Nem só de pilhar, aterrorizar os mares e espalhar a malfeitoria pelo mundo vive esta brava tripulação corsária.
Esta manhã reunimo-nos todos à volta da piscina do navio para referendarmos uma eventual intervenção de resgate. É possível que o nível de insuportabilidade dos uivos histéricos e incontroláveis de uma certa cadela famosa tenham tido um peso superior à solidariedade natural entre membros da mesma organização criminosa. Seja como for, o resgate foi aprovado por quase todos. Álvaro de Campos absteve-se mas não estou certa que no momento da votação não estivesse em coma alcoólico.
Depois do referendo e respetivos festejos de vitória política, ocorreu-nos que não tínhamos nenhum plano para executar a nossa missão.
Expliquei que a minha experiência em matéria de descer ao inferno para tirar de lá pessoas se resumia ao facto de ter assistido ao Orpheu e Eurídice no fim de semana passado e sugeri que ensaiassemos uns passos de dança só para ver se acontecia alguma coisa.
Os ex-presidiários propuseram que se iniciasse um motim. O grupo dos poetas lançou-se na criação de uma ode. Os bloggers sugeriram uma petição on line pela libertação de Palmier. Guatiero, o Italiano disse que tudo se resolveria com a fé no amor, Andrminir, o cozinheiro pirata fez saber que nada faria enquanto não lhe devolvessem a Bimbi que empenhei para comprar livros e lexotans.
Nessa altura, Jack Sparrow - que ainda continua entre nós à espera que os patrões de Hollywood paguem o seu resgate e que mantém a convicção de que é o nosso coacher convidado para nos ensinar a lidar com a crise financeira - decidiu tornar-se útil e justificar o dinheiro que nos custa em sopa de algas e rum.
Sparrow, que sabe destas coisas, explicou-nos que o caminho mais curto para o inferno, quando se está a bordo de um barco pirata e se quer ir resgatar alguém, faz-se, nada mais nada menos, que descendo pela garganta de uma baleia.
Meia hora depois, armada de lenços, tapa-olhos, pernas de pau e sabres, esta brava tripulação deu-se por inteiro a comer à primeira baleia que nos avistou.
Aí chegados, fomos recebido por Jonas, omniresidente de todas as baleias do universo, que nos entregou um mapa dos trilhos terrestres e umas botas especiais para não escorregar no muco.
Devo dizer que, talvez por termos seguido por um atalho, não achei o inferno nada parecido com a descrição de Dante. Para minha deceção, não vi fogo, nem condenados vestidos como deus os pôs no mundo, desejosos de entabular conversações. Para ser sincera, até já trabalhei em gabinetes menos aprazíveis nos tempos em que era uma pessoa de bem e tinha uma profissão honesta.
Chegados à barriga da baleia, vi uma poça infesta que suponho ser Aqueronte (vão ver ao google) e uma barcaça que envergonharia o mais miserável pescador de qualquer porto algarvio dirigida por Caronte.
Como Caronte nos exigiu um euro por cabeça para nos conduzir ao inferno e nós só tínhamos dois euros, fizemos uma pequena reunião e deliberámos que seguiria apenas Jack Sparrow (experiente nestas coisas do inferno e ideólogo da missão) e eu própria (inimputável psicopata capitã deste navio).
Atravessado Aqueronte, exigi ser presente às autoridades para apresentar queixa por burla pelos dois euros da travessia da poça infeta.
Foi então que Hades em pessoa se nos apresentou e sugeriu que nos sentássemos numa pequena sala de reuniões de mobiliário Versace, preparada para nos receber.
Se não fosse o facto de o café que nos serviram ser escaldado e as chávenas não serem de porcelana, seria impossível dizermos-nos no inferno.
Hades, que partilha do meu terror pelo Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, pediu desculpa por aquilo dos dois euros e pela poluição de Aqueronte e, com o espírito de civilidade que eu me orgulho de inspirar nas pessoas, explicou-me tudo sobre a situação de Palmier.
O caso resume-se ao facto de Afrodite e Hera terem ficado irritadíssimas com a falta de preocupação estética de Palmier no instante do suicídio. Por ele, já a teria mandado embora não fosse a astronómica conta em dados móveis de internet que ela arranjou nas pouco mais de vinte e quatro horas que ali esteve.
Defendi-a do pecado estético com o argumento de que nunca quis realmente suicidar-se e tudo não passou de um momento Drama Queen com falhas na execução. Para isso, fui obrigada a explicar aquilo dos Óscares e a insinuar que a culpa seria de
Pipoco Mais Salgado.
Meia hora depois chegámos a um acordo: Palmier será libertada, a conta da internet será enviada ao Pipoco Mais Salgado, Sparrow fica no lugar de Palmier (têm um problema com as estatísticas das entradas, lá no inferno) e eu e a minha tripulação pirata temos que partir imediatamente sem olhar para trás.
Selado o contrato, atravessei Aqueronte, ignorando o ar traído de Sparrow, dei a boa nova à tripulação (que ainda não percebeu que perdeu o seu refém) e retomámos o caminho de regresso à boca da baleia. Por momentos, pelo canto do olho, pareceu-me ver Álvaro de Campos olhar para trás. Mas, mais uma vez, não estou certa que nesse momento não estivesse em coma alcoólico.