domingo, 15 de setembro de 2013

Diário de Bordo #2





Latitude 36º 53' 35 N
Longitude 27º 17' 20 E

Deixámos a Sardenha para trás há várias semanas. Só foi possível largar aquela estância turística decadente porque, desta vez, não caí na asneira de levar a partida a referendo. A minha experiência de capitã pirata tem-me ensinado que, em geral, a democracia é uma coisa má e a ditadura infinitamente mais prática. Concedo-lhe alguma eficácia nos estados europeus, onde um grupo de pessoas a que se convencionou chamar o legislador, se encarrega de neutralizar os efeitos da democracia reduzindo-a a uma mera sensação psicológica, ao nível dos fenómenos da alucinação coletiva. Mas nós, dentro deste navio, não temos leis, paciência para as fazer, ou moral para as aplicar. Para evitar confusões, decidi reduzir a fórmula de organização política a duas variáveis da mesma equação: eu mando, os outros obedecem.
Antevendo contestações, com a ajuda do Viking psicopata Adhriminir, o cozinheiro pirata e de Álvaro de Campos, o engenheiro naval, organizei uma festa na véspera da partida. Anunciámos uma happy hour de Margaritas entre a uma e as duas manhã e a minha tripulação, apesar de aqui no navio nunca ter pago por coisa alguma, ainda está de tal forma condicionada pelos efeitos da sociedade mercantilista de que fugimos, que, perante a publicidade de uma borla, não pensa duas vezes antes de se embebedar até cair para o lado.
Acordámos já ao largo do mediterrâneo com os gritos histéricos de Gualtiero, o Italiano, que, vendo-se sequestrado, percebeu que iria faltar ao encontro com uma tal de Anna Belle que tinha conhecido num bar resmenga cheio de turistas franceses. Lembrei-lhe que todos nós temos uma sina e a dele é o azar ao amor e recorri a um ou dois ensinamentos do tempo em que fui budista para o convencer que é melhor entregar-se ao fado do que resistir-lhe e vê-lo exponenciado em fardo nas próximas mil reencarnações. Convenceu-se quando invoquei o argumento experiência própria.
No segundo dia de navegação, depois de debelada a ressaca, a tripulação estava tão furiosa com aquilo do sequestro, que decidi canalizar a energia destrutiva para o treino na atividade que, afinal, é o centro da nossa missão. Pilhar, roubar, aterrorizar pessoas e dominar os mares e o mundo. 
Cruzámo-nos, entre o final das águas italianas e o início das gregas, com um barquinho de pescadores chamado Helenis e eu logo aproveitei a oportunidade para introduzir neste grupo o prazer pela vitória. 
Em cinco minutos burilámos um esquema maligno e muito original que passou por irmos todos para o convés, pedir socorro, fingindo um início de naufrágio. Os pescadores aproximaram-se, uma equipa constituída pelos presidiários e liderada por Gualtiero, o Italiano, saltou para a barcaça e, aproveitando o pasmo com as nossas vestes carnavalescas, apoderámo-nos de pescadores e pescado. 
Comemorámos com um magnífico jantar de sargo grelhado, regado com Soalheiro Alvarinho Primeiras Vinhas 2011, servido pelos pescadores que fizemos nossos escravos. Os ânimos acalmaram-se e a paz voltou a instalar-se neste navio. Os bloggers tiraram fotografias ao peixe para colocarem na internet, os poetas declamaram umas coisas sobre escamas translúcidas sob o luar do sal, os românticos concentraram a sua sina de desgosto em novos objetos, os ex presidiários ficaram quietos a contemplar o calendário com mulheres nuas que roubaram aos pescadores…
Quanto a estes últimos, contava restituí-los à liberdade no dia seguinte, amarrados aos restos da barcaça, depois de me prometerem que iriam à televisão pública contar que tinham sido barbaramente torturados e mentir sobe um arsenal de armas químicas a bordo.
Mas quando os pobres diabos me imploraram que os deixasse ficar, argumentando com a exibição das fotografias das suas mulheres por comparação com a beleza sofisticada das nossas bloggers, a comiseração apoderou-se de mim e faltou-me a coragem para os devolver àquela vida de miséria estética.
Ficámos com mais três inúteis tripulantes e largámos no mar os restos do Helenis, onde cosemos uma réplica da nossa bandeira, na esperança que sobre nós venha a recair a acusação de homicídio dos pescadores.

Akira, I



Akira procurou um banco num dos jardins de Tóquio e sentou-se para morrer.
Não sei se Akira era suficientemente organizada para escolher racionalmente um jardim e um banco dentro do jardim. Talvez tenha estudado com afinco a história botânica da cidade para construir uma sepultura com sentido. O terceiro banco a contar da entrada Norte pode, ou não, ter sido um acaso.
Nunca saberemos quanto tempo, ou se algum, despendeu Akira na investigação do melhor local para morrer. Muitas ou nenhuma noite debruçada sobre um Sony Vaio, dos brancos, com os cabelos escuros a cair sobre o teclado e uma luz de fundo azulada, a coligir informações sobre a história dos jardins e a cruzá-las com a posição estrategicamente favorável à ressurreição. Para usar a informação, num ou noutro sentido, consoante a vontade de um regresso rápido sobre outras vestes. Talvez mais propícias à arte de viver. 
O leitor romântico gostaria de uma janela de oportunidade  que lhe permita acreditar que aquele jardim, aquele banco, fizeram parte da história da morte de Akira ainda antes da morte da Akira ser uma história. Um rapaz que lhe pegou na mão lívida escondida numas luvas de pele azul céu e lhe prometeu um amor eterno interrompido dois meses depois por um telefonema de uma mulher do passado que por sua vez definhava no tédio cansado de um casamento frustrado. O tédio é a principal causa de morte.
Akira num vislumbre de esperança que é essa promessa de felicidade amorosa nas palavras dos apaixonados. O último minuto em que o sorriso lhe saiu sem o cheiro do plástico.
O leitor romântico ficaria desiludido com a verdade. 
Dentro do jardim, em frente do banco onde Akira se sentou para morrer, nenhuma árvore com um coração desenhado a canivete suiço e duas vogais a marcar o território virtual . 
Apenas um monte de lixo vegetal que um varredor de jardim deixou arrumado de encontro a um canteiro…

Blue Jasmine


Em primeiro lugar, o Blue Jasmine está mal classificado. Não é uma comédia, é um drama. Só a insensível dificuldade de identificação com Jasmine pode fazer com que alguém se divirta a assistir ao desmoronamento da personalidade de uma mulher que luta contra a loucura. 
Em segundo lugar, não havendo uma nota de absurdo no filme e sendo até, provavelmente, o filme mais realista de Woody Allen, não percebo o que querem dizer aqueles que afirmam que é um regresso do Woody Allen típico.
Aliás, diria até que não é um Woody Allen, é um Cate Blanchett.
E se não aparecer para aí outra a fazer de deficiente ou de desgraçadinha, a senhora vai ganhar o Óscar.
  

sábado, 14 de setembro de 2013

são as águas de março




Hoje de manhã as águas de março chegaram ao meu sul. A chuva entrou-me nos ouvidos antes de todas as outras coisas e sentou-se à espera. A mulher que apanha o lixo na rua queixa-se que a capa da chuva lhe faz calor e garante que tem estado assim desde madrugada. Sem descanso. Finjo um ar incomodado de pura solidariedade. A chuva obriga-nos a sair da rotina. Torna-nos impossível a nossa mesa na esplanada, faz-nos descobrir beirais que não sabíamos que ali estavam e o cão olha para mim confuso, como se também ele percebesse agora o que é perder o rasto da casa.
Hoje de manhã as águas de março chegaram ao meu sul. Talvez escreva um conto começado pela frase Akira procurou um banco num dos jardins de Tóquio e sentou-se para morrer. 
Há vozes soltas que se libertam da minha cabeça. Coisas simples. Um colega que se congratula com as novas funções que lhe permitem ter tempo para pensar. Pensar nas coisas, diz ele com um ar pensativo. A Lykke Li a cantar dance, dance, dance. O livreiro que lamenta ainda não me ter conseguido o livro sobre escritores suicidas mas promete esforçar-se. As palavras de um escritor suicida que um dia me prometeu não morrer antes de mim. A criança que me pergunta se é meu amigo o vagabundo deitado na rua. A dona do café a dizer-me que está complicado hoje. O treinador do cão que me garante que os humanos estão todos doidos. Uma mulher que me mostra uma casa e me pergunta desconfiada se tenho a certeza que preciso de três quartos. 
E depois as vozes voam pela rua e desfazem-se de encontro às poças lamacentas que os meus pés evitam. E eu contente por conseguir fazer isto tão bem. Evitar as poças de lama. Talvez devesse antes descalçar-me e juntar os pés às vozes e, como a Lykke Li, dance, dance, dance. Voltar o rosto para as águas de março e deixá-lo molhar-se. 
Afinal, tenho motivos para festejar a chegada da chuva. Passou-se um ano inteiro e, desta vez, consegui não destruir a vida a ninguém.
Akira procurou um banco num dos jardins de Tóquio e sentou-se para morrer.
De uma forma ou de outra, o suicídio é o natural destino dos escritores.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

It´s just a cigarette




It's just a cigarette & it cannot be that bad 
Honey don't you love me and you know it makes me sad? 
It's just a cigarette like you always used to do 
I was different then, I don't need them to be cool 

It's just a cigarette and it harms your pretty lungs 
Well it's only twice a week so there's not much of a chance 
It's just a cigarette it'll soon be only ten 
Honey can't you trust me when I want to stop I can 


(...)


domingo, 8 de setembro de 2013

que lutem até ao último fôlego e o resultado seja um empate


e um dia os corações criaram imunidade às palavras e, com isso, as palavras tornaram-se inúteis, primeiro, e odiosas, depois, e então passaram a agredir-se por fotografia.
uma constelação tatuada num pulso contra a reprodução do original no céu. uma jóia que brilha no dedo contra o nácar de uma concha perfeita. uma onda que desmaia na praia vazia de história contra uma baía que renasce nas rochas da memória...

o desenho de um coração doente na esperança de uma resposta feita da imagem do original, sacada de um peito aberto a bisturi.

lâmina n.º 10, se fazes favor.


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

o que ficou daquilo que (se) partiu

Não me lembro do toque das mãos de gigante sobre as minhas costas. Nem da respiração a diluir-se-me nas têmporas. Ou do tom da voz a embalar uma permanente cantiga. Não me lembro de nenhum brilho nos olhos quando afundados numa gargalhada.
Mas há um som que nunca esquecerei. 
Ouço-o parada nas filas de trânsito; deitada ao sol numa praia repleta; sentada em frente à secretária a sós com o silêncio; no meio da azáfama de um mercado de sábado. 
O som do avião que me trouxe de volta, no instante em que as rodas se separaram da pista.  

Nem tudo está perdido

O Pedro Mexia voltou.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Álvaro de Campos, esse Pirata




Ao largo da Sardenha, fazendo-se transportar num barco insuflável de criança, pediu admissão a bordo um tal de Álvaro de Campos, que se disse Engenheiro Naval e candidato a Pirata.
Tivemos a seguinte conversa:

- Não sei, não. O senhor disse que escreve poesia e eu já tenho escritores entre a minha tripulação. Se ao menos fosse anão…sempre podia aceitá-lo ao abrigo de uma quota especial. Apesar de também já ter um gigante…
Mas diga-me lá… o que o faz querer aderir à dura vida de Pirata?

- Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,

Os paquetes que entram de manhã na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos.
Todo o atracar, todo o largar de navio,
É — sinto-o em mim como o meu sangue -
Inconscientemente simbólico, terrivelmente
Ameaçador de significações metafísicas
Que perturbam em mim quem eu fui...
(…)

- hum… estou a ver. Mas olhe que este navio não é lugar para nostalgias nem para delírios metafísicos. Além disso, estamos todos aqui para fugir e não para ser encontrados. Especialmente por nós próprios. Tem experiência profissional no ramo da Pirataria?

- (…)Ah, quem sabe, quem sabe,
Se não parti outrora, antes de mim,
Dum cais; se não deixei, navio ao sol
Oblíquo da madrugada,
Uma outra espécie de porto?
Quem sabe se não deixei, antes de a hora
Do mundo exterior como eu o vejo
Raiar-se para mim,
Um grande cais cheio de pouca gente,
Duma grande cidade meio-desperta,
Duma enorme cidade comercial, crescida, apoplética,
Tanto quanto isso pode ser fora do Espaço e do Tempo?

- Pois, quem sabe? olhe, eu é que não sei… talvez tenha alguém que possa dar referências suas… mas, afinal, o que o seduz nesta vida da Pirataria?

- (...) Toda a vida marítima! tudo na vida marítima!
Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina
E eu cismo indeterminadamente as viagens.
Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!
Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas!
As solidões marítimas, como certos momentos no Pacífico
Em que não sei por que sugestão aprendida na escola
Se sente pesar sobre os nervos o fato de que aquele é o maior dos oceanos
E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós!
A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico!
O indico, o mais misterioso dos oceanos todos!
O Mediterrâneo, doce, sem mistério nenhum, clássico, um mar para bater
De encontro a esplanadas olhadas de jardins próximos por estátuas brancas!
Todos os mares, todos os estreitos, todas as baías, todos os golfos,
Queria apertá-los ao peito, senti-los bem e morrer!

- hum… mas isso são argumentos mais válidos para fazer um cruzeiro do que para tornar-se Pirata. Além do mais, essa conversa de querer morrer não me cai nada bem. Somos um projeto homicida e não suicida. Não estou a ver em que medida possa tornar-se um acréscimo válido.

  - Ah, os paquetes, os navios-carvoeiros, os navios de vela!
Vão rareando - ai de mim! - os navios de vela nos mares!
E eu, que amo a civilização moderna, eu que beijo com a alma as máquinas,
Eu o engenheiro, eu o civilizado, eu o educado no estrangeiro,
Gostaria de ter outra vez ao pé da minha vista só veleiros e barcos de madeira,
De não saber doutra vida marítima que a antiga vida dos mares!
(...)

- Compreendo. Mas engenheiros, civilizados e educados no estrangeiro, também já temos. E olhe que, até agora, deixe que lhe diga que a única diferença que fizeram relativamente aos ex-presidiários foi embebedar-se com maior elegância.Vai dar-me referências, ou não?

- (...) Tu, marinheiro inglês, Jim Barns meu amigo, foste tu
Que me ensinaste esse grito antiquíssimo, inglês,
Que tão venenosamente resume
Para as almas complexas como a minha
O chamamento confuso das águas,
A voz inédita e implícita de todas as coisas do mar,
Dos naufrágios, das viagens longínquas, das travessias perigosas.

- Pois, mas Jim Barns… não conheço. E hoje estamos sem net, não dá para ir ver à wikkipedia. Mas já que diz que sabe entoar o nosso grito, gostaria de ouvir isso.

- Ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò - yyy...
Schooner ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-oò -yyy...)

- Muito bem. Começo a ficar impressionada. As suas motivações é que não me deixam nada convencida. Quer explicar-se melhor?

- Ó clamoroso chamamento
A cujo calor, a cuja fúria fervem em mim
Numa unidade explosiva todas as minhas ânsias,
Meus próprios tédios tornados dinâmicos, todos!...
Apelo lançado ao meu sangue
Dum amor passado, não sei onde, que volve
E ainda tem força para me atrair e puxar,
Que ainda tem força para me fazer odiar esta vida
Que passo entre a impenetrabilidade física e psíquica
Da gente real com que vivo!

- Amores passados que volvem com força para nos puxar soa-me a golpe baixo de quem andou a ler o meu blogue para me tentar manipular. Tem noção que nem sequer viajamos com destino traçado?

- Ah seja como for, seja por onde for, partir!
Largar por aí fora, pelas ondas, pelo perigo, pelo mar.
Ir para Longe, ir para Fora, para a Distância Abstrata,
Indefinidamente, pelas noites misteriosas e fundas,
Levado, como a poeira, plos ventos, plos vendavais!
Ir, ir, ir, ir de vez!

- E o que diria à minha tripulação, que já não conta com novos recrutamentos e que teria que dividir o espaço consigo?

- Eh marinheiros, gajeiros! eh tripulantes, pilotos!
Navegadores, mareantes, marujos, aventureiros!
Eh capitães de navios! homens ao leme e em mastros!
Homens que dormem em beliches rudes!
Homens que dormem co'o Perigo a espreitar plas vigias!
Homens que dormem co'a Morte por travesseiro!
Homens que têm tombadilhos, que têm pontes donde olhar
A imensidade imensa do mar imenso!
Eh manipuladores dos guindastes de carga!
Eh amainadores de velas, fagueiros, criados de bordo!
Homens que metem a carga nos porões!
Homens que enrolam cabos no convés!
Homens que limpam os metais das escotilhas!
Homens do leme! homens das máquinas! homens dos mastros!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Gente de boné de pala! Gente de camisola de malha!
Gente de âncoras e bandeiras cruzadas bordadas no peito!
Gente tatuada! gente de cachimbo! gente de amurada!
Gente escura de tanto sol, crestada de tanta chuva,
Limpa de olhos de tanta imensidade diante deles,
Audaz de rosto de tantos ventos que lhes bateram a valer!
(…)

A vós todos num, a vós todos em vós todos como um,
A vós todos misturados, entrecruzados.
A vós todos sangrentos, violentos, odiados, temidos, sagrados,
Eu vos saúdo, eu vos saúdo, eu vos saúdo!
Eh-eh-eh-eh eh! Eh eh-eh-eh eh! Eh-eh-eh eh-eh-eh eh!
Eh lahô-lahô laHO-lahá-á-á-à-à!

Quero ir convosco, quero ir convosco,
Ao mesmo tempo com vós todos
Pra toda a parte pr'onde fostes!
(…)

- hum… só se o contratar para realizar trabalhos pesados. Aqui neste navio ninguém parece disposto a trabalhar...

- (...) Sim, sim, sim... Crucificai-me nas navegações
E as minhas espáduas gozarão a minha cruz!
Atai-me às viagens como a postes
E a sensação dos postes entrará pela minha espinha
E eu passarei a senti-los num vasto espasmo passivo!
Fazei o que quiserdes de mim, logo que seja nos mares,
Sobre conveses, ao som de vagas,
Que me rasgueis, mateis, fira-os!
O que quero é levar pra Morte
Uma alma a transbordar de Mar,
Ébria a cair das coisas marítimas,
Tanto dos marujos como das âncoras, dos cabos,
Tanto das costas longínquas como do ruído dos ventos,
Tanto do Longe como do Cais, tanto dos naufrágios
Como dos tranqüilos comércios,
Tanto dos mastros como das vagas,
Levar pra Morte com dor, voluptuosamente,
Um copo cheio de sanguessugas, a sugar, a sugar,
De estranhas verdes absurdas sanguessugas marítimas!

Façam enxárcias das minhas veias!
Amarras dos meus músculos!
Atranquem-me a pele, preguem-na às quilhas.
E possa eu sentir a dor dos pregos e nunca deixar de sentir!
Façam do meu coração uma flâmula de almirante
Na hora de guerra aos velhos navios!
Calquem aos pés nos conveses meus olhos arrancados!
Quebrem-me os ossos de encontro às amuradas!
Fustiguem-me atado aos mastros, fustiguem-me!
A todos os ventos de todas as latitudes e longitudes
Derramem meu sangue sobre as águas arremessadas
Que atravessam o navio, o tombadilho, de lado a lado,
Nas vascas bravas das tormentas!(...)

- Bem, se está assim tão disponível para ser torturado… considere-se contratado (se tudo falhar, entrego-o ao viking louco).

- (...) Fogo, fogo, fogo, dentro de mim!
Sangue! sangue! sangue! sangue!
Explode todo o meu cérebro!
Parte-se-me o mundo em vermelho!
Estoiram-me com o som de amarras as veias!
E estala em mim, feroz, voraz,
A canção do Grande Pirata,
A morte berrada do Grande Pirata a cantar
Até meter pavor plas espinhas dos seus homens abaixo.
Lá da ré a morrer, e a berrar, a cantar:

                                           Fifteen men on the Dead Man's Chest.
                                           Yo-ho ho and a bottle of rum I

E depois a gritar, numa voz já irreal, a estoirar no ar:
Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw!
Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw-aw-aw-aw!
Fetch a-a-aft th ru-u-u-u-u-u-u-u-u-um, Darby,

Eia,, que vida essa! essa era a vida, eia!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Eh-lahô-lahô-laFIO-Iahá-á-á-à-à!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! (...)

- Vejo que isto era mesmo importante para si. Agora acalme-se, vá.

- (…)Quilhas partidas, navios ao fundo, sangue nos mares
Conveses cheios de sangue, fragmentos de corpos!
Dedos decepados sobre amuradas!
Cabeças de crianças, aqui, acolá!
Gente de olhos fora, a gritar, a uivar!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Embrulho-me em tudo isto como uma capa no frio!
Roço-me por tudo isto como uma gata com cio por um muro!
Rujo como um leão faminto para tudo isto!
Arremeto como um toiro louco sobre tudo isto!
Cravo unhas, parto garras, sangro dos dentes sobre isto!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!

De repente estala-me sobre os ouvidos
Como um clarim a meu lado,
O velho grito, mas agora irado, metálico,
Chamando a presa que se avista,
A escuna que vai ser tomada:

Ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó - yyyy..
Schooner ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó - yyyy... (...)

- Tenha calma, já lhe disse. E não exagere que até nos faz parecer um bando de psicopatas.

- O mundo inteiro não existe para mim! Ardo vermelho!
Rujo na fúria da abordagem!
Pirata-mór! César-Pirata!
Pilho, mato, esfacelo, rasgo!
Só sinto o mar, a presa, o saque!
Só sinto em mim bater, baterem-me
As veias das minhas fontes!
Escorre sangue quente a minha sensação dos meus olhos!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!

Ah piratas, piratas, piratas!
Piratas, amai-me e odiai-me!
Misturai-me convosco, piratas!

- oh meu deus… começo a desconfiar que este tipo me vai trazer problemas…

Os excertos são da Ode Marítima, de Álvaro de Campos e as antecipadas desculpas aos puristas de Fernando Pessoa são minhas. Foi-me irresistível.

Muaaaaahahahahah

Marinha Portuguesa está a chefiar o combate à pirataria na Somália - País - Notícias - RTP

"Oh you'll never see my shade or hear the sound of my feet while there's a moon over bourbon street"




Há quem faça tatuagens para cobrir as anteriores. Aquelas que a pele já não consegue suportar.

Há quem rasure as memórias diretamente no calendário. Criando novas efemérides para colar por cima das antigas.

Caiu um ano. 

Diz-se que, lá longe, a data foi comemorada com um concerto de jazz derramado sobre uma praia que é minha.
Uma multidão de surdos aplaudiu de pé o sacrilégio que até a lua se recusou a iluminar.
A lua, está sempre comigo. Também me pertence.

"She walks everyday through the streets of New Orleans
She's innocent and young from a family of means
I have stood many times outside her window at night
To struggle with my instinct in the pale moon light
How could I be this way when I pray to God above
I must love what I destroy and destroy the thing I love
Oh you'll never see my shade or hear the sound of my feet
While there's a moon over Bourbon Street"

Amar o que se destrói e destruir o que se ama, antes de ser um verso desta música, já era a incontornável sina dos cobardes.


domingo, 18 de agosto de 2013

the after the afterlife




enquanto o sol de Lisboa me aquecer os pés, enquanto houver regaee no cimo de telhados com vista para o Tejo, enquanto a hortelã se dissolver no gelado de limão, enquanto os gatos se espreguiçarem, enquanto existir o rasto de um veleiro, enquanto as nuvens tiverem formas de pássaro, enquanto souber comover-me com um verso…


quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Café da manhã


A cigana oferece-me a possibilidade de comprar uma mala igualzinha àquela que carrego por apenas quarenta euros. Diz que é uma imitação de qualidade superior à minha, original, mal acabada.
A dona Graça está triste. Partiu-lhe há uma semana para a Alemanha a filha mais nova. O mais velho já se tinha ido para Angola no ano passado e este verão nem sequer voltou para ver a família. Tem uma nova namorada. Angolana. A dona Graça não está entusiasmada com a possibilidade abstrata de ter netos de tez escura. Conta à amiga que agora vê a filha através do ecrã do computador numa coisa que se chama skip, como o detergente para a roupa. Aprendeu na universidade sénior, onde se fornecem às pessoas as ferramentas essenciais a manter uma janela aberta para o coração dos filhos. Que emigram.
Este bairro está cheio de velhos. Antes as casas eram escandalosamente caras porque os filhos pagavam o que fosse necessário para continuarem a viver aqui. Compravam os eletrodomésticos na loja da esquina, porque embora fossem mais caros do que nas cadeias dos centros comerciais, o senhor Manel ia lá a casa entregar e montava tudo. Não tinham que se preocupar com nada. Agora foram-se embora, não para o outro lado da cidade, mas para o outro lado do hemisfério. E o senhor Manel está a pensar em vender a loja aos chineses da rua principal. Quando se render, teremos a terceira loja de chineses no mesmo quarteirão.
A amiga da dona Graça não parece acreditar nisso de se verem as pessoas no ecrã do computador. De computadores, só sabe que tinha dinheiro guardado na lata das bolachas para comprar um ao neto, mas teve que o gastar numa operação às varizes que, no serviço nacional de saúde, demoraria mais anos do que aqueles que presumivelmente lhe restam.
A cigana regressa com uns óculos ray ban a cinco euros e explica-me que tem mesmo que vender alguma coisa. O marido está novamente preso e há umas senhoras da assistência que lhe querem tirar a filha mais nova. Digo-lhe que esteja descansada, que toda a gente sabe que o sistema não tira filhos aos ciganos. Olha-me ligeiramente ofendida.  
Do outro lado da esplanada, o maluco de serviço grita alto para quem o quer ouvir que precisa arranjar uma pistola, calibre 38, para assassinar o primeiro ministro. Explica com detalhes os efeitos que um bala de calibre 38 provoca na cabeça da vítima. As pessoas da esplanada não parecem chocadas. O maluco diz que o problema é que o melhor local para arranjar essas armas é a esquadra da polícia. E que, para isso, precisava de duas metralhadoras. Parece-me um beco sem saída. A esperança dos velhos da esplanada esmorece.
O senhor Fernando, apanhando o balanço do maluco, diz que o governo está cheio de gatunos e faz as contas ao que já lhe roubaram da reforma. Quase não chega para pagar o lar onde tiveram que internar a mulher depois do último AVC. A filha já tem dois empregos para suportar a prestação do andar que comprou, caríssimo, naquele bairro, e não tem vida para cuidar da mãe. Encolhe os ombros e diz que com o dinheiro que gasta no lar até podia ir de férias para as Caraíbas. É a vida da mulher entrevada e agarrada à cama, contra um mergulho numa praia de areias brancas e águas azuis.
O maluco diz que qualquer pessoa pode ir de férias para as Caraíbas. Acabou de chegar da agência bancária ali ao lado e viu umas pessoas vestidas de verde a descarregar sacos de dinheiro.
Os olhos dos velhos brilham. Sacos e sacos e sacos de dinheiro. Só precisava de uma pistola de calibre 38. Ia para as Caraíbas e nunca mais regressava.
A cigana diz que a culpa é toda dos tribunais. Se não deixam o marido traficar, como esperam que sustente os filhos?
Noutros tempos, os velhos teriam mandado o maluco calar-se. 
Mas hoje, com a imagem dos sacos de dinheiro ali ao lado, fiquei com a sensação que, cada um dos velhos, recordou com nostalgia aquele escombro de pistola que trouxe do ultramar, ou que herdou do avô e que, num gesto de boa vontade e respeito pela lei, entregou voluntariamente na esquadra do fundo.
Voltei para casa a pensar que a classe política deveria frequentar mais esta esplanada.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

À saída do Inferno

(...) "Pensas nesta altura
que estás além do centro onde eu prendia
a pele ao verme vil que o mundo fura.
De lá tu foste enquanto eu me descia;
mas quando me voltei tinhas passado
ponto que a todo o peso atrai a via.
E ao hemisfério ora te eis chegado
oposto ao que recobre a grande seca,
sob o tecto da qual sacrificado
foi quem nasceu, viveu e em nada peca;
os pés tens postos na pequena esfera
que a outra face faz de ti Judeca.
Se é cá manhã, já lá anoitecera:
e este que a nós co pêlo escada deu,
tão cravado inda está como antes era.
Desta parte tombou vindo do céu;
e a terra que aqui antes se estendia,
do medo que lhe vem fez do mar véu,
vindo ao nosso hemisfério; e então seria
que fugindo, lhes esvaziou ignoto
lugar a que ali vês e que acendia."
Há um lugar a Belzebu remoto
tanto quanto esta gruta já se estende,
que, não por vista, mas por som é noto
de um regato que por ali descende
da boca de um rebordo pedregoso
rói o corso que faz e pouco pende.
Nesse caminho pouco luminoso
entrámos por voltar ao claro mundo;
e sem cuidar de ter algum repouso,
subimos, antes ele e eu segundo,
tanto que eu vi enfim as cousas belas
que tem o céu, por um buraco ao fundo;
e saímos voltando a ver estrelas.

A Divina Comédia, Dante Alighieri, Canto XXXIV Tradução de Vasco Graça Moura, Quetzal

Post it: Se vais deixar a leitura da Divina Comédia a meio durante vários meses, talvez não seja boa ideia fazê-lo enquanto ainda estiveres no Inferno.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Diário de bordo #1


Latitude 39 12' 26 N
Longitude 9 8' 4 E

Daqui de onde vos escrevo, sentada na chaise long philippe starck que mandei instalar na zona Sul do convés, vê-se a Sardenha.
Não escondo que quando há cerca de dez dias abandonámos uma famosa marina Algarvia para dar início a esta aventura, tinha em mente um programa mais agressivo. De acordo com os meus planos, por esta altura, já deveríamos ter abordado pelo menos três iates de luxo, feito reféns os proprietários e sido notícia de abertura de oito telejornais.
No entanto, depois de dois dias de navegação e alguns mojitos (sou suficientemente segura da minha condição de pirata para não me obrigar a beber rum em exclusividade) perdi a pressa de aterrorizar pessoas e tornar-me dona dos mares e anuí democraticamente à vontade da maioria da minha tripulação, que parece estar mais inclinada para o ócio de um cruzeiro de luxo do que para o afã da vida de pirata.
Até os ex presidiários, logo que entrámos em águas espanholas, perderam o seu ar agressivo e revoltado e saltaram dos camarotes para o convés armados com coloridos calções billabong e toalhinha na mão, deitando-se ao sol, cada um a ler o seu policial preferido.
De todos, o grupo dos bloguers convidados, é o que parece menos empenhado em entregar-se ao domínio dos mares. Depois de terem descoberto que apanhavam wireless free no cimo do mastro, é vê-los a fazer fila, de portátil e iPad debaixo do braço com a desculpa da necessidade de actualização dos blogues e moderação de comentários. Pior do que isto, são aqueles que andam pelo navio a fazer sessões fotográficas estranhíssimas, monopolizando os serviços de Andrihiminir, o cozinheiro pirata, que há mais de cinco dias não me serve o almoço a horas.
Penso que isto deve ser uma fase de habituação à vida dos mares e que daqui a uns dias a sua natureza sedenta de sangue e horror fará com que se fartem das férias e se decidam a atacar alguma coisa que não lagostas e sangria de champanhe.
Organizei um referendo sobre uma eventual curta estadia na Sardenha, esperançada que o não ganhasse e eu pudesse conciliar a reputação de capitã respeitadora dos princípios democráticos com a minha vontade de continuar a navegar. Os bloggers, mais uma vez os bloggers, fizeram campanha pelo sim e com argumentos tão desprezíveis como a necessidade de levar para casa recuerdos da Sardenha, conseguiram convencer o resto da tripulação a pernoitar aqui para comprar ímans para o frigorífico, postais com fotografias tiradas há mais de vinte anos e t-shirts a dizer i love Sardenha.
A única parte positiva deste acostamento na Sardenha é que mesmo sem assaltar ninguém, estamos fartos de ganhar dinheiro. Queria acreditar que as pessoas nos vêm entregar as notas que têm na carteira por a isso se sentirem coagidas perante a mera visão da nossa assustadora bandeira. Infelizmente, uma réstia de realismo, diz-me que, com toda a probabilidade, essa aparente rendição, se deve ao facto de, ao verem o nosso estranho grupo aportar armado de pernas de pau, chapéus, espadas, tapa olhos e lenços coloridos, nos confundirem com uma qualquer espécie de navio circense. 

Da ancestral arte da messalinagem



domingo, 11 de agosto de 2013

Quarenta graus à sombra e uma pedra de gelo deslocada




Há momentos em que conseguimos esquecer-nos que um dos dois engoliu de um trago o destino que os deuses nos cozinharam. Por instantes, os últimos anos desmaiados na memória, como o pesadelo da madrugada que assoma, já leve e quase doce, no final da tarde seguinte.
Com lisboa ali em baixo, a rir-se, tu estendes-me a mão e eu entrego-te a minha. No reflexo do cão que dá a pata ao dono. Não chego a derrubar o gin. Fiz este gesto milhões de vezes. Sou uma profissional na arte de te devolver as mãos. Lisboa ri-se. E nós rimo-nos e toda a gente se ri. Como se o mundo inteiro pudesse encontrar alívio num entrelaçar de dedos. Aqueles de onde o sol de vários anos se entreteve a apagar marcas de aliança.
Ou talvez o alívio seja apenas meu. Enquanto mergulho na ilusão de que entre o antes e o agora nunca existiu nenhuma outra forma de vida humana, o meu coração bate ao ritmo do teu e o mundo volta a ser o lugar que nunca poderia deixar de ter sido.
Mas o instante é sempre demasiado breve. Antes que o gelo derreta no copo, mesmo antes que a minha mão se incendeie na tua, surge na linha do horizonte a nuvem de areia que denuncia a natureza das miragens.
Lá em baixo Lisboa mas na minha retina o deserto onde um nós abandonou o outro. O tempo, o calor e o cansaço apagaram do chão o rasto da culpa. Porém, mil anos não serão suficientes para dissolver da minha boca o gosto da areia.
Dizes-me que não teremos mil anos.
Somos os restos de um jardim roído pelas ervas daninhas de um ecossistema estrangeiro.
Digo-te que não deverias ter deixado o portão aberto.
Se o esquecimento perdurasse, se fosse possível recuperar a inocência, se houvesse lixívia que lavasse esta mancha...a vida seria infinitamente mais bela.



quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Ibn Batutta, em 1367, a falar sobre mim

"Durante as minhas viagens que ainda não terminaram - só o Insondável sabe o que eu procuro e se algum dia haverei de encontrá-lo -, conheci três espécies de viajantes: primeiro, os piedosos peregrinos. Que o Generoso vele por eles. Depois vêm os serenos comerciantes que seguem a pista das caravanas. Que o Perfeito cuide dos seus bens e os multiplique. E finalmente estão aqueles que suspiram contemplando o indefinível  horizonte do mar. Estranhos homens sem apego aos bens que Alá lhes dispensa. Preferem depender da sua vontade durante as aterradoras tormentas a desfrutar da amorosa hospitalidade do bazar. As suas almas encontram maior sossego no pavoroso rugir do vento do que na piedosa voz do imã anunciando o tempo de oração do alto do minarete. Que o Misericordioso alivie as suas penas, e as minhas, porque a estes sinto-os como meus irmãos..."

Nome de Toureiro, Luís Sepúlveda, Porto Editora, pg. 92.

Sepúlveda envia-me recados sobre o meu exílio

"Exila-se o que apenas conheceu um dos lados da medalha e que leva os seus erros para além de onde os aprendeu, mas o que atravessou todo o túnel descobrindo que os dois extremos são escuros deixa-se ficar preso, colado como uma mosca à fita impregnada de mel. A luz não existia. Não foi mais que uma invenção acalorada, e a claridade ortopédica do lugar que habitas diz-te que vives num território sem saída e que cada ano que passa, em vez de te entregar serenidade, sabedoria, astúcia, para tentar a fuga se transforma em mais um elo da corrente que te amarra. E podes movimentar-te, ou acreditar que sim, avançar em qualquer direção, mas as fronteiras ir-se-ão também afastando em progressão geométrica ao comprimento dos teus passos".

In, Nome de Toureiro, Luís Sepúlveda, Porto Editora.


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

içar âncoras!




Falhámos a partida projectada para a última lua cheia por razões que se prendem com o facto de, nessa noite, eu ainda estar sequestrada no porão do meu navio a tentar controlar uma rebelião a bordo. Recuso-me a falar sobre esse episódio que poderia ter manchado para sempre a minha reputação de terrorista dos mares  se não se desse o caso, que se dá, de ter decidido que nunca aconteceu. Todos os navios Piratas precisam de um tabu e, depois de uma ponderada análise de dez segundos, concluí que este é tão bom como outro qualquer. 
Reescrita assim a história, decidi fazer constar das crónicas que, na última semana, estive antes de férias em S. Petersburgo.
Partiremos no domingo.
Como bem me lembrou Gualtiero, o italiano, é desnecessário esperar pela lua cheia para iniciar a viagem quando a embarcação está equipada com moderníssimos sistemas GPS e e cada um de nós tem, no seu próprio iPhone, uma bússola ao dispor. 
Ainda argumentei com a necessidade de impedir que o romantismo continue a perder para a tecnologia, mas a possibilidade real de os senhores do leasing me arrestarem o navio cujas prestações nunca paguei, fez-me deixar de veleidades lunares. 
Por sorte, ainda ninguém se lembrou de me perguntar para onde é que partimos… 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Em trânsito...

Para nós, os itinerantes, férias de luxo são aquelas que se conseguem passar em casa.

O silêncio é o ruído bom

Às vezes, tudo aquilo que precisamos é de silêncio. Essa especial forma de silêncio que fica no ruído permanente que produzem duas crianças e um cão.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Nota Para Não Escrever



Se o conhecimento é uma forma de escrita, mesmo sem palavras, uma respiração calada, a narrativa que o silêncio faz de si mesmo, então não se deve escrever, nem mesmo admitindo que fazê-lo seria o reconhecimento do conhecimento. Pode escrever-se acerca do silêncio, porque é um modo de alcançá-lo, embora impertinente. Pode também escrever-se por asfixia, porque essa não é maneira de morrer. Pode escrever-se ainda por ilusão criminal: às vezes imagina-se que uma palavra conseguirá atingir mortalmente o mundo. A alegria de um assassinato enorme é legítima, se embebeda o espírito, libertando-o da melancolia da fraternidade universal. Mas se apesar de tudo se escrever, escreva-se sempre para estar só. A escrita afasta concretamente o mundo. Não é o melhor método, mas é um. Os outros requerem uma energia espiritual que suspeita do próprio uso da escrita, como a religiosidade suspeita da religião e o demonismo da demonologia. A escrita - inferior na ordem dos actos simbólicos - concilia-se mal com a metamorfose interior - finalidade e símbolo, ela mesma, da energia espiritual. O espírito tende a transformar o espírito, e transforma-o. O resultado é misterioso. O resultado da escrita, não.
Herberto Helder, in 'Photomaton & Vox'

terça-feira, 16 de julho de 2013

Das origens do tráfico de estupefacientes

“29E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento.
30E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi.
31E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.”

Excerto de: Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil. “Bíblia Sagrada.” Fábio Medeiros. iBooks. 
https://itunes.apple.com/pt/book/biblia-sagrada/id575058767?mt=11

sábado, 13 de julho de 2013

Gualtiero, o Italiano





Os ex-reclusos contratados para Piratas chegaram ontem à noite ao navio e, por razões que não consigo de forma alguma compreender, insistem em ficar discretamente recolhidos nas suas camaratas, dizendo que até sairmos de águas nacionais não estão interessados em ver a paisagem. A única justificação que me ocorre para esta atitude é que estejam a atravessar uma fase de "desmame", numa progressiva habituação à liberdade. Ainda pensei em confirmar esta ideia através dessa ciência útil e séria que é a psicologia mas depois lembrei-me que, no dia em que me mudei para o navio e decidi só trazer o essencial, a primeira coisa que queimei na grande fogueira que fiz lá no jardim do condomínio privado onde vivia foram todos os meus livros de psicologia. Arderam lindamente, por sinal.
Para evitar lidar diretamente com o grupo dos ex-reclusos; não ser obrigada a decorar-lhes os nomes e poupar-me os incómodos das relações humanas (para isso já me bastam as crises de prima dona do Andhrimnir, o cozinheiro Pirata), pedi-lhes que elegessem um porta voz.
O eleito chama-se Gualtiero, diz-se italiano e esta tarde sentámo-nos os dois na proa a almoçar um suportável bacalhau com natas feito na bimbi que fui obrigada a comprar a Andhrimnir, o cozinheiro Pirata.
Os italianos têm um incansável prazer em verbalizar coisas e, apesar do meu evidente desinteresse pela sua vida, passou as duas horas do almoço a debitar-me esta história:
Gualtiero, o Italiano, foi para Pirata aos dezoito anos para curar um desgosto de amor por uma tal de Imogene. Uma certa madrugada, o navio onde pirateava naufragou (naufraga-se sempre de madrugada, toda a gente sabe) e ele acabou recolhido num castelo que, por força daquelas coincidências do destino que eu pensava que só me aconteciam a mim, pertencia à dita da Imogene e ao homem com quem esta, entretanto, se havia casado. Imogene, certamente uma intriguista a querer aproveitar-se do coração de ouro de Gualtiero, o Italiano, convenceu-o que só se casou com Ernesto sob coação e para salvar a vida do seu velho pai (nesta parte da história posso ter adormecido). 
Então, decidido a salvar a sua amada das garras do marido mau, Gualtiero desafiou Ernesto para um duelo e acabou por o matar, tendo-se entregue, sabe-se lá por que razões, à polícia portuguesa ali para os lados de Elvas. Foi condenado e preso e a parte mais trágica é que a ingrata Imogene, demasiado ocupada a administrar a fortuna que herdou de Ernesto, nem um mísero panetone lhe foi levar à prisão.
Enquanto ele secava as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto e eu contemplava a marina, imbuída de um profundo sentimento de simpatia por Imogene e já a congeminar uma forma de descobrir a morada desse tal castelo para lhe enviar um convite formal para esta empreitada, veio-me à memória uma certa noite passada no La Fenice, em Veneza, onde, pasme-se, vi encenada em palco, a vida do meu porta voz dos ex-reclusos, Gualtiero, o Italiano.
Foi disto que me lembrei:


Só fiquei um bocado confusa porque dizia-se no libretto que a ópera de Vincenzo Bellini, esse usurpador de histórias de vida dos meus piratas, estreou no Scala em 1827, o que faria de Gualtiero, o Italiano, o homem mais bem conservado de sempre.
Agora, assim a frio, penso que deve ter sido um lapso da gráfica.

lavar os dentes


O exercício diário de me esquecer de ti, que se aperfeiçoa dentro da máquina do tempo, exige-me a mesma energia irreflectida do gesto de lavar os dentes. 
Evita-se o amor com o afinco mecânico de quem evita uma cárie e pensa-se... se isto é possível, como pode a humanidade valer alguma coisa?

quarta-feira, 10 de julho de 2013

banda sonora da manhã

A cinco dias de casa


Lisboa.
Espero encontrá-la vazia, sufocante e tão esquizofrénica como de costume.

Fotografia de Hugo Augusto

sábado, 6 de julho de 2013

Pai afasta de mim esse cálice... de vinho tinto de sangue




(...)

"Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado.
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado permaneço atento
Na arquibancada, para a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa 

(...)
Talvez o mundo não seja pequeno
(cale-se)
Nem a vida um facto consumado
(cale-se)
Quero inventar o meu próprio pecado
(cale-se)
Quero morrer do meu próprio veneno
(cale-se)
Quero perder de vez a cabeça
(cale-se)
Minha cabeça perder teu juízo
(cale-se)
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
(cale-se)
Me embriagar até que alguém me esqueça
(cale-se)"

A culpa, claro, é do vento Sudoeste. 
De que adianta trancar portas e janelas e aprisionar-nos em casa, para nos protegermos a nós e aos outros de nós, quando se mantém o telefone e a internet? A sociedade conspira contra os loucos, especialmente os temporariamente loucos, dando-lhes meios de comunicação para que, em tempo real e à distância, espalhem a sua loucura. Mas não costuma ser cruel ao ponto de lhes dar também os meios para que, em tempo real e à distância, recebam o reflexo destrutivo dos efeitos da sua loucura.
Uma coisa é querer lançar o grito desumano de que fala a música e outra é, atordoado, permanecer atento a ver emergir o monstro da lagoa. 
Mandam as regras da psicopatia moderada que quando se ateia um fogo não se lhe fique a assistir sentado no sofá da sala. 
Mas como é que se pode prever que, depois de a loucura nos fazer perder a guerra do silêncio, quando se levantam os olhos do telefone, a pessoa a quem se acabou de enviar a mensagem esteja em direto na televisão, a recebê-la? 
Como é que nos podemos proteger, a nós e aos outros, desta verdade, instantânea, indisfarçada, obscenamente intrusiva, irrevogável? 

Ainda falta um dia para o vento virar a Oeste.
(cale-se)






O vento sudoeste 2

Tenho que estar aqui fechada em casa, às escuras e com as janelas fechadas, à espera que o vento que traz a loucura desapareça.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

hey oohhh!!!!


Apesar de só eu, Andhrimnir (o cozinheiro viking), o meu cão e Polly (o papagaio emprestado), ocuparmos o navio, uma boa parte da tripulação já está contratada. 
Fui perentória na recusa de gente que se identificou como descendente de Barbarossa, Francis Drake, Calico Jack, Henry Morgan, Bartolomeu Roberts, Ching Shih e mesmo Anne Bonney, que, com a clarividência de uma simples frase, me deu a coragem necessária para mudar de vida e liderar este projeto conjunto de difusão do terror pelos mares do mundo.
As razões para a recusa prendem-se com a minha insistência em fazer da meritocracia a regra predominante da nossa futura comunidade. Na verdade, será a única regra. Pensei muito nisto e concluí que, como seremos todos fora-da-lei, seria absurdo e inútil criar regras já que ninguém teria legitimidade natural, nem paciência, para as fazer aplicar. Além do mais, seria um dispêndio de tempo, meios e energia que só serviria para nos distrair dos nossos objetivos.
Assim, de cada um, será apenas esperado que faça aquilo que sabe e gosta, sendo que todos temos em comum, saber aterrorizar pessoas e gostar de dominar os mares e o mundo. 
(A exceção será Andhminir que, agora que fui obrigada a gastar mil euros para lhe comprar uma bimbi, queira ou não queira, há-de ser cozinheiro até ao fim).
A tripulação até agora inscrita é constituída por dezasseis homens, oito dos quais ex-reclusos, ou que assim o serão logo que conseguirem fugir dos respetivos estabelecimentos prisionais, quatro mulheres, um cão snob que sabe dizer Kierkegaard, uma cadela vip e fashionista, uma gatinha impositiva que adota pessoas e um papagaio emprestado. Não aceitaremos ratos de espécie nenhuma.
Não consegui recrutar um anão para assegurar a quota das minorias mas, considerando que eu própria tenho pouco mais de metro e meio, se houver chatices com uma das centenas de comissões para a igualdade, resolvo o problema descalçando-me.
Como a vida de capitão-Pirata em regime de permanência é desgastante, e eu preciso de tempo para apanhar banhos de sol na proa, convidei uma espécie de amigo para assegurar as funções de capitão-Pirata em part time. Espero que aceite.
Levantaremos amarras na próxima lua cheia, na calada da noite, para não levantar suspeitas aos senhores da empresa de leasing que fizeram o favor de me financiar a embarcação.




O vento sudoeste


Hoje acordámos todos loucos. 
Com os primeiros raios de sol, os gritos histéricos das gaivotas rebentaram-me no peito e incendiaram-me com a incerteza se vinham de fora ou nasciam por dentro. Vi os meus dedos dos pés retorcidos de unhas vermelho sangue e o espelho da casa de banho devolveu-me a miúda de franja que devo ter sido aos dez anos de idade. Ficou sentada no cesto da roupa suja a olhar para mim com desdém. 
Ainda antes de abrir a porta, o vento entrou pelo buraco da fechadura e fez bater todas as janelas da casa que se transformaram em mariposas de vidros blindados a esvoaçar de encontro à liberdade.
Lá fora, o vento já tinha levado os chapéus das esplanadas e trazido o lixo dos homens que se lhes enrolou à volta dos sapatos como se fosse uma cauda gigante composta por todas as coisas que se querem esquecer. As crianças gritavam de horror, talvez com desdém dos rostos sem franja que se tornarão daqui a poucos anos. Passei por um grupo de pessoas que se contorcia de encontro aos postes da eletricidade e entrei no café de todos os dias, fazendo um esforço para esconder os dedos dos pés ainda retorcidos. Serviram-me um chá a escaldar na concha da mão.
Entrei na garagem do edifício onde gasto os dias, fazendo, por pudor, um esforço para não ver ninguém. Mas pelo canto do olho, apercebi-me que havia homens pendurados nos candeeiros e mulheres com a pele dos braços arrancada e apenas um olho pintado.
Dentro do meu gabinete as persianas gemiam ao ritmo do vento como carpideiras debruçadas sobre caixões abertos. Tentei fechar as janelas para me livrar de todos os sons e da miúda da franja, a olhar para mim com desdém. Mas o vento fez-me refém dessa cauda feita do lixo que se quer esquecer.
Salvou-me o meu secretário, homem do mar e conhecedor dos mistérios da vida, que, com os olhos postos nos meus dedos dos pés, ainda retorcidos, apressou-se a explicar-me.
- É o vento sudoeste, Senhora. Não ligue. Vamos andar todos loucos durante três dias.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Alienação de sobrevivência


É incrível como há uma série de coisa que perdem completamente o sentido depois de três ou quatro meses sem televisão. Gaspar era o marido da minha professora primária; Coelho uma figura patusca lá na minha universidade; Tó Zé o namorado que uma prima trocou por um qualquer Bernardo. 
Não sei porque é que agora todos insistem em falar desta gente ao almoço e também não imagino o que possam ter a ver com as taxas de juro.