sexta-feira, 14 de março de 2014
José James - Desire
She appeared in the distance, like a prayer I had uttered once.
She appeared in my life, like a dream, only have remembered.
She entered my heart, stayed a while.
She entered my heart, stayed a while, made me the smile then gone.
Gone from my life, yeah..
I heard her love was like a burning flame of desire.. desire.
Baby, just set my body free.
Make me free to love.
Make me free to know, how it feels, to be loved.
How it feels to be loved in return.
There's some things you just gotta learn on your own, yeah.
Yeah, you gotta feel love ??!
I awoke from a nightmare, you're the only survivor to have felt love.
Planets spinning madly and I'm the only one to see it.
Fall through time, time do heal all wounds but mine.
Noone but myself to love, noone but myself to love.
But then, I awoke to your touch.
You said..
Baby, everything's going to be alright..
Everything's gonna be alright.
Everything's gonna be alright.
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aniversários
quinta-feira, 13 de março de 2014
Édens Sem Préstimo
“Ilha Imaginária, situada nem a Norte, nem a Sul, tem um clima moderado ou, para usar a expressão italiana, in mezzo tempo, é famosa pela atmosfera amena e deliciosa. Este paraíso natural não tem uma população que beneficie das suas belezas e riquezas. Tem cerca de cem léguas de perímetro e quarenta léguas de largura, e é inteiramente coberta de mármore e porfírio. A ilha é rodeada por uma balaustrada de mármore à qual ninguém se apoia para ver o mar, e orgulha-se de contar com dois portos seguros, sempre vazios. O primeiro é dominado por um rochedo semelhante a um bastião, situado num terraço que mais não é do que um enorme diamente protegido por canhões de ouro. Os alojamentos do porto foram talhados em pedra e o outro único edificio visível que lá existe é uma pequena construção de diamentes, corais e pérolas. O segundo porto é totalmente construído de aço. A Ilha Imaginária também é famosa pelas suas belas florestas, atravessadas por muitos rios e ribeiros – florestas de laranjeiras, românzeiras e jasmineiros que crescem duas vezes mais depressa do que cresceriam na Europa. Entre os minerais que nunca serão explorados contam-se o jaspe, a cornalina, a safira, a turquesa, o lápis-lazúli e o jade. As praias estão cobertas de conchas nas quais podem ser, mas nunca serão, encontradas pérolas. A fauna da Ilha Imaginária consiste em cavalos-marinhos, baleias, golfinhos, náiades e belas sereiras que fazem ouvir o seu canto nos lagos e rios. Nas florestas, vivem sátiros (tão modestos como os que existem na Ilha do Capitão Sparrow), veados amarelos, pretos e brancos, corças cor-de-rosa e cavalos azuis e vermelhos. Os elefantes, dromedários e unicórnios são comuns. Ao entardecer, os animais reúnem-se nos prados e associam-se ao canto das aves e das náiades. Os reis que governam toda a população animal são galgos, e os seus servos são leões, macacos e raposas. Embora conste que a carne de vaca e de carneiro saiba melhor aqui do que em qualquer outra parte do mundo, nunca ninguém a provou. Se alguma vez visitar a Ilha Imaginária, o viajante ficará por certo surpreendido com a extraordinária abundância de bichos-da-seda, semelhantes à variedade chinesa.”, in Dicionário de Lugares Imaginários, edições Tinta da China, 2013
terça-feira, 11 de março de 2014
Diário de Bordo: O resgate.
Nem só de pilhar, aterrorizar os mares e espalhar a malfeitoria pelo mundo vive esta brava tripulação corsária.
Esta manhã reunimo-nos todos à volta da piscina do navio para referendarmos uma eventual intervenção de resgate. É possível que o nível de insuportabilidade dos uivos histéricos e incontroláveis de uma certa cadela famosa tenham tido um peso superior à solidariedade natural entre membros da mesma organização criminosa. Seja como for, o resgate foi aprovado por quase todos. Álvaro de Campos absteve-se mas não estou certa que no momento da votação não estivesse em coma alcoólico.
Depois do referendo e respetivos festejos de vitória política, ocorreu-nos que não tínhamos nenhum plano para executar a nossa missão.
Expliquei que a minha experiência em matéria de descer ao inferno para tirar de lá pessoas se resumia ao facto de ter assistido ao Orpheu e Eurídice no fim de semana passado e sugeri que ensaiassemos uns passos de dança só para ver se acontecia alguma coisa.
Os ex-presidiários propuseram que se iniciasse um motim. O grupo dos poetas lançou-se na criação de uma ode. Os bloggers sugeriram uma petição on line pela libertação de Palmier. Guatiero, o Italiano disse que tudo se resolveria com a fé no amor, Andrminir, o cozinheiro pirata fez saber que nada faria enquanto não lhe devolvessem a Bimbi que empenhei para comprar livros e lexotans.
Nessa altura, Jack Sparrow - que ainda continua entre nós à espera que os patrões de Hollywood paguem o seu resgate e que mantém a convicção de que é o nosso coacher convidado para nos ensinar a lidar com a crise financeira - decidiu tornar-se útil e justificar o dinheiro que nos custa em sopa de algas e rum.
Sparrow, que sabe destas coisas, explicou-nos que o caminho mais curto para o inferno, quando se está a bordo de um barco pirata e se quer ir resgatar alguém, faz-se, nada mais nada menos, que descendo pela garganta de uma baleia.
Meia hora depois, armada de lenços, tapa-olhos, pernas de pau e sabres, esta brava tripulação deu-se por inteiro a comer à primeira baleia que nos avistou.
Aí chegados, fomos recebido por Jonas, omniresidente de todas as baleias do universo, que nos entregou um mapa dos trilhos terrestres e umas botas especiais para não escorregar no muco.
Devo dizer que, talvez por termos seguido por um atalho, não achei o inferno nada parecido com a descrição de Dante. Para minha deceção, não vi fogo, nem condenados vestidos como deus os pôs no mundo, desejosos de entabular conversações. Para ser sincera, até já trabalhei em gabinetes menos aprazíveis nos tempos em que era uma pessoa de bem e tinha uma profissão honesta.
Chegados à barriga da baleia, vi uma poça infesta que suponho ser Aqueronte (vão ver ao google) e uma barcaça que envergonharia o mais miserável pescador de qualquer porto algarvio dirigida por Caronte.
Como Caronte nos exigiu um euro por cabeça para nos conduzir ao inferno e nós só tínhamos dois euros, fizemos uma pequena reunião e deliberámos que seguiria apenas Jack Sparrow (experiente nestas coisas do inferno e ideólogo da missão) e eu própria (inimputável psicopata capitã deste navio).
Atravessado Aqueronte, exigi ser presente às autoridades para apresentar queixa por burla pelos dois euros da travessia da poça infeta.
Foi então que Hades em pessoa se nos apresentou e sugeriu que nos sentássemos numa pequena sala de reuniões de mobiliário Versace, preparada para nos receber.
Se não fosse o facto de o café que nos serviram ser escaldado e as chávenas não serem de porcelana, seria impossível dizermos-nos no inferno.
Hades, que partilha do meu terror pelo Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, pediu desculpa por aquilo dos dois euros e pela poluição de Aqueronte e, com o espírito de civilidade que eu me orgulho de inspirar nas pessoas, explicou-me tudo sobre a situação de Palmier.
O caso resume-se ao facto de Afrodite e Hera terem ficado irritadíssimas com a falta de preocupação estética de Palmier no instante do suicídio. Por ele, já a teria mandado embora não fosse a astronómica conta em dados móveis de internet que ela arranjou nas pouco mais de vinte e quatro horas que ali esteve.
Defendi-a do pecado estético com o argumento de que nunca quis realmente suicidar-se e tudo não passou de um momento Drama Queen com falhas na execução. Para isso, fui obrigada a explicar aquilo dos Óscares e a insinuar que a culpa seria de Pipoco Mais Salgado.
Meia hora depois chegámos a um acordo: Palmier será libertada, a conta da internet será enviada ao Pipoco Mais Salgado, Sparrow fica no lugar de Palmier (têm um problema com as estatísticas das entradas, lá no inferno) e eu e a minha tripulação pirata temos que partir imediatamente sem olhar para trás.
Selado o contrato, atravessei Aqueronte, ignorando o ar traído de Sparrow, dei a boa nova à tripulação (que ainda não percebeu que perdeu o seu refém) e retomámos o caminho de regresso à boca da baleia. Por momentos, pelo canto do olho, pareceu-me ver Álvaro de Campos olhar para trás. Mas, mais uma vez, não estou certa que nesse momento não estivesse em coma alcoólico.
segunda-feira, 10 de março de 2014
Orfeu
Eram os pés de Orfeu a dançar no palco mas era tua a expressão doente à procura do rosto de uma Eurídice por entre um amontoado de corpos.
Vi-a uma noite de agosto em que me deixei imobilizar pelos outros para, lá de cima, espiar-te a angústia de não me veres.
Como disse alguém, "Amar como deve amar-se. Com desespero."
Eram os pés de Orfeu a dançar no palco mas eras tu a atravessar o inferno sem nunca olhar para trás.
Orfeu desceu ao inferno para resgatar Eurídice do reino dos mortos.
Tu para me entregares pela tua mão.
No final, ambos choraram equitativas miligramas de lágrimas.
E tanto eu como Eurídice ficámos presas no inferno.
quarta-feira, 5 de março de 2014
But she new in her heart that he could not stay
Oh she was a the fairest in Trinidad
And he was a wandering sailor lad,
But she stole his heart as no other had
Tomorrow, tomorrow we will meet once more
In the old village square,
So wait for me darlin' and I'll be there.
The moon was so young and their hearts were gay,
I'm yours for ever he heard her say,
But she knew in her heart that he could not stay.
Tomorrow, tomorrow we will meet once more,
In the old village square,
So wait for me darlin' and I'll be there.
Now her heart is sad as he sails the sea,
And I heard her sigh, "Oh come back to me",
And the wind in the waves whispered mournfully,
"Tomorrow, tomorrow we will meet once more,
In the old village square,
So wait for me darlin' and I'll be there."
Tomorrow, tomorrow, tomorrow, tomorrow
terça-feira, 4 de março de 2014
Exílios
Por estes dias completam-se quatro anos desde o início da minha itinerância.
Vivi no meio do mato. Vivi no meio do mar. Vivi numa estância balnear abandonada. Vi carrinhas desconhecedoras das siglas ASAE que vendiam peixe fresco e percebes à porta de casa e me serviam de despertador aos sábados de manhã. Vi mercearias do tamanho da minha sala onde se vendia de tudo, desde aquecedores a cromos para cadernetas, candeeiros, papel higiénico e sapos de louça. Vi carros enfeitados com cornos de carneiro, velhas enlutadas de meias de lã grossa em pleno julho, céus plantetarizados, estrelas cadentes a mergulhar no vapor quente que saía da terra. Vi reformados perderem a reforma num mau dia de sueca, bailaricos de matinée com homens com cheiro a restaurador olex, marchas populares ao som de gira-discos de vinil, procissões intermináveis com crianças gordas vestidas de anjo e santos de madeira carunchosa carregados por políticos eminentes. Vi sapos enormes, baratas de vários tamanhos, com e sem asas, águias, milhafres, cegonhas, doninhas, golfinhos, tubarões de terra e de mar, ouriços espinhosos, esquilos atrevidos. Fui adotada por um galinheiro completo, por um gato preto de olhos verdes que, à noite, vigiava a minha casa e por uma família de grilos que se instalou debaixo do meu sofá.
Vi faróis comandados por homens suspeitos, vi faróis comandados por mulheres de coração grande, vi faróis comandados um computador desumano.
Vi tempestades que se desembrulharam debaixo da minha cabeça e me fizeram acreditar que talvez o mundo acabasse mesmo nos próximos minutos. Vi arco-íris duplos que me suspenderam a respiração e me fizeram acreditar que talvez no final do arco houvesse mesmo um pote de ouro guardado por um duende.
Vi homens adultos chorarem, tremerem, arrependerem-se, prometerem vinganças terríveis, ficarem indiferentes. Tudo com sotaques diferentes. Vi mães perderem os seus filhos e filhos serem devolvidos às suas mães. Vi pessoas que foram tratadas como animais e mantiveram a dignidade humana. Vi o processamento do perdão dentro do peito das gentes duras.
Vi todas estas coisas da única forma que se podem ver as coisas sem que saibamos se são reais. Vi-as sozinha.
Conduzi em noites de neblina opaca por entre estradas estreitas e atropelei animais selvagens. Fiz a agenda no decalque dos horários dos aviões e passei demasiadas horas na sala de espera dos aeroportos. Encontrei sempre a casa mas a casa era sempre diferente. Morei em casas com vista para a praceta da aldeia, em solares com janelas voltadas para pastos estendidos até ao mar e em condomínios privados voltados para lojas de praia fechadas.
Chorei sempre duas vezes em cada um dos sítios onde vivi. No primeiro e no último dia. E sempre no caminho.
Escolhi o exílio para salvar a alma mas a alma pegou-se ao exílio.
E agora que sei que está na altura de voltar para casa, não sei se consigo voltar para casa.
domingo, 2 de março de 2014
...
Gualtiero, o Italiano:
- Se não gostas do amor porque lês esses livros?
Cuca, a Pirata:
- Para saber exatamente onde lhe espetar o sabre, claro.
- Se não gostas do amor porque lês esses livros?
Cuca, a Pirata:
- Para saber exatamente onde lhe espetar o sabre, claro.
Os homens que nos amam a todas 2
(...)
Porém há tanto homem infeliz
que necessita de muita atenção,
depois confunde tudo o que se diz e vai
embriagar-se por qualquer razão.
Eu não sei de onde sai
tanta gente a precisar de um coração
que me toma por um anjo,
nem pergunta se eu desejo
a sua afeição.
(...)
Os homens que nos amam a todas
Um dos motivos pelos quais vim para Pirata foi para fugir dos homens que me amam.
Neste navio ninguém me ama e, parecendo que não, esse é um factor não desprezível no aumento da minha qualidade de vida.
Como a minha existência tem o condão de se pautar pela falta de originalidade, sou obrigada a presumir que não haja mulher com mais de trinta e cinco anos que se preze que não tenha pelo menos cinco homens na sua vida que se dedicam à tarefa de amarem loucamente. Claro que falo de um amor especial. Falo daquele tipo de amor louco, permanente e insistente que alguns homens conseguem manter durante toda a vida, enquanto vivem a dita, a fazer outras coisas mais interessantes, como por exemplo, ir viver para África, viajar pelo mundo inteiro e estar casado com outras.
Os homens que me amam são pessoas fantásticas que, contrariando o mito de que o sexo masculino não consegue fazer mais do que uma tarefa de cada vez, ocupam-se da atividade de me amar profundamente ao mesmo tempo que fazem safaris no Quénia, enfiam anéis de brilhantes da Tiffanys a outras, limpam o ranho dos filhos e compram tampões para as respetivas mulheres nas raras fases em que não estão grávidas.
Estas criaturas maravilhosas carregam com elas o seu eterno e omnipresente amor por mim enquanto vão vivendo vidas feitas de um sacrifício atroz, sempre em nome de um interesse superior, que tanto pode ser a necessidade de construir uma carreira internacional como a simples obediência ao dever moral de estarem para ali, até que a morte os colha.
Quando o tédio do quotidiano os faz sentir tão miseráveis que até parece que estão já mortos, resta-lhes o consolo interior de se saberem pessoas especiais, consistindo tal especialidade na circunstância de me amarem para sempre. Nessas alturas, imbuídos pela grandeza da paixão que há tantos anos sentem por mim, os olhos brilham-lhes, os lábios entreabrem-se para deixar escapar um profundo suspiro, a consciência desse sentimento garante-lhes a congregação das duas gotas de adrenalina que lhes circulam nas veias, as suas vidas assumem as cores do grandioso sacrifício que fizeram e o espelho lá de casa devolve-lhes a imagem de um Ulisses que um dia há-de retornar a coisa nenhuma.
Os homens que me amam seriam mais suportáveis se aquela nefasta reunião das duas gotas de adrenalina que ainda lhes restam não os levasse, invariavelmente, à urgente necessidade de entrarem em contacto comigo - estatisticamente falando, quando eu estou a dormir, a trabalhar ou a comprar sapatos - para me comunicarem o facto de, contra todas as expetativas e pese embora as minhas preces noturnas, ainda me amarem loucamente. Depois da comunicação sofredora, uma vez cometida esta loucura arriscadíssima que quase mudou radicalmente o curso das suas vidas, as harmonas lá se recompõem, África parece mais confortável, o ranho dos filhos mais doce, os tampões das mulheres menos deprimentes e torna-se mais fácil retornarem à tarefa de me amar loucamente enquanto vivem as suas vidas.
Estes homens que me privilegiam com o seu amor, é claro, não me têm qualquer préstimo. Não me mudam os pneus do carro, não me fazem canja quando tenho gripe, não me lavam o cabelo, não testemunham a minha vida, nem sequer me aparecem na frente. A sua missão é carregarem ao longo das suas vidas o seu inútil amor por mim e comunicar-mo comovidamente, pelo menos, a cada seis meses. Também me telefonam todos no dia do meu aniversário, normalmente, de seguida, por forma a que, nalguns anos, já me interroguei se estariam todos na fila da mesma cabine telefónica.
Os homens que me amam, antes de eu vir para Pirata e cortar amarras com a minha existência anterior, eram uma praga metafísica na minha vida.
Além de me interromperem o sono, o trabalho e o prazer da aquisição de sapatos, eram a armadilha dos dias maus. Aqueles em que a falta de horas dormidas, o cansaço da labuta ou a inexistência do número 36 naquelas sandálias fantásticas, me rasteiravam um pé e eu caía na asneira de me perguntar se a minha vida poderia ter sido mais feliz se se desse o caso de algum desses homens que me amam não ser tão obscenamente cobarde.
Além de me interromperem o sono, o trabalho e o prazer da aquisição de sapatos, eram a armadilha dos dias maus. Aqueles em que a falta de horas dormidas, o cansaço da labuta ou a inexistência do número 36 naquelas sandálias fantásticas, me rasteiravam um pé e eu caía na asneira de me perguntar se a minha vida poderia ter sido mais feliz se se desse o caso de algum desses homens que me amam não ser tão obscenamente cobarde.
Aqui, sentada no deck deste navio, com o "Estudos Sobre o Amor", do Gasset, caído sobre o colo e a lua a brilhar na minha frente, não tenho a menor dúvida que a resposta é uma rotunda negativa.
sábado, 1 de março de 2014
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
Adagio for Strings
Entre um semáforo que ficou vermelho e um pensamento que tardou em auto-dirigir-se para o interior da caixa de vácuo, vi os meus pés nus ao lado dos teus calçados de havaianas de cores diferentes a baloiçarem no abismo da montanha.
Lá em baixo o mar a ensinar-nos histórias de separação, a nós dos outros, primeiro, um do outro, por fim.
Devíamos ter dez anos que é a idade em que o coração deixa gosto na boca e o sol a arder na face não queima mais que um olhar enviesado e o amor se consuma numa união de dedos.
Tivemos sempre dez anos.
Como o poderiam testemunhar o búzio no bolso das tuas calças e os meus desenhos espalhados pelo chão.
Entre nós e o mar, um tapete feito de azáleas hoje transformado no sudário com que nos cobrimos.
Ainda os teus pés a baloiçarem no abismo e depois o verde do semáforo e a caixa dos pensamentos proibidos a fechar-se num clique que atravessou o mar, ecoou na montanha e assustou a borboleta que se atravessou no teu olhar.
Tivemos sempre dez anos.
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
A perspetiva da musa
É pornográfica, a exibição pública daquilo que foi escrito ou criado para nós.
É uma insidiosa forma de violação da intimidade, mesmo quando até a intimidade é, ela própria, produto da imaginação do autor.
Reduzir a musa ao papel de objeto do voyeurismo geral é mais ou menos equivalente a exibir a mulher, nua, num jantar de amigos.
Truques caseiros para uma saudável morte em vida
Trabalhar 12 horas por dia para emudecer o cérebro.
Correr todos os finais de tarde para esgotar o corpo.
Adormecer ao som de Melville.
Manter o coração em dieta permanente.
Adotar três ou quatro problemas irresolúveis e nunca desistir de os resolver.
Correr todos os finais de tarde para esgotar o corpo.
Adormecer ao som de Melville.
Manter o coração em dieta permanente.
Adotar três ou quatro problemas irresolúveis e nunca desistir de os resolver.
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Das coisas verdadeiramente importantes e que têm o poder de me aborrecer
Não se consegue encontrar uma receita decente de sopa de algas na internet?
Diário de Bordo
É sabido que a fama é um poderoso agente desincentivador de qualidade. O caso mais grave que me ocorre é Paul Auster, cujo génio parece desastradamente ligado à necessidade de pagar a renda da semana seguinte e a quem desejo, do fundo do coração, um rápido retorno à vida de miséria que o obrigará a escrever livros de jeito e me devolverá o prazer de os ler.
Jack Sparrow não foge à regra.
Chegou poucos dias depois de ter recebido a minha mensagem desesperada e a desilusão geral espalhou-se antes do pequeno almoço do dia seguinte.
Esperávamos um Pirata tenebroso que, com a sua inata malvadez, nos guiasse por entre as vagas desta enjoativa crise financeira até à calmia de um porto cheio de ouro e riquezas. Ou, pelo menos, uma despensa cheia de latas de comida gourmet e mobiliário de design.
A dimensão da minha fé no homem era tal que, antes de lhe enviar a carta, escondi os parcos tesouros que nos restam. Três quilos de algas; o Ulysses; a coleira da pequena Cutxi; dois iPads; três revistas Ler do final do verão passado; quatro pares de Laboutim recolhidos entre as Bloggers; um cinzeiro de cristal murano; um globo terrestre comprado na Area com o eixo já partido e cinco facas de mato que, em tempos, confisquei aos ex-presidiários à chegada.
As cautelas revelaram-se despropositadas. Jack Sparrow, em tempos Pirata, agora não passa de um betinho de Hollywood, armado em coacher da pirataria, que acha que todos os nossos problemas se resolverão com intermináveis sessões de motivação piratística.
Depois da segunda sessão de terapia coletiva e sem uma única sugestão de assalto à vista, a minha tripulação trancou-o no porão e apresentou-me um plano genial.
Vamos manter Jack Sparrow sequestrado entre nós e pedir um chorudo resgate aos patrões de Hollywood.
O plano - que tem a indolente vantagem de já estar quase cumprido - é tão perfeito que só tenho pena de não ter sido eu a lembrar-me dele.
Já seguiram as cartas a pedir o resgate, devidamente acompanhadas de pedaços do chapéu de Jack, para provar que o temos entre nós.
Entretanto, para nem sequer termos a chatice de ter de lidar com um prisioneiro, deixamos que Jack Sparrow deambule pelo navio, enchendo-nos a paciência com as suas sessões de coaching, convencido que é um convidado especial e que esta dieta de peixe e algas é uma coisa neo-zen muito fashion na nossa Europa.
Obliquamente, estava certa. Jack Sparrow tirar-nos-á da miséria.
A dimensão da minha fé no homem era tal que, antes de lhe enviar a carta, escondi os parcos tesouros que nos restam. Três quilos de algas; o Ulysses; a coleira da pequena Cutxi; dois iPads; três revistas Ler do final do verão passado; quatro pares de Laboutim recolhidos entre as Bloggers; um cinzeiro de cristal murano; um globo terrestre comprado na Area com o eixo já partido e cinco facas de mato que, em tempos, confisquei aos ex-presidiários à chegada.
As cautelas revelaram-se despropositadas. Jack Sparrow, em tempos Pirata, agora não passa de um betinho de Hollywood, armado em coacher da pirataria, que acha que todos os nossos problemas se resolverão com intermináveis sessões de motivação piratística.
Depois da segunda sessão de terapia coletiva e sem uma única sugestão de assalto à vista, a minha tripulação trancou-o no porão e apresentou-me um plano genial.
Vamos manter Jack Sparrow sequestrado entre nós e pedir um chorudo resgate aos patrões de Hollywood.
O plano - que tem a indolente vantagem de já estar quase cumprido - é tão perfeito que só tenho pena de não ter sido eu a lembrar-me dele.
Já seguiram as cartas a pedir o resgate, devidamente acompanhadas de pedaços do chapéu de Jack, para provar que o temos entre nós.
Entretanto, para nem sequer termos a chatice de ter de lidar com um prisioneiro, deixamos que Jack Sparrow deambule pelo navio, enchendo-nos a paciência com as suas sessões de coaching, convencido que é um convidado especial e que esta dieta de peixe e algas é uma coisa neo-zen muito fashion na nossa Europa.
Obliquamente, estava certa. Jack Sparrow tirar-nos-á da miséria.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
Amar o ladrão
O livreiro, habituado a vender-me livros técnicos, entrega-me o Estudos Sobre o Amor, de Ortega y Gasset, com um sorriso cúmplice.
- Está a fazer uma formação sobre o amor?
Respondo-lhe que não, que procuro apenas evitar a deformação pelo amor.
"Um amor pleno, nascido de raíz, não pode verosimilmente morrer. Está para sempre inscrito na alma sensível. As circunstâncias - por exemplo, a distância - poderão impedir a sua necessária nutrição, e então esse amor perderá a sua força, converter-se-á num fiozinho sentimental, pequeno veio de emoção que continuará a pulsar no subsolo da consciência. Mas não morrerá: a sua qualidade sentimental permanecerá intacta. No seu íntimo, a pessoa que amou continua a sentir-se absolutamente ligada à pessoa amada. O acaso poderá levá-la de um lado para o outro no espaço físico e social. Pouco importa: continuará perto daquele que ama. É este o sintoma supremo do verdadeiro amor: estar ao lado da pessoa amada, num contacto e proximidade mais profundo que os espaciais. Estar vitalmente com o outro. A palavra mais exacta, mas demasiado técnica, seria: estar ontologicamente com o ser amado, fiel ao seu destino, seja ele qual for. A mulher que ama o ladrão, esteja ele onde estiver, tem o sentido na prisão."
Ortega Y Gasset, Estudos Sobre o Amor, Relógio D'agua.
Amendoeira
Penso que deve ser fevereiro porque, de repente, as amendoeiras floriram.
Alheias às angústias e ao desespero dos homens, as amendoeiras fazem o que têm a fazer.
Porque nada mais lhes importa.
Fotografei-as para assim as trazer para casa e aprender com elas.
Essa básica lição de florir porque é fevereiro e nada mais importa.
Alheias às angústias e ao desespero dos homens, as amendoeiras fazem o que têm a fazer.
Porque nada mais lhes importa.
Fotografei-as para assim as trazer para casa e aprender com elas.
Essa básica lição de florir porque é fevereiro e nada mais importa.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
falta de espaço
O puxador da porta de um quarto de hotel que se abriu de rompante para deixar sair uma mulher que correu descalça pelo corredor ao encontro do abraço urgente do seu amante.
A pá do moinho onde se sentou a criança que balouçou as pernas enquanto se fez elevar numa paisagem de girassóis.
O copo vazio que um homem pousou lentamente, num gesto sincronizado com a decisão de partir de si próprio para nunca mais regressar.
A aliança arrancada num segundo de raiva e disparada da janela do quarto andar que atingiu a pena do pássaro azul que fugiu de uma gaiola próxima.
A caneta com que alguém escreveu os versos que outrem escondeu no fundo da última gaveta da mesinha de cabeceira.
E este cofre minúsculo onde não cabem os únicos objetos que interessaria guardar.
E este cofre minúsculo onde não cabem os únicos objetos que interessaria guardar.
uma razão
Farta da chuva do Sul, partirei em direção à chuva de Lisboa.
O problema não é da chuva mas da falta de coerência geográfica.
Tudo ficará bem debaixo de uma chuva que caia num sítio onde é suposta cair.
Como quando se é infeliz sem razão e ainda se é mais infeliz precisamente por isso.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
domingo, 9 de fevereiro de 2014
Silenciosa, remota e reprovadora
"Há pecados ou (chamemos-lhes como o mundo lhes chama) memórias más que o homem esconde nos lugares mais escuros do coração mas que ali habitam e aguardam. Ele pode suportar que a sua memória se obscureça, deixar que eles existam como se nunca tivessem existido e quase persuadir-se a si próprio de que eles não existiram de outra maneira. Contudo uma palavra fortuita irá convocá-los subitamente e eles levantar-se-ão para o confrontar nas mais variadas circunstâncias, numa visão ou um sonho, ou enquanto o pandeiro e a harpa lhe sossegam os sentidos ou no meio da fresca tranquilidade argêntea do entardecer ou no festim, à meia-noite, quando ele está já cheio de vinho. Não para o cobrir de insultos lhe virá tal visão como a alguém que jaz à mercê da sua ira, não por vingança para ceifá-lo de entre os vivos mas amortalhada na vestidura piedosa do passado, silenciosa, remota, reprovadora."
James Joyce, Ulisses
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O cão é meu.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
Diário de Bordo #9
O vício do jogo que esta tripulação apanhou no Mónaco foi debelado ao fim de três dias de clausura e umas quantas visualizações forçadas de um daqueles programas da tv cabo com homens de ar estranho e óculos de sol a jogar poker numa sala pouco arejada.
Já o estado de pobreza em que nos deixaram, suspeito, demorará muito mais do que isso a sair-nos do corpo.
Neste navio outrora faustoso, vive-se agora no limiar da miséria.
Estamos fundeados ao lado da costa francesa sem dinheiro para combustível nem para taxas de marinas. Gastei os últimos euros que tinha a comprar-lhes novas roupas para substituir aquelas que apostaram nas bancas improvisadas do jogo do bicho com que me envergonharam em Cannes.
O papagaio, se não fosse emprestado e não tivesse já morrido, não passando de um espectro depenado, tê-lo-íamos comido ontem ao jantar.
Ás queixas da tripulação perante a miséria do cardápio, sugeri-lhes que se inspirassem no tal do pescador que sobreviveu dezoito meses a água da chuva, gaivota, peixe e sangue de tartaruga. Achei que tivessem percebido a mensagem mas fui dar com eles reunidos à mesa a discutir se gaivota se deve fazer acompanhar por vinho branco ou tinto. Só os ex-presidiários e os poetas parecem pouco incomodados com a situação.
Como medida desesperada decidi vender no OLX a Bimbi que nos tempos áureos comprei a Andhriminir, o cozinheiro Pirata, para lhe apaziguar a birra. Esperava protestos, mas até o sadismo do cozinheiro anda esmorecido e limitou-se a informar-me que passaremos a comer as algas cruas.
Com os duzentos e cinquenta euros que conto receber pela Bimbi espero conseguir comprar umas galinhas, uns coelhos, dois barris de rum e uma caixa de Lexotan. Estamos assim reduzidos aos bens essenciais.
Aqui fundeamos não temos condições para desenvolver a nossa atividade de terrores dos mares e saqueadores universais da humanidade.
A situação é desesperada e o brainstorming diário só serve para gastar o pouco ferro que ainda temos no organismo.
Enviei uma carta ao Jack Sparrow.
Equívocos
Estavam equivocados. Foi o que disseram a terceiros.
Não fizeram por mal, não quiseram violar as leis, conspurcar o paraíso, destruir o mundo.
Apenas um equívoco. Como o de Eva com a maçã.
Só que não exatamente com a maçã. Com o cianeto nas sementes da maçã.
Um como o outro e consigo próprios.
Com a sua capacidade de resistência ao veneno.
Foi tudo um equívoco. Tranquilizaram-se os terceiros.
O triunfo da Estatística
Pedro Mexia, Aqui
O que é ter quarenta anos? Cada um sabe de si, de acordo com a sua biografia e feitio. Eu definiria os «quarenta anos» (tenho 41) como a idade em que a nossa vida vista de fora é igual à nossa vida vista de dentro. Não se trata de qualquer «transparência», que abomino. O que existe é uma tremenda previsibilidade, e uma distância que nasce da experiência. Nos últimos meses tentei esquecer-me disso, a espaços, mas não consegui: aos quarenta anos todos os medos correspondem a perigos, todas as suspeitas são fundadas, todas as ilusões são de facto fictícias, todas as impossibilidades inexequíveis, todas as fatalidades inevitáveis. Nenhuma surpresa, nenhum imponderável, nenhuma excepção à regra, o triunfo absoluto da lógica, do óbvio e até da estatística.
THIS IS 40
PEDRO MEXIA AT 03:51
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
dragged from view
Forty eight thousand seats bleats
And roars for my memories of you
Now that I am clean
The matador is no more and is dragged from view
But something good, oh something good, oh something good
Oh something good tonight will make me forget about you for now
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
domingo, 26 de janeiro de 2014
Em nome do povo
Interrompo a minha habitual existência no mundo do etéreo, onde a única coisa que me pode incomodar é um desastrado deslize melódico na ligação entre dois versos, para dizer o seguinte:
Em Portugal a culpa até pode morrer solteira mas vive a sua vida artificialmente inseminada de trigémeos, e parece-me que é precisamente pelo excesso de fecundidade que acaba por morrer, solteira, durante o parto.
A inquisição não foi obra do diabo mas dos homens e encontrou o seu terreno fértil numa certa forma de mentalidade que lhe sobreviveu.
Há em cada Português um juiz frustrado que não cursou direito nem passou pelas cadeiras do Centro de Estudos Judiciários e que, apesar de nunca ter sido nomeado, não se cansa de fazer julgamentos.
Para esse juiz, que julga sem processo, sem provas e sem regras, o veredicto natural é a condenação.
Esse juiz, que habita a oitava costela do português, não aprende nada com os seus próprios erros. Se aprendesse, retiraria algumas ilações de um célebre julgamento em que, ao mesmo tempo em que condenou os pais ingleses de uma criança desaparecida, conseguiu condenar as instituições que não a fizeram reaparecer. Mas não aprende, porque quando o acto de julgar encontra os seus fundamentos no prazer do sentenciar e não na missão da justiça, os erros não interessam para nada.
Vem isto a propósito de seis adultos que morreram afogados e de um sétimo que anda a ser a queimado vivo na fogueira da inquisição e que, até prova em contrário, o único crime que cometeu foi o saudável exercício do seu direito de se recusar a exibir a sua intimidade em frente das câmaras da televisão.
Para esse juiz, a equação é fácil. Onde há uma tragédia tem de haver um culpado. Ou não fosse o mundo, tendencialmente, um éden divino que apenas pela ação humana pode ser perturbado. Percebo o conforto da ideia. Afinal, enquanto a culpa for dos homens há esperança. O acaso e a natureza são forças indisciplináveis que gozam com as nossas leis e não temem a possibilidade de acabar os seus dias num estabelecimento prisional. Mandam as regras da cobardia que apenas se escolham inimigos ao alcance da nossa própria capacidade de aniquilação.
Também percebo as famílias das vítimas. À justiça do luto importa, antes de mais, absolver de toda a espécie de culpa própria aqueles que se foram.
O que não percebo é esse juiz condenador, que pelo mero prazer do sentenciar faz suas as vítimas dos outros e cria as próprias, sem nunca se questionar sobre os efeitos da sua atividade criminosa.
sábado, 25 de janeiro de 2014
Cantigas de Escárnio e Maldizer
Todos Dizem que Deus Nunca Pecou
Todos dizen que Deus nunca pecou,
Todos dizen que Deus nunca pecou,
mais mortalmente o vej'eu pecar:
ca lhe vej'eu muitos desemparar
seus vassalos, que mui caro comprou;
ca os leixa morrer con grand'amor,
desemparados de ben de senhor;
e ja com'estes min desemparou.
E maior pecado mortal non sei
ca o que eu vejo fazer a Deus,
ca desampara os vassalos seus
en mui gran coita d'amor qual eu hei;
e o senhor que acorrer non quer
a seus vassalos, quando lh'é mester,
peca mortal, pois é tan alto Rei.
Todo senhor, demais Rei natural,
dev'os vassalos de mort'a partir
e acorre-lhes, cada que os vir
estar en coita; mais Deus non é tal,
ca os leixa con grand'amor morrer,
e, pero pode, non lhes quer valer:
e assí faz gran pecado mortal
Pedro Gotérrez
Aqui
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crentes revoltados
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Não ser
Sou
Sou o que sabe não ser menos vão
Que o vão observador que frente ao mudo
Vidro do espelho segue o mais agudo
Reflexo ou o corpo do irmão.
Sou, tácitos amigos, o que sabe
Que a única vingança ou o perdão
É o esquecimento. Um deus quis dar então
Ao ódio humano essa curiosa chave.
Sou o que, apesar de tão ilustres modos
De errar, não decifrou o labirinto
Singular e plural, árduo e distinto,
Do tempo, que é de um só e é de todos.
Sou o que é ninguém, o que não foi a espada
Na guerra. Um esquecimento, um eco, um nada.
Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"
Ruínas
Só ficou a espuma do mar a bater nas rochas enquadradas pela grande varanda do edifício abandonado. Eramos nós os restos humanos sob o sol da uma da tarde. Os meus pés embrulhados nas silvas e os teus em frente aos meus. Colados. O olhar que se elevou dos graffitis das paredes esburacadas a tempo de surpreender uma expressão desvairada. A tua voz a sobrepor-se à das ondas com uma canção mais desesperada do que pura que desfaleceu num murmúrio, desfez-se nos meus ouvidos, morreu na minha boca. Os braços de gigante que me arrancaram da terra e me embalaram num mundo de fadas azuis de asas feitas do arco-íris. Duas almas e uma rosa entre os dentes a dançar um tango de facas depostas com o tempo já derrotado pela força do teu desespero. Foi o dia em que o mundo encolheu tanto que tudo o que sobrou foram as ruínas de uma varanda sobre o mar, silvas a nascerem-nos dos pés, uma veia do pescoço a exibir as batidas do coração, duas mãos fundidas em algo mais do que pele, carne, ossos, claves de sol do teu amor a caírem sobre uma pauta vazia e a transformarem-se na voz dos anjos. Muito ao fundo.
E nunca fui tão feliz como na tarde em que, pela primeira vez, me despedi para sempre de ti.
We weren't made to be this way
And in the water i could see
A piece of what you broke in me
I took a walk in my usual way
(...)
We weren't made to be this way
We weren't made to be afraid
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
reflexão tolinha sobre o acordo ortográfico
Apesar de não se poder negar ao espectador uma certa capacidade de servir como instrumento perfurante, seria um exagero chamar-lhe espetador.
Não estar
Os saltos altos disfarçam tudo. Finjo os sorrisos ao ritmo do ranger da porta. Na mala um cigarro apagado lembra-me que não existo. As olheiras foram cuidadosamente betuminadas. Para melhor conforto do espectador. E às vezes pergunto-me como seria se pudesse não sorrir ao ranger da porta. Ficar aqui sentada com o cigarro aceso a falar com a mala. Os pés descalços a apoiarem-se um ao outro e os olhos libertos do véu da civilidade.
Mas os saltos altos disfarçam tudo.
Até o rio de pensamentos que salta as margens espartilhadas deste banco de areia poluído onde jazemos o dia inteiro.
E inunda o ranger da porta.
E afoga o espectador.
E inunda o ranger da porta.
E afoga o espectador.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
Grandes filósofos
- Agent K: Do you know what's the most destructive force in the universe?
- Agent J: Sugar?
- Agent K: Regret.
Exploradores
Once I hoped
To seek the new and unknown
This planet's overrun
There's nothing left for you or for me
Don't give in, we can
Walk through the fields
And feeling nature's glow
But all the land is owned
There's none left for you or for me
Who will win?
(...)
Se não as pessoas, também as vidas podem ser terra possuída. Demarcadas a arame farpado. Sinalizadas em lotes, ruas e números de porta.
Chegámos tarde.
Quando já não havia terra livre para ser explorada.
Podemos ter gritado em uníssono que,
Free me
Free me
Free me from this world
I don't belong here
It was a mistake imprisoning my soul
Can you free me
Free me from this world
Mas ninguém nos ouviu.
E perdemos todos. Perdemos para a vida.
Diário de Bordo # 9
A tragédia humana abateu-se sobre esta embarcação corsária.
Fui tão criteriosa e certeira na escolha de uma tripulação de alma genuinamente Pirata que nem os vícios lhes escaparam. Sobretudo esses.
O último plano era passarmos o final do ano na marina do Mónaco, sequestrarmos todos os novo-ricos que pudessemos e contribuir para os aliviar do seu detestável estatuto tornando-os menos ricos. Era um projeto tão bom e com uma consciência social tão desenvolvida que chegámos a pensar em candidatar-nos a um daqueles fundos europeus de solidariedade social, coisa que só não fizemos porque nos exigiram contabilidade organizada, certificação de qualidade e uma série de outras burocracias pouco compatíveis com a prática criminosa.
Sucede que esta brava gente encontrou nas roletas do Mónaco o mais perfeito catalisador da sua natureza viciosa. Meia hora depois do desembarque, aproveitando-se da minha momentânea distração causada pelo esforço intelectual de conseguir perceber alguma coisa daquilo que o Joyce se pôs a escrever no Ulysses, deixaram-se viciar no vil jogo.
Lá pela página 105 comecei a estranhar o silêncio e ocorreu-me que há seis luas que não punha a vista em cima de nenhum deles. Mas considerando que se interrompesse ali a leitura teria que começar tudo do início, decidi imbuir-me de um otimismo infantil e acreditar que tinham apenas ido em excursão a Cannes inteirar-se do programa do próximo festival de cinema.
Estava eu selvaticamente a dobrar o canto superior direito da página 183, o que deve ter acontecido mais três ou quatro luas depois da sexta, quando me entraram pelo navio dois chineses empunhando uma ordem judicial de penhora da chaise long Philippe Starck, de cinco barris de rum e do papagaio emprestado.
Os desgraçados perderam no jogo todo o dinheiro que ganhámos com a venda do crude e depois de ficarem sem crédito no casino começaram a apostar pernas de paus, ganchos, sabres, tapa-olhos, lenços e respetivos animais em bancas de jogo improvisadas no meio da rua.
Lá tive que pousar o livro maldito e ir em busca de uma tripulação que, outrora opulenta, nutrida e vigorosa, encontrei transformada num grupo de maltrapilhos, semi-nus, de olhar lunático e desorientado.
Consegui atraí-los para o navio com a promessa de uma jogatana de poker, trancá-los no porão e abandonar este antro de pecado que nos arruinou a todos.
Agora estou sentada na chaise long que recuperei aos chineses depois de entregar em garantia nada menos que a pequena cutxi e não tenciono levantar-me daqui enquanto não chegar à página 502.
A miséria material é o módico preço da elevação espiritual.
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Uma teima
Esta saudade não significa nada e não tem qualquer valor.
Não é amor. Nunca foi amor.
É uma teima.
Não vale nada. Não nos vale de nada. Não valemos nada.
Apenas uma teima.
A matéria do espírito
A itinerância aliada à falta de espaço obrigaram-me a ficar sem a maioria dos meus livros durante cerca de quatro anos. Os livros são apenas objetos que já cumpriram a sua função e, se pensarmos bem, não há razões lógicas para que a sua ausência nos traga qualquer desconforto.
Os meus livros chegaram este fim de semana.
Senti-me aliviada, como uma pessoa a quem devolveram a sua própria história.
domingo, 19 de janeiro de 2014
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
domingo, 12 de janeiro de 2014
Quando a Alma não é pequena, as pessoas são grandes
E o amor não lhes esvai na ponta dos dedos perante as oposições anunciadas pelos astros. E o espírito não se lhes rende à prisão do corpo. E os sucessos chegam-lhes azedos se forem titulares da promissória das convicções. E a voz far-se-á ouvir mesmo no silêncio gélido da hipocrisia de todos. E quererão o amor e quererão a liberdade e quererão as convicções e quererão o grito.
Quando a Alma não é pequena, a consequência não é uma moeda de latão que se troque no mercado das venalidades.
Comunicações Intergaláticas
É irritante que continues a assaltar-me o espírito com a eterna novidade da tua não existência em momentos inusitados. Como hoje, enquanto comia morangos com iogurte grego, em pé, em frente ao balcão da cozinha. Agora há morangos todo o ano. Disseram-me os teus olhos de morto dissimulado, como se haver morangos todo o ano fosse um sintoma de uma sociedade onde nenhum homem de bem se deve resignar a viver. A minha primeira reação foi fazer voar na tua direção uma colher suja de iogurte. O que talvez tivesse feito se não se desse o caso de só ter empregada doméstica dois dias por semana e não fazer ideia do sítio onde ela esconde de mim os esfregões. Aposto que no topo de um armário onde bem sabe que eu não chego. As empregadas vingam-se de nós como podem. Esta abusa do facto de ser muito mais alta do que eu. Com a colher ainda espetada na taça voltei-me para a memória do teu sorriso trocista. Demorou alguns segundos a materializar-se. O tempo é inimigo dos mortos. Rouba-lhes tudo, até a limpidez da memória nos olhos dos outros.
Correu mais um ano sobre o dia em que morreste. Este ano fomos poupados às exéquias públicas do costume e o teu rosto congelado não saltou das páginas dos jornais nem do ecrã do computador, como que a dizer Cucu atrás da esquina da porta. Já te tinha dito, o tempo é inimigo dos mortos. Tu, que tinhas a mania que sabias tudo, deverias ter contado com esse pormenor. Aposto que tem menos graça morrer quando se morre mesmo. Para além do mais, parece-me agora improvável que dêem o teu nome a uma rua. Nenhuma conta da EDP com o teu nome no endereço. Quanto mais uma carta de amor.
Claro que ainda não te perdoei. Claro que até já desisti de algum dia te vir a perdoar. A frase mais honesta que li escrita sobre ti, dizia que deverias ter pensado em nós.
Morreres-nos não é coisa que te possamos aturar.
Terás que viver com este rancor.
sábado, 11 de janeiro de 2014
Escreveu Joyce, implacável, a propósito do meu último post
"Shakespeare é o feliz couto de caça de todas as mentes que perderam o equilíbrio."
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Ulisses
Romeu, esse cobarde.
Unidas por uma causa comum, eu e Estrelita fizemos as pazes e, por uns dias, deixaremos o navio.
Vamos a Verona ao templo de Julieta.
Cuspir no chão de todas as histórias de amor impossível.
Falsa lágrima pintada de negro, a pender dos olhos.
Também nós encenámos a nossa própria peça para ser desempenhada por Mimos. Foi a forma que encontrámos de não trair a promessa do silêncio recíproco que fizemos a terceiros desprovidos de coração. Em quartos, no teu caso, em salas, no meu.
Colhi ilusoriamente todas as flores imaginárias que me estendeste e respondi-te na mudez da expressão sofrida de cada vénia dedicada.
Mãos tapadas por luvas brancas. Sentimentos escondidos em bocas trancadas por lápis de maquilhagem.
Durante incontáveis meses. Sexta-feira após sexta-feira.
Mas os Mimos continuam a ser apenas uma versão dos palhaços. Porventura mais grotescos, ainda, com aquela falsa lágrima, pintada de negro, a pender dos olhos. Sempre tristes.
E eu sofro de colourfobia.
Foi por isso que uma sexta-feira decidi abandonar o teatro, deixando-te sozinho no palco, de mão estendida, costas arqueadas, flor imaginária sem quem a colha e olhos verdadeiramente tristes por cima de falsa lágrima, pintada de negro.
À mudez imposta, juntei a surdez voluntária. À tua música. Que ainda toca todas as sextas-feiras, mas que já não toca para mim.
Essa flor a pender no vazio da plateia que abandonou o Mimo.
Hertz despedido da sua função de mensageiro.
Fios desligados.
Marionetas livres da tirania dos cordéis do som.
Promessas cumpridas.
O descoração.
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Deep Inside
Well you know what it's like, when you feel light-headed
And the sun is reflecting in her eyes
And the touch of her skin, feels like summer
And the warmth that you feel comes as no surprise
Taking her clothes, feel her tremble, just go with what you feel
As the world disappears
You're sinking inside her, inside her
Well you know that it's like when it all goes quiet,
And the sun is reflecting in her eyes
And the touch of her skin, feels like heaven
And if you asked, would she stay with you a while
Taking her clothes, feel her tremble; just go with what you feel
As the world disappears, you're sinking inside her
Inside her... (inside her)
And the sun is reflecting in her eyes
And the touch of her skin, feels like summer
And the warmth that you feel comes as no surprise
Taking her clothes, feel her tremble, just go with what you feel
As the world disappears
You're sinking inside her, inside her
Well you know that it's like when it all goes quiet,
And the sun is reflecting in her eyes
And the touch of her skin, feels like heaven
And if you asked, would she stay with you a while
Taking her clothes, feel her tremble; just go with what you feel
As the world disappears, you're sinking inside her
Inside her... (inside her)
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
A construtora de lares
Na minha frente, uma vez mais e pela décima sétima vez, o cenário apocalíptico da minha existência material enfiada em sacos do lixo, à espera de um camião que a recolha e a descarregue em qualquer outro lugar.
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Neste navio, hoje bebe-se Moet
Está tudo pronto para a festa. Tirámos os cristais da arca, colocámos os tapa-olhos Svarowsky, espalhámos a pólvora para o fogo de artifício, puxámos o lustro às pernas de pau, envergámos as nossas melhores sedas, limpámos o sangue dos sabres e até tomámos banho.
Atracámos no Mónaco onde passaremos despercebidos no meio de tanto iate de luxo cheio de novos ricos que nos ultrapassam em excentricidade. Contamos aliviá-los desse miserável estatuto social convidando-os para a nossa festa e fazendo-os hóspedes até que as famílias paguem o consumo mínimo. Não precisamos do dinheiro mas cada um diverte-se como quer e nós divertimo-nos a repor a ordem natural da estratificação classista.
A capitã deste navio, tantas vezes fantasma, mas sempre Pirata, deseja a todos - tripulantes e passageiros - um 2014 cheio de amor e um transbordo feito de passas sem grainhas.
Da coerência
Nada mais coerente do que passar o dia 31 de dezembro a encaixotar vida para a mudar de sítio no dia 1 de janeiro.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
Ainda se matam ou dão em drogados
Tinha mais de setenta e cinco anos, um agasalho dos tempos em que as lojas nesta rua ainda se chamavam modas qualquer coisa, as mangas e os colarinhos da camisa puída, um sorriso divertido e uma haste dos óculos presa por um arame. Ouvia mal e por isso todos ouvíamos a sua conversa ao telefone. Estava atrás de mim na fila do supermercado. Também via mal e perguntou-me quanto custava a embalagem das costeletas. Disse-lhe o preço e agradeceu-me mais satisfeito do que aliviado. Do outro lado do satélite, o outro não deu conta da interrupção e continuou a falar sozinho. Ele voltou a encostar o telefone ao ouvido e, sem esperar pelo contexto da conversa, enquanto olhava para a embalagem das costeletas, explicou:
-Crise? Isso para nós tanto nos dá. Sempre passámos por dificuldades e estamos habituados a viver mal. Temos que nos preocupar é com os jovens. Não sabem sofrer e ainda se matam... Ou dão em drogados.
2013
As revisões anuais são um exercício de frustração ao alcance exclusivo daqueles que devem pouco a si próprios. Nessa matéria, sou uma caloteira prestes a apresentar-se à insolvência.
Não terminei a Ilíada. Saí do Inferno de Dante mas vagueio algures pelo purgatório. Não subi ao Empire State Building e nem sequer vou ver o ano morrer do cimo da Torre Eiffel. Não escrevi nenhuma boa história. Não comprei uns louboutin. Não visitei amigos distantes. Não aprendi a fazer bolos. Não deixei uma papoila no jazigo onde guardaram o que restou do meu poeta. Não reencontrei o nascer do sol da minha Ilha. Não fui Alice em nenhum momento. Não captei na objetiva uma imagem que me satisfaça o esforço. Não comi castanhas assadas. Não mudei a vida de ninguém com quem me importe. Não escrevi nenhuma canção. Não dancei sob as luzes de um baile de agosto.
Mas fiz-me Pirata. E tudo o que não fiz é espólio e promessa de um outro ano.
sábado, 28 de dezembro de 2013
Christmas carols
http://youtu.be/-dk107GIZ6E
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Estrelita, a Rainha Pirata
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03:11
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sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Esperança
"O que é a esperança?
A esperança é uma prostituta
Que a todos engana e todos se oferece.
Até tu lhe sacrificaste o mais valioso
Da tua juventude,
E ela vai-te abandonar."
Sandor Petofi (1823-49), in Lu Xun, Ervas Silvestres, série oriente, Fundação Oriente, Livros Cotovia
A esperança é uma prostituta
Que a todos engana e todos se oferece.
Até tu lhe sacrificaste o mais valioso
Da tua juventude,
E ela vai-te abandonar."
Sandor Petofi (1823-49), in Lu Xun, Ervas Silvestres, série oriente, Fundação Oriente, Livros Cotovia
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
Feliz Natal
A lovely thing about Christmas is that it's compulsory, like a thunderstorm, and we all go through it together.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Diário de Bordo #8
É muito difícil arranjar perus para a ceia de Natal quando se vive num navio Pirata.
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
Strange paradise
Estar de novo sentada à mesa de uma vida que foi minha e pensar que entre o antes e o agora nunca houve coisa alguma. Que o lobo das tuas estórias infantis comeu para sempre os últimos cinco natais. Que nunca deixaste aberto o portão da casa da árvore. Que naquela madrugada em que nos perdemos no deserto, voltaste atrás para me resgatar. Passar a língua entre os dentes e nenhuma areia na boca. De tal forma que ontem, ainda ontem, assim como hoje, os dois aqui.
Sentados nesta vida, a rir debaixo das mesmas luzes de Natal.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
A Cancão de Amor da Rapariga Louca
A Canção de Amor da Rapariga Louca
Fecho os olhos e o mundo queda-se morto;
Levanto as pálperas e tudo nasce outra vez.
(Penso que fui eu que te criei na minha mente)
As estrelas saem valsando o azul e o vermelho
E o negrume arbitrário entra a galope
Fecho os olhos e o mundo queda-se morto.
Sonhei que me enfeitiçaste até ao leito
E cantaste-me desvairado, beijaste-me insano.
(Penso que fui eu que te criei na minha mente)
Deus tomba do céu, amainam os fogos do inferno,
Vão-se os sarafins e os homens de Satã;
Fecho os olhos e o mundo queda-se morto
Imaginei que voltarias como me disseste,
Mas envelheço e esqueço o teu nome.
(Penso que fui eu que te criei na minha mente)
Deveria antes ter amado um falcão:
Pelo menos regressam com estrondo na primavera;
Fecho os olhos e o mundo queda-se morto.
(Penso que fui eu que te criei na minha mente)
Sylvia Plath, em tradução livre e arriscada (aceitam-se sugestões)
Mad Girl's Love Song
I shut my eyes and all the world drops dead;
I lift my lids and all is born again.
(I think I made you up inside my head.)
The stars go waltzing out in blue and red,
And arbitrary blackness gallops in:
I shut my eyes and all the world drops dead.
I dreamed that you bewitched me into bed
And sung me moon-struck, kissed me quite insane.
(I think I made you up inside my head.)
God topples from the sky, hell's fires fade:
Exit seraphim and Satan's men:
I shut my eyes and all the world drops dead.
I dreamed that you bewitched me into bed
And sung me moon-struck, kissed me quite insane.
(I think I made you up inside my head.)
God topples from the sky, hell's fires fade:
Exit seraphim and Satan's men:
I shut my eyes and all the world drops dead.
I fancied you'd return the way you said,
But I grow old and I forget your name.
(I think I made you up inside my head.)
I should have loved a thunderbird instead;
At least when spring comes they roar back again.
I shut my eyes and all the world drops dead.
(I think I made you up inside my head.)
Sylvia Plath
... e nunca, palavras tão banais como corpo, mãos, boca e pele foram tão pornograficamente dificeis de articular...
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termo final
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
domingo, 15 de dezembro de 2013
Tuned
Quando ele disse que apesar da distância ficariam sempre juntos, soou reconfortante, quase simpático.
Mas ao ritmo que o tempo transformou palavras em verdades, a promessa converteu-se numa ameaça.
Há formas terríveis de se ficar sempre junto.
Sentindo-se o outro como uma presença.
Daquelas que se fazem rodear pelo hálito gelado dos fantasmas.
E ferem os ouvidos com um silvo interminável.
E eriçam os pelos da nuca.
Coisas que me deixam zangada por não ter sido eu a escrevê-las
xilre: A proximidade do ar respirado: Chego cedo, antes do Sol, antes de ti. Arrasto a cadeira ferida pelo sal, insuflo de ar quente as mãos, tento segurá-lo, como fazia quando t...
O embuste Kubler-Ross
“It is very important that you only do what you love to do. you may be poor, you may go hungry, you may lose your car, you may have to move into a shabby place to live, but you will totally live. And at the end of your days you will bless your life because you have done what you came here to do. Otherwise, you will live your life as a prostitute, you will do things only for a reason, to please other people, and you will never have lived. and you will not have a pleasant death.”
Passei um ano inteiro aos saltinhos por entre os degraus da escada que esta senhora inventou. Devo ter estado algumas vinte vezes no estágio da aceitação mas, angustiada por ser o último e temerosa do desconhecido - já que a senhora guardou para si a sábia informação do que vem depois da aceitação e eu detesto ser surpreendida pelos meus próprios estados de espírito - atirei-me lá de cima diretamente para a negação e daí para a depressão e só depois para a raiva, de onde saltei para o choque. Onde nunca mais parei foi no degrau da negociação (também conhecido pelos brasileiros pela odiosa palavra barganha). Mas apenas porque da primeira e última vez que por lá andei foi tão mau que, à saída, deitei o fogo ao degrau para eliminar as provas da minha presença. Vá lá que antes de subir a escada de Kubler-Ross tive a lucidez de decidir que seria feita de uma madeira rapidamente combustível.
Ainda fiquei triste por perceber que nem um percurso catalogado por esses maravilhosos cientistas da precisão, que são os psicólogos, consigo fazer a direito.
Agora que encontrei nessa citação da autora da escada uma das ideias mais estúpidas e simplistas que já li na minha vida, sinto-me aliviada por me ter desviado do caminho. Depois da aceitação, é agora claro como a água, vem a idiotia pura.
Comunicado
O leitor mais atento já terá reparado que regressou a este blogue uma tal de Estrelita que, agora que também se instalou no navio, adotou o egomaníaco cognome de A Rainha Pirata.
Desenganem-se os que pensam tratar-se de heteronomia ou manifestação esquizóide.
Trata-se de uma abordagem hostil à qual não posso por cobro já que, além das minhas relações com as autoridades não andarem famosas, Estrelita mantém sobre mim aquela espécie de poder que têm as pessoas que, já lá estando há mais de vinte anos, sabem muito mais do que deviam sobre muita coisa que não deveria ter acontecido.
Venho aqui declinar expressamente qualquer responsabilidade pelos seus actos.
Diário de Bordo # 7
Seria de pensar que, sendo capitã de um navio Pirata - para mais um navio Pirata rico e sofisticado, onde depois da venda do crude roubado pudemos todos regressar ao estado de prodigalidade em que gostamos de viver - tivesse, ao menos, o poder de mandar cancelar o Natal.
Atolada nessa errónea convicção, aos primeiros sinais de tráfico de bolas douradas e folhas de azevinho de aspeto duvidoso, decidi reunir a tripulação no convés para lhes comunicar que, este ano e, pelo menos nos próximos mil, o natal seria temporariamente suspenso.
Em menos de meia hora a minha tripulação organizou-se contra mim, fundou uma associação sindical e, decidida a nem sequer me dirigir a palavra, mandou Polly, o papagaio emprestado, notificar-me do aviso de greve geral e por tempo indeterminado. Até o bicho estava notoriamente zangado comigo e cumprindo com excesso de zelo a missão que lhe acometeram passou vinte minutos contados em rolex de ouro a gritar-me aos ouvidos palavras de ordem como "a luta continua, capitã Cuca para a rua" e versos da Grândola Vila Morena.
A ameaça de greve não seria suficiente para me demover das minhas intenções, já que, não tendo nós nenhum ataque planeado para esta semana, e sendo certo que neste navio, com exceção de Andhrimnir, o cozinheiro Pirata, ninguém faz rigorosamente nada, a medida pareceu-me vagamente inócua. Aquilo que eu não consegui suportar foi a exclusão social a que me vetaram, recusando-se a sentar na minha mesa, falando mal de mim a toda a hora e na minha presença e fazendo-me sentir tão odiada que quase parecia que estava de volta aos tempos em que ainda era uma cidadã honrada com uma dessas profissões em que ser detestado por toda a gente faz parte de uma tradição milenar.
Ao segundo dia, a angústia do ostracismo, no plano emocional, e o receio de um golpe de estado, no plano racional, fizeram-me meter no bolso a urticária aos barretes vermelhos com pelo branco, anjinhos, pinheiros nórdicos, embrulhos com laços pirosos, cânticos enjoativos, luzes multicolores e subjacente estado geral de despropositada benevolência e lá os chamei outra vez ao convés para lhes comunicar a reposição do natal.
Como nem sequer apareceram tive que mandar recado pelo papagaio que passou as duas horas seguintes plantado no mastro a gritar um nada cristão"É Natal, é Natal, limpa-te ao jornal".
Logo que a notícia se espalhou, sacaram dos baús toda a espécie de tralha que andaram a traficar clandestinamente na última semana e em menos de meia hora transformaram este navio numa odiosa Vila Natal. Ainda tentei fazê-los entender que as luzes de arraial com que forraram o navio inteiro não são apropriadas à discrição que se exige a foragidos da justiça. Não quiseram saber e, como forma de retaliação, depuseram as pernas de pau, ganchos, tapa-olhos e lenços e agora passeiam-se por aí mascarados de duende, rena, pai-natal e - presumo eu, depois de ter visto Gualtiero, o Italiano a tomar o pequeno almoço em pelota - menino jesus.
Num esforço de reconciliação que, ao mesmo tempo, me garante que terei do natal a única coisa que lhe tolero, decidi gastar parte do nosso pecúlio na contratação de uma companhia de ballet russo para que aqui venha encenar o Quebra Nozes.
Os americanos dizem que ninguém escapa à morte e aos impostos. Estão evidentemente enganados. Aquilo a quem ninguém escapa é ao Natal.
sábado, 14 de dezembro de 2013
Jazz embrulhado em aroma de baunilha sobre regaço dividido entre Llosa e cabeça de cão adormecido
O cenário de idílica tranquilidade que vês nesta sala levou infindáveis dias a ser pintado.
E o papel é tão frágil que até a brisa do mar seria suficiente para o destruir.
É por isso que não poderás ultrapassar o limiar daquela porta.
E o papel é tão frágil que até a brisa do mar seria suficiente para o destruir.
É por isso que não poderás ultrapassar o limiar daquela porta.
disfuncionalidades
O Natal é uma quadra que um grupo de pessoas más inventaram para me fazer sentir disfuncional.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
maldições
A maldição dos que já cá não andam a estrear-se é terem-se já prometido demasiadas coisas.
Muitas de sinal contrário...
sábado, 7 de dezembro de 2013
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