Caí doente num alvorecer e nessa inútil atividade gastei vários dias. Andrimhnir, o cozinheiro pirata, passou o tempo à minha cabeceira a ler-me pautas de música, interrompidas por bulas de medicamentos. A minha obsessão pelo piano chegou à fase do solfejo e substituí a paranóica busca de livros esgotados pelo colecionismo de pautas de músicas que já não terei tempo de aprender a tocar. A meio da minha doença ocorreu-me a possibilidade de não ser eterna e conheci a culpa pelo tempo desperdiçado com tarefas ignóbeis. Não lamento o tempo gasto no trabalho pois, relativamente a esse, resta-me a consolação de nunca lhe ter dedicado um minuto a mais do que o estritamente necessário à sobrevivência do meu corpo e do meu espírito. O facto de o meu espírito ter necessidades vitais dispendiosas não é culpa de ninguém. Porém, devem-me muitos dias quilos de insignificante literatura, programas de televisão medíocres, obrigações sociais, pessoas que entretanto foram à sua vida e que agora nem sei se são vivas ou mortas, o trânsito de Lisboa, esperas em salas de aeroportos, etc, etc. No meu suposto leito de morte, enquanto Andhrimnnir me contava as pulsações, converti todo o tempo que me roubaram em peças de piano e concluí que, mesmo com a minha natural falta de habilidade, poderia, na pior das hipóteses, ter aprendido a tocar na perfeição o Claire de Lune do Debussy. Foi assim que percebi que um conjunto de pessoas desconhecidas entre si conspirou para me roubar o orgulho de saber tocar na perfeição, da primeira à última frase, o Claire de Lune do Debussy.
Partilhei a minha angústia com Reboredo, o médico ortopedista, que a transmitiu a toda a tripulação juntamente com o diário clínico. No dia em que os chamei para lhes comunicar o plano de substituição provisória do poder, num gesto de rara generosidade, trouxeram-me uma versão da música de cuja habilidade de a tocar o mundo inteiro me privou.
Mas era uma versão tão mal executada que, fiel àquela ideia de que se queres alguma coisa bem feita é melhor que a faças tu, fui obrigada a abandonar o meu estado de doença e a regressar à vida apenas para começar a praticar, para um dia poder, enfim, ouvir a música dignamente tocada.
Nessa manhã, mandei chamar o diabo.
Negociei cinquenta anos mais.