. 

Depois fez-se o entardecer, com os seus crepúsculos de cansaço. O jardim fechado, o balouço vazio, um brinquedo partido. A sombra baça do prenúncio de nada num canto do pátio, a espraiar-se. Enquanto a terra se desvanecia ao ritmo da vertigem, as certezas arrefeciam.

E foi assim que entrámos na noite, com o destino a deslizar por entre os dedos da mão e a perder-se debaixo dos nossos pés. Uma distância intransponível. O horizonte sem terra. A ignorância do coração a tornar-nos fracos até ao sono. Deuses de coroa de lata ou, pior ainda, apenas gente sem destino. 


sexta-feira, 29 de abril de 2016

Contos do Lago Tanganica - a vitória

Num início de tarde de domingo, numa medina marroquina, achámo-nos em frente de uma porta prateada com tachas da mais fina porcelana do azul dos olhos berberes. Tagik, o berbere, convidou-nos a entrar e cobrou-nos cinco euros por duas estórias. Juntamente com a túnica branca, despi o pó das ruas e sentei-me descalça na fresca penumbra, a fumar o cachimbo de água que me estendeu, concentrada no tom hipnótico da voz profunda que em francês me jurava, "reza a lenda que, num lago rodeado por um jardim de laranjeiras, mas Alá sabe mais..."
Cinco euros por duas estórias é modesto preço para quem as coleciona ao ponto de, em tempos, delas ter dependido para adormecer e de, agora, as pedir a desconhecidos. Mas quando Tagik, o berbere, me ofereceu uma terceira estória, pedi-lhe que a guardasse para a contar a um desconhecido que a não pudesse pagar. Então Tagik perguntou-me se estaria interessada em comprar-lhe um espelho mágico que, reza a lenda, mas Alá sabe mais, faria parte de nada menos que do espólio da madrasta da branca de neve. O insuspeito espelho viajou muitos quilómetros e acabou de costas voltadas para o mundo - que é a forma como penduram os espelhos os titulares de consciências duvidosas - na parede do meu quarto.
Pôs ontem fim à sua milenar mudez. Atormentada pela incerteza dos caminhos de uma guerra fratricida, rodeada de inocentes reféns e desapossada de um certificado oficial de preferida do sanção de Tanganica, enfrentei o espelho e fiz-lhe a pergunta terrível.
O espelho, que não conhece a mentira, disse-me que sou a preferida da Palmier Encoberto. 
Foi assim que, ganha a guerra, voluntariamente decidi libertar os reféns.
Contar-vos-ão outras estórias. Em cada um dos habitantes do Lago vive Tagik, o berbere. É essa a sua magia.
Porém, só o espelho não conhece a mentira. 
E, diz-se, Alá sabe ainda mais.





quinta-feira, 28 de abril de 2016

O paradoxo Nabokov

Nabokov escreveu os mais bonitos contos de sempre. Talvez nem sequer seja possível suplantar-se a perfeição dos contos de Nabokov. Até hoje, que o saiba, não foi feito. Faltava-me o esgotado segundo volume dos contos de Nabokov. Há lacunas que nos preenchem. São os tesouros que sabemos só ainda não ter encontrado.
Agora que nada me falta, sobra-me a tristeza de pressentir que absorvi o expoente máximo da beleza.

Pavese sonhou-nos

E então nós cobardes
que amávamos a noite
rumorosa, as casas,
os caminhos do rio,
as luzes vermelhas e sujas
daqueles lugares, a dor
mansa e calada—
arrancámos as mãos 
da cadeia viva
e calámo-nos, mas o coração 
sobressaltou-se de sangue,
e não houve mais doçura,
não houve mais abandono
ao caminho do rio—
agora livres, soubemos
que estávamos sozinhos e vivos.

Cesare Pavese, Trabalhar Cansa, Livros Cotovia

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Entretanto, muito longe do Lago do Tanganica...

Será que a minha mamã me abandonou?
In, Pequena Cutxi, ex cadela da Palmier Encoberto.

terça-feira, 26 de abril de 2016

24 horas


Diário de Bordo - A traição de Palmier Encoberto

Foi há tantos setenta anos que ainda eu nem sequer era Pirata. Tinha uma profissão quase honesta e vivia desgastada entre os incómodos de uma existência real e um, admito-o agora, desesperado, projeto de fuga para África com vista à corrupção capitalista de uma qualquer tribo selvagem que me abrigasse. Um dia, que recordo de céu azul-sonho e sol dourado-prozac, recebi o meu primeiro tesouro blogosférico. Era uma medalha de metal fundido por ancestrais mãos de fada, adornada a pó de estrelas e cravada de diamantes feitos de lágrimas de riso de sereia. Tinha a seguinte misteriosa inscrição: "A preferida de Pipoco Mais Salgado". Guardei o meu tesouro por muitos setenta anos. Nas frias noites de amargo nevoeiro, logo a seguir a ser abandonada por mais um namorado desistente que me haveria de render centenas de posts melodramáticos, segurava aquela medalha na minha elegante e pequena não (porém de dedos compridíssimos) e sabia instantaneamente que tudo haveria de ficar bem. Diz-se por aí, pouco importa agora se com verdade ou mentira, que do fundo do meu peito chegou a fazer-se ouvir uma voz gollumniana que murmurava em tom pouco saudável as palavras "my precious".
Por muitos setenta anos me acompanhou a minha medalha, ora exibida no decote, ora protegida de olhares dentro de uma das minhas arcas de Pirata.
Até ontem.
Palmier Encoberto, não há porque proteger da infâmia gatunos, aquela que eu considerava uma espécie de Mary Reed no meu universo de Anne Boney, sob pretexto de querer assistir às comemorações de 25 de abril na Bang & Olufsen que neste navio instalámos de propósito para o efeito (usar o verbo comprar já seria manifesto exagero), instalou-se ontem entre nós.
Quando esta noite fui confrontada com isto, corri ao baú onde guardo o de mais valioso que a vida me deu (o cartão de crédito; uma carta já rota de tanto lida em que um louco promete amar-me; um búzio estropiado; uma fotografia de quando era nova; os poemas do Borges e a medalha de preferida do Pipoco Mais Salgado). 
Sem espanto algum verifiquei que essa senhora com nome de bolo de pobre que antes cheguei a considerar uma Mary Reed, apropriou-se da minha medalha e anda por aí a exibi-la.
Não gosto de arrastar esta brava tripulação pirata para empresas de finalidades individuais. Mas quando a honra de uma capitã está em causa, o único caminho possível é a espada. 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

O que nos salva

Salva-nos uma frase que há muitos anos sublinhámos num livro esquecido; um pedaço da conversa de dois desconhecidos sentados na mesa de trás; um pôr do sol que por nenhuma razão discernível suplanta um outro; uma conta de vidro fosco que deu à costa na praia e a forma perfeita do búzio que lhe serviu de abrigo; a inigualável expressão de sofrimento da viúva do pescador; a imagem congelada daquele céu apocalíptico que é a vitória do sol sobre a chuva torrencial; as boas e as más palavras dos amigos; uma afortunada conjugação de notas que, há muitos séculos, o compositor descobriu no final de uma manhã de tédio; o traço seguro da figura humana desenhada numa gruta do Egipo; o desenho geométrico do pano que o vento balouça num mercado de África; a expressão da mãe que embala a filha; a promessa que reside numa boa manhã de início de verão; um verso de Borges que ficou por decifrar; o parágrafo oculto desse livro que ainda nos falta ler; um diálogo de John Cassavetes; a mais abominável das mentiras, contada debaixo de uma constelação ignota nesta parte do mundo; o poema que um dia conseguiremos escrever e a música que um dia seremos capazes de tocar; esse resto de memória de um amor inútil que nos isenta a ambos do pecado da mediocridade. 

Post sriptum:

E também o que nos condena, pela Flor em A Faca Não Corta o Fogo 

Dia da Liberdade

O homem sem memória, sem filosofia e sem escrita não é nada. Também não é nada sem tristeza, sem fatalismo, sem violência e paixões. Como um sequestro da política pela economia e um sequestro da liberdade pela segurança, há também um sequestro do conhecimento humanistico em nome do utilitário.

Ricardo Menendez Salmón, citado na revista LER, primavera 2016.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Pianology

Aprender piano com o objetivo de melhorar a musicalidade da escrita pode não ser uma excelente solução quando se é obsessivo. 
Tende-se a deixar de escrever. E a deixar de ler. E a deixar de ver televisão. E a deixar de sair de casa. E, em suma, a deixar de fazer qualquer outra coisa que não seja aprender piano. 

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O Inferno são os outros

O mundo estava cheio de crueldade e a infâmia passeava-se pelas avenidas largas de rebordos decorados a tílias. As pessoas destilavam a mesquinhez e a ignorância debaixo dos mais variados outfits éticos. A honra era uma memória bolorenta no olhar vago dos retratos dos bisavós; a verdade, composta por mil nuances em tons de cinza; a coragem, a designação que se dava à frontalidade dos anónimos e à verborreia dos estúpidos. 
A vida era o inferno Sartriano.  
Mas depois vim para Pirata, adquiri competências em crueldade na ótica do utilizador e um lindo sol passou a brilhar sobre as magníficas águas azuis do oceano.  

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Space Dementia

A montanha esqueceu-me.
Havia uma árvore com o meu nome nela inscrito mas o vento derrubou-a e os pássaros já lá não fazem ninho. 

A casa esqueceu-me.
Ninguém sabe quem pintou o quadro pendurado na biblioteca e lavaram do chão da sala a nódoa de vinho. 

O cais esqueceu-me.
Há um barco a mais nas noites de luar que já não dança com as ondas um tango de destino. 

A praia esqueceu-me.
Mil grandes marés desfizeram o palácio de areia, promontório de estrelas onde perdemos o caminho. 

Devolvo-te inocentes as ruas, 
purificados os crepúsculos, 
desinfetados os sonhos, 
esquecidos todos os olhares.

E este meu silêncio 
é o cumprir da música 
na montanha; 
na casa; 
no cais;
na praia.

A paz que se levanta do tempo e que nos torna insignificantes. 
Outra vez.
Uma outra vez
Mais.










domingo, 17 de abril de 2016

Um céu colecionável

Pouso o livro nos joelhos para seguir o rasto das asas da gaivota. Cruza um céu que é de primavera sobre o mar. São os meus céus diurnos favoritos. Contêm a promessa de uma infinidade de redenções. Só existem nesta terra.


quarta-feira, 13 de abril de 2016

O novo protocolo da morte

Há um novo protocolo da morte na era das redes sociais. A confirmação da notícia veio através de um grupo de chat, cuidadosamente escolhido para o efeito. Alguns dos visados puderam compartilhar a sua incredulidade  em direto, perante um grupo heterogéneo de pessoas que não eram todas conhecidas umas das outras. O grupo de chat, em poucos minutos, transforma-se num grupo de enlutados anónimos, em que uns partilham a sua indignação e desgosto e outros, sofrendo a mesma indignação e desgosto, prontamente disponibilizam o conforto institucional adequado com recurso a variantes letradas da frase “é a vida". Uns manifestam o pesar pelos horrores do quotidiano e falta de tempo para fazer aquilo que verdadeiramente importa e que é passar tempo com os amigos e mostrar-lhes o quanto os amamos. Os mais dinâmicos não perdem tempo e combinam encontros ali mesmo, naquele grupo de chat criado para anunciar a morte de um amigo comum. Não há um tom festivo na promessa do encontro, há um pesar, mas, parece-me, menos pela morte do que pela urgência na obrigação de rever os amigos vivos antes que também estes morram. Nem todos os elementos do grupo vêem as mensagens em simultâneo. Os que só agora chegam, interrompem as combinações dos almoços para manifestar o seu choque e pesar, sendo prontamente apoiados por aqueles que há uma hora atrás foram eles próprios destinatários das mensagens de consolação e que, agora, refeitos do pasmo, retribuem com nova variante da mesma frase "é a vida". As pessoas fornecem ainda detalhadas justificações das razões pelas quais só agora viram as mensagens, relatando os seus afazeres quotidianos e lamentando-se pela falta de tempo para aquilo que verdadeira importa, que é estar com os amigos e mostrar-lhes quanto os amam. E se a notícia da morte é abruta porque não pode ser de outra forma, a causa da morte é anunciada suavemente através do silêncio geral que se segue à pergunta repetida pelos mais desatentos. Ao fim de algum tempo, as pessoas deixam de perguntar qual a causa da morte, interpretando corretamente o silêncio coletivo e manifestando uma nova incredulidade ou redobrando as manifestações de pesar, porque, efetivamente, nem todas as cores da morte colhem o mesmo nível de desgosto. Umas horas depois, é anunciada a hora do funeral. Os retardatários ainda estão a marcar encontros e há novas palavras de consolação para aqueles que só agora chegaram à conversa. A comunicação da hora do funeral desencadeia uma nova dinâmica no grupo. As pessoas aproveitam aquela mesma conversa para organizarem boleias, acordarem locais de recolha, trocarem números de telemóvel. Simultaneamente, há quem considere importante explicar ao grupo que não pode comparecer no funeral, colocando no detalhe da justificação da falta o mesmo cuidado que teria se estivesse perante o próprio morto. Reparo que as pessoas que comunicam a sua futura falta ao funeral, invariavelmente, insistem em manifestar uma vez mais o seu desolo, como se a duplicação do desgosto aliviasse qualquer grão de areia na consciência ou como se quisessem assegurar aos outros elementos do grupo que se não vão é mesmo porque não podem e não porque não estarem tristes com a notícia e não preferirem que o amigo continuasse vivo. Entre o choque, a ausência da pergunta do dia, as manifestações de carinho e apoio, as combinações e as justificações das faltas, ainda há quem chame a atenção para os textos de homenagem escritos naquela mesma rede social, recomendado leituras.
Entre as pessoas daquele grupo de conversação, não estão os amigos mais íntimos do morto. Presumo que a organização estabelecida pelo novo protocolo da morte seja de tal forma perfeita que, paralelamente, exista um outro grupo de conversa, exclusivo aos amigos íntimos, onde todas as perguntas sobre a causa da morte sejam prontamente esclarecidas e onde as histórias felizes que se relembram em homenagem ao morto tenham menos anos.
Não sou ingrata nem cínica. Reconheço as vantagens do novo protocolo. O protocolo, novo ou antigo, qualquer protocolo, serve essencialmente para manter emoções sob controlo, evitando gestos desadequados e contendo danos. A intenção é sempre boa e esta nova forma é prática e eficaz. A informação útil flui, a inútil alivia quem a presta, os cuidados básicos ao nível do apoio psicológico são imediatamente prestados pelos enlutados anónimos. Não se incomoda quem não deve ser incomodado. Os comportamentos que descrevi em cima, também os tive. Estas pessoas, tenho válidas razões para o presumir, estavam a ser sinceras no seu desgosto. O método não chocaria o próprio morto que tantas vezes recorreu às redes sociais gritando pelo socorro que, é evidente, nenhum de nós estava habilitado a prestar-lhe.
O que não consigo deixar de pensar é que na eficiência pragmática deste novo protocolo da morte - sem voz nem olhos - há o sabor amargo do mesmo veneno que está na génese de factos idênticos ao agora protocolado.

"É a vida!"

terça-feira, 12 de abril de 2016

A necrologia possível

Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega

Herberto Helder, A Faca não Corta o Fogo 

Existencialistas

Existencialistas, são as gaivotas que vieram passar a noite na varanda do meu quarto, contando, com os seus gritos insuportáveis, as mais incompreensíveis histórias de aflição. 



domingo, 10 de abril de 2016

Verão indiano

Naquele início de verão partiu para a Índia com uma mochila às costas. 
Em Lisboa, cumpríamos a tradição dos verões lentos e insuportáveis. A ausência escaldava as noites espremidas num apartamento demasiado apertado e a solução vinha da frescura que o rio prometia. Foi um verão vodka limão com noites brancas antecedidas pela imobilidade das tardes nas esplanadas. O postal perdeu-se nas intrincadas linhas do destino. Enquanto nada acontecia, como sempre sucede, abria-se o espaço à vida.
Regressou já depois das primeiras folhas do outono. Trouxe na mochila os sete metros de seda que escondi na última gaveta da cómoda das dezenas de casas que desde então foram minhas. Estendeu-mo no colo, dizendo, desajeitado, que era um vestido de noiva indiano. Comprou-o no seu segundo dia na Índia, carregando-o pela monção fora,   para o fazer meu à chegada. Foi a única vez na vida que o vi comover-se.
Sessenta dias foram demasiadas noites no verão lento de Lisboa. Recebi-o numa casa encaixotada na direção de um outro futuro. O nome e o endereço do destinatário estavam escritos por todas as ruas de Lisboa. 
Nunca chegou a ver-me vestida com o sari. Usei-o uma única vez. Anos depois, à distância de dois aviões, na noite fria que se seguiu ao dia em que foi sepultado.
Hoje vi um sari num estendal, a lutar contra o vento, e lembrei-me desse longínquo verão indiano em que os astros decidiram escrever um conto pulp fiction. 

sábado, 9 de abril de 2016

Diário de Bordo

Duas vezes por semana, Reboredo, o médico ortopedista, personagem ofertada, dá-me aulas de dança no convés do navio. Mandei vir um gira-discos e uns velhos discos em vinil de tangos argentinos, encomendei uns sapatos de dança e meia dúzia daqueles vestidos às flores, de cintura estreita e saia rodada. No início, o médico resistiu às minhas insistências para que enfiasse uma rosa entre os dentes, fazendo os possíveis por me convencer que, na realidade, o tango não se dança assim. Mas os meus problemas com a interiorização do conceito realidade são de tal forma notórios e públicos que o bom doutor acabou por entender aquilo que mais tarde ou mais cedo todos entendem: que contrariar-me é, em igual medida, inútil e perigoso. 
Ultrapassado este obstáculo, passámos, duas vezes por semana, a ser muito felizes na pista de dança improvisada, ao som do tango argentino e sob a vigilância de uma lua estupefacta.
Reboredo, o médico ortopedista, é demasiado existencialista para poder algum dia ser pirata, mas além de se ter revelado um excelente professor de dança é a única pessoa neste navio com quem posso discutir filosofia sem correr o risco de ter um motim a bordo.
Ontem, durante a lição de dança, tivemos a seguinte conversa filosófica:
- Nabokov diz que além da noite exterior, todos conhecemos a noite interior num ou noutro momento do dia.
- Capitã, saiba que todas as noites se iluminam com velas.
- Ora, Reboredo... Mas estou a falar daquela escuridão que nos circula nas veias. Uma escuridão cega à luz dos astros.
- Capitã, saiba que os astros são a solução para qualquer tipo de noite.
- Não estou a perceber a sua metáfora. Terá de ser mais explícito.
- Serei. A capitã precisa de um namorado.
- Não conheço esse livro. Quem é o autor.

Nessa altura reparei que Reboredo, o paciente médico ortopedista, cuspiu a rosa e por muito pouco não me deixou cair.


Uma última vez mais


Praia

A outra ocupante da praia está a vinte metros de distância, deitada, vestida e calçada, sobre uma toalha desfiada por vários verões. Tem uns phones que parecem protege-la do mundo. Desde que cheguei não dirigiu um único olhar na minha direção. Canta alto, na sua esplêndida voz de negra, indiferente à minha presença, canções que desconheço. 
Descalço os ténis e observo os dedos dos pés que parecem ter encolhido. Enterro-os na areia para afastar este pensamento. Ao fundo há um veleiro que desliza lentamente até ficar escondido por uma rocha. Um dia, o mar não terá nenhum nome tatuado e eu poderei descansar a memória junto às ondas. E também este pensamento afugento, agora, com uma página da revista. A mulher move-se. Apoia a cabeça no braço esquerdo e continua a cantar. Devolvo-me à minha revista mas sei que depressa encontrarei outro pensamento que serei obrigada a expulsar. O ócio obriga-me a uma atividade intelectual extenuante. Dói-me a cabeça. Tenho calos nas dedos à força de tanto varrer pensamentos incómodos. Volto a olhar para aquela mulher que canta como se só ela existisse na praia e tenho certeza que não está a pensar em nada. 
E eu invejo-a, com o tipo de inveja mesquinha que é a matriz do ódio e da doença. E esqueço o sol, a areia nos pés, o veleiro que desapareceu atrás da rocha, todos os nomes, a revista. 
Somos só eu, uma mulher que canta e a minha inveja. 

terça-feira, 5 de abril de 2016

Hamsters

De uma forma ou de outra, somos todos pequenos hamsters brancos, de olhos vermelhos, patinhas encolhidas, fechados numa gaiola cuja única fonte de animação consiste na roda estúpida onde nos entretemos a girar com o objetivo de ficarmos tontos. 
Às vezes também gostamos de fingir que estamos a roer as grades. 

domingo, 3 de abril de 2016

As cidades inesquecíveis

Embora fosse eu a viajante e ele o Imperador, naquela noite, deitados no jardim suspenso do palácio, foi sua a descrição da cidade e meu o silêncio. 
Falou-me sobre cada uma daquelas pequenas rochas no mar que eram afinal as ilhas onde, à noite, os miúdos maltrapilhos reinavam, devolvendo aos pescadores, antes do amanhecer, os barcos que roubavam para as suas migrações noturnas. Descreveu-me o fundo do mar forrado de estrelas vermelhas e vigiado pelo deslizar lento das mantas, que, dizia, quando vínhamos por bem, para soltar das redes uma tartaruga aprisionada ou para jogar às escondidas com o lírio albino que se dizia ter cem anos, nos enlaçavam num abraço macio que haveria de fazer com que fosse impossível esquecê-lo. Contou-me sobre as cascatas, em cujas águas quentes, ao crepúsculo, se banhavam sereias, reunidas pelo chamamento do mais triste dos cantos. Revelou-me uma baía assombrada pelo fantasma único de dois amantes separados que, a cada lua cheia, regressavam para se amarem, trazendo espelhados no olhar o branco das nuvens e da espuma do mar de uma tarde longínqua. Contou-me sobre as grutas que os homens esculpiram debaixo da terra e que eram a invisível cidade onde corriam a esconder-se quando os piratas se aproximavam da costa e desembarcavam dos seus grandes navios em busca de alimento e amor. 
E para mim, que antes julgara conhecer a cidade, tornaram-se-me invisíveis as chaminés, as casas de basalto, as ruas circulares de pedra escura, um pelourinho solitário, os moinhos de vento, e passei a circular por entre as lendas, comprando o pão a sereias, fazendo vénias a crianças que eram governadores de ilhas mágicas, recebendo o abraço inesquecível das mantas, amando em baías assombradas e aceitando a inevitabilidade da chegada do navio pirata que haveria de me levar.

———

Entre KUBLAI KHAN e MARCO POLO, segundo diz Italo Calvino, em As Cidades Invisíveis, editorial teorema, terá sucedido o seguinte diálogo:


"POLO: – ... Talvez este jardim só exponha os seus terraços para o lago da nossa mente...
kUBLAI: – ... E por mais longe que nos levem as nossas atribuladas empresas de guerreiros e de mercadores, ambos guardamos dentro de nós está sombra silenciosa, esta conversa pausada, está noite sempre igual.
POLO: –A menos que eu se dê a hipótese oposta: de os que se afadigam nos acampamentos e nos portos só existirem porque pensamos neles nós dois, encerrados entre estas sebes de bambu, imóveis desde sempre.
KUBLAI: – De que não existam a fadiga, os bezerros, as pragas, o fedor, mas só esta planta de azálea.
POLO: – E de que os carregadores, os calceteiros, os varredores, as cozinheiras que limpam as vísceras das galinhas, as lavadeiras ajoelhadas sobre a pedra, as mães de família que mexem os arroz aleitando os recém-nascidos, só existam porque nós pensamos neles.
KUBLAI: – Essa conjectura não me parece que nos convenha. Sem eles nunca poderíamos ficar a balançar encasulados nas nossas camas de rede.
POLO: – Então a hipótese é de excluir. Portanto será verdadeira a outra: a de que existam eles e não nós.
KUBLAI: – Assim demonstrámos que se nós existíssemos, não existiríamos.
POLO: – De facto, aqui estamos."

Da coleção de céus


O céu deste instante.

sábado, 2 de abril de 2016

O facto não é horrível

Trezentas e sessenta e cinco tardes, voltei-me para poente e vi o sol morrer no mar. Não esperei por outra coisa se não pelo ocaso. Há uma alegria insólita na verificação empírica do cumprimento das promessas astrais. Em cada um dos dias, o sol nasceu na montanha para mais tarde se afundar no mar. Entre um e outro instante esvairam-se no fio da inutilidade os anseios dos homens. Na trigésima sexagésima sexta tarde, julguei ter compreendido a sabedoria das pedras; dos livros antigos; dos animais e do vento.
"Não espero nada. O facto não é horrível. Desde que o resolvi, ganhei tranquilidade."
A citação é retirada de A Invenção de Morel, Adolfo Bioy Casares 

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Dia das mentiras

"As mentiras mais cruéis são frequentemente ditas em silêncio."
Robert Stevenson 

Arrependo-me de uma infinidade de mentiras. Essas, têm todas em comum o facto de serem mentiras que usei contra mim própria. Aquelas que disse aos outros, só o pecado do defeito as mancha. 

O Espelho que há em Pavese

Vens sempre do mar 
e do mar tens a voz rouca,
e sempre os olhos secretos,
de água viva entre silvas,
A fronte baixa como
um céu de nuvens baixas.
De cada vez renasces 
como uma coisa antiga 
e selvagem, que o coração 
já sabia e cala.

De cada vez é um rasgão, 
de cada vez é a morte.
Combatemo-nos sempre. 
Quem aceita o choque
tomou o gosto à morte 
e leva-o no sangue.
Como bons inimigos 
que não mais se odeiam
somos uma mesma
voz, uma mesma pena 
e vivemos ofendidos 
sob um céu miserável. 
Entre nós não há a insídia, 
não há coisas inúteis - 
combateremos sempre. 

Combateremos ainda, 
combateremos sempre.
Pois perseguimos o sono
da morte lado a lado,
e a nossa voz é rouca
a fronte baixa e selvagem 
e um céu idêntico.
Fomos feitos para isso.
Se um de nós cede ao choque,
segue uma longa noite
que não é paz nem trégua 
e não é morte verdadeira.
Tu já não existes. Os braços 
agitam-se em vão.

Até que o coração nos trema.
Disseram um dos teus nomes.
A morte recomeça.
Coisa ignota e selvagem
renasceste do mar.

Cesare Pavese, in Trabalhar Cansa 

A nêspera que fica deitada


quinta-feira, 31 de março de 2016

Onde se está quando não se sabe para onde se vai

A página online de uma dessas cadeias de lojas onde, entre outras coisas, se compram livros e música, ao ser abandonada a meio de uma encomenda por mais de meia hora, pergunta-me "onde estás agora, Cuca?".
Ocorre-me que pode bem ser a pergunta mais íntima que me fizeram no último ano. 

quarta-feira, 30 de março de 2016

Louca #1

- Loucura, tu governas o mundo a partir de uma bela boca de mulher!

Kleist, in, Michael Kohlhaas, O Rebelde.

Kübler-Ross

Deixei-me conduzir pela escada do estereótipo. O meu desprezo pela psicologia não tem fundamentos. Pois se é verdadeiro o axioma Borgeano segundo o qual um homem são todos os homens, tal como o relógio avariado, também a psicologia não está isenta de um momentâneo acertamento. 
Subi os degraus da escada. Conduzem a um patamar com vista para um deserto infinito. Nao vos enganarei. Desimaginem cardos; camelos; a miragem de um braço de rio ou o rasto de um véu berbere. No deserto infinito há apenas areia e, alternadamente, os excessos do sol e da noite. O azul do céu não é aliviado pela passagem de nenhuma nuvem e a visão das estrelas não anestesia as feridas da boca.
Mas, se tiveres sorte, num qualquer final de tarde, sentirás sede. 
E então saberás que sobreviveste. 


Louca

Às vezes, 
quando ninguém está a ver, 
quando a cidade já dorme embalada 
pelo som dos eletrodomésticos, 
fujo para a praia, 
descalça, 
na minha camisa de dormir branca, 
de louca, 
cabelos soltos e desgrenhados, 
de louca. 
E, então, 
sob o olhar da grande lua 
desafogo-me na água fria do mar,
limpo a ausência das veias,
desenho na praia deserta 
as sombras circulares da minha dança, 
de louca.
E quando a luz da manhã me reencontra 
no linho dos lençóis,
ao desfazer do feitiço,
pés gelados,
mãos salgadas, 
areia entre os dentes,
sei que foi a tua mão que me devolveu.

terça-feira, 29 de março de 2016

Perna de Pau



Mark Rothko
(Furtada daqui)

E no final do dia

E no final do dia
essa dor antiga
do esvair da chama
num resto de vela.

PLAY FOR TODAY

A qualquer hora, a meio do que dispõe 
um sedimento, uma impressão 
distanciava-se, cambaleante e aflito
inseparável de alguma coisa que não se via
mas talvez exista 
nos desertos que se prolongam 
nos nomes que nos pertencem demasiado e esquecemos 
em certas deflagrações 
que por muitos dias
nos afugentam de casa, do trabalho ou do sono


Quando depois voltava
prendia o barco no pequeno ancoradouro
ainda despenhado das varas de um relâmpago 
quase sem palavras
apenas um ser vivo sobre a terra

José Tolentino Mendonça, A Noite Abre Meus Olhos, Assírio & Alvim


segunda-feira, 28 de março de 2016

Porque o mundo está cheio de pessoas que sabem tudo

Este post é para ti, que te indignaste com os mortos na Bélgica e ainda contigo próprio por te teres indignado um pouco menos por comparação com Paris. Para ti, que hesitaste nas manifestações públicas de indignação por teres aversão a clichés e por saberes que o mundo não melhorou por teres coberto o teu rosto com a bandeira da França ou teres postado a Edith Piaf a cantar a Marselhesa. Para ti, que depois leste o que se escreveu sobre os perigos da diminuição da tua indignação e te sentiste culpado. E para ti, que não consegues lamentar tanto os atentados no Paquistão como os da Bélgica e ainda te sentes mais culpado. E para ti, que quando ouves dizer que a Europa é a responsável por lhes vender as armas, sabes que as pessoas que morreram não venderam armas nenhumas e não deram nenhum mandato aos seus governos para que o fizessem e que tu também não. E é ainda para ti, que sabes que os refugiados devem ser acolhidos por razões humanitárias mas que não acreditas na capacidade da Europa para os integrar e também por isso te sentes culpado. E, por último, é para ti, que não percebes coisa nenhuma e querias mesmo é que o bando de psicopatas deixasse de andar nas ruas, nas tuas ruas, a bombardear pessoas que, tal como tu, não percebem nada e só querem que as deixem em viver em paz e não as façam sentir culpadas pelos homicídios que não cometeram. 
Para ti, a minha solidariedade.
(A propósito deste post do Henrique Fialho) 

Sweet Revenge


domingo, 27 de março de 2016

sábado, 26 de março de 2016

Revisionismo

Houve uma Páscoa em que me procuraste para me dar um pão. Levei-o para casa e comi o teu pão com o queijo que comprei na queijaria clandestina que havia na garagem da casa em frente àquela onde morava e que nunca fiz minha. Compus um cenário bonito para uma fotografia e partilhei-o com o mundo. A toalha era azul e a porcelana tinha pertencido à tua avó. Passei a tarde sentada em frente ao mar a ler o primeiro volume de contos do Nabokov. Tinha um marcador de metal em forma de borboleta que entretanto perdi. Ouvia-se, por insondáveis razões de coerência, Madama Butterfly. E chovia, porque chovia sempre entre as quatro e as sete da tarde. O amor dormia inocente como uma doença assintomática que se aproveita do silêncio para alastrar. 
Hoje, o facebook perguntou-me se queria partilhar a memória desse pão cuidadosamente exposto sobre a travessa de porcelana branca da tua avó. O primeiro volume de contos do Nabovok haveria de sofrer a cicatriz eterna da borboleta metálica que ficou demasiado tempo pousada na página que aquela última tarde marcou. 
Não quis partilhar a memória desse derradeiro instante de inocência que se esvaiu ainda antes que a chuva se calasse. Depois dele, Jesus nasceu, morreu e ressuscitou várias vezes sem que entretanto nos tenha vindo salvar.
O facebook vingou-se do meu revisionismo histórico entregando-me, minutos depois, a mensagem que me informa que, finalmente, encontraram-me o esgotado segundo volume de contos de Nabokov.
Ouvia-se, mais uma vez, por insondáveis razões de coerência, Madama Butterfly. 
Só o marcador em forma de borboleta e a inocência, esses, ficaram irrevogavelmente perdidos.

terça-feira, 22 de março de 2016


"A vida da traça é muito efémera, mas o buraco que faz na roupa fica para sempre - disse Alice à lagarta".

Citação retirada de Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, pg. 53.

segunda-feira, 21 de março de 2016

A forma das nuvens

Nada sei sobre a forma das nuvens 
do céu da manhã em que me esqueci 
de ti.
Posso presumir o roncar hesitante da máquina do café
a cair sobre um silêncio de baunilha,
O reflexo distraído de um rasto de pressa 
nos espelhos anónimos, 
O traço do lápis escuro com que risquei dos olhos 
uma última insónia, 
Todas as coisas que coabitaram a saudade 
na indiferença do inquilino ingrato.
Mas nunca poderei reconstruir a forma das nuvens 
da manhã em que me esqueci 
de ti
e que é a amnésia inversa desse abraço 
que a ignorância de ser o último irrelevou.
A culpa lastima a falta de lembrança que a inocência agradece. 
Mas todos os céus são iguais quando na terra jaz sepultada a saudade. 






domingo, 20 de março de 2016

Diário de Bordo

Caí doente num alvorecer e nessa inútil atividade gastei vários dias. Andrimhnir, o cozinheiro pirata, passou o tempo à minha cabeceira a ler-me pautas de música, interrompidas por bulas de medicamentos. A minha obsessão pelo piano chegou à fase do solfejo e substituí a paranóica busca de livros esgotados pelo colecionismo de pautas de músicas que já não terei tempo de aprender a tocar. A meio da minha doença ocorreu-me a possibilidade de não ser eterna e conheci a culpa pelo tempo desperdiçado com tarefas ignóbeis. Não lamento o tempo gasto no trabalho pois, relativamente a esse, resta-me a consolação de nunca lhe ter dedicado um minuto a mais do que o estritamente necessário à sobrevivência do meu corpo e do meu espírito. O facto de o meu espírito ter necessidades vitais dispendiosas não é culpa de ninguém. Porém, devem-me muitos dias quilos de insignificante literatura, programas de televisão medíocres, obrigações sociais, pessoas que entretanto foram à sua vida e que agora nem sei se são vivas ou mortas, o trânsito de Lisboa, esperas em salas de aeroportos, etc, etc. No meu suposto leito de morte, enquanto Andhrimnnir me contava as pulsações, converti todo o tempo que me roubaram em peças de piano e concluí que, mesmo com a minha natural falta de habilidade, poderia, na pior das hipóteses, ter aprendido a tocar na perfeição o Claire de Lune do Debussy. Foi assim que percebi que um conjunto de pessoas desconhecidas entre si conspirou para me roubar o orgulho de saber tocar na perfeição, da primeira à última frase, o Claire de Lune do Debussy. 
Partilhei a minha angústia com Reboredo, o médico ortopedista, que a transmitiu a toda a tripulação juntamente com o diário clínico. No dia em que os chamei para lhes comunicar o plano de substituição provisória do poder, num gesto de rara generosidade, trouxeram-me uma versão da música de cuja habilidade de a tocar o mundo inteiro me privou. 
Mas era uma versão tão mal executada que, fiel àquela ideia de que se queres alguma coisa bem feita é melhor que a faças tu, fui obrigada a abandonar o meu estado de doença e a regressar à vida apenas para começar a praticar, para um dia poder, enfim, ouvir a música dignamente tocada. 
Nessa manhã, mandei chamar o diabo. 
Negociei cinquenta anos mais. 

Composição sobre framboesas

Saí para ver a primavera e encontrei aberta a minha praia. 
Por aqui é assim que se mede o tempo. A ninguém importa que ainda agora chova ou que ainda ontem o frio. Faz tudo parte de um passado que queremos esquecer. Quando abre a praia ouve-se bossa nova com Sakamoto no piano. Ainda é cedo para o reggae e a água do mar faz frieiras nos dedos dos pés. A hortelã aparece aos molhos nos supermercados e ficamos a saber que chegou a altura de trocar o vinho tinto pelo gin. A empregada virá para sacudir as mantas e abrir as janelas e há de afugentar o inverno das paredes desta casa arrastando-o com a vassoura. As meias, as botas e os casacos serão escondidos em baús fechados e eu passarei frio durante mais um mês e ficarei constipada e direi com alegria que é a rinite da primavera. Amanhã, todos os restaurantes estarão abertos e a praia cheirará a peixe assado e a óleo de côco. É preciso fazer desaparecer estas pilhas de livros e comprar a biblioteca de verão. Tenho um dia para substitui o Guerra e Paz por qualquer coisa da Virgínia. Começo sempre a primavera com Virgínia. 
Esperar-me-á em vão, numa casa encerrada, o fim de inverno de Lisboa. 
Reabriu a minha praia e tudo o mais faz parte de um passado que queremos esquecer. 

B-sides


quarta-feira, 16 de março de 2016

Regressar a Tolstoi

Diz Tolstoi, pela boca do príncipe André Bolkonski, em Guerra e Paz, que o perdão é a virtude das mulheres. Mas engana-se. A habilidade das mulheres é o perdão fingido.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Este blog fez seis anos

E ainda não aprendeu a escrever-se.

Quando é a próxima lua?

Nada me aborrece mais do que este pé agrilhoado ao dito mundo real, que me afasta das coisas que verdadeiramente importam. 
Não vi a última lua; o meio de março apanhou-me sem a comoção de um verso; não descobri uma música nova; olhei sem ver a minha praia; não encontrei um único instante digno de ser congelado numa fotografia. 
Trabalhei demasiadas horas e elas vingaram-se de mim, não deixando a sombra de registo de existência. 
Dir-me-ão que há quem viva assim toda uma vida. Responderei que estão mortos. 


sábado, 12 de março de 2016

Tristeza

Ele trazia a tristeza pendurada na voz. 
É esta a frase que desde ontem me importuna como se zumbido permanente de um mosquito no ouvido. 
Aquela tristeza, ali balançada, a inutilizar essa outra que é a minha. 
Pode muito bem viver-se com uma tristeza, desde que se mantenha silenciosa, discreta, arrumada, limpa e, sobretudo, útil.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Sim, talvez tenha sido amor

Sim, talvez tenha sido amor.
É um rótulo de design post moderno 
que fica bem em qualquer frasco de vidro e aço escovado
desses que se esquecem na bancada da cozinha 
e onde o açúcar se vai entorrando com os anos
tornando-se pouco prático para consumo
numa pequena chávena de café que se quer amargo. 

Sim, talvez tenha sido amor. 
É uma explicação art decor
integrada no feng shui do sofá da sala de estar 
que não contradiz a dimensão pop do relógio de parede
com o tempo convenientemente congelado às dez e dez 
que é a hora da perfeição estética do mostrador 
e agente inibidor de toda a angústia que há na rotação da terra.

Afinal, o amor é sabão azul que se espalha na psoríase,
entranha-se na pele e, subindo a via sacra que vai das veias até à alma, 
ilumina as caves mais esconsas de qualquer mente embargada 
purificando-nos a todos do terrível pecado da banalidade 
em que aceitámos viver o resto dos nossos dias. 

Por isso, sim, talvez tenha sido amor, 
mas, por favor, querido, jura mais baixo, 
que ainda te ouvem os vizinhos
e acordas-me o cão. 


domingo, 6 de março de 2016

Nomen

Onde quer que o encontres - 
escrito, rasgado ou desenhado:
na areia, no papel, na casca de 
uma árvore, na pele de um muro, 
no ar que atravessar de repente
a tua voz, na terra apodrecida 
sobre o meu corpo - é teu,

para sempre, o meu nome. 

Maria do Rosário Pedreira, Poesia Reunida, Quetzal, pg. 193

Melancolia


Já não importa.
Também sei chorar
E o amor não é só teu. 


A cidade onde eu nunca durmo

06:20, Lisboa

Há uma indesmentível relação causa efeito entre Lisboa e a minha insónia.

sábado, 5 de março de 2016

Se esta rua fosse minha

Foi a minha rua. E nela, atrás de uma das portas foi a nossa casa. Aquela por onde hoje passo sem olhar. 
É o mesmo o rapaz saltimbanco com o seu novo cão e o seu velho número. É a mesma a cigana da contrafação que me pergunta pelo senhor doutor. O mesmo, o dono da farmácia na sua bata apressada, ali a atravessar a rua. Mudaram de nome quase todos os restaurantes. Aquele é o senhor Carlos. Ainda sabe como gosto do café. Em silêncio.
Às vezes regresso à rua que foi minha. Respondo à cigana que o senhor doutor está muito bem, obrigada, que ficou em casa. Há oito anos que engano a cigana. Constato que, entretanto, esqueci quase todos os números. O número do telefone; das camisas; do passaporte. 
Mas lembro-me, ainda, de quantas árvores tem o lado esquerdo desta rua. 
Contei-as numa manhã de agosto. A rua estava deserta. O vestido era comprido e tinha flores azuis. Eu era para ter sido muito feliz. 
Foi há demasiado tempo.




quinta-feira, 3 de março de 2016

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros ao lado do espaço

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.


Herberto Helder, excerto do poema Tríptico

quarta-feira, 2 de março de 2016

Da fé

A nós, àqueles a quem nenhum deus agraciou com o milagre da fé divina, resta-nos pouco: uma vida que é a oportunidade definitiva e única; uma consciência em que o bem, inapto para o propósito do conforto na vida eterna, só pode ser o fim último; a desesperança da mão suave do pai global sobre as nossas cabeças perdidas. 
Nós, os abandonados por todos os deuses, nós, a quem não nos aquece o calor da crença divina, só nos temos uns aos outros. 
A verdadeira irmandade é aquela que é composta pelos órfãos de deus.
É por isso que a fé na humanidade nos é tão cara. É a única a que podemos aspirar. E se a perdermos, não nos sobra mais nada que nos una à espécie que nos calhou em sorte.

Ultimamente, a cada serviço noticiário, as pessoas parecem-me mais feias. 

terça-feira, 1 de março de 2016

No dentista

- Come muitos doces?
- Raramente.
- Fuma?
- Quase nunca.
- Está a mentir-me?
- Muito pouco.