domingo, 22 de março de 2015

Cortinas

Irremediável como a chuva
é a ausência tatuada no pulso, 
uma nuvem líquida nos olhos estagnados,
a mancha que alastra no peito. 
Tudo irremediável como a chuva 
mais outra noite precoce, 
do lado errado do cair da cortina. 

Irremediável como a chuva 
é a indecisão a apoderar-se dos gestos, 
tentáculos inquietos da saudade. 
- Uma saudade moribunda. 
Afogada. Na água estagnada. Da chuva. Irremediável. 





domingo - Mare Nostrum


quinta-feira, 19 de março de 2015

Matrimónio espiritual

Encontro nas palavras de uma personagem de Ibsen a definição possível. 
Pode o espírito autonomizar-se dos nossos projetos, da nossa história e até da nossa vontade racionalmente fundada e enlaçar-se, sem licença, com um outro espírito? 
Talvez um discípulo de Freud, habituado à subjugação do ego, descrente do livre arbítrio, não tivesse dificuldades em aceitar tal rebeldia. 
Mas quando se crê no poder da vontade, acima de todas as coisas, como aceitar um matrimónio espiritual celebrado contra nós próprios? O que fazer com um espírito que se rebela como um filho ingrato? 
Vou mas é comprar sapatos.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Elegia dos Amantes Lúcidos

Na girândola das árvores (e não há quem as detenha)
Deixa de fora a tarde o vermelho que a tinge.
Se ao menos tu ficasses na pausa que desenha
O contorno lunar da noite que te finge!

 

Se ao menos eu gelasse uma corda do vento
para encontrar a forma exacta dum violino
Que fosse a sensibilidade deste pensamento
Com que a minha sombra vai pensando o meu destino

 

E não houvesse o sono dum telhado
Entre ter de haver eu e haver o tecto;
E a eternidade não estivesse ao lado
A colocar-nos nas costas as asas dum insecto

 

Meu amor, meu amor, teu gesto nasce
Para partir de ti e ser ao longe
A cor duma cidade que nos pasce
Como a ausência de deus pastando um monge

 

Ah, se uma súbita mão na hora a pique
Tangendo harpas geladas por segredos
Desprendesse uma aragem de repiques
Destes sinos parados pelo medo!

 

Mas só porque vieste fez-se tarde,
Ou é a vida que nasce já tardia
Como uma estrela que se acende e arde
Porque não cabe na rapidez do dia?

 

Nem homem nem mulher. Só a moeda antiga:
Uma inflação de deuses que não pode parar
Como um pássaro cego à nora da intriga
Que é a morte no centro connosco a circular.

 

Será o mesmo tempo que nos cabe?
Talvez sejas a raça prematura
Duma gota de orvalho que se há-de
Negar à minha sede desértica e futura.

 

Como o brilho dum sol partido ao meio
Damos luz pela nostalgia da metade.
Partes para ser gaivota no meu seio.
Mas não trazes no bico uma cidade.

 

Aqui pousou um pássaro de lume
Que deixou um voo subterrâneo
Na repetida vibração do gume
Que cada hora traz à lâmina do crânio.

 

Teus dedos num relógio como a picada duma abelha
A fabricar o mel da estação perdida!
Que quanto a primavera um rouxinol na telha
É toda a melodia que traz na unha a vida.

 

O navio tem dois extremos ermos:
Os cabelos para Vénus e os pés para Marte.
Mas a viagem é o mar com a terra a ver-nos.
E com lenços à vista ninguém parte.

 

Ah, se ao menos eu pudesse agora erguer-me
Como uma pedra pelas minhas mãos futuras
E ficasse para sempre a aquecer-me
Ao sol que cega efémeras criaturas!

 

Se soltasses as aves da rotina
E de um jorro de deuses abrisses a comporta
E reclinada em tua espádua genuína
Eu entrasse num céu sem ter que achar a porta!

 

Se tu viesses cavaleiro branco
Orvalhado pela manhã do meu instinto.
E ficasses a chamar-me como um canto
No porvir do nosso último recinto!

 
 

Se ficássemos espuma de Maio cor-de-rosa
Nas praias donde Maio se retira,
Enrolados nos panos duma paisagem silenciosa
Que fosse a pura sonoridade da ausência duma lira!

 

Ah, as sementes que te exigem em declive
Entre abismos onde nunca te despenhas
E esfumados voos em que te embebes e revives
O que de ti já pousou no cume das montanhas!

 

Inútil decifrarmos este oráculo de ave absorta
Na incontinência do voo que a abrasa.
Se houver um palácio sem porta, talvez seja a porta.
Se houver uma casa sem tecto, talvez seja a casa.

 

Natália Correia, in Passaporte 

domingo, 15 de março de 2015

Ainda sobre a perfeição

Esta música foi-nos patrocinada por um conde insone que se fazia aliviar do tormento das noites intermináveis, com o som do piano. 
Talvez não fosse possível na era do candy crush.

Pastores de gaivotas

Éramos para ser muito felizes numa daquelas casas de madeira pintadas de branco, com um terraço voltado para o mar, a terminar nos limites da areia da praia. 
Dentro de casa ia ser tudo branco à exceção das capas dos livros que me lerias nas manhãs em que nos acordassem os uivos do vento norte. Então ficaria deitada com a cabeça no teu colo e os sentidos alugados a um poema de Wallace ou, havendo sol, a um verso de um qualquer árabe do século XII que por mero acaso tivéssemos desenterrado na véspera. 
Éramos para almoçar em silêncio, na varanda, lado a lado e com os olhos presos no mar, um peixe pescado e assado por ti. Estaria vento mas não nos perturbaríamos com os objetos a fugirem da mesa e a dançarem numa espiral em nosso redor. Nem uma onda morreria antes que a guardássemos na retina. 
Éramos para dançar ao por-do-sol na praia vazia perante uma plateia de gaivotas alinhadas em esquadria e à espera do crepúsculo. 
À noite, centenas de velas iluminariam a banheira vintage, branca, onde me lavarias os cabelos ao som do jazz da Billie Holiday. 
E haveria, por fim, de adormecer como acordei, com a tua voz, por entre os uivos do vento norte, a alimentar-me a alma com a metafísica esdrúxula de uma criatura ainda mais perturbada do que nós dois. 
Éramos para ser pastores de gaivotas. 
Mas depois pensámos melhor e achámos que era mais fácil continuarmos a ser o que não somos. 

Ibsen

Veio a propósito a "A Dama do Mar", de Ibsen.
Ellida, que pensa não ter escolhido, quer sentir-se livre para poder escolher aquilo que, na verdade, já escolheu em liberdade.
Ellida teve sorte. Salvou-a da loucura certa o regresso do fantasma do passado que lhe trouxe de presente a ilusão da liberdade de escolha. Libertou-se. 
Libertamo-nos quando somos livres de rejeitar os fantasmas do passado. 
Sobretudo, aqueles que já rejeitámos.

Da série: coisas com gente dentro


sábado, 14 de março de 2015

Este blogue também fez este mês cinco anos

Para o ano mando-o para a escola, para ver se aprende a escrever-se a si próprio.

E foi assim que te perdi


Mas entretanto caíram tantas folhas de calendário que me foi impossível manter a memória da pele. Como se a cada banho se esvaíssem as tuas células pelo ralo e se me perdessem as recordações na obscuridade dos subterrâneos interstícios da canalização e do esgoto público. Ainda conjeturei a possibilidade de os ir recuperar junto ao mar. De te ir recuperar junto ao mar. Mas depois lembrei-me que não acredito nos princípios da homeopatia. Não concebo nenhuns efeitos à memória diluída na partícula. 

sexta-feira, 13 de março de 2015

13


Já quase consigo esse nível de abstração a partir do qual se conseguem ver as cores das almas. Na minha, progride-se tranquilamente para o aprofundamento de um negro em dregadeé simétrico. Não gasto os meus preciosos dons de bruxa na autópsia das almas dos outros. Temo que essa visão, se súbita, perturbasse a simetria da minha negra progressão.
Para nós, os loucos, a simetria é uma coisa importante. 

terça-feira, 10 de março de 2015

Piano Song


How long until the roots break
(the roots break)
How long before the shame
(Before the shame)
How long untill she surrenders to the boy with no name?
I'm a stranger here,
Oh dear,
What now?


She never wanted to be
a leaf on the family tree,
taking a road that will lead
to a life she had already seen



segunda-feira, 9 de março de 2015

As minhas veias



A abstração é a mãe de ilimitados equívocos. 
Já fui amada da maneira como se ama a Gioconda; a andorinha que anuncia a chegada da primavera; uma das Tágides; a Salomé do Klimt. Amada na dimensão de boneca de desenho animado japonês, daquelas que saltam e ficam paradas no ar durante vários minutos, em posição de guerreira e com cada fio de cabelo devolvido ao seu lugar de origem. 
Não gostei nada. O embaraço do equívoco é sempre superior à lisonja do sentimento. 
Sou mal agradecida. Porém, rica. Tenho uma caixa de madeira onde guardo a macabra coleção feita dos restos dos amores abstratos. Cartas, poemas, duas ou três fotografias, metade de um bilhete de um concerto, uma pulseira com contas turquesa, a própria da boneca japonesa. E até um caderno de capas pretas que é a prova que retenho dos malefícios da ideia abstrata de mim na criação da má poesia. A boa, que também devo ter inspirado, nunca tive a tentação de guardar. 
Sou uma péssima musa. Entregam-me a bandeja prateada dos sonhos e eu deposito nela as minhas veias. Abertas. 
Desfaço o equívoco. 
Desfazem o amor.
Suponho que as musas nem sequer precisem de ser abraçadas.


domingo, 8 de março de 2015

Aquela coisa dos fins de tarde de domingo


Um erro de apreciação

- Um erro de apreciação.
Foi assim que mentirosamente o justifiquei a terceiros quando tive que o justificar a terceiros. Como quem se refere a um eletrodoméstico desprovido das qualidades anunciadas, que se devolve no balcão de uma superfície comercial. 
- Tome este pedaço da minha existência, fique com ele. Não é como se diz na caixa. Fique também com o saco que não me faz falta nenhuma, já tenho lá muitos.

Foi uma justificação prontamente aceite e compreendida. Todos nós cometemos erros de apreciação mas poucos de nós amamos.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Tanta realidade

Tanta realidade a entrar-me pela porta e a consumir-me o ar. Trago a realidade atrás de mim no final do dia e deposito-a, ali, na mesa da entrada. Fica a olhar para mim desconfiada. 
A vida está dentro da metade de um verso, na curva segunda de um bolero ou num traço mais azul de uma pintura. 
E hoje vi a lua, em estado pleno. 
Não sei o que faz a realidade, ali à espera, de olhos ávidos, a ameaçar-me...

quarta-feira, 4 de março de 2015

Espelhos

Li em Al Berto,

homens cegos procuram a visão do amor 
onde os dias ergueram esta parede 
intransponível 

E o verso ecoou na retina a imagem reversa. Uma parede, intransponível, à procura da visão do amor dentro dos olhos de um homem que os dias tornaram cego.

domingo, 1 de março de 2015

Os sábios

"Suportar-se-ia que estes homens exercessem os cargos públicos como asnos com uma lira, se nas restantes funções da vida se mostrassem capazes. Convidai um sábio para jantar e ele perturbará a refeição ou com um confrangedor silêncio ou com inconvenientes questiúnculas. Convidai-o para dançar e dir-se-ia um camelo a saltar. Levai-o a um espectáculo e o seu aspecto bastará para impedir que o povo se divirta; será compelido a sair do teatro como o sábio Catão por não abandonar a sua gravidade arrogante. Se intervém numa conversa, é como o lobo na fábula. Se se trata de comprar, de vender, de levar a cabo uma das acções indispensáveis à vida quotidiana, dirás que o sábio não é um homem, mas um cepo. Desta feita não pode ser útil nem para si próprio, nem para a pátria, nem para os seus, porque ignora todas as coisas comuns e porque desconhece opiniões e hábitos recorrentes. Está disparidade total de vida e ideias acarreta necessariamente contra ele o ódio. Mais, que coisa se faz entre os homens que não esteja cheia de loucura, que não seja feita por loucos e para loucos? Se alguém quiser ir contra esta prática universal, o meu conselho é que seguindo o exemplo de Timon, emigre para o deserto e aí desfrute a sós da sua sabedoria." 

Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdão 

(Leitura muito recomendável aos Velhos do Restelo e outros arautos do fim do mundo tal como o conhecemos, para que se tranquilizem. Nada de relevante se alterou na sociedade europeia desde 1500, não sendo expectável que seja a geração presente a conseguir o milagre de perturbar tão vetusta serenidade de costumes.)

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Loucos anónimos

Olá. 
O meu nome é Cuca e hoje não fiz muffins (ainda).
Vivo nesta casa com duas varandas onde as gaivotas vêm pousar e às vezes ficam do lado de fora da janela a olhar-me dentro dos olhos como se soubessem a verdade. Como que a dizer-me, mais precisamente, que sabem a verdade. O mar está sempre nas minhas costas porque assim teve de ser. Esta é  a minha décima oitava casa e não será a última. Mas foi a primeira casa que eu escolhi para ser feliz. A felicidade, não se deixem enganar, precisei ler muitos livros para chegar a esta conclusão, é uma opção pessoal e intransmissível. Escolhe-se todos os dias ser um bocadinho feliz e um dia distraímos-nos e morremos e os outros dirão, aliviados, que ao menos fomos felizes. Ser feliz é uma responsabilidade social, como bem o sabem todas as pessoas que mantêm padrões mínimos de generosidade. Noutros tempos também eu me revoltei contra os cânones instituídos e declarei-me livre do espartilho da felicidade como meta obrigatória e padrão mínimo de inferência de uma normalidade pacificadora. Mas depois compreendi que o direito à infelicidade é conquista que não justifica a convocatória de um exército. Apresentei-me nas fileiras do escrutínio das almas com uma bandeira branca e optei por ser feliz apenas para que me deixassem em paz. Com a minha casa com duas varandas onde as gaivotas vêm pousar entre dois voos e o cheiro permanente da baunilha das velas e os livros que compro compulsivamente para ter sempre tantos que nunca sou realmente obrigada a ler nenhum. Se tivesse mais espaço deixaria todos os livros abertos na sala para que as letras pudessem tatuar a atmosfera e confundir-se na minha ausência formando palavras novas. Às vezes penso que o mal do mundo reside na falta de palavras novas. Talvez através delas pudéssemos inventar novas emoções e inventar a cura para o tédio. Mal mortal e contagioso. Além de livros também compro muitos vestidos. Tenho centenas de vestidos que me servem para garantir a oportunidade de escolher sempre os mesmos três ou quatro. Ter coisas acalma-me. E fazer muffins compulsivamente. Da mesma forma como algumas pessoas escolhem ser alcoólicas ou drogadas ou viciadas em pornografia ou poetas eu tenho uma compulsão que me leva a fazer muffins. Faço-os sempre iguais. Com framboesas. Nem sequer gosto particularmente de comer muffins. Acho que gosto apenas de os ver crescer dentro de umas formas estranhas de silicone que também compro compulsivamente. E a tensão de nunca saber como é que aquilo ficará afinal, anula a tensão de não saber como ficarão afinal, outras coisas mais importantes do que os muffins e que não dependem de receitas retiradas da internet, como, por exemplo, a vida o amor e as vacas. 
Ser viciada em muffins, corrijo, em fazer muffins, não é a pior coisa do mundo quando se ganha um salário que dá para comprar vários pacotes de farinha e açúcar e ovos. Além do mais, há uma música de uma banda brasileira chamada O Rappa - que ouvi uma madrugada enquanto descia uma montanha dentro de uma daquelas pick-up que se usam para descer montanhas e ainda antes de ser viciada na confecção de muffins ou, sequer, ter revelado o menor sinal de distúrbio mental latente, e portanto, das últimas vezes que me lembro de ter sido sã - que diz que cada um tem os seus milagres. Cada um tem os seus milagres para fugir. Para resistir. 
Por isso, sou a Cuca e hoje não fiz muffins (ainda).
Em tempos gostava de escrever estórias e inventar peças de teatro com personagens trágicas que aspiravam à condição de morto-vivo (assim mais ou menos como no Ibsen). Mas depois um dia no meio da ponte de Brooklyn tive uma epifania brevemente relacionada com essa coisa da felicidade por decreto e passei a dar por melhor empregue o tempo que passo deitada no sofá a ver a casa dos segredos e a comer chocolate dolphin. Um que tem especiarias. Nietzsche alertou para os efeitos perniciosos de um certo tipo de arte só que ninguém o levou a sério porque toda a gente sabe que Nietzsche era louco.
Eu não gostava de loucos. Poupei os cento e cinquenta euros que o psiquiatra me levaria para me explicar que a razão pela qual tinha medo de loucos radicava na minha própria fobia de auto-enlouquecimento. Há coisas que nós sabemos sobre nós próprios e não precisamos que um estranho nos cobre dinheiro para nos dizer. 
Mas tudo isso faz parte do passado. Com o mesmo desprendimento e conformada inevitabilidade com que já antes havia abraçado a felicidade, decidi agora acolher a loucura. Para além do mais, descobri que é global e que apenas nos andamos todos a enganar uns aos outros. 
Num dos livros que hoje comprei em excesso, li isto:
O Eclesiastes diz no capítulo primeiro: "O número de loucos é infinito." Este número infinito abrange todos os homens, excepto alguns que duvido alguém tenha podido ver.
Foi, claro, no Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdão. 
E agora vou fazer muffins.








A barbearia, os cães e as mulheres.




Com o atraso que caracteriza o ritmo com que entro no mundo real - para muito rapidamente dele sair e regressar para a obtusidade do mais inusitado verso de Herberto, que no fundo, no fundo, é aquilo que verdadeiramente interessa - também eu quero dizer coisas sobre isso da barbearia, dos cães e das mulheres.
Consta que anda para aí uma barbearia que decidiu proibir a entrada às mulheres. Consta também que a mesma barbearia, não satisfeita com o conceito exclusivista, ou excluidor, dependendo da perspetiva de quem fica de dentro ou de fora da porta, decidiu publicitar-se fazendo uma alusão provocatória ao facto de os canídeos (não sei se também aqui com exclusividade aos machos) poderem entrar, em detrimento das mulheres. 
Por princípio, oponho-me a conceitos comerciais que vetam a entrada a um dos géneros e jamais os alimentaria. Tanto me perturbam os famosos ginásios onde menino não entra, como a agora famosa barbearia criada para servir homens e cães. E antes que me venham com a conversa da liberdade na iniciativa comercial privada, relembro que até essa está sujeita às proibições decorrentes da Constituição da República Portuguesa que, a última vez que verifiquei, ainda estava mais ou menos em vigor. O sol da proibição de discriminação de género nasceu para todos. 
O que distingue a barbearia dos ginásios é que estes últimos, que saiba, não tiveram o mau gosto de se promoverem através da uma provocação publicitária que pretende atirar à cara de uma parte da humanidade que, dentro daquele estabelecimento comercial, tem menos direitos do que os cães. 
O "slogan" da barbearia é infame e faz lembrar os antigos cartazes nazis dirigidos à educação do povo alemão, em que os judeus eram comparados aos porcos e reordenados na escala social atrás dos cães. 
E se a proibição de entrada, por ser uma discriminação injustificada, me parece ilegal (idem para os ginásios), mas já não ofensiva, a técnica promocional dos senhores da barbearia parece-me claramente misógina, infame e insultuosa.
Isto legitima um grupo de mulheres mascaradas de cão a invadir a propriedade privada para fazer uma qualquer ação de campanha em nome do feminismo? Não, claro que não. 
O feminismo sofre do mal da má imprensa precisamente por causa de exageros carnavalescos desta ordem. O episódio terá conseguido apenas duas coisas e nenhuma delas positiva: potenciar publicidade gratuita a um estabelecimento comercial que é merecedor de desprezo e dar de comer à ideia feita de que as causas feministas são coisa de gente histérica.
Atingido o estádio civilizacional em que vivemos existem organismos próprios para quem se sente incomodado fazer valer aquilo que acredita serem os seus direitos. Foi para isso que tanto lutaram as mulheres e os homens que se opuseram e todos os dias se opõem à discriminação de género. 
E esses, certamente, não têm nada a agradecer a ações desta natureza. 
E agora vou regressar ao Herberto: 
"Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para o outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído. E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso. E não devemos malquerer às mitologias assim, porque são das pessoas, e neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom. E então a gente ama as mitologias delas. À parte isso o lugar era execrável. As pessoas chiavam como ratos, e pegavam nas coisas e largavam-nas, e pegavam umas nas outras e largavam-se. Diziam: boa tarde, boa noite. E agarravam-se, e iam para a cama umas com as outras. E acordavam."
Herberto Herlder, Os Passos em Volta, Porto Editora, pg. 51.

Ciclo Vicioso Kubler-Ross

Eventualmente acaba por subir-se o último degrau da escala.
O problema é que depois da aceitação não há mais nada. E o choque do niihilismo, já se sabe, conduz à negação.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Constatação empírica

A única criatura sensiente que conheço que tem sempre - sempre - uma motivação racional para as suas condutas é o meu cão. 

A primeira vez que me perdi

A primeira vez que me perdi foi a última. O estado de perdida encontrou-me com um copo de gin na mão, distraída, numa sala demasiado escura, a ouvir jazz. 
A cantora era negra e usava um vestido da mesma cor da lua, enorme, que se ria do lado de fora da sala. Sobre a montanha, sobre o mar, sobre as varandas e os alpendres, uma lua omnipresente que talvez também até se risse dentro do vestido de prata da cantora.
Depois a mulher - ou a lua, ou a mulher vestida de lua - aproximou-se da extremidade do palco e começou a cantar summertime. 
Foi nessa altura que entre mim e o homem sentado ao meu lado instalou-se um silêncio tão súbito, tão pesado e tão doloroso que foi como se os poucos centímetros que nos separavam, de repente, fossem o espaço que o oceano ocupa entre duas ilhas.
E então, para forçar a minha mente a desocupar-se da tensão do espaço entre as nossas mãos, concentrei-me nos movimentos da cantora.
Mas enquanto a música se espalhava pela sala, com o olhar fixo no palco, vi, juro que vi, o homem sentado ao meu lado dançar comigo na praia sob uma lua que ria. E vi-o deitado na varanda de uma casa desconhecida, desvendar-me cada um dos pontos de luz do céu da noite. E vi-o sob a água translúcida do mar, ensinar-me os peixes e as pedras. E vi-o numa tarde de chuva, na sombra de um farol, desfazer o nó dos nossos dedos. E vi muitas milhas de oceano a correr vazio. E vi-o, por fim, sentado, sozinho, no piano daquela mesma sala, numa noite sem estrelas. E foi a sua música que ouvi. 
E quando a canção chegou ao fim e voltei a olhar, primeiro, para o espaço encurtado entre as nossas mãos, e depois, para os olhos dele, percebi-lhe o rasto de uma lágrima e adivinhei que, durante aqueles três minutos, que poderiam ter sido três meses ou três anos, aquele quase desconhecido viu precisamente o mesmo do que eu.
Foi no tempo desse olhar mútuo, perscrutador, desconfiado, conformado, que percebi que estava perdida. 
Depois, usámos os dias para fazer cumprir a lenda. 
Às vezes, a muitas milhas de distância, em noites sem lua, pergunto-me se poderia ter evitado o passado, caso o futuro não me tivesse sido, de antemão, dado a conhecer.
Dir-me-ia a lua, a rir, que é irrelevante a resposta à minha pergunta.
Uma mulher só se perde uma vez.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A contar do fim

Entre o terceiro e o quarto verso materializa-se a tua última vértebra,
A contar do fim. 
Não é como se fosses etéreo. 
Apenas feito da substância das nuvens
Que se revela nos químicos da poesia.

É por isso que sempre te peço um poema. 
Ontem a última vértebra,
Hoje um fio de cabelo,
Amanhã um centímetro de pele, 
A vida toda a lenta transmutação do ser.
A contar do fim. 



sábado, 21 de fevereiro de 2015

Estações

O sol, nas esplanadas dos restaurantes junto à praia desta estância balnear abandonada onde cumpro o meu exílio, não nasce para todos com a mesma intensidade. 
Por baixo das minhas três camisolas e casaco de inverno, contemplo invejosa o verão que chegou à mesa dos ingleses, onde se vive no cansaço de um tórrido agosto, daqueles de pés cheios de areia pousados em havaianas e camisolas de alças a exibir ombros que clamam pela intervenção urgente de um fenistil. 
Talvez também eu pudesse saltar por cima dos próximos seis meses e deitar-me já em pleno agosto. E o que deixaria para trás? Seis luas cheias sobre a imensidão de um oceano tão igual em cada milha sua como cada um dos meus dias.
Ocorre-me que os ingleses, ao menos, têm um inverno para onde voltar. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O amor dos estúpidos não vale nada #1

"O tolo é um amante sempre contente e tranqüilo. Tem tão robusta confiança nos seus predicados, que antes de ter provas, já mostra a certeza de ser amado. E assim deve ser. Em sua opinião faz uma grande honra à mulher a quem dedica os seus eflúvios. Não lhe deve felicidade; ele é que lha dá; e como tudo o leva a exagerar o benefício, não lhe vem à idéia de que se possa ter para com ele ingratidões. Assim, no meio das alegrias do amor, saboreia ainda a embriaguez da fatuidade. Mas como, em definitivo, é ele próprio o objeto de seu culto, depressa o tolo se aborrece, e como o amor para ele não é mais que um entretenimento que passa, os últimos favores, longe de o engrandecerem mais, desligam-no pela sociedade."

Machado de Assis, in "Queda que as Mulheres Têm para os Tolos" 

Bom dia!

E era isto.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Memória de um tango


Um tango dançado por entre o fumo e os olhares hostis de homens de chapéus negros e mulheres enfolhadas até aos tornozelos num florido nauseante. 
É a memória que lhe guardo. 
Não mais do que esse abraço de dança trágica em que o desejo e a raiva são as duas faces da mesma moeda de prata que há de rolar no chão de madeira gasto, depois do silêncio que se segue à última nota do acordeão. 
A rosa manchada pelo sangue de um peito aberto num único golpe de lâmina, desfeita na confusão dos corpos e dos passos.
E a noite mais longa de todas, com o frio a soprar vindo de dentro, a morte embrulhada em perfume ardente e uma ausência nas veias. 
Enquanto esperávamos que a moeda se quedasse para nela conhecermos o rosto daquele a quem, de entre os dois, o destino fez assassino



terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O amor dos estúpidos não vale nada

Há muito que ando pelo mundo a dizer que o amor dos estúpidos é coisa que pouco vale.
As reações dividem-se entre as prontas acusações de snobismo intelectual (acompanhadas da garantia veemente que este é o pior tipo de snobismo possível, não vá eu interpretar o epíteto de forma eufemistica) e os complacentes encolheres de ombros seguidos de um aceno de cabeça que é a linguagem gestual apropriada para exprimir a profunda falta de esperança em alguém. 
Traumatizada pela constante discordância com aquilo que ninguém me tira da cabeça que é uma conclusão óbvia, fiquei muito feliz quando li Ortega y Gasset, nos Estudos sobre o Amor, dizer mais ou menos a mesma coisa, de forma socialmente mais aceitável.
Mas é António Damásio, em O Sentimento de Si, que do alto da autoridade que a ciência lhe confere, me iliba das acusações indevidas de que tenho sido vítima.
"A consciência é a função biológica que nos permite conhecer a tristeza ou a alegria, sentir a dor ou o prazer, sentir a vergonha ou o orgulho, chorar a morte ou o amor que se perdeu. Tanto a tragédia como o desejo são iluminados pela consciência. Sem ela, nenhum desses estados pessoais poderia ser conhecido por nenhum de nós. Não culpem a Eva pelo facto de conhecer, culpem a consciência mas agradeçam-lhe também."
Depois explica que para além da consciência nuclear, que não é exclusivamente humana, existe a conciência alargada que "coloca essa pessoa num determinado ponto da sua história individual, amplamente informada acerca do passado que já viveu é do futuro que antecipa, e agudamente alerta para o mundo que a rodeia".
Ora, sabendo-se que a consciência não é se não uma forma de inteligência e que as emoções não são separáveis da consciência, não será forçoso concluir que os sentimentos dos, er... menos capazes de um nível profundo de consciência, não valem.... er... não têm intensidade relevante? 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Dos fundamentos psicológicos da vergonha alheia

"O que faz um homem é como se o fizessem todos os homens. Por isso não é injusto que uma desobediência num jardim contamine toda a humanidade; por isso não é injusto que a crucificação de um único judeu baste para a salvar."

Jorge Luis Borges, Ficcões, A Forma da Espada 

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Música do dia


Do relativismo

A viúva chora, desamparada, aquele tipo de lágrimas que se choram quando nem sequer se dá conta que se está a chorar.
E então, ouvimo-la dizer para o vazio, em jeito de pedido de desculpas à assistência:
- Como é que isto se faz? Eu nem sequer sei como é que isto se faz...
E nós olhamos para os pés, envergonhados pelas angústias próprias que elevamos à categoria de dor.

Poema incompleto

A avidez do nada que tens para me dar,
Faz-me ficar à espera que tires dos bolsos o mundo.
Uma caixa de fósforos, um botão de camisa, uma casca de noz,
A ponta de uma fotografia rasgada dos dias da tua infância.

Expostos um a um, no tampo da mesa de madeira riscada,
Onde alguém poderia ter gravado um coração com a chave do carro,
Apenas para melhor conforto do espectador. 

Mas os instantes perdem-se aquém da perfeição.
E de bolsos despidos, apenas os nossos dedos, 
De mendigo, 


A tatear o vazio ou a esboçar no ar o gesto de um poema. 
Incompleto.





sábado, 14 de fevereiro de 2015

Quota disponível


Às vezes penso que deve haver um limite de palavras. Como se cada um de nós nascesse sob o signo de uma quota disponível de poesia, fixada à nascença por uma madrinha boa que se aproxima do berço e nos sopra ao ouvido.
Às vezes penso que a minha quota disponível pode bem estar a aproximar-se do fim. 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

A dor dos inocentes

Aquele homem que, até então, nunca tinha conhecido a infelicidade; que foi rei num reino feito de súbditos complacentes; que a pior sombra que se lhe viu passar no rosto foi a do tédio dos fins de tarde de domingo, ou nem isso; que desconhecia o silvo da consciência que endurece a almofada; que da solidão saboreou apenas o breve alívio do excesso de presença dos outros; que da dor de não ter foi protegido pelo pragmatismo das autolimitações no querer; aquele homem, dizíamos nós, que até então nunca tinha conhecido a infelicidade, por força de uma daquelas avarias inusitadas da máquina da existência, em que um grão de areia se desloca do lugar que lhe foi destinado por ação de um brisa vespertina provocada pelo bater das asas de uma ave próxima que se assustou com a aproximação de um barco empurrado para a margem pela sétima onda, viu a sua vontade escravizada pelos desmandos de dois corações imprudentes e destruiu muitas vidas.
Então, aquele homem, do cimo da montanha, contemplando a mortandade espalhada pelo solo do seu reino e incapaz de se dobrar a uma culpa que sabia ser-lhe alheia, expressou a dor possível: 
A dor de "não ter conseguido ser apenas uma boa pessoa".

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Okupas

Eros é o invasor que se instala subreticiamente na cave de casa. E tu manténs a porta trancada para ele não entrar. E um dia reparas que, sem saberes como, tomou-te um quarto e uma sala. E fechas a porta de acesso ao corredor e limitas-te à parte da casa sobejante. Mas passado pouco tempo, quando acordas no primeiro andar, percebes que o amor tomou todas as divisões do rés-do-chão. E então resignas-te a viver no andar superior. Só que o amor subirá as escadas. E quando deres conta que também o limiar dessa última porta foi ultrapassado, já não terás mais sítio para viver. E é então que te lembras que nem sequer podes sair para a rua. Porque a casa só tem uma saída e, essa, fica na cave.



Relatório metereológico

Esta manhã fui acordada pela madrugada de um outro lugar.
O sol tinha acabado de nascer e o mar parecia iluminado por dentro
como se as sereias, insones, acendessem velas para aquecer as mãos.

Não aqui, onde até o sol se recusou a rasgar o dia. 


domingo, 8 de fevereiro de 2015

Do pop jazz nos fins de tarde de domingo


Culpar as botas quando a culpa é dos pés

Foi quando reli este diálogo que percebi tudo:
(...)
 ESTRAGON - vamos enforcar-nos agora mesmo!
VLADIMIR - Num ramo? (Aproximam-se da árvore) Não me parece de confiança.
ESTRAGON - Não se perde nada em experimentar.
VLADIMIR - Força!

ESTRAGON - Primeiro tu.
VLADIMIR - Não senhor, primeiro tu.
ESTRAGON - Porquê eu?
VLADIMIR - Porque és mais leve do que eu.
ESTRAGON - Por isso mesmo!
VLADIMIR - Não percebo.
ESTRAGON - Puxa lá pela cabeça.
VLADIMIR - (finalmente) Continuo a não perceber.
ESTRAGON - Então é assim. (Pensa.) O ramo... O ramo...
(Zangado.) Puxa lá pela cabeça!
VLADIMIR - És a minha única esperança.
ESTRAGON (com esforço) Gogo leve - ramo não partir.
- Gogo morto. Didi pesado - Ramo partir.
- Didi sozinho. Porque se - 
VLADIMIR - Não tinha pensado nisso.
ESTRAGON - se puder contigo pode com qualquer coisa.
VLADIMIR - Mas será que eu sou mais pesado do que tu?
ESTRAGON - La isso não sei. O que é que tu achas? Há cinquenta por cento de hipóteses. Ou quase.
VLADIMIR - E então o que é que fazemos? 
ESTRAGON - Deixa estar. O melhor é não fazermos nada. É mais seguro.

(...)

Somos Gogo e Didi, aqui debaixo desta árvore, à espera de Godot. 


comunicações intergaláticas

Um dia, como hoje, também fazias anos e fomos ao teatro. Era Shakespeare. Fizeram-te um desconto no bilhete. Não me lembro se gostaste da peça mas lembro-me de te ter oferecido um relógio com dois mecanismos, e de ter dito que o da esquerda poderia ser o teu tempo e o da direita o tempo dos outros e, quem sabe, talvez num qualquer final de tarde, pudesses querer acertar os dois tempos.
Nunca te vi com o relógio, o que não é de estranhar porque seria o mesmo que carregares no pulso uma acusação cruel. Sem o perceber, ofereci-te uma pulseira eletrónica para te aprisionar ao meu tempo.
Depois disso o mundo girou e ficámos todos de cabeças voltadas para baixo embora com os cabelos milagrosamente colocados no seu sítio.  
Este ano fiz a idade que tu te recusaste a fazer e do topo do Empire State Building lamentei-me por não estares lá para me devolveres esse relógio, com dois mecanismos, para me dizeres que o da esquerda poderia ser o meu tempo e da direita o tempo dos outros e, quem sabe, talvez num qualquer final de tarde, pudesse querer acertar os dois tempos.
Usaria com gosto uma pulseira eletrónica que me aprisionasse ao tempo dos outros.



hoje, as gaivotas

Vigiavam a praia pela manhã, atentas a um resto de coisa que lhes trouxesse o mar.
Mas as ondas desenrolaram-se vazias e os gritos das gaivotas, assim elevados no silêncio, soaram-me ao meu próprio queixume,
pelo barco que não veio, o náufrago que não sobreviverá, os pés que não mais tocarão a terra.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Medos

Medo do amor
quando tudo é fome.

E onde tudo é tão pouco,
medo de a carícia
despertar insuspeitos infernos.

Medo de sermos 
só eu e tu
a humanidade.

E morrermos 
de tanta eternidade.


Mia Couto, Tradutor de Chuvas

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

As limitações da linguagem são quase tão infinitas como as do amor

As palavras que li não me eram dirigidas. Mas já foram. Exatamente as mesmas. 
Não queremos possuir as almas porque nos são inatos o princípio da reciprocidade e as limitações próprias. Mas, se foram nossos os sentimentos, deveríamos manter o inalienável direito às palavras que um dia serviram para os exprimir. 
Mais, deveriam desfazer-se em simultâneo. 
É indecorosa esta sobrevivência. Esta interminável reciclagem das palavras que, afinal, apenas nos emprestaram.

Terrorismos

Um piloto jordano arde numa jaula por uma falhada troca de reféns; uma mãe morre num hospital por uma falhada negociação com a farmacêutica.
Os dias estão cheios de terror. 
O terrorismo dos bárbaros e o terrorismo dos civilizados. 
Viverei dentro de um verso onde apenas um inesperado declive métrico me possa incomodar.
A alienação é o panegírico da alma.


Memória de duas mãos unidas

Duas mãos unidas podem ser o objeto, a causa e a consequência de uma memória.
E até o podem ser em simultâneo. 
Nessa altura, deixa de se conseguir perceber o que é verdadeiro: 
As mãos unidas ou a memória. 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Teoria musical

Enquanto ouvia a tua música percebi que os anos, em nós, não apagaram quer a sintonia gémea no jazz, quer a incompatibilidade avessa no rock.
Formulei uma teoria:
O jazz pertence à dimensão branca dos sonhos e o rock ao negrume da realidade.

Da verdade #1

É preciso dizer a verdade apenas a quem está disposto a ouvi-la.


Séneca, in Cartas a Lucílio

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Insensatez



Talvez pela justeza do cilício enterrado até às veias, ou pela obstinação com que colecionei as mais irregulares pedras para sobre elas me ajoelhar, ou pela constância da ladaínha interminavelmente debitada sem convicção. E talvez até nunca venha a descobrir porquê, já que insondáveis também são os desígnios de uma consciência inclemente, mesmo, sobretudo, quando é a nossa.
Por fim, fui perdoada. 
Pela insensatez.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Dentro da caixa de música



Dentro da caixa de música, a bailarina deu mais duas voltas e dobrou-se numa vénia. Três acordes de piano anunciaram o reinício do mecanismo giratório. Mas antes que a bailarina reerguesse o seu vestido de tule branco, acabou-se a corda. 

domingo, 25 de janeiro de 2015

Love not

Não Ames! Não Ames! Oh, desesperados filhos do barro! 
As mais alegres coroas de esperança são feitas com flores da terra -
Coisas que são feitas para esmorecer e cair
apesar de terem florescido por umas curtas horas.
Não ames!

Não ames! Aquilo que amas pode mudar:
Os lábios rosados pode deixar de sorrir-te,
Os amáveis olhos radiantes tornarem-se frios e estranhos,
O coração ainda bater com calor, sem que seja verdadeiro.
Não ames!

Não ames! Aquilo que amas pode morrer,
Pode desaparecer da terra da felicidade;
As estrelas silenciosas, o azul e sorridente céu,
a brilhar sobre a sua campa, como antes sobre o seu berço.

Não Ames!
Não ames! Oh, aviso proferido em vão
na presente hora como nos anos que passaram.
O amor atira um halo em torno da cabeça do amado,
Perfeito, imortal, até que mudem ou morram.

Não Ames! 


Love not, de Caroline Elizabeth Norton.
Mastigado para português por esta nada vossa humilde serva, na esperança que alguém conheça uma tradução decente de que tenha a gentileza de me dar conta. 

A Rainha de Ítaca



Há muitas formas diferentes de se fingir tecer um sudário, fazendo os nós de dia à vista de todos e desfazendo-os em segredo ao cair da noite. 
Também a rainha de Ítaca, que passou mais de vinte anos à espera de Ulisses, deve, nalgum momento, ter desacreditado na possibilidade de reunião com o amor. Terá continuado, ainda assim, a travar o fluir da vida com o pretexto de um trabalho que, uma vez perdida a esperança, transformou-se na tecelagem da sua própria solidão. 
Nessa altura, sem a âncora da esperança nem o orgulho da fidelidade, também à rainha de Ítaca deve ter-lhe parecido ridícula a sua abnegação. Absolutamente ridícula. 

sábado, 24 de janeiro de 2015

Cantou a dor


Verdon




Fechei os olhos, como mandaste, e vi. 
Vi os nossos pés, descalços como os dos escravos, sincronizados numa dança de senzala.
Vi muito ao longe as mãos negras que embalaram os tambores.
Vi a fogueira que brilhou menos do que a lua 
e do que o olhar onde acendeste a noite.

Vi a sombra do braço de gigante com que enlaçaste a minha alma,
Vi duas bocas suspensas num milímetro, 
A gota de sal que te escorreu da testa,
e se desfez dentro dos meus olhos.
E ouvi, juro que ouvi, 
Num sussurro tão próximo
que foi dentro do peito que o som vibrou,


Sometime ago I had a dream 
It was happy, it was lasting, it was free
And now in life, oh, can't you see
How we can make that dream into reality?



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

El sueño de la razon produce monstruos

Goya

A única forma possível de vida

Treina-se a mente para o espartilho, trilha-lhe o leito fundo do curso dos pensamentos, vigia-se em permanência as margens para que nem uma única gota se desvie. Não há coração que sobreviva ao omnipresente crivo do intelecto. Não é totalmente desagradável viver neste exílio de dor. Poder-se-ia argumentar que também esta é uma forma de morte. Mas não é. Não quando se tornou a única forma possível de vida.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Blue Monday

Os cientistas das estatísticas avisam que hoje é o dia do ano em que devemos sentir-nos mais tristes. Li por aí que é uma fórmula composta pelas horas de luz, dívidas do Natal, constatação do incumprimento prematuro das resoluções de ano novo, distância temporal relativamente às próximas férias, tudo devidamente potenciado pela paranóia semanal das segundas-feiras.
Eu, que recebi a minha dose normal de luz,  tive um Natal financeiramente compensatório, nem me passa pela cabeça cair na asneira de fazer resoluções de ano novo, terei as próximas férias em menos de um mês e há muito que antecipei o drama de segunda-feira para o domingo, mesmo não sabendo que era o dia anual da tristeza, passei-o afundada num azul de profundidade equivalente à cor do alto mar. 
Como se não me bastasse ser hipocondríaca e fashion victim, acabei de descobrir que posso bem ser um case studie de acompanhamento inconsciente das tendências sociais. 

Diário de Bordo

Morreu Herberto, o escritor octogenário com quem na última primavera mantive um tórrido romance platónico e epistolar.
A notícia chegou-me ao cair da noite quando Gualtiero, o italiano, entrou na minha camarata com um envelope preto com uma caveira desenhada a giz. O meu coração, em tempos tão sincronizado com a mente deste homem, ensurdeceu-lhe de tal forma que confundi a morte anunciada naquele envelope indiscreto com um convite para um baile de uma qualquer organização sindical piratística.
Dentro do envelope havia a última carta que receberei de Herberto e uma breve nota explicativa da autoria da infeliz viúva e provável ideóloga do carnavalesco envelope. Herberto era um homem de excelente gosto e sei que teria escolhido papel machè, mate e em tom creme, para missiva anunciadora do seu óbito.
A viúva não fez qualquer alusão ao envólucro da mensagem e ficarei para sempre na dúvida se traduziu a intenção de uma boa alma de amortecer o choque da notícia, como se o envelope correspondesse ao clássico "senta-te que tenho uma má notícia para te dar", ou se apenas pretendeu vingar-se do marido morto, atingindo-o na sua sobriedade.
Na nota, em que omitiu igualmente qualquer referência à natureza da minha relação com Herberto,  a senhora limitou-se a informar-me que o seu marido morreu vítima dos ventos ciclónicos que atingiram a cidade de Lisboa (o que muito estranhei, já que nada ouvi sobre tal assunto nas notícias) e que lhe competia cumprir os últimos desejos do falecido, que, aparentemente, incluíram fazer-me chegar um bilhete manuscrito naquilo que me pareceu ser papel de toalha de mesa (com nódoas de vinho tinto), em letra apressada e quase ilegível.
Herberto, o escritor, sem grandes explicações sobre o fenómeno atmosférico que acabou por lhe roubar a vida, anunciou-me que era improvável que sobrevivesse às próximas duas horas; disse-me que tinha gostado muito de me conhecer e ameaçou encontrar-me na eternidade, onde certamente cuidou reunirem-se condições mais propícias à plena consumação de um amor que esta vida madrasta não favoreceu.
Não vou a tempo de lhe explicar que a minha eternidade está de tal forma cheia de encontros compensatórios das imperfeições desta existência que temo que os dias do tempo total não me cheguem e seja mais avisado começar já a anotá-los numa agenda.
Mais do que ter sido objeto dos quase últimos pensamentos de Herberto, comoveu-me o facto de me ter feito sua herdeira.
No meio daquelas linhas torturadas descodifiquei o seguinte parágrafo:
"Deixo-lhe uma estante cheia de Banda Desenhada, dez livros da Agustina, sob condição resolutiva de que um dia os leia, cinquenta por cento dos meus livros de poesia, correspondentes à metade da minha alma, e vinte por cento da minha discografia de Bach". 
Esperava que Herberto me oferecesse em legado as minhas próprias cartas, já que os romances epistolares, além de todas as outras evidentes desvantagens, trazem consigo problemas de indiscrição, dificilmente pensáveis pelos apologistas das SMS. 
Sobre isso, Herberto deu uma explicação:
"Saberá a minha amada que a vida de um escritor nestas terras de bárbaros nem sempre permite assegurar a sobrevivência de uma pobre viúva. Leguei à minha mulher as cartas que teve a gentileza de me enviar, devidamente assinadas. Seguro-a, assim, na sua honra".

Herberto era, afinal, um Pirata.



domingo, 18 de janeiro de 2015

Da verdade

The truth will set you free. But not until it finished with you.

David Foster Wallace, Infinite Jest



sábado, 17 de janeiro de 2015

The heart asks pleasure first

O coração pede primeiro o prazer,
E então, o perdão da dor,
E então, esses pequenos analgésicos
Que suavizam o sofrimento,

E então, para ir dormir;
E entao, se essa tiver de ser
A vontade do seu carrasco,
A liberdade de morrer.

Emily Dickinson, tradução de Cuca 


“The heart asks pleasure first,
And then, excuse from pain;
And then, those little anodynes
That deaden suffering;

And then, to go to sleep;
And then, if it should be
The will of its Inquisitor,
The liberty to die.”



Foi assim, não foi assim


Encontrei um verso de pontas arredondadas e foi através dele que desci até ao wonderland. São infinitas as possibilidades da poesia.
Depois de o coelho apressado ter repetido o número de fazer de conta que não me reconheceu, procurei a lagarta e sem surpresa fui dar com ela deitada no cimo da folha do costume. Levou o cachimbo à boca e deu uma primeira baforada num profundo silêncio enquanto me fixou com ar mais alienado do que o habitual.
- ainda és Alice?
Tirei do bolso do vestido uma chávena em miniatura, com relevos de flor-do-lis e estendi-lha daquela maneira como se entrega o cartão do cidadão ao polícia que nos vai multar.
A lagarta segurou a chávena com uma pata durante três segundos e depois devolveu-ma sem sequer a olhar.
- chá é na secção V do wonderland. Se pedires com jeito talvez o coelho te convide. 
- não vim tomar chá! Vim à procura de respostas.
- estão esgotadas, pequena. Só posso vender-te perguntas. Vai dar no mesmo. Devias aceitar enquanto ainda há.
Percebi que aquilo ia demorar e sentei-me no chão. Por cima de mim havia um arco-íris gigante e fluorescente e vi passar um bando de pássaros de óculos de sol. Uma nuvem cor-de-rosa pastilha elástica demorou-se um pouco mais do que as outras. 
- porque é que o chapeiro louco se esqueceu de mim?
Materializou-se na direção da nuvem atrasada o sorriso sarcástico do gato-que-ri. 
Ouviu-se um coro de gargalhadas na floresta, mas a lagarta continuou afivelada a uma expressão séria e pensativa.
A cauda do gato-que-ri surgiu do nada e agora todo ele era apenas uma cabeça e uma cauda.
- alfa e omega. Disse a lagarta, como se estivesse triste.
Ao fundo ouviram-se os passos apressados do exército de cartas que caminhava na nossa direção.
Os olhos do gato passaram do verde ao azul e neles cuidei ver o reflexo da baía que me persegue nos sonhos.
- vende-me então a pergunta de que necessito. Disse eu à lagarta em tom de desafio.
- Pode um homem lembrar-se de alguma coisa depois de lhe terem mandado cortar a cabeça?Perguntou a lagarta, aborrecida.
Nessa altura, chegou o exército e aproximou-se um capitão que, assim o quis o acaso, era o às de espadas. Incrédula, vi-o fazer uma vénia na minha direção.
- Majestade: aqui tendes a cabeça do chapeleiro louco. Foi feita a vossa vontade.
O gato que riu desapareceu no extremo sul do arco-íris.
- percebes agora porque é que ele te esqueceu? 

Perguntou a lagarta, antes de me apresentar a conta das duas perguntas que comprei.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A página 666

Diz assim, na página 666 dessa que é a minha bíblia, de capas escuras e pesadas, mas de letras feitas de nuvens:


"agora se tivesses alma tinhas de salvá-la, agora
se tivesses génio tinhas de resgatar o pacto, agora
que não tiveste senão quotidiano terás de trazer muita da luz sumida 
pelo mundo fora à tua roupa: camisa, calças,
sapatos leves com os pés andando
junto às águas salgadas,
não em cima delas, 
com tanta luz no teu passeio distraído pelos acessos à memória,
águas salgadas batidas, 
a tua altura medida em espuma contra as fráguas,
agora tens de saber que é falsa,
vens pela babugem como um peixe meio dentro meio fora,
guelras aflitas e o ar enorme à volta para arvoar,
não fossem as barbatanas"

Diz assim, e é verdade. 


terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Coisa nenhuma

Sabes, aqueles dias em que o nevoeiro se instala entre o umbigo e o esôfago e é como se os teus passos na rua ecoassem as notas tristes do piano decrépito e curvas-te para a frente como quem melhor acolhe a carga densa do cinzento em ti?
Sabes, aqueles dias em que as gaivotas gritam a dor a que ensurdeceste e o céu fica apenas a centímetros da linha que delimita a tua cabeça e os olhos das pessoas na rua parecem-te terríveis?
E então revês os truques que te ensinaram nas revistas das salas de espera dos curandeiros e aqueles que aprendeste nas noites brancas e começas por imaginar a luz dourada e quente que não te chega a aquecer o peito e recordas versos de poemas lavados de história mas antes do terceiro estás a projetar imagens de uma qualquer infância que deve ter sido feliz e por fim concentras-te nos movimentos do teu corpo e dás precisas instruções aos pés para que se dirijam a casa.
E depois em casa,
Coisa nenhuma, amor.
A chávena partida,
Um lápis perdido,
O relógio parado,
A folha rasgada,
O silêncio da porta,
E até aquela teia.
Coisa nenhuma, Amor.
Sabes, aqueles dias em que a noite nasce na alvorada?

Palmier Encoberto

Procura-se

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O meu livreiro

Tenho um livreiro com a mesma alegria orgulhosa com que algumas pessoas têm um advogado ou um psiquiatra.
Hoje chegou o meu Wallace Stevens e eu fiquei ainda mais contente por ter um livreiro.

Demónios de estimação

Disseram-me que ele estava livre dos seus demónios. 
E, embora soubesse não ser verdade, a frase perturbou-me da forma como nos perturba o chão da sala inclinado que esteve ali o tempo todo e nunca vimos realmente até que um dia chegamos a casa e, por qualquer razão, olhamos para aquilo e está lá e nunca mais deixamos de o ver.
Como se, afinal, a explicação nunca encontrada, as respostas não dadas, as motivações não compreendidas, confluíssem todas na simples existência de demónios. Os seus demónios. 
E estava, assim, na expressão de outra pessoa, aquilo que os meus próprios demónios me impediram de perceber. 

sábado, 10 de janeiro de 2015

Inquietação

Só fingimos agradecer a inquietação, assim como se fosse a benção da ave que no último instante evita a morte de encontro aos fios da eletricidade ou de uma papoila que dobra o pescoço para que não se parta durante o ciclone que varre a seara infestada de malmequeres ou do gato que se equilibra nos dez centímetros do parapeito na janela do oitavo andar apenas para ver o mundo do cimo do medo.
Só fingimos agradecer a inquietação porque nunca soubemos viver de outra forma.
Se fossemos capazes entregaríamos de bom grado a asa à algema dourada de um chão aquecido por um forno de pão. 



sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

En tu abrazo yo abrazo lo que existe

a·bra·ço 
(derivação regressiva de abraçar)
substantivo masculino
1. Acto de abraçarde apertar entre os braçosgeralmente em demonstração de amorgratidãocarinhoamizadeetc. = AMPLEXO
2. Fórmula informal de despedida (ex.: beijos e abraços para todos).
3. [Arquitectura]  Entrelaçamento de folhagens lavradasà volta de uma coluna.
4. [Botânica]  O mesmo que gavinha.


A definição mais perfeita, como sempre, é a da arquitetura:
Entrelaçamento de folhagens lavradas, à volta de uma coluna. É isso um abraço.

"(...)
En tu abrazo yo abrazo lo que existe,
la arena, el tiempo, el árbol de la lluvia,
y todo vive para que yo viva:
sin ir tan lejos puedo verlo todo:
veo en tu vida todo lo viviente.”

Pablo Neruda in 100 Sonetos De Amor

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Charlie - odiar o ódio

Liberdade de expressão não se confunde com a liberdade de dizermos coisas bonitas, consensuais ou politicamente corretas. Liberdade de expressão é, sobretudo, a liberdade de expressarmos discordância, repugnância e desprezo. E é ainda a liberdade de satirizarmos os outros e os seus valores mais profundos. As convicções religiosas, quaisquer convicções religiosas, não são mais importantes do que o exercício desta liberdade. 
Os que acreditam que os homicídios de ontem são imputáveis ao Islão e os que acreditam que são o justo preço pela ousadia de gozar com o Islão constituem duas faces da mesma moeda. A moeda do fanatismo ignorante cunhada no mesmo material que produziu os assassinos de ontem.

Febre de lua


A lua, plena, derrama sobre todas as praias do planeta idêntica luz.
A cada vinte e nove dias repete-se na areia o desenho das sombras que, na direção um do outro, projetamos em lados opostos do oceano.
E quem nesses dias pudesse ver-nos, do cimo da lua, saberia que cada uma dessas imagens é a metade de uma fotografia que o destino, num dia de raiva, rasgou com os dentes.

Pintura de Megan Aroon Duncanson

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Grandes Filósofos



I am a woman, Mary.
I can be as contrary as I choose.

Lady Grantham, in Downton Abbey

O príncipe arrependido



Por fim, muito tempo depois do teatro encerrado, percebi que a diferença entre co-atores da mesma tragédia - esse abismo entre a tranquilidade, quase placidez, de uns e a inquietação, quase neurose, de outros - justifica-se menos pela distorção retrospetiva de um mesmo passado comum, do que pela capacidade de arrependimento. 
Ele soube arrepender-se. E o arrependimento, como caminho alternativo e excludente do perdão , é infinitamente mais libertador.
Tal como Kleist, em o Príncipe de Hamburgo, que disse que o arrependimento é a inocência dos pecadores. 
A chave para o retorno à verdejante planície, povoada de coelhinhos brancos da inocência possível, não é o perdão. É o arrependimento profundo.
O imperdoável, nele, é que arrependeu-se para se salvar. 

domingo, 4 de janeiro de 2015

Morrer de tédio

Fazemos todo o tipo de ruído possível para silenciarmos o silvo permanente do tédio. Quando tudo o resto se cala, até o silêncio bom, lá está ele sentado à espera, como o esqueleto do nosso rosto devolvido por um espelho terrível. O reverso da vida.
O motor da humanidade não é o amor ou o poder, eles próprios, meros jogos que os homens inventaram para dissolverem o sabor do tédio na língua.
Dir-te-ia, no dia em que faz três anos que morreste de tédio, que o segredo da sobrevivência é a quantidade de decibéis que conseguimos criar em torno do tímpano da alma. 
Ensurdecer para calar o silvo que enlouquece. 
Que dói como uma chama que nos consome a carne e nos impele a apagá-la, mergulhando nas águas profundas de um rio. 

"as barbatanas a ver se havia alguma coisa a seu favor/ no mundo que não havia"


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Transcendências

Para os não crentes, a transcendência pode ser apenas a auto-estrada em direção ao sul, quase vazia não fosse estar cheia de sol, no primeiro dia do ano, ao som do concerto de ano de novo em direto de Viena.