domingo, 21 de setembro de 2014
sábado, 20 de setembro de 2014
Entre o contentamento e o júbilo
"A felicidade é um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietude são transformados em emoções ou sentimentos que vão desde o contentamento até a alegria intensa ou júbilo."
In Wikipédia
Ah, mas tanto que distam as margens, entre o contentamento e o júbilo.
Sobrou-me esta t-shirt de pirata
Diz Borges que apaixonar-se é criar uma religião que tem um deus falível.
Mas a falibilidade divina é transversal a todas as religiões se coadas no filtro pragmático da miséria humana remanescente.
Temos, então, que apaixonar-se poderia ser criar uma religião.
Talvez. Mas apenas na medida em que assumirmos que é componente essencial da paixão a profunda crença numa verdade não comprovada. Acho que é isso que chamam de fé.
Mas a fé não está ao alcance de todos.
Não se escolhe ser crente.
E se Borges estiver certo, se apaixonar-se for criar uma religião, pode bem ser que eu esteja perdida.
terça-feira, 16 de setembro de 2014
As primeiras chuvas
Enquanto o céu desabava sobre o amanhecer e uma mesa de bambu se afogava na varanda e insetos mortos eram arrastados na direção do ralo e o latir furioso dos cães nos acordava para o dia, dentro do quarto o cheiro quente da baunilha, a promessa de croissants acabados de fazer, a sensação do linho na pele, os acordes de uma música francesa comum.
E entre o dormir e o acordar, entre o passado e o futuro, entre o inverno e o verão, a velha imagem de uns pés nus assentes na corda do funambilista, em equilíbrio precário.
domingo, 14 de setembro de 2014
Ao que tudo indica
Primeiro, fiz um estudo aturado sobre o conceito de felicidade. Consultei enciclopédias, teses e gráficos e analisei o assunto com profundidade científica.
Depois, desconfiada, perguntei-lhe se era isto, afinal, essa coisa da felicidade.
Disse-me que sim.
Depois, desconfiada, perguntei-lhe se era isto, afinal, essa coisa da felicidade.
Disse-me que sim.
A verniz
Quando se é Pirata e se decide viver a bordo de um navio e ganhar desonestamente a vida através do saque e da atemorização contínua dos outros torna-se inevitável fazer escolhas difíceis.
Foi sentada no convés, enquanto pintava as unhas do pé esquerdo com verniz Chanel, que percebi que o amor, ainda que epistolar e semi platónico, é incompatível com as exigências do comando de um navio Pirata.
O amor é mau para o negócio. Amolece-nos o coração e enfraquece-nos o espírito.
Escrevi estas mesmas palavras, a verniz vermelho, nas costas da última carta que recebi de Herberto, o escritor, enrolei o papel dentro de uma garrafa de rum, fechei-a com cuidado e atirei-a ao mar.
Espero receber a mensagem que enviei a mim própria a tempo de me salvar de chatices maiores.
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
And that´s that
"The heart wants what it wants. There's no logic to these things. You meet someone and you fall in love and that's that." – Woody Allen
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Assim
Só posso descreve-lo assim:
Entre o cais do sodré e o areeiro o globo terrestre estremeceu e reencaixou-se em torno do eixo. Então, recomeçou a girar. Como se o engenho nunca tivesse estado avariado. Como se os bolos de maçã com canela, os acordes do Moon River na guitarra, a meia lua em forma de sorriso, a marca dos dedos entrelaçados, um peso doce assente nas costas, a foz onde desagua um olhar que vê, houvessem estado sempre aqui. À espera.
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
Voltar
Diz Proust que a ausência, para quem ama, é mais certa, a mais eficaz, a mais viva, indestrutível e fiel das presenças.
Foi assim que percebi, em jeito de momento Eureka, que o regresso desta viagem seria diferente de todas as outras. Só eu parti, mas voltámos juntos.
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
sábado, 2 de agosto de 2014
Diário de Bordo
Depois do fracasso do meu romance epistolar com Herberto, o escritor - que descobri ter mais de oitenta anos e que conseguiu partir-me o coração sem que alguma vez, sequer, lhe tenha posto a vista em cima - comecei a pensar que talvez esteja há demasiado tempo neste navio e não seja má ideia ir ver pessoas que não usem tapa-olhos e falsas pernas de pau.
Pretendendo aproveitar para esbanjar todo o conteúdo dos nossos cofres, uma rápida pesquisa no Google fez-me perceber que é em Nova Iorque que o posso fazer de forma mais rápida e discreta.
À primeira vista pode parecer um acto egoísta, mas faço-o em prol da formação espiritual e da saúde da minha tripulação que, desde que enriquecemos com o negócio da venda da caca da baleia, não faz outra coisa a não ser apanhar sol na piscina. Começo finalmente a perceber a que se referem as pessoas que insistem em jurar que o dinheiro é um cancro. No nosso caso, pode vir a ser de pele.
Deixo o comando do navio entregue a Álvaro de Campos, depois de uma aturada reflexão de vários dias que culminou com um-dó-li-tá. Como está quase sempre em coma alcoólico, antevejo aquele nível de anarquia indispensável ao bom funcionamento de qualquer instituição.
Voltarei quando conseguir esbanjar o último dólar.
quarta-feira, 30 de julho de 2014
Fuso horário
Por fim, entre os dois interpôs-se a noite.
Como se não houvesse maior distância possível do que aquela que impede duas pessoas de fixarem, em simultâneo, o mesmo sol.
E foi como se cada um dos dois vivesse os dias sob uma agonizante luz artificial.
Como se não houvesse maior distância possível do que aquela que impede duas pessoas de fixarem, em simultâneo, o mesmo sol.
E foi como se cada um dos dois vivesse os dias sob uma agonizante luz artificial.
sexta-feira, 25 de julho de 2014
A poesia não está inocente
Um barco de madeira que encontraram na margem do rio e empurraram até à água. O sol a bater-lhe nos olhos e os contornos do rosto dele a esbaterem-se na luz do fim de tarde. Um vestido branco deitado, imóvel, sobre os joelhos dele. O livro de poemas aberto na página marcada. Uma voz em uníssono com o sussurro dos juncos. O trajeto da lua nascente no horizonte. Uma mão que se segura na outra. O verso que ele lhe repete. E repete. E também estas coisas deverão um dia amanhecer esquecidas.
A décima oitava casa
A minha décima oitava casa tem vista para as copas das árvores.
E uma varanda voltada a Sul onde as gaivotas vêm pousar.
Nada pode correr mal.
E uma varanda voltada a Sul onde as gaivotas vêm pousar.
Nada pode correr mal.
terça-feira, 22 de julho de 2014
Perder ou ganhar
“From this point on in our lives, she had whispered to him earlier, we will either find or lose our souls.”
Mas uma certa forma de decoro, terá impedido um de dizer ao outro que a premissa imutável é a existência de uma ou duas almas perdidas.
Da reinserção social
Sobre as férias, vim aqui informar que, lá pelo vigésimo mergulho, desvanece-se a estranheza de não ter rigorosamente nada importante para fazer.
domingo, 20 de julho de 2014
Este é o degrau onde tropeça a melancolia
disfarçadas na seda debruada do vestido
que roubei numa loja de Paris.
Estes são os meus ossos transparentes,
algemados nas asas de um sepulcro profundo
de chão de veludo-brocardo e cristais.
Trocava-os pela efemeridade de ser o fio de vento
que abraça os ombros ressequidos de sol
do Pirata
adormecido sobre as pedras da praia,
entre a onda que nasce e a que morre.
Onde as estrelas do mar dançam
a dança que embala o esquecimento
E o vento se deixa naufragar.
Este é o degrau onde tropeça a melancolia
de uma manhã que demasiado tarde e em vão se eleva
num céu de perfeito algodão doce.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




