quarta-feira, 14 de maio de 2014

Herberto

- Amo ... -

Posso dizer-te que o êxtase do vinho
ou do combóio ou do cavalo rápido
me sabem bem e os amo Amo as coisas
Amo o lupanar e o alaúde e o mar

Amo os fogos-fátuos
e as virgens fátuas
Amo os leques
e os pavões reais

Amo aquilo que arde
o que voa e se abre
o que enlouquece e cresce
o que salta e se move
aquilo que bebe os ventos
e é música e contacto
o que é vasto e é casto
o que é milagre e perigo
e se espreguiça e respira
e viaja por capricho

Amo viajar descalço

Herberto Helder, in Doze Nós Numa Corda, Assírio & Alvim

Comunicações intergaláticas

Voltou o vento sueste e a sua energia louca que se entranha pelas frinchas das portas, pelos buracos das fechaduras, pelos ralos do chão e se espalha à nossa volta e nos sobe à cabeça, enlouquecendo-nos também.
Voltaste tu, que foste o meu louco de estimação, companheiro de asilo mental, bússola avariada a indicar o falso sul e que agora és apenas um morto.
Esta manhã acordei com o teu sorriso estampado no meu próprio rosto e soube, ainda antes de abrir as portadas, soube, ainda antes mesmo de abrir os olhos, que o vento que enlouquece regressou a esta terra.
A última vez foi há um ano. Instalou-se durante três dias e quase nos levou a todos à falência moral. E quando se foi embora deixou-nos embrulhados num rasto de destruição que perdura até hoje. 
É a nódoa do tapete persa que a dona da casa procura esconder estendendo o pé. 
Levei para a rua o teu sorriso de louco e passei o dia a usá-lo com o orgulho de quem exibe as jóias herdadas da avó. 
Disseram-me que me fica bem. Ou talvez tenham apenas perguntado se queria um café. O vento aloja-se nos tímpanos e faz-nos confundir as sílabas. Queremos dizer bom dia mas impõe-se-nos o final de um verso de Herberto e respondem-nos com as notas de uma ópera de Puccini.
No ano passado foi pior. No final do primeiro dia já tinha espalhado querosene pelas tábuas desse quarto que é a dignidade e atirado ao chão a beata acesa do cigarro.
Há cinzas por baixo do tapete que fica por baixo da nódoa. Mas o pé da dona da casa esconde tudo.
Até a dominar a loucura a experiência ensina a quem não tem outro préstimo que não seja aprender lições.  
Sirvo-me do vento dos doidos para te ter junto de mim enquanto durar o pretexto civilizado. 
Estás aqui sentado na minha frente, com um sorriso igual ao meu, a rir do desastre da minha existência. Dizes-me que poderia ter tido tudo se não insistisse tanto em provar que consigo viver sem nada. 
Não resisto a acusar-te de nem sequer teres conseguido sobreviver.
Antecipo-te o repúdio pela nostalgia de folhetim e faço-te desaparecer.
Mas se não te estivesse a ver, hoje, cometeria esse pecado de pobre que é beijar nos olhos as fotografias dos mortos.
Antes que te diga que tenho saudades tuas, prometes-me que me seguras a mão até que também o vento dos loucos vá embora.
E eu continuo a usar o teu sorriso. 



segunda-feira, 12 de maio de 2014

Alma mater

No final da noite, à medida que as pessoas que nos tornámos foram perdendo para as pessoas que um dia fomos, o gin foi sendo trocado pela cerveja que, mesmo em copos de plástico e três graus acima do limite mínimo de temperatura aceitável, nunca nos pareceu tão boa.
As formações humanas rapidamente se reestabeleceram pelo alinhamento original, assim se demonstrando que também na amizade, talvez até sobretudo na amizade, rege a misteriosa força da química.
E no final do final da noite, foi como se nunca tivesse chegado o dia em que, um dia, todos nós tivemos de deixar aquela cidade e iniciar uma vida a sério num outro lugar qualquer.
E tudo o que importa, todo o universo de relações, de emoções e de coisas, estava ali, uma vez mais,  em circuito fechado, representado na mesma minúscula pista de dança.
Porque os últimos vinte e dois anos não foram capazes de nos ensinar nada.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Eros, esse poderoso inimigo



É frequentemente desvalorizado, o esforço que exige manter o coração, assim embrulhado em papel de celofane, num estado de exílio perpétuo.

domingo, 4 de maio de 2014

...

"(...)
Falei dos carrosséis, a nora dos domingos, 
do paredão que rasga a sombra de um paraíso,
do destino que espreita, mudo, como uma faca,
e da noite fragrante como um bom chá mate.
(...)"

A literatura não explica tudo; a psicologia é imprestável para explicar o que quer que seja, e, assim sem respostas, eu podia jurar que, na composição desta manhã, entraram demasiadas horas.

Excerto do poema Versos de Catorze, Jorge Luís Borges, in Obra Poética, Vol. I,  Quetzal

terça-feira, 29 de abril de 2014

"(...) Bem, Iocanaan, eu estou viva; mas tu estás morto e tua cabeça pertence-me (...)"


Já pouco importa se Salomé e João Batista, com as motivações fúteis da primeira e a inocência santa do segundo, ou se Judite e Holofernes, em nome da sobrevivência do seu povo, ela, e no justo castigo do atacante, este último.
Uma vez estendido o prato, a cabeça cortada, o sangue derramado, o destino cumprido, os instintos aplacados (nossos ou dos outros, já pouco importa), fecha-se a porta, vira-se a última página do livro, desliga-se o sonho, muda-se a agulha do pensamento de faixas múltiplas.

E depois o silêncio e a paz do fim. 
Prémio repartido entre carrasco e condenado.

Quadro de Klimt (Judith I)
Título de Oscar Wilde in Salome

segunda-feira, 28 de abril de 2014

E todas essas coisas foram em demasia


As consequências

Nenhuma geração e os nascentes.
Os anos e nenhum foi o último.
Caronte a transportar os vivos num veleiro
embalado por ciclones de sereias emudecidas.
As mãos que estrangulam o coração.
Redes de pesca para sempre vazias.
As viúvas nos seus vestidos de lã preta.
Gelado de limão derretido sob a manga.
Botticelli em relevo para cegos.
A lampa de Edison estilhaçada na carne.
Os fatos de riscas dos burocratas
num sofá de veludo tingido de sangue.
A criança que se vende nas ruas de Xangai.
Duas rosas que o vento derrubou a sul.
Lábios incinerados pelo sol do deserto
na miragem de um lençol egípcio às cinco da tarde.
A dança dos soldados no ritmo de Wagner.
Pianos desnudos a apodrecer sob azáleas.
Uma aranha sentada à espreita na teia tecida.
Sodoma congelada pela lava cuspida.
As gárgulas com areia entre os dentes.
A cinza do pavio de Gepeto na barriga do cetáceo.
Uma rainha diante da cabeça exibida na salva de prata
com que mandou limpar a afronta da alma
O movimento do ponteiro das horas.
O olhar do demente. E o eco da dor.
Cada gota de veneno nas veias,
Cada cilício e ainda cada silêncio.
Formaram-se todas estas coisas
Das nossas mãos brevemente unidas.

A partir do poema "As causas" de Jorge Luís Borges  ou de como deixar um escritor às voltas no túmulo.

domingo, 27 de abril de 2014

E todas essas coisas não chegaram



As Causas

Todas as gerações e os poentes.
Os dias e nenhum foi o primeiro.
A frescura da água na garganta
De Adão. O ordenado Paraíso.
O olho decifrando a maior treva.
O amor dos lobos ao raiar da alba.
A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.
A Torre de Babel e a soberba.
A lua que os Caldeus observaram.
As areias inúmeras do Ganges.
Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.
As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.
Os passos do errante labirinto.
O infinito linho de Penélope.
O tempo circular, o dos estóicos.
A moeda na boca de quem morre.
O peso de uma espada na balança.
Cada vã gota de água na clepsidra.
As águias e os fastos, as legiões.
Na manhã de Farsália Júlio César.
A penumbra das cruzes sobre a terra.
O xadrez e a álgebra dos Persas.
Os vestígios das longas migrações.
A conquista de reinos pela espada.
A bússola incessante. O mar aberto.
O eco do relógio na memória.
O rei que pelo gume é justiçado.
O incalculável pó que foi exércitos.
A voz do rouxinol da Dinamarca.
A escrupulosa linha do calígrafo.
O rosto do suicida visto ao espelho.
O ás do batoteiro. O ávido ouro.
As formas de uma nuvem no deserto.
Cada arabesco do caleidoscópio.
Cada remorso e também cada lágrima.
Foram precisas todas essas coisas
Para que um dia as nossas mãos se unissem.

Jorge Luis Borges, in "História da Noite"

Rio da lua

Eram dez da manhã e podia jurar ter visto a ponte, acabada de acordar, espreguiçar-se sob o sol.
Lisboa, nas minhas costas, ensaiou um sorriso menos triste e despediu-se de mim ao som desta música.




"There's such a lot of world to see
We're after the same rainbows end
Waiting round the band
My huckleberry friend, moon river
And me"

sábado, 26 de abril de 2014

River's people

26 de abril

Na ressaca do 25 de abril, e também em sentido literal, esta brava tripulação Pirata tirou a tarde de hoje para me chatear com essa coisa da liberdade. 
Primeiro, puseram os músicos do Caffè Florian a tocar o "Depois do Adeus" do Paulo de Carvalho. Em seguida escreveram cartazes onde se podia ler a contextualmente incompreensível declaração "Nem mais um soldado para as colónias". Depois, espetaram cravos vermelhos na ponta dos sabres e, por fim, não se desse o caso de eu ainda não ter percebido onde queriam chegar, começaram a gritar pelo navio fora que "liberdade ou muerte", assim mesmo, em péssimo sotaque portunhol. 
Lá pelas seis da tarde, o convés do navio parecia uma recriação do largo do Carmo, mas com cadeiras de design no lugar de chaimites e vestes de Pirata em vez de farda militar. 
Noutros tempos, ter-lhes-ia dado dois gritos e tentado explicar que a coisa mais parecida com colónias que aqui temos são as gôndolas roubadas que atracaram ao navio contra a minha vontade, que isto não é uma nação mas um emprego e são livres de se irem embora quando quiserem, que a maioria das decisões já é tomada por sufrágio universal e que não tendo nós leis nem constituição, esta revolução é, no mínimo e respeitosamente falando, muito parvinha. 
Mas a experiência adquirida - nos tempos em que era uma pessoa de bem e tinha uma profissão quase normal - ensinou-me que o poder instituído não dialoga com revolucionários. 
Decidi, pois, que o melhor seria juntar-me à luta, empunhar um dos cartazes contra a guerra nas colónias, enfiar um cravo no cabelo e gritar mais alto do que todos "liberdade ou muerte". 
Pelas sete da tarde, perante uma oposição ao poder composta pela unanimidade dos governados, declarei a revolução bem sucedida e perguntei-lhes o que queriam fazer agora quanto ao vazio do poder. Cinco minutos depois, sem nenhuma surpresa, concluíram que o melhor era proclamarem-me capitã.
Comecei por fingir recusar o cargo, dizendo que estou farta de resolver problemas burocráticos e que também quero ser governada. Mas depois de vários pedidos e aclamações lá aceitei retomar o meu lugar de capitã.
Claro que, agora que fui democraticamente eleita, exigi receber um salário condigno. 
Para aprenderem a não andar a brincar às revoluções.

Kierkegaard & shoes


Diz Kierkegaard, em "O Banquete",  que não é possível admitir o involuntário num ser racional e livre.  
Sei muito pouco sobre seres racionais e livres já que nunca me foi dado o privilégio de conhecer nenhum e parece-me que não haverá prisão mais segura do que aquela em que habita o ser profundamente racional. 
Sobre o involuntário, sei duas ou três coisas. Sei, por exemplo, que são da ordem do involuntário as emoções que se nos impõem. E sei também que são essas, as que escapam ao crivo da razão, as únicas que costumam valer a pena. 
Kierkegaard diz que o involuntário num ser racional e livre é inadmissível. Mas eu desconfio que Kierkegaard era um emocional. E esses, já se sabe, não precisam do involuntário para nada.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

But the Lord said "go to Devil"


"So I run to the Devil, he was waiting"

Diário de Bordo

Durasse a visita de estudo outros sete dias e talvez a velha Itália não lhe sobrevivesse.
Logo que esta gente se apanhou em Florença, juntou a arte do roubar ao vício do colecionismo e foi atacada pela súbita mania de se fazer acompanhar por inúteis recuerdos arrancados de todas as vielas por onde passou.
E quando digo arrancados, quero mesmo dizer arrancados. A Ponte Vecchia, por exemplo, ainda há uma semana era uma ponte florentina e agora está transformada numa gigantesca fatia de queijo suiço. Não houve batedor de porta em forma de gárgula que sobrevivesse; placa histórica que não tenha mudado de residência para dentro do navio; estátua que se tenha mantido íntegra à nossa passagem. 
À proibição de fotografar a Primavera de Botticelli, responderam com o surripianço da dita, que agora decora a parede da nossa sala de refeições, mesmo por baixo de um pedaço do tecto da Uffizi que um deles também se lembrou de trazer para fazer conjunto. 
A mania, em vez de desaparecer com o tempo, foi-se agravando Itália fora. Nos últimos dias, substituíram as tradicionais mochilas de turista por contentores. Tenho a cabeça da estátua de Guilietta pendurada no mastro; uma pequena plantação de vinhas de Chianti no convés do navio e, presas por uma corda, nada menos que dez gôndolas roubadas numa noite de lua cheia. 
No dia da partida, organizaram uma mini-rebelião na Praça de San Marco e disseram que só voltavam se os deixasse trazer a orquestra do Caffè Florian, duas mesas e quatro cadeiras e metade do serviço de porcelana.
Confesso que só acedi porque achei uma certa graça à ideia de sequestrar os músicos, privando os turistas japoneses da banda sonora das filas da basílica.
Foi uma péssima ideia. Afinal a orquestra tem um repertório muito limitado e passa os dias pelos corredores do navio a tocar o "Por una Cabeza" do Carlos Gardel. 
Não fosse o meu temor pelo Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e já os teria mandado a todos borda fora.
Imbuída deste estado de espírito de profunda irritação decidi, pela primeira vez, legislar sobre o vestuário da tripulação. Aguentei em silêncio as falsas pernas de pau com brilhantes swarovski, os lenços Hermès de motivo nada piratístico, brincos e pulseiras desajustados, camisolas que nem sequer são de riscas. Agora, máscaras venezianas??? Piratas de máscara veneziana??? 

Da desistência

Apesar de nunca me terem conseguido dar uma explicação satisfatória sobre a cor da linha que separa a mania (ou a obsessão socialmente aceitável) da loucura pura a justificar internamento, desconfio que a fronteira se faz, algures, pela possibilidade de desistência. 
O louco varrido difere do maníaco socialmente integrado na medida em que não tem qualquer auto-domínio relativamente ao objeto da sua perturbação.
Isso faz da desistência a arma de defesa do obsessivo que ainda não chegou ao estádio da loucura.
Às vezes, a única coisa sensata a fazer é desistir.
Desistir, enquanto ainda é possível.

Por una Cabeza


sábado, 19 de abril de 2014

E se o amor for apenas um fenómeno de marketing?

Casa da Giulietta, Verona (detalhe)

Estar

De todas as formas que os homens inventaram de fugir de si próprios, parecem-me ser as viagens a única que inclui a possibilidade do reencontro.
Em Verona, não cheguei a cuspir no túmulo de Romeu, mas, por uma noite, tive a varanda de Julieta a sós para mim, e foi tempo suficiente para perceber o poder que a poesia exerce na sublimação falseadora da realidade. Naqueles vinte metros quadrados de chão milhões de amantes fizeram promessas que não cumpriram e outras centenas de milhares fecharam a cadeado um amor que, por certo, já se perdeu na atmosfera. A maioria ter-lhe-á sobrevivido para ir trancar a cadeado um outro futuro amor, talvez naquela ponte de Paris.
O amor é apenas um estado de espírito.
Nas vinhas de Chianti, não senti a vertigem de um suspiro no meu pescoço, mas percebi que a terra tem mais força do que o mar e que a amizade é um sentimento infinitamente mais gratuito e fundado do que o amor.
Também não consegui descobrir se se comem favas na Toscana, mas posso jurar que combinam muito bem com o tal do chianti. 
Vi o por-do-sol debruçada na Ponte Vecchia de Florença e não senti a falta de ninguém.
Vi o nascer do sol deitada na Praça de São Marcos em Veneza e não senti a falta de ninguém.
Desta vez não dancei o "As Time goes By" ao som dos músicos do Caffè Florian. Mas dancei o tango do Piazzola e a nostalgia não deturpou os passos desfeitos pelo riso.
Só quem nunca se desintegrou ignora a paz que existe no acto de estar inteiro, num lado qualquer.
Em Itália estive.
E esta manhã consegui, finalmente, reunir a coragem suficiente para pedir um cartão continente à menina da caixa. 
Porque talvez o mundo real até não seja assim tão insuportável.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

E assim deveriam ser todos os céus


Cantigas de Escárnio e Maldizer II


Cantigas de escárnio e maldizer II

Ela 

Nunca foi amor, foi um equívoco.
A minha vida é um libreto distribuído pouco mais do que à nascença e eu cumpro-o com o profissionalismo de uma diva no palco do São Carlos. Ensinaram-me a responsabilidade para com o público e eu recebo as rosas de encontro aos pés com a mesma expressão com que acolho as vaias dos dias maus. O público não existe realmente porque a vida é esse intervalo, sentada de encontro ao espelho de um camarim apertado, a sós com a minha falta de maquilhagem. O público não me afeta porque renunciei ao interesse em ser amada. Todo o amor é falso. Como o comprova o teu olhar, hoje vazio.
Por vezes dobro o libreto e, por instantes, reservo-me o direito à existência. Á noite subo aos telhados das cidades e penduro as pernas no vazio com os olhos postos nas janelas das vidas dos outros a absorver-lhes a humanidade. É um direito de exercício balizado pela consciência da sua efemeridade. 
Nunca foi amor, foi um equívoco.
Numa dessas noites de libreto dobrado e pés pendurados no abismo foi a tua janela que eu vi do meu telhado. E a minha vasta coleção de almas catalogadas e arrumadas num álbum de capas de prata argentina pareceu-me miserável diante daquilo que vi dentro de ti. Estava escuro e ao fundo ouvia-se jazz e tu riste-te para mim e foi como se tivesse ficado presa dentro de uma madrugada sem fim embalada numa canção interminável. 
E, no entanto, todos sabíamos da brevidade daquela noite eterna roubada a um programa onde a organização não fez a gentileza de incluir o teu nome. Iludiste a clepsidra em artimanhas de uma Sherazzade de mãos gigantes e pele de mar. Sempre que eu movia o corpo na direção do despertar, tu iniciavas uma nova estória de marinheiros, piratas, tesouros e mulheres perdidas. E eu viciei-me nas tuas estórias e foi como se tudo o que existisse fosse apenas a tua voz a teletransportar-me para um mundo imaginário sem dias, nem estações, nem tédio, nem tristeza, nem público, nem coisas. 
E enquanto tu te inventavas como a mais mágica das personagens das tuas lendas, uma clepsidra avariada e um libreto esquecido atiravam-me à cara uma coleção de almas, num álbum de capas de prata argentina, para sempre incompleta.
Nunca foi amor, foi um equívoco.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Cofres


Por fim, eliminei quase tudo.
Guardei o búzio e uns versos manuscritos dentro de uma cartolina pintada.
Não para me lembrar dele.
Para nunca me esquecer da melhor parte de mim.


Diário de Bordo

Já diz o povo - cuja sapiência é claramente posta em causa pelo estado das democracias da velha Europa, mas não vou falar nisso agora para não ficar já indisposta - que não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe.
Cumpriu-se o adágio neste navio, terminando assim a terrível crise financeira com que nos debatíamos desde o início do ano, altura em que esta brava tripulação se entregou ao vício do jogo e nos deixou a todos na mais miserável miséria.
Quando descemos à barriga da baleia para salvar uma das nossas do reino dos mortos, deixámos no seu lugar o nosso refém Jack Sparraw, ficando impossibilitados de o devolver ao patrões de Hollywood e enriquecer com o resgate.
Mas graças ao elegante hábito destes Piratas, que consiste em roubarem tudo o que vêem mesmo que estejam convencidos que não serve para nada, a nossa sorte mudou.
Quando chegámos ao navio, além de algumas caixas de fósforos humedecidas, o velho livro da escola do Pinóquio, os restos daquilo que suspeito ter sido uma camisa de Gepeto, uma faca de amanhar peixe,  meia bolacha oreo e um carregador de telemóvel de linha branca, constatei que estes bravos tinham roubado quilos e quilos de uma coisa cinzenta e muito malcheirosa, saída diretamente do intestino da baleia.
Depositámos a estranha substância na piscina do navio e fomos ao google tentar perceber se aquilo, depois de seco, nos poderia servir como alternativa gastronómica às algas, cujo excesso de consumo nos provocou uma estranha tez esverdeada.
Foi nessa altura que descobrimos que o excremento da baleia é uma coisa que se chama âmbar cinza e que rende fortunas no mercado da cosmética.
Um anúncio no e-bay e dois telefonemas depois, a piscina estava vazia e os nossos cofres cheios.
A moral da história é que, a quem nasceu para vencer, mesmo que numa situação merdosa, até a merda o pode salvar. 
Este navio voltou aos seus tempos esplendorosos de sunset parties com DJ's contratados, lenços da Hermès, tapa-olhos importados, mobiliário de design e jantares gourmet feitos na Bimby que tirei do prego e devolvi ao Andhrimnir, o cozinheiro Pirata e que é a personagem neste blogue que mais vezes muda de nome atenta a minha incapacidade de o fixar.
Tencionamos gastar o dinheiro todo em festas e futilidades extravagantes e esperar calmamente pela pobreza enquanto atacamos um ou outro barquito por pura diversão. 
Imbuídos deste espírito, decidimos rumar à costa da Toscana para fazer uma visita de estudo à Uffizzi e, por uns dias, substituir o rum pelo Chianti. 



domingo, 6 de abril de 2014

Despedidas


- " A despedida é uma dor tão suave que te diria boa noite até ao amanhecer"
Diz Romeu, esse cobarde, sem nada saber de despedidas, dores, noites e amanheceres. 
A despedida, na forma de gesto continuado, contém o equivalente psíquico à dor  de "ir arrancando" um dente.
A coragem dos pragmáticos impõe um abraço de trinta segundos, um rápido afastamento na direção oposta e nenhum último olhar. 
E é assim que deve ser.
Na pressa da saída, é claro, não convém deixar a alma esquecida. 
Ali,  largada no meio do chão.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Não habito Youkali

"YOUKALI, ilha quase no fim do mundo. O seu único habitante é uma fada que tem por missão acolher os viajantes desalojados. Qualquer alma perdida que chegue a Youkali é convidada a dar uma volta pela ilha, que assumirá a forma de dos seus desejos mais profundos e dos prazeres que mais anseie. Youkali foi descrita como o Fim de Toda a Tristeza. a Terra da Troca de Votos e do Amor Correspondido, a Esperança que Reside no Cerne de Todos os Corações Humanos. Certos viajantes referem que esse lugar não existe e que Youkali não passa de um devaneio desesperado. No entanto, os relatos não são conclusivos.
Kurt Weille Roger Fernay, Youkali: Tango Habanera, Nova Iorque, 1935"

In Dicionário de Lugares Imaginários, Alberto Manguel e Gianni Guadalupi, Tinta da China Edições.

Não sei nada sobre a existência de Youkali. Mas sei algumas coisas sobre viajantes que a procuram e num "devaneio desesperado", às vezes, pensam tê-la encontrado. 
E é cansativo desiludi-los. 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A mentira

Num esforço de sustentação da coerência cósmica, enviei a mensagem no dia 31 de março para que pudesse ser respondida no dia 1 de abril com uma mentira legitimada pela tradição do calendário.
Mas não houve resposta. 
E eu fiquei a pensar que até o silêncio é mentiroso.

sábado, 29 de março de 2014

síntese informativa

De novo, os dias atropelados nas estações e eu desorientada numa folha de um calendário que já caiu há anos. Passou a ser assim sempre que o verão ameaça voltar. Também tirei muitas fotografias aos céus de todos os dias desta semana. Nenhum tão assombroso como o de hoje, com nuvens aterradoramente escuras por baixo de um azul celeste com outras nuvens, de um perfeito Disney, por cima. Mais ou menos como um daqueles bolos em camadas em que podemos escolher apenas o sabor de que gostamos mais. Assim deveriam ser os dias. E assim deveriam ser as pessoas. E assim deveriam ser todas as coisas. E não esta impura miscelânea de substâncias, em que até o mal e o bem se misturam em doses variáveis para formar um caldo indistrinçável. E depois, até à pergunta"como estás?" deixas de saber responder de forma honesta. Apenas uma expressão estúpida a recalibrar-se no sentido da verdade e um aceno inexpressivo. Porque detestas mentir aos sábados.


quinta-feira, 20 de março de 2014

postais

Estava eu a estibordo do convés, sentada na chaise long Phillippe Starck recém recuperada às tríades chinesas através de epopeicos meios que relatarei num dia com mais tempo, quando Gualtiero, o Pirata Italiano que promovi de porta-voz dos presidiários a mordomo de bordo, se aproximou com uma bandeja de prata argentina. Juntamente com as minhas crackers matinais, importadas de uma loja gourmet londrina, entregou-me um envelope pardo com aspeto demasiado formal para o meu gosto.
Inicialmente, pensei que fosse uma notificação da empresa de leasing que tão generosamente se ofereceu para pagar este navio, mas depois reparei melhor naquelas letras desenhadas de forma a ocultar irritação profunda e reconheci nelas a chancela do meu progenitor.
Lá de dentro, das costas de um ameaçador prospeto de uma clínica psiquiátrica com fotografias de jovens com ar de terem saído de uma sessão de choques elétricos, saltaram as seguintes palavras:

"Cuca,

Descobri que nos mentiste quando disseste que ias para África fazer um doutoramento em organização política tribal e que te tornaste Pirata.
Passa cá por casa para discutirmos esse assunto.

P.s. Obrigado por este ano me teres poupado aos teus horríveis postais do dia do pai. Tenho uma gaveta cheia e pelo menos sete são repetidos."

Ainda sacudi o envelope para ver se o fraco engodo incluía um bilhete de avião. Mas caiu apenas uma fatura detalhada com os custos da minha educação.
E sem número de contribuinte.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Must read

É tão evidente que temo que já toda a gente o tenha dito. Este livro é o novo Ulysses.

domingo, 16 de março de 2014

sábado, 15 de março de 2014

"when i said what i said i didn´t mean anything"


It´s a Hollywood summer
(...)
when i said what i said i didn´t mean anything 
we belong in a movie 
try to hold it together till our friends are gone
we should swim in a fountain
do not want to disappoint anyone

Conversation 16, Álbum Hight Violet, The National

Em tempos já defendi a verdade maníaca. Mas depois conheci-a e passei a simpatizar com a mentira  civilizada.

Cantigas de Escárnio e Maldizer I


Ele



- Nunca foi amor. Foi um equívoco. 
Grão de sal que tempera a sola do sapato ressequido. Uma brisa que entrou no tédio e me fez desviar o olhar. Nós aqui somos todos iguais e apaixonamo-nos pela pedra negra no meio das peças brancas de um dominó antigo. Ou pela pena guia, ligeiramente maior, da gaivota que passa. Ou por uma onda que corta o Atlântico na vertical vinda da esquerda, numa manhã sem vento.
Foi nessas coisas que pensei na tarde em que te vi pela primeira vez. Fiquei a ver-te ao longe, de expressão alienada no teu vestido de estrangeira, atravessar uma estrada de pedras com as tuas sandálias impossíveis para os nossos caminhos. Olhei para ti e pensei que não durarias dois dias. Como uma princesa europeia que chega a África com os seus baús carregados de civilização inimiga a apoucar os nossos dias. Insultou-me o teu vestido de primeira dama americana. Os teus saltos impossíveis para estas pedras. Os teus colares a fazer recordar a ópera que nunca aqui teremos. Um jeito de Audry Hepburn à procura de uma Tiffanys onde tomar o pequeno almoço no meio de uma aldeia nordestina do Brasil dos anos cinquenta. 
Vi, de longe, os teus gestos programados a condizer com uma expressão ensaiada no olhar deformado pelas lágrimas que gastaste no caminho. Desorientada por baixo do protocolo. Passos incertos na falsa firmeza de quem caminha sempre imaginando uma passadeira vermelha. Li-te o susto a escorrer pelas vértebras e a tensão nos malares de quem encerra o medo dentro de si. Ainda trazias a cidade refletida na íris e imaginei que se te cheirasse seria como entrar no São Carlos numa noite de estreia. Dos teus ouvidos saíam vozes do coro de uma orquestra ao som da qual os teus pés pareciam insistir em dançar. E pensei que não durasses dois dias. Jurei que não durarias dois dias quando finalmente desapareceste da minha vista e foi como se o globo desse um pequeno salto no sentido da sua reposição ao eixo terrestre.   
Nunca foi amor. Foi um equívoco. 
Na tarde em que pela primeira vez me estendeste a mão já tinham passado os teus dois dias. E já sabíamos mais de ti do que queríamos. Sabíamos, por exemplo, que os vestidos de primeira dama americana vinham com um aceno copiado dos das princesas da Disney. E que sorrias sempre para o vazio quando achavas que estavas a ser observada, o que acontecia todo o tempo. E que no mesmo baú dos vestidos e das sandálias dos saltos impossíveis, vieram chapéus de abas largas com fitas de renda e biquinis de seda dourada com que foste descaracterizar as nossas praias. Foste vista a inspecionar um quilómetro de areia à procura de uma mancha menos escura para pousar uma toalha branca e um livro escrito em inglês. Rimo-nos todos de ti ao jantar na inimitável aflição com que, na saída da praia, brigaste contra os pés sujos pela terra escura, com o falso sorriso plácido emprestado ao rosto.
E pensei que poderia quase vir a ter pena de ti. Que fosse fragilidade camuflada aquilo que se lia por baixo das linhas do teu protocolo individual. Que te tinham enviado para aqui para te castigarem por qualquer coisa terrível que tivesses feito lá na cidade. Houve quem aventasse que haveria alguma coragem na tua insistência em existires publicamente desfasada entre nós em vez de te esconderes na circunscrição do território que te atribuíram. Mas eu só li o desassossego. 
Na tarde em que pela primeira vez te estendi a mão estremeci na estranheza de haver carne e ossos por entre os teus dedos de holograma da nossa montanha. A alienação desfez-se no instante em que o teu olhar se fixou no meu com uma intensidade perscrutadora que me remeteu para os cinco anos. 
Nunca foi amor, foi um equívoco.
Tive de cerrar os dentes para evitar despejar aos teus pés as confissões que aquele olhar fixo ameaçava absorver. Roubei inúmeros berlindes aos meus primos, senhora, entre os três e os seis anos. Gostava de os ver rolar pela montanha. Uma noite de primavera, senhora, desviámos todas as vacas de um pasto e escondemo-las num quintal vizinho. Pensámos que gostassem de passear. Foi eu quem partiu todas as lâmpadas da baía no tempo em que a eletricidade chegou, senhora. Mas só o fiz para preservar as estrelas. Roubei inúmeros barcos do porto, senhora, e fiz-me ao mar com eles durante noites inteiras. Mas devolvi-os sempre antes que os pescadores saíssem para a faina. Se neste momento a senhora me mandar esvaziar os bolsos, encontrará uma caixa com canabis. E se não o fizer, daqui a meia hora sentar-me-ei no topo da montanha e fumá-la-ei inteira para me libertar desta sensação opressora do seu olhar sobre os quatro ou cinco segredos que guardo dentro do buraco do coração.
E o teu sorriso plácido a deixar-se deturpar por um trejeito trocista. O malar desprovido de tensão. O canto esquerdo do lábio inferior preso por um canino. A expressão de superioridade da bruxa a embalar o momento. Uma energia menos humana que fez com que as minhas costas parecessem encostadas à parede do fundo e eu inteiro a encolher-me numa posição absurda, sem espaço para estas pernas enormes, onde já não cabem os cinco anos.
Depois libertaste-me naquilo que interpretei como um gesto magnânimo. Olhaste para a minha mão para me lembrares que ainda a tinhas entre os ossos e a carne dos teus dedos. 
E achei as minhas vestes absolutamente deslocadas, ali, dentro da tua sala que era a minha própria rua, ao som do coro da orquestra numa noite de estreia do São Carlos. E temi que durasses todo o tempo que quisesses. E senti-me ridículo por ter achado que quase poderia vir a ter pena de ti.
Nunca foi amor. Foi um equívoco.

sexta-feira, 14 de março de 2014

José James - Desire





She appeared in the distance, like a prayer I had uttered once.
She appeared in my life, like a dream, only have remembered.

She entered my heart, stayed a while.
She entered my heart, stayed a while, made me the smile then gone.

Gone from my life, yeah..
I heard her love was like a burning flame of desire.. desire.

Baby, just set my body free.
Make me free to love.
Make me free to know, how it feels, to be loved.

How it feels to be loved in return.
There's some things you just gotta learn on your own, yeah.

Yeah, you gotta feel love ??!
I awoke from a nightmare, you're the only survivor to have felt love.
Planets spinning madly and I'm the only one to see it.
Fall through time, time do heal all wounds but mine.
Noone but myself to love, noone but myself to love.

But then, I awoke to your touch.
You said..
Baby, everything's going to be alright..
Everything's gonna be alright.
Everything's gonna be alright.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Édens Sem Préstimo

“Ilha Imaginária, situada nem a Norte, nem a Sul, tem um clima moderado ou, para usar a expressão italiana, in mezzo tempo, é famosa pela atmosfera amena e deliciosa. Este paraíso natural não tem uma população que beneficie das suas belezas e riquezas. Tem cerca de cem léguas de perímetro e quarenta léguas de largura, e é inteiramente coberta de mármore e porfírio. A ilha é rodeada por uma balaustrada de mármore à qual ninguém se apoia para ver o mar, e orgulha-se de contar com dois portos seguros, sempre vazios. O primeiro é dominado por um rochedo semelhante a um bastião, situado num terraço que mais não é do que um enorme diamente protegido por canhões de ouro. Os alojamentos do porto foram talhados em pedra e o outro único edificio visível que lá existe é uma pequena construção de diamentes, corais e pérolas. O segundo porto é totalmente construído de aço. A Ilha Imaginária também é famosa pelas suas belas florestas, atravessadas por muitos rios e ribeiros – florestas de laranjeiras, românzeiras e jasmineiros que crescem duas vezes mais depressa do que cresceriam na Europa. Entre os minerais que nunca serão explorados contam-se o jaspe, a cornalina, a safira, a turquesa, o lápis-lazúli e o jade. As praias estão cobertas de conchas nas quais podem ser, mas nunca serão, encontradas pérolas. A fauna da Ilha Imaginária consiste em cavalos-marinhos, baleias, golfinhos, náiades e belas sereiras que fazem ouvir o seu canto nos lagos e rios. Nas florestas, vivem sátiros (tão modestos como os que existem na Ilha do Capitão Sparrow), veados amarelos, pretos e brancos, corças cor-de-rosa e cavalos azuis e vermelhos. Os elefantes, dromedários e unicórnios são comuns. Ao entardecer, os animais reúnem-se nos prados e associam-se ao canto das aves e das náiades. Os reis que governam toda a população animal são galgos, e os seus servos são leões, macacos e raposas. Embora conste que a carne de vaca e de carneiro saiba melhor aqui do que em qualquer outra parte do mundo, nunca ninguém a provou. Se alguma vez visitar a Ilha Imaginária, o viajante ficará por certo surpreendido com a extraordinária abundância de bichos-da-seda, semelhantes à variedade chinesa.”, in Dicionário de Lugares Imaginários, edições Tinta da China, 2013

terça-feira, 11 de março de 2014

Diário de Bordo: O resgate.

Nem só de pilhar, aterrorizar os mares e espalhar a malfeitoria pelo mundo vive esta brava tripulação corsária.
Esta manhã reunimo-nos todos à volta da piscina do navio para referendarmos uma eventual intervenção de resgate. É possível que o nível de insuportabilidade dos uivos histéricos e incontroláveis de uma certa cadela famosa tenham tido um peso superior à solidariedade natural entre membros da mesma organização criminosa. Seja como for, o resgate foi aprovado por quase todos. Álvaro de Campos absteve-se mas não estou certa que no momento da votação não estivesse em coma alcoólico. 
Depois do referendo e respetivos festejos de vitória política, ocorreu-nos que não tínhamos nenhum plano para executar a nossa missão.
Expliquei que a minha experiência em matéria de descer ao inferno para tirar de lá pessoas se resumia ao facto de ter assistido ao Orpheu e Eurídice no fim de semana passado e sugeri que ensaiassemos uns passos de dança só para ver se acontecia alguma coisa. 
Os ex-presidiários propuseram que se iniciasse um motim. O grupo dos poetas lançou-se na criação de uma ode. Os bloggers sugeriram uma petição on line pela libertação de Palmier. Guatiero, o Italiano disse que tudo se resolveria com a fé no amor, Andrminir, o cozinheiro pirata fez saber que nada faria enquanto não lhe devolvessem a Bimbi que empenhei para comprar livros e lexotans.
Nessa altura, Jack Sparrow - que ainda continua entre nós à espera que os patrões de Hollywood paguem o seu resgate e que mantém a convicção de que é o nosso coacher convidado para nos ensinar a lidar com a crise financeira - decidiu tornar-se útil e justificar o dinheiro que nos custa em sopa de algas e rum.
Sparrow, que sabe destas coisas, explicou-nos que o caminho mais curto para o inferno, quando se está a bordo de um barco pirata e se quer ir resgatar alguém, faz-se, nada mais nada menos, que descendo pela garganta de uma baleia.
Meia hora depois, armada de lenços, tapa-olhos, pernas de pau e sabres, esta brava tripulação deu-se por inteiro a comer à primeira baleia que nos avistou.
Aí chegados, fomos recebido por Jonas, omniresidente de todas as baleias do universo, que nos entregou um mapa dos trilhos terrestres e umas botas especiais para não escorregar no muco.
Devo dizer que, talvez por termos seguido por um atalho, não achei o inferno nada parecido com a descrição de Dante. Para minha deceção, não vi fogo, nem condenados vestidos como deus os pôs no mundo, desejosos de entabular conversações. Para ser sincera, até já trabalhei em gabinetes menos aprazíveis nos tempos em que era uma pessoa de bem e tinha uma profissão honesta.
Chegados à barriga da baleia, vi uma poça infesta que suponho ser Aqueronte (vão ver ao google) e uma barcaça que envergonharia o mais miserável pescador de qualquer porto algarvio dirigida por Caronte.
Como Caronte nos exigiu um euro por cabeça para nos conduzir ao inferno e nós só tínhamos dois euros, fizemos uma pequena reunião e deliberámos que seguiria apenas Jack Sparrow (experiente nestas coisas do inferno e ideólogo da missão) e eu própria (inimputável psicopata capitã deste navio).
Atravessado Aqueronte, exigi ser presente às autoridades para apresentar queixa por burla pelos dois euros da travessia da poça infeta. 
Foi então que Hades em pessoa se nos apresentou e sugeriu que nos sentássemos numa pequena sala de reuniões de mobiliário Versace, preparada para nos receber.
Se não fosse o facto de o café que nos serviram ser escaldado e as chávenas não serem de porcelana, seria impossível dizermos-nos no inferno.
Hades, que partilha do meu terror pelo Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, pediu desculpa por aquilo dos dois euros e pela poluição de Aqueronte e, com o espírito de civilidade que eu me orgulho de inspirar nas pessoas, explicou-me tudo sobre a situação de Palmier.
O caso resume-se ao facto de Afrodite e Hera terem ficado irritadíssimas com a falta de preocupação estética de Palmier no instante do suicídio. Por ele, já a teria mandado embora não fosse a astronómica conta em dados móveis de internet que ela arranjou nas pouco mais de vinte e quatro horas que ali esteve. 
Defendi-a do pecado estético com o argumento de que nunca quis realmente suicidar-se e tudo não passou de um momento Drama Queen com falhas na execução. Para isso, fui obrigada a explicar aquilo dos Óscares e a insinuar que a culpa seria de Pipoco Mais Salgado.
Meia hora depois chegámos a um acordo: Palmier será libertada, a conta da internet será enviada ao Pipoco Mais Salgado, Sparrow fica no lugar de Palmier (têm um problema com as estatísticas das entradas, lá no inferno) e eu e a minha tripulação pirata temos que partir imediatamente sem olhar para trás.
Selado o contrato, atravessei Aqueronte, ignorando o ar traído de Sparrow, dei a boa nova à tripulação (que ainda não percebeu que perdeu o seu refém) e retomámos o caminho de regresso à boca da baleia. Por momentos, pelo canto do olho, pareceu-me ver Álvaro de Campos olhar para trás. Mas, mais uma vez, não estou certa que nesse momento não estivesse em coma alcoólico.




segunda-feira, 10 de março de 2014

Orfeu

Eram os pés de Orfeu a dançar no palco mas era tua a expressão doente à procura do rosto de uma Eurídice por entre um amontoado de corpos.
Vi-a uma noite de agosto em que me deixei imobilizar pelos outros para, lá de cima, espiar-te a angústia de não me veres.
Como disse alguém, "Amar como deve amar-se. Com desespero."
Eram os pés de Orfeu a dançar no palco mas eras tu a atravessar o inferno sem nunca olhar para trás.
Orfeu desceu ao inferno para resgatar Eurídice do reino dos mortos.
Tu para me entregares pela tua mão.
No final, ambos choraram equitativas miligramas de lágrimas.
E tanto eu como Eurídice ficámos presas no inferno.

quarta-feira, 5 de março de 2014

But she new in her heart that he could not stay





Oh she was a the fairest in Trinidad
And he was a wandering sailor lad,
But she stole his heart as no other had

Tomorrow, tomorrow we will meet once more
In the old village square,
So wait for me darlin' and I'll be there.

The moon was so young and their hearts were gay,
I'm yours for ever he heard her say,
But she knew in her heart that he could not stay.

Tomorrow, tomorrow we will meet once more,
In the old village square,
So wait for me darlin' and I'll be there.

Now her heart is sad as he sails the sea,
And I heard her sigh, "Oh come back to me",
And the wind in the waves whispered mournfully,

"Tomorrow, tomorrow we will meet once more,
In the old village square,
So wait for me darlin' and I'll be there."

Tomorrow, tomorrow, tomorrow, tomorrow

terça-feira, 4 de março de 2014

Exílios

Por estes dias completam-se quatro anos desde o início da minha itinerância. 
Vivi no meio do mato. Vivi no meio do mar. Vivi numa estância balnear abandonada. Vi carrinhas desconhecedoras das siglas ASAE que vendiam peixe fresco e percebes à porta de casa e me serviam de despertador aos sábados de manhã. Vi mercearias do tamanho da minha sala onde se vendia de tudo, desde aquecedores a cromos para cadernetas, candeeiros, papel higiénico e sapos de louça. Vi carros enfeitados com cornos de carneiro, velhas enlutadas de meias de lã grossa em pleno julho, céus plantetarizados, estrelas cadentes a mergulhar no vapor quente que saía da terra. Vi reformados perderem a reforma num mau dia de sueca, bailaricos de matinée com homens com cheiro a restaurador olex, marchas populares ao som de gira-discos de vinil, procissões intermináveis com crianças gordas vestidas de anjo e santos de madeira carunchosa carregados por políticos eminentes. Vi sapos enormes, baratas de vários tamanhos, com e sem asas, águias, milhafres, cegonhas, doninhas, golfinhos, tubarões de terra e de mar, ouriços espinhosos, esquilos atrevidos. Fui adotada por um galinheiro completo, por um gato preto de olhos verdes que, à noite, vigiava a minha casa e por uma família de grilos que se instalou debaixo do meu sofá.
Vi faróis comandados por homens suspeitos, vi faróis comandados por mulheres de coração grande, vi faróis comandados um computador desumano. 
Vi tempestades que se desembrulharam debaixo da minha cabeça e me fizeram acreditar que talvez o mundo acabasse mesmo nos próximos minutos. Vi arco-íris duplos que me suspenderam a respiração e me fizeram acreditar que talvez no final do arco houvesse mesmo um pote de ouro guardado por um duende.
Vi homens adultos chorarem, tremerem, arrependerem-se, prometerem vinganças terríveis, ficarem indiferentes. Tudo com sotaques diferentes. Vi mães perderem os seus filhos e filhos serem devolvidos às suas mães. Vi pessoas que foram tratadas como animais e mantiveram a dignidade humana. Vi o processamento do perdão dentro do peito das gentes duras. 
Vi todas estas coisas da única forma que se podem ver as coisas sem que saibamos se são reais. Vi-as sozinha.
Conduzi em noites de neblina opaca por entre estradas estreitas e atropelei animais selvagens. Fiz a agenda no decalque dos horários dos aviões e passei demasiadas horas na sala de espera dos aeroportos.  Encontrei sempre a casa mas a casa era sempre diferente. Morei em casas com vista para a praceta da aldeia, em solares com janelas voltadas para pastos estendidos até ao mar e em condomínios privados voltados para lojas de praia fechadas. 
Chorei sempre duas vezes em cada um dos sítios onde vivi. No primeiro e no último dia. E sempre no caminho. 
Escolhi o exílio para salvar a alma mas a alma pegou-se ao exílio.
E agora que sei que está na altura de voltar para casa, não sei se consigo voltar para casa. 

O que nos move?

domingo, 2 de março de 2014

...

Gualtiero, o Italiano:
 - Se não gostas do amor porque lês esses livros?
Cuca,  a Pirata:
- Para saber exatamente onde lhe espetar o sabre, claro.

Os homens que nos amam a todas 2



(...)
Porém há tanto homem infeliz
que necessita de muita atenção,
depois confunde tudo o que se diz e vai
embriagar-se por qualquer razão.

Eu não sei de onde sai
tanta gente a precisar de um coração
que me toma por um anjo,
nem pergunta se eu desejo
a sua afeição.

(...)

Os homens que nos amam a todas

Um dos motivos pelos quais vim para Pirata foi para fugir dos homens que me amam. 
Neste navio ninguém me ama e, parecendo que não, esse é um factor não desprezível no aumento da minha qualidade de vida. 
Como a minha existência tem o condão de se pautar pela falta de originalidade, sou obrigada a presumir que não haja mulher com mais de trinta e cinco anos que se preze que não tenha pelo menos cinco homens na sua vida que se dedicam à tarefa de amarem loucamente. Claro que falo de um amor especial. Falo daquele tipo de amor louco, permanente e insistente que alguns homens conseguem manter durante toda a vida, enquanto vivem a dita, a fazer outras coisas mais interessantes, como por exemplo, ir viver para África, viajar pelo mundo inteiro e estar casado com outras.
Os homens que me amam são pessoas fantásticas que, contrariando o mito de que o sexo masculino não consegue fazer mais do que uma tarefa de cada vez, ocupam-se da atividade de me amar profundamente ao mesmo tempo que fazem safaris no Quénia, enfiam anéis de brilhantes da Tiffanys a outras, limpam o ranho dos filhos e compram tampões para as respetivas mulheres nas raras fases em que não estão grávidas.
Estas criaturas maravilhosas carregam com elas o seu eterno e omnipresente amor por mim enquanto vão vivendo vidas feitas de um sacrifício atroz, sempre em nome de um interesse superior, que tanto pode ser a necessidade de construir uma carreira internacional como a simples obediência ao dever moral de estarem para ali, até que a morte os colha.
Quando o tédio do quotidiano os faz sentir tão miseráveis que até parece que estão já mortos, resta-lhes o consolo interior de se saberem pessoas especiais, consistindo tal especialidade na circunstância de me amarem para sempre. Nessas alturas, imbuídos pela grandeza da paixão que há tantos anos sentem por mim, os olhos brilham-lhes, os lábios entreabrem-se para deixar escapar um profundo suspiro, a consciência desse sentimento garante-lhes a congregação das duas gotas de adrenalina que lhes circulam nas veias, as suas vidas assumem as cores do grandioso sacrifício que fizeram e o espelho lá de casa devolve-lhes a imagem de um Ulisses que um dia há-de retornar a coisa nenhuma.
Os homens que me amam seriam mais suportáveis se aquela nefasta reunião das duas gotas de adrenalina que ainda lhes restam não os levasse, invariavelmente, à urgente necessidade de entrarem em contacto comigo - estatisticamente falando, quando eu estou a dormir, a trabalhar ou a comprar sapatos -  para me comunicarem o facto de, contra todas as expetativas e pese embora as minhas preces noturnas, ainda me amarem loucamente. Depois da comunicação sofredora, uma vez cometida esta loucura arriscadíssima que quase mudou radicalmente o curso das suas vidas, as harmonas lá se recompõem, África parece mais confortável, o ranho dos filhos mais doce, os tampões das mulheres menos deprimentes e torna-se mais fácil retornarem à tarefa de me amar loucamente enquanto vivem as suas vidas.
Estes homens que me privilegiam com o seu amor, é claro, não me têm qualquer préstimo. Não me mudam os pneus do carro, não me fazem canja quando tenho gripe, não me lavam o cabelo, não testemunham a minha vida, nem sequer me aparecem na frente. A sua missão é carregarem ao longo das suas vidas o seu inútil amor por mim e comunicar-mo comovidamente, pelo menos, a cada seis meses. Também me telefonam todos no dia do meu aniversário, normalmente, de seguida, por forma a que, nalguns anos, já me interroguei se estariam todos na fila da mesma cabine telefónica.
Os homens que me amam, antes de eu vir para Pirata e cortar amarras com a minha existência anterior, eram uma praga metafísica na minha vida.
Além de me interromperem o sono, o trabalho e o prazer da aquisição de sapatos, eram a armadilha dos dias maus. Aqueles em que a falta de horas dormidas, o cansaço da labuta ou a inexistência do número 36 naquelas sandálias fantásticas, me rasteiravam um pé e eu caía na asneira de me perguntar se a minha vida poderia ter sido mais feliz se se desse o caso de algum desses homens que me amam não ser tão obscenamente cobarde.
Aqui, sentada no deck deste navio, com o "Estudos Sobre o Amor", do Gasset, caído sobre o colo e a lua a brilhar na minha frente, não tenho a menor dúvida que a resposta é uma rotunda negativa.



sábado, 1 de março de 2014

Da finitude


Quando não se vive o suficiente para cumprir a promessa.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Adagio for Strings

Entre um semáforo que ficou vermelho e um pensamento que tardou em auto-dirigir-se para o interior da caixa de vácuo, vi os meus pés nus ao lado dos teus calçados de havaianas de cores diferentes a baloiçarem no abismo da montanha. 
Lá em baixo o mar a ensinar-nos histórias de separação, a nós dos outros, primeiro, um do outro, por fim. 
Devíamos ter dez anos que é a idade em que o coração deixa gosto na boca e o sol a arder na face não queima mais que um olhar enviesado e o amor se consuma numa união de dedos. 
Tivemos sempre dez anos.
Como o poderiam testemunhar o búzio no bolso das tuas calças e os meus desenhos espalhados pelo chão.
Entre nós e o mar, um tapete feito de azáleas hoje transformado no sudário com que nos cobrimos.
Ainda os teus pés a baloiçarem no abismo e depois o verde do semáforo e a caixa dos pensamentos proibidos a fechar-se num clique que atravessou o mar, ecoou na montanha e assustou a borboleta que se atravessou no teu olhar.
Tivemos sempre dez anos.





quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A perspetiva da musa

É pornográfica, a exibição pública daquilo que foi escrito ou criado para nós.
É uma insidiosa forma de violação da intimidade, mesmo quando até a intimidade é, ela própria, produto da imaginação do autor.
Reduzir a musa ao papel de objeto do voyeurismo geral é mais ou menos equivalente a exibir a mulher, nua, num jantar de amigos.

Truques caseiros para uma saudável morte em vida

Trabalhar 12 horas por dia para emudecer o cérebro.
Correr todos os finais de tarde para esgotar o corpo.
Adormecer ao som de Melville.
Manter o coração em dieta permanente.
Adotar três ou quatro problemas irresolúveis e nunca desistir de os resolver.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Das coisas verdadeiramente importantes e que têm o poder de me aborrecer

Não se consegue encontrar uma receita decente de sopa de algas na internet?

Neste navio, retoma-se a snobeira do fim de tarde domingo como momento de elevação espiritual


Diário de Bordo

É sabido que a fama é um poderoso agente desincentivador de qualidade. O caso mais grave que me ocorre é Paul Auster, cujo génio parece desastradamente ligado à necessidade de pagar a renda da semana seguinte e a quem desejo, do fundo do coração, um rápido retorno à vida de miséria que o obrigará a escrever livros de jeito e me devolverá o prazer de os ler. 
Jack Sparrow não foge à regra.
Chegou poucos dias depois de ter recebido a minha mensagem desesperada e a desilusão geral espalhou-se antes do pequeno almoço do dia seguinte.  
Esperávamos um Pirata tenebroso que, com a sua inata malvadez, nos guiasse por entre as vagas desta enjoativa crise financeira até à calmia de um porto cheio de ouro e riquezas. Ou, pelo menos, uma despensa cheia de latas de comida gourmet e mobiliário de design.
A dimensão da minha fé no homem era tal que, antes de lhe enviar a carta, escondi os parcos tesouros que nos restam. Três quilos de algas; o Ulysses; a coleira da pequena Cutxi; dois iPads; três revistas Ler do final do verão passado;  quatro pares de Laboutim recolhidos entre as Bloggers; um cinzeiro de cristal murano; um globo terrestre comprado na Area com o eixo já partido e cinco facas de mato que, em tempos, confisquei aos ex-presidiários à chegada.
As cautelas revelaram-se despropositadas. Jack Sparrow, em tempos Pirata, agora não passa de um betinho de Hollywood, armado em coacher da pirataria, que acha que todos os nossos problemas se resolverão com intermináveis sessões de motivação piratística.
Depois da segunda sessão de terapia coletiva e sem uma única sugestão de assalto à vista, a minha tripulação trancou-o no porão e apresentou-me um plano genial.
Vamos manter Jack Sparrow sequestrado entre nós e pedir um chorudo resgate aos patrões de Hollywood.
O plano - que tem a indolente vantagem de já estar quase cumprido  - é tão perfeito que só tenho pena de não ter sido eu a lembrar-me dele.
Já seguiram as cartas a pedir o resgate, devidamente acompanhadas de pedaços do chapéu de Jack, para provar que o temos entre nós.
Entretanto, para nem sequer termos a chatice de ter de lidar com um prisioneiro, deixamos que Jack Sparrow deambule pelo navio, enchendo-nos a paciência com as suas sessões de coaching, convencido que é um convidado especial e que esta dieta de peixe e algas é uma coisa neo-zen muito fashion na nossa Europa.
Obliquamente, estava certa. Jack Sparrow tirar-nos-á da miséria.



sábado, 22 de fevereiro de 2014

Amendoeira 2

Substituir as camélias pelas amendoeiras.

Amar o ladrão

O livreiro, habituado a vender-me livros técnicos, entrega-me o Estudos Sobre o Amor, de Ortega y Gasset, com um sorriso cúmplice. 
- Está a fazer uma formação sobre o amor?

Respondo-lhe que não, que procuro apenas evitar a deformação pelo amor.

"Um amor pleno, nascido de raíz, não pode verosimilmente morrer. Está para sempre inscrito na alma sensível. As circunstâncias - por exemplo, a distância - poderão impedir a sua necessária nutrição, e então esse amor perderá a sua força, converter-se-á num fiozinho sentimental, pequeno veio de emoção que continuará a pulsar no subsolo da consciência. Mas não morrerá: a sua qualidade sentimental permanecerá intacta. No seu íntimo, a pessoa que amou continua a sentir-se absolutamente ligada à pessoa amada. O acaso poderá levá-la de um lado para o outro no espaço físico e social. Pouco importa: continuará perto daquele que ama. É este o sintoma supremo do verdadeiro amor: estar ao lado da pessoa amada, num contacto e proximidade mais profundo que os espaciais. Estar vitalmente com o outro. A palavra mais exacta, mas demasiado técnica, seria: estar ontologicamente com o ser amado, fiel ao seu destino, seja ele qual for. A mulher que ama o ladrão, esteja ele onde estiver, tem o sentido na prisão."

Ortega Y Gasset, Estudos Sobre o Amor, Relógio D'agua.

Amendoeira

Penso que deve ser fevereiro porque, de repente, as amendoeiras floriram.
Alheias às angústias e ao desespero dos homens, as amendoeiras fazem o que têm a fazer.
Porque nada mais lhes importa.
Fotografei-as para assim as trazer para casa e aprender com elas.
Essa básica lição de florir porque é fevereiro e nada mais importa.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

falta de espaço


O puxador da porta de um quarto de hotel que se abriu de rompante para deixar sair uma mulher que correu descalça pelo corredor ao encontro do abraço urgente do seu amante.
A pá do moinho onde se sentou a criança que balouçou as pernas enquanto se fez elevar numa paisagem de girassóis.
O copo vazio que um homem pousou lentamente, num gesto sincronizado com a decisão de partir de si próprio para nunca mais regressar.
A aliança arrancada num segundo de raiva e disparada da janela do quarto andar que atingiu a pena do pássaro azul que fugiu de uma gaiola próxima.
A caneta com que alguém escreveu os versos que outrem escondeu no fundo da última gaveta da mesinha de cabeceira.

E este cofre minúsculo onde não cabem os únicos objetos que interessaria guardar. 

uma razão

Farta da chuva do Sul, partirei em direção à chuva de Lisboa.
O problema não é da chuva mas da falta de coerência geográfica.
Tudo ficará bem debaixo de uma chuva que caia num sítio onde é suposta cair.
Como quando se é infeliz sem razão e ainda se é mais infeliz precisamente por isso.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Silenciosa, remota e reprovadora

"Há pecados ou (chamemos-lhes como o mundo lhes chama) memórias más que o homem esconde nos lugares mais escuros do coração mas que ali habitam e aguardam. Ele pode suportar que a sua memória se obscureça, deixar que eles existam como se nunca tivessem existido e quase persuadir-se a si próprio de que eles não existiram de outra maneira. Contudo uma palavra fortuita irá convocá-los subitamente e eles levantar-se-ão para o confrontar nas mais variadas circunstâncias, numa visão ou um sonho, ou enquanto o pandeiro e a harpa lhe sossegam os sentidos ou no meio da fresca tranquilidade argêntea do entardecer ou no festim, à meia-noite, quando ele está já cheio de vinho. Não para o cobrir de insultos lhe virá tal visão como a alguém que jaz à mercê da sua ira, não por vingança para ceifá-lo de entre os vivos mas amortalhada na vestidura piedosa do passado, silenciosa, remota, reprovadora."

James Joyce, Ulisses

Para noites de tempestade



Eduard Grieg, Morning




?

E se a chuva nunca mais parar?

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Diário de Bordo #9

O vício do jogo que esta tripulação apanhou no Mónaco foi debelado ao fim de três dias de clausura e umas quantas visualizações forçadas de um daqueles programas da tv cabo com homens de ar estranho e óculos de sol a jogar poker numa sala pouco arejada. 
Já o estado de pobreza em que nos deixaram, suspeito, demorará muito mais do que isso a sair-nos do corpo.
Neste navio outrora faustoso, vive-se agora no limiar da miséria.
Estamos fundeados ao lado da costa francesa sem dinheiro para combustível nem para taxas de marinas.    Gastei os últimos euros que tinha a comprar-lhes novas roupas para substituir aquelas que apostaram nas bancas improvisadas do jogo do bicho com que me envergonharam em Cannes. 
O papagaio, se não fosse emprestado e não tivesse já morrido, não passando de um espectro depenado, tê-lo-íamos comido ontem ao jantar. 
Ás queixas da tripulação perante a miséria do cardápio, sugeri-lhes que se inspirassem no tal do pescador que sobreviveu dezoito meses a água da chuva, gaivota, peixe e sangue de tartaruga. Achei que tivessem percebido a mensagem mas fui dar com eles reunidos à mesa a discutir se gaivota se deve fazer acompanhar por vinho branco ou tinto. Só os ex-presidiários e os poetas parecem pouco incomodados com a situação. 
Como medida desesperada decidi vender no OLX a Bimbi que nos tempos áureos comprei a Andhriminir, o cozinheiro Pirata, para lhe apaziguar a birra. Esperava protestos, mas até o sadismo do cozinheiro anda esmorecido e limitou-se a informar-me que passaremos a comer as algas cruas.
Com os duzentos e cinquenta euros que conto receber pela Bimbi espero conseguir comprar umas galinhas, uns coelhos, dois barris de rum e uma caixa de Lexotan. Estamos assim reduzidos aos bens essenciais.
Aqui fundeamos não temos condições para desenvolver a nossa atividade de terrores dos mares e saqueadores universais da humanidade. 
A situação é desesperada e o brainstorming diário só serve para gastar o pouco ferro que ainda temos no organismo.
Enviei uma carta ao Jack Sparrow.

Equívocos 2


Equívocos

Estavam equivocados. Foi o que disseram a terceiros.
Não fizeram por mal, não quiseram violar as leis, conspurcar o paraíso, destruir o mundo.
Apenas um equívoco. Como o de Eva com a maçã. 
Só que não exatamente com a maçã. Com o cianeto nas sementes da maçã. 
Um como o outro e consigo próprios.
Com a sua capacidade de resistência ao veneno.
Foi tudo um equívoco. Tranquilizaram-se os terceiros.

O triunfo da Estatística

Pedro Mexia, Aqui


THIS IS 40

O que é ter quarenta anos? Cada um sabe de si, de acordo com a sua biografia e feitio. Eu definiria os «quarenta anos» (tenho 41) como a idade em que a nossa vida vista de fora é igual à nossa vida vista de dentro. Não se trata de qualquer «transparência», que abomino. O que existe é uma tremenda previsibilidade, e uma distância que nasce da experiência. Nos últimos meses tentei esquecer-me disso, a espaços, mas não consegui: aos quarenta anos todos os medos correspondem a perigos, todas as suspeitas são fundadas, todas as ilusões são de facto fictícias, todas as impossibilidades inexequíveis, todas as fatalidades inevitáveis. Nenhuma surpresa, nenhum imponderável, nenhuma excepção à regra, o triunfo absoluto da lógica, do óbvio e até da estatística.