quinta-feira, 22 de agosto de 2013

"Oh you'll never see my shade or hear the sound of my feet while there's a moon over bourbon street"




Há quem faça tatuagens para cobrir as anteriores. Aquelas que a pele já não consegue suportar.

Há quem rasure as memórias diretamente no calendário. Criando novas efemérides para colar por cima das antigas.

Caiu um ano. 

Diz-se que, lá longe, a data foi comemorada com um concerto de jazz derramado sobre uma praia que é minha.
Uma multidão de surdos aplaudiu de pé o sacrilégio que até a lua se recusou a iluminar.
A lua, está sempre comigo. Também me pertence.

"She walks everyday through the streets of New Orleans
She's innocent and young from a family of means
I have stood many times outside her window at night
To struggle with my instinct in the pale moon light
How could I be this way when I pray to God above
I must love what I destroy and destroy the thing I love
Oh you'll never see my shade or hear the sound of my feet
While there's a moon over Bourbon Street"

Amar o que se destrói e destruir o que se ama, antes de ser um verso desta música, já era a incontornável sina dos cobardes.


domingo, 18 de agosto de 2013

the after the afterlife




enquanto o sol de Lisboa me aquecer os pés, enquanto houver regaee no cimo de telhados com vista para o Tejo, enquanto a hortelã se dissolver no gelado de limão, enquanto os gatos se espreguiçarem, enquanto existir o rasto de um veleiro, enquanto as nuvens tiverem formas de pássaro, enquanto souber comover-me com um verso…


quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Café da manhã


A cigana oferece-me a possibilidade de comprar uma mala igualzinha àquela que carrego por apenas quarenta euros. Diz que é uma imitação de qualidade superior à minha, original, mal acabada.
A dona Graça está triste. Partiu-lhe há uma semana para a Alemanha a filha mais nova. O mais velho já se tinha ido para Angola no ano passado e este verão nem sequer voltou para ver a família. Tem uma nova namorada. Angolana. A dona Graça não está entusiasmada com a possibilidade abstrata de ter netos de tez escura. Conta à amiga que agora vê a filha através do ecrã do computador numa coisa que se chama skip, como o detergente para a roupa. Aprendeu na universidade sénior, onde se fornecem às pessoas as ferramentas essenciais a manter uma janela aberta para o coração dos filhos. Que emigram.
Este bairro está cheio de velhos. Antes as casas eram escandalosamente caras porque os filhos pagavam o que fosse necessário para continuarem a viver aqui. Compravam os eletrodomésticos na loja da esquina, porque embora fossem mais caros do que nas cadeias dos centros comerciais, o senhor Manel ia lá a casa entregar e montava tudo. Não tinham que se preocupar com nada. Agora foram-se embora, não para o outro lado da cidade, mas para o outro lado do hemisfério. E o senhor Manel está a pensar em vender a loja aos chineses da rua principal. Quando se render, teremos a terceira loja de chineses no mesmo quarteirão.
A amiga da dona Graça não parece acreditar nisso de se verem as pessoas no ecrã do computador. De computadores, só sabe que tinha dinheiro guardado na lata das bolachas para comprar um ao neto, mas teve que o gastar numa operação às varizes que, no serviço nacional de saúde, demoraria mais anos do que aqueles que presumivelmente lhe restam.
A cigana regressa com uns óculos ray ban a cinco euros e explica-me que tem mesmo que vender alguma coisa. O marido está novamente preso e há umas senhoras da assistência que lhe querem tirar a filha mais nova. Digo-lhe que esteja descansada, que toda a gente sabe que o sistema não tira filhos aos ciganos. Olha-me ligeiramente ofendida.  
Do outro lado da esplanada, o maluco de serviço grita alto para quem o quer ouvir que precisa arranjar uma pistola, calibre 38, para assassinar o primeiro ministro. Explica com detalhes os efeitos que um bala de calibre 38 provoca na cabeça da vítima. As pessoas da esplanada não parecem chocadas. O maluco diz que o problema é que o melhor local para arranjar essas armas é a esquadra da polícia. E que, para isso, precisava de duas metralhadoras. Parece-me um beco sem saída. A esperança dos velhos da esplanada esmorece.
O senhor Fernando, apanhando o balanço do maluco, diz que o governo está cheio de gatunos e faz as contas ao que já lhe roubaram da reforma. Quase não chega para pagar o lar onde tiveram que internar a mulher depois do último AVC. A filha já tem dois empregos para suportar a prestação do andar que comprou, caríssimo, naquele bairro, e não tem vida para cuidar da mãe. Encolhe os ombros e diz que com o dinheiro que gasta no lar até podia ir de férias para as Caraíbas. É a vida da mulher entrevada e agarrada à cama, contra um mergulho numa praia de areias brancas e águas azuis.
O maluco diz que qualquer pessoa pode ir de férias para as Caraíbas. Acabou de chegar da agência bancária ali ao lado e viu umas pessoas vestidas de verde a descarregar sacos de dinheiro.
Os olhos dos velhos brilham. Sacos e sacos e sacos de dinheiro. Só precisava de uma pistola de calibre 38. Ia para as Caraíbas e nunca mais regressava.
A cigana diz que a culpa é toda dos tribunais. Se não deixam o marido traficar, como esperam que sustente os filhos?
Noutros tempos, os velhos teriam mandado o maluco calar-se. 
Mas hoje, com a imagem dos sacos de dinheiro ali ao lado, fiquei com a sensação que, cada um dos velhos, recordou com nostalgia aquele escombro de pistola que trouxe do ultramar, ou que herdou do avô e que, num gesto de boa vontade e respeito pela lei, entregou voluntariamente na esquadra do fundo.
Voltei para casa a pensar que a classe política deveria frequentar mais esta esplanada.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

À saída do Inferno

(...) "Pensas nesta altura
que estás além do centro onde eu prendia
a pele ao verme vil que o mundo fura.
De lá tu foste enquanto eu me descia;
mas quando me voltei tinhas passado
ponto que a todo o peso atrai a via.
E ao hemisfério ora te eis chegado
oposto ao que recobre a grande seca,
sob o tecto da qual sacrificado
foi quem nasceu, viveu e em nada peca;
os pés tens postos na pequena esfera
que a outra face faz de ti Judeca.
Se é cá manhã, já lá anoitecera:
e este que a nós co pêlo escada deu,
tão cravado inda está como antes era.
Desta parte tombou vindo do céu;
e a terra que aqui antes se estendia,
do medo que lhe vem fez do mar véu,
vindo ao nosso hemisfério; e então seria
que fugindo, lhes esvaziou ignoto
lugar a que ali vês e que acendia."
Há um lugar a Belzebu remoto
tanto quanto esta gruta já se estende,
que, não por vista, mas por som é noto
de um regato que por ali descende
da boca de um rebordo pedregoso
rói o corso que faz e pouco pende.
Nesse caminho pouco luminoso
entrámos por voltar ao claro mundo;
e sem cuidar de ter algum repouso,
subimos, antes ele e eu segundo,
tanto que eu vi enfim as cousas belas
que tem o céu, por um buraco ao fundo;
e saímos voltando a ver estrelas.

A Divina Comédia, Dante Alighieri, Canto XXXIV Tradução de Vasco Graça Moura, Quetzal

Post it: Se vais deixar a leitura da Divina Comédia a meio durante vários meses, talvez não seja boa ideia fazê-lo enquanto ainda estiveres no Inferno.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Diário de bordo #1


Latitude 39 12' 26 N
Longitude 9 8' 4 E

Daqui de onde vos escrevo, sentada na chaise long philippe starck que mandei instalar na zona Sul do convés, vê-se a Sardenha.
Não escondo que quando há cerca de dez dias abandonámos uma famosa marina Algarvia para dar início a esta aventura, tinha em mente um programa mais agressivo. De acordo com os meus planos, por esta altura, já deveríamos ter abordado pelo menos três iates de luxo, feito reféns os proprietários e sido notícia de abertura de oito telejornais.
No entanto, depois de dois dias de navegação e alguns mojitos (sou suficientemente segura da minha condição de pirata para não me obrigar a beber rum em exclusividade) perdi a pressa de aterrorizar pessoas e tornar-me dona dos mares e anuí democraticamente à vontade da maioria da minha tripulação, que parece estar mais inclinada para o ócio de um cruzeiro de luxo do que para o afã da vida de pirata.
Até os ex presidiários, logo que entrámos em águas espanholas, perderam o seu ar agressivo e revoltado e saltaram dos camarotes para o convés armados com coloridos calções billabong e toalhinha na mão, deitando-se ao sol, cada um a ler o seu policial preferido.
De todos, o grupo dos bloguers convidados, é o que parece menos empenhado em entregar-se ao domínio dos mares. Depois de terem descoberto que apanhavam wireless free no cimo do mastro, é vê-los a fazer fila, de portátil e iPad debaixo do braço com a desculpa da necessidade de actualização dos blogues e moderação de comentários. Pior do que isto, são aqueles que andam pelo navio a fazer sessões fotográficas estranhíssimas, monopolizando os serviços de Andrihiminir, o cozinheiro pirata, que há mais de cinco dias não me serve o almoço a horas.
Penso que isto deve ser uma fase de habituação à vida dos mares e que daqui a uns dias a sua natureza sedenta de sangue e horror fará com que se fartem das férias e se decidam a atacar alguma coisa que não lagostas e sangria de champanhe.
Organizei um referendo sobre uma eventual curta estadia na Sardenha, esperançada que o não ganhasse e eu pudesse conciliar a reputação de capitã respeitadora dos princípios democráticos com a minha vontade de continuar a navegar. Os bloggers, mais uma vez os bloggers, fizeram campanha pelo sim e com argumentos tão desprezíveis como a necessidade de levar para casa recuerdos da Sardenha, conseguiram convencer o resto da tripulação a pernoitar aqui para comprar ímans para o frigorífico, postais com fotografias tiradas há mais de vinte anos e t-shirts a dizer i love Sardenha.
A única parte positiva deste acostamento na Sardenha é que mesmo sem assaltar ninguém, estamos fartos de ganhar dinheiro. Queria acreditar que as pessoas nos vêm entregar as notas que têm na carteira por a isso se sentirem coagidas perante a mera visão da nossa assustadora bandeira. Infelizmente, uma réstia de realismo, diz-me que, com toda a probabilidade, essa aparente rendição, se deve ao facto de, ao verem o nosso estranho grupo aportar armado de pernas de pau, chapéus, espadas, tapa olhos e lenços coloridos, nos confundirem com uma qualquer espécie de navio circense. 

Da ancestral arte da messalinagem



domingo, 11 de agosto de 2013

Quarenta graus à sombra e uma pedra de gelo deslocada




Há momentos em que conseguimos esquecer-nos que um dos dois engoliu de um trago o destino que os deuses nos cozinharam. Por instantes, os últimos anos desmaiados na memória, como o pesadelo da madrugada que assoma, já leve e quase doce, no final da tarde seguinte.
Com lisboa ali em baixo, a rir-se, tu estendes-me a mão e eu entrego-te a minha. No reflexo do cão que dá a pata ao dono. Não chego a derrubar o gin. Fiz este gesto milhões de vezes. Sou uma profissional na arte de te devolver as mãos. Lisboa ri-se. E nós rimo-nos e toda a gente se ri. Como se o mundo inteiro pudesse encontrar alívio num entrelaçar de dedos. Aqueles de onde o sol de vários anos se entreteve a apagar marcas de aliança.
Ou talvez o alívio seja apenas meu. Enquanto mergulho na ilusão de que entre o antes e o agora nunca existiu nenhuma outra forma de vida humana, o meu coração bate ao ritmo do teu e o mundo volta a ser o lugar que nunca poderia deixar de ter sido.
Mas o instante é sempre demasiado breve. Antes que o gelo derreta no copo, mesmo antes que a minha mão se incendeie na tua, surge na linha do horizonte a nuvem de areia que denuncia a natureza das miragens.
Lá em baixo Lisboa mas na minha retina o deserto onde um nós abandonou o outro. O tempo, o calor e o cansaço apagaram do chão o rasto da culpa. Porém, mil anos não serão suficientes para dissolver da minha boca o gosto da areia.
Dizes-me que não teremos mil anos.
Somos os restos de um jardim roído pelas ervas daninhas de um ecossistema estrangeiro.
Digo-te que não deverias ter deixado o portão aberto.
Se o esquecimento perdurasse, se fosse possível recuperar a inocência, se houvesse lixívia que lavasse esta mancha...a vida seria infinitamente mais bela.



quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Ibn Batutta, em 1367, a falar sobre mim

"Durante as minhas viagens que ainda não terminaram - só o Insondável sabe o que eu procuro e se algum dia haverei de encontrá-lo -, conheci três espécies de viajantes: primeiro, os piedosos peregrinos. Que o Generoso vele por eles. Depois vêm os serenos comerciantes que seguem a pista das caravanas. Que o Perfeito cuide dos seus bens e os multiplique. E finalmente estão aqueles que suspiram contemplando o indefinível  horizonte do mar. Estranhos homens sem apego aos bens que Alá lhes dispensa. Preferem depender da sua vontade durante as aterradoras tormentas a desfrutar da amorosa hospitalidade do bazar. As suas almas encontram maior sossego no pavoroso rugir do vento do que na piedosa voz do imã anunciando o tempo de oração do alto do minarete. Que o Misericordioso alivie as suas penas, e as minhas, porque a estes sinto-os como meus irmãos..."

Nome de Toureiro, Luís Sepúlveda, Porto Editora, pg. 92.

Sepúlveda envia-me recados sobre o meu exílio

"Exila-se o que apenas conheceu um dos lados da medalha e que leva os seus erros para além de onde os aprendeu, mas o que atravessou todo o túnel descobrindo que os dois extremos são escuros deixa-se ficar preso, colado como uma mosca à fita impregnada de mel. A luz não existia. Não foi mais que uma invenção acalorada, e a claridade ortopédica do lugar que habitas diz-te que vives num território sem saída e que cada ano que passa, em vez de te entregar serenidade, sabedoria, astúcia, para tentar a fuga se transforma em mais um elo da corrente que te amarra. E podes movimentar-te, ou acreditar que sim, avançar em qualquer direção, mas as fronteiras ir-se-ão também afastando em progressão geométrica ao comprimento dos teus passos".

In, Nome de Toureiro, Luís Sepúlveda, Porto Editora.


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

içar âncoras!




Falhámos a partida projectada para a última lua cheia por razões que se prendem com o facto de, nessa noite, eu ainda estar sequestrada no porão do meu navio a tentar controlar uma rebelião a bordo. Recuso-me a falar sobre esse episódio que poderia ter manchado para sempre a minha reputação de terrorista dos mares  se não se desse o caso, que se dá, de ter decidido que nunca aconteceu. Todos os navios Piratas precisam de um tabu e, depois de uma ponderada análise de dez segundos, concluí que este é tão bom como outro qualquer. 
Reescrita assim a história, decidi fazer constar das crónicas que, na última semana, estive antes de férias em S. Petersburgo.
Partiremos no domingo.
Como bem me lembrou Gualtiero, o italiano, é desnecessário esperar pela lua cheia para iniciar a viagem quando a embarcação está equipada com moderníssimos sistemas GPS e e cada um de nós tem, no seu próprio iPhone, uma bússola ao dispor. 
Ainda argumentei com a necessidade de impedir que o romantismo continue a perder para a tecnologia, mas a possibilidade real de os senhores do leasing me arrestarem o navio cujas prestações nunca paguei, fez-me deixar de veleidades lunares. 
Por sorte, ainda ninguém se lembrou de me perguntar para onde é que partimos… 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Em trânsito...

Para nós, os itinerantes, férias de luxo são aquelas que se conseguem passar em casa.

O silêncio é o ruído bom

Às vezes, tudo aquilo que precisamos é de silêncio. Essa especial forma de silêncio que fica no ruído permanente que produzem duas crianças e um cão.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Nota Para Não Escrever



Se o conhecimento é uma forma de escrita, mesmo sem palavras, uma respiração calada, a narrativa que o silêncio faz de si mesmo, então não se deve escrever, nem mesmo admitindo que fazê-lo seria o reconhecimento do conhecimento. Pode escrever-se acerca do silêncio, porque é um modo de alcançá-lo, embora impertinente. Pode também escrever-se por asfixia, porque essa não é maneira de morrer. Pode escrever-se ainda por ilusão criminal: às vezes imagina-se que uma palavra conseguirá atingir mortalmente o mundo. A alegria de um assassinato enorme é legítima, se embebeda o espírito, libertando-o da melancolia da fraternidade universal. Mas se apesar de tudo se escrever, escreva-se sempre para estar só. A escrita afasta concretamente o mundo. Não é o melhor método, mas é um. Os outros requerem uma energia espiritual que suspeita do próprio uso da escrita, como a religiosidade suspeita da religião e o demonismo da demonologia. A escrita - inferior na ordem dos actos simbólicos - concilia-se mal com a metamorfose interior - finalidade e símbolo, ela mesma, da energia espiritual. O espírito tende a transformar o espírito, e transforma-o. O resultado é misterioso. O resultado da escrita, não.
Herberto Helder, in 'Photomaton & Vox'

terça-feira, 16 de julho de 2013

Das origens do tráfico de estupefacientes

“29E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento.
30E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi.
31E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.”

Excerto de: Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil. “Bíblia Sagrada.” Fábio Medeiros. iBooks. 
https://itunes.apple.com/pt/book/biblia-sagrada/id575058767?mt=11

sábado, 13 de julho de 2013

Gualtiero, o Italiano





Os ex-reclusos contratados para Piratas chegaram ontem à noite ao navio e, por razões que não consigo de forma alguma compreender, insistem em ficar discretamente recolhidos nas suas camaratas, dizendo que até sairmos de águas nacionais não estão interessados em ver a paisagem. A única justificação que me ocorre para esta atitude é que estejam a atravessar uma fase de "desmame", numa progressiva habituação à liberdade. Ainda pensei em confirmar esta ideia através dessa ciência útil e séria que é a psicologia mas depois lembrei-me que, no dia em que me mudei para o navio e decidi só trazer o essencial, a primeira coisa que queimei na grande fogueira que fiz lá no jardim do condomínio privado onde vivia foram todos os meus livros de psicologia. Arderam lindamente, por sinal.
Para evitar lidar diretamente com o grupo dos ex-reclusos; não ser obrigada a decorar-lhes os nomes e poupar-me os incómodos das relações humanas (para isso já me bastam as crises de prima dona do Andhrimnir, o cozinheiro Pirata), pedi-lhes que elegessem um porta voz.
O eleito chama-se Gualtiero, diz-se italiano e esta tarde sentámo-nos os dois na proa a almoçar um suportável bacalhau com natas feito na bimbi que fui obrigada a comprar a Andhrimnir, o cozinheiro Pirata.
Os italianos têm um incansável prazer em verbalizar coisas e, apesar do meu evidente desinteresse pela sua vida, passou as duas horas do almoço a debitar-me esta história:
Gualtiero, o Italiano, foi para Pirata aos dezoito anos para curar um desgosto de amor por uma tal de Imogene. Uma certa madrugada, o navio onde pirateava naufragou (naufraga-se sempre de madrugada, toda a gente sabe) e ele acabou recolhido num castelo que, por força daquelas coincidências do destino que eu pensava que só me aconteciam a mim, pertencia à dita da Imogene e ao homem com quem esta, entretanto, se havia casado. Imogene, certamente uma intriguista a querer aproveitar-se do coração de ouro de Gualtiero, o Italiano, convenceu-o que só se casou com Ernesto sob coação e para salvar a vida do seu velho pai (nesta parte da história posso ter adormecido). 
Então, decidido a salvar a sua amada das garras do marido mau, Gualtiero desafiou Ernesto para um duelo e acabou por o matar, tendo-se entregue, sabe-se lá por que razões, à polícia portuguesa ali para os lados de Elvas. Foi condenado e preso e a parte mais trágica é que a ingrata Imogene, demasiado ocupada a administrar a fortuna que herdou de Ernesto, nem um mísero panetone lhe foi levar à prisão.
Enquanto ele secava as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto e eu contemplava a marina, imbuída de um profundo sentimento de simpatia por Imogene e já a congeminar uma forma de descobrir a morada desse tal castelo para lhe enviar um convite formal para esta empreitada, veio-me à memória uma certa noite passada no La Fenice, em Veneza, onde, pasme-se, vi encenada em palco, a vida do meu porta voz dos ex-reclusos, Gualtiero, o Italiano.
Foi disto que me lembrei:


Só fiquei um bocado confusa porque dizia-se no libretto que a ópera de Vincenzo Bellini, esse usurpador de histórias de vida dos meus piratas, estreou no Scala em 1827, o que faria de Gualtiero, o Italiano, o homem mais bem conservado de sempre.
Agora, assim a frio, penso que deve ter sido um lapso da gráfica.

lavar os dentes


O exercício diário de me esquecer de ti, que se aperfeiçoa dentro da máquina do tempo, exige-me a mesma energia irreflectida do gesto de lavar os dentes. 
Evita-se o amor com o afinco mecânico de quem evita uma cárie e pensa-se... se isto é possível, como pode a humanidade valer alguma coisa?

quarta-feira, 10 de julho de 2013

banda sonora da manhã

A cinco dias de casa


Lisboa.
Espero encontrá-la vazia, sufocante e tão esquizofrénica como de costume.

Fotografia de Hugo Augusto

sábado, 6 de julho de 2013

Pai afasta de mim esse cálice... de vinho tinto de sangue




(...)

"Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado.
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado permaneço atento
Na arquibancada, para a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa 

(...)
Talvez o mundo não seja pequeno
(cale-se)
Nem a vida um facto consumado
(cale-se)
Quero inventar o meu próprio pecado
(cale-se)
Quero morrer do meu próprio veneno
(cale-se)
Quero perder de vez a cabeça
(cale-se)
Minha cabeça perder teu juízo
(cale-se)
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
(cale-se)
Me embriagar até que alguém me esqueça
(cale-se)"

A culpa, claro, é do vento Sudoeste. 
De que adianta trancar portas e janelas e aprisionar-nos em casa, para nos protegermos a nós e aos outros de nós, quando se mantém o telefone e a internet? A sociedade conspira contra os loucos, especialmente os temporariamente loucos, dando-lhes meios de comunicação para que, em tempo real e à distância, espalhem a sua loucura. Mas não costuma ser cruel ao ponto de lhes dar também os meios para que, em tempo real e à distância, recebam o reflexo destrutivo dos efeitos da sua loucura.
Uma coisa é querer lançar o grito desumano de que fala a música e outra é, atordoado, permanecer atento a ver emergir o monstro da lagoa. 
Mandam as regras da psicopatia moderada que quando se ateia um fogo não se lhe fique a assistir sentado no sofá da sala. 
Mas como é que se pode prever que, depois de a loucura nos fazer perder a guerra do silêncio, quando se levantam os olhos do telefone, a pessoa a quem se acabou de enviar a mensagem esteja em direto na televisão, a recebê-la? 
Como é que nos podemos proteger, a nós e aos outros, desta verdade, instantânea, indisfarçada, obscenamente intrusiva, irrevogável? 

Ainda falta um dia para o vento virar a Oeste.
(cale-se)






O vento sudoeste 2

Tenho que estar aqui fechada em casa, às escuras e com as janelas fechadas, à espera que o vento que traz a loucura desapareça.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

hey oohhh!!!!


Apesar de só eu, Andhrimnir (o cozinheiro viking), o meu cão e Polly (o papagaio emprestado), ocuparmos o navio, uma boa parte da tripulação já está contratada. 
Fui perentória na recusa de gente que se identificou como descendente de Barbarossa, Francis Drake, Calico Jack, Henry Morgan, Bartolomeu Roberts, Ching Shih e mesmo Anne Bonney, que, com a clarividência de uma simples frase, me deu a coragem necessária para mudar de vida e liderar este projeto conjunto de difusão do terror pelos mares do mundo.
As razões para a recusa prendem-se com a minha insistência em fazer da meritocracia a regra predominante da nossa futura comunidade. Na verdade, será a única regra. Pensei muito nisto e concluí que, como seremos todos fora-da-lei, seria absurdo e inútil criar regras já que ninguém teria legitimidade natural, nem paciência, para as fazer aplicar. Além do mais, seria um dispêndio de tempo, meios e energia que só serviria para nos distrair dos nossos objetivos.
Assim, de cada um, será apenas esperado que faça aquilo que sabe e gosta, sendo que todos temos em comum, saber aterrorizar pessoas e gostar de dominar os mares e o mundo. 
(A exceção será Andhminir que, agora que fui obrigada a gastar mil euros para lhe comprar uma bimbi, queira ou não queira, há-de ser cozinheiro até ao fim).
A tripulação até agora inscrita é constituída por dezasseis homens, oito dos quais ex-reclusos, ou que assim o serão logo que conseguirem fugir dos respetivos estabelecimentos prisionais, quatro mulheres, um cão snob que sabe dizer Kierkegaard, uma cadela vip e fashionista, uma gatinha impositiva que adota pessoas e um papagaio emprestado. Não aceitaremos ratos de espécie nenhuma.
Não consegui recrutar um anão para assegurar a quota das minorias mas, considerando que eu própria tenho pouco mais de metro e meio, se houver chatices com uma das centenas de comissões para a igualdade, resolvo o problema descalçando-me.
Como a vida de capitão-Pirata em regime de permanência é desgastante, e eu preciso de tempo para apanhar banhos de sol na proa, convidei uma espécie de amigo para assegurar as funções de capitão-Pirata em part time. Espero que aceite.
Levantaremos amarras na próxima lua cheia, na calada da noite, para não levantar suspeitas aos senhores da empresa de leasing que fizeram o favor de me financiar a embarcação.




O vento sudoeste


Hoje acordámos todos loucos. 
Com os primeiros raios de sol, os gritos histéricos das gaivotas rebentaram-me no peito e incendiaram-me com a incerteza se vinham de fora ou nasciam por dentro. Vi os meus dedos dos pés retorcidos de unhas vermelho sangue e o espelho da casa de banho devolveu-me a miúda de franja que devo ter sido aos dez anos de idade. Ficou sentada no cesto da roupa suja a olhar para mim com desdém. 
Ainda antes de abrir a porta, o vento entrou pelo buraco da fechadura e fez bater todas as janelas da casa que se transformaram em mariposas de vidros blindados a esvoaçar de encontro à liberdade.
Lá fora, o vento já tinha levado os chapéus das esplanadas e trazido o lixo dos homens que se lhes enrolou à volta dos sapatos como se fosse uma cauda gigante composta por todas as coisas que se querem esquecer. As crianças gritavam de horror, talvez com desdém dos rostos sem franja que se tornarão daqui a poucos anos. Passei por um grupo de pessoas que se contorcia de encontro aos postes da eletricidade e entrei no café de todos os dias, fazendo um esforço para esconder os dedos dos pés ainda retorcidos. Serviram-me um chá a escaldar na concha da mão.
Entrei na garagem do edifício onde gasto os dias, fazendo, por pudor, um esforço para não ver ninguém. Mas pelo canto do olho, apercebi-me que havia homens pendurados nos candeeiros e mulheres com a pele dos braços arrancada e apenas um olho pintado.
Dentro do meu gabinete as persianas gemiam ao ritmo do vento como carpideiras debruçadas sobre caixões abertos. Tentei fechar as janelas para me livrar de todos os sons e da miúda da franja, a olhar para mim com desdém. Mas o vento fez-me refém dessa cauda feita do lixo que se quer esquecer.
Salvou-me o meu secretário, homem do mar e conhecedor dos mistérios da vida, que, com os olhos postos nos meus dedos dos pés, ainda retorcidos, apressou-se a explicar-me.
- É o vento sudoeste, Senhora. Não ligue. Vamos andar todos loucos durante três dias.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Alienação de sobrevivência


É incrível como há uma série de coisa que perdem completamente o sentido depois de três ou quatro meses sem televisão. Gaspar era o marido da minha professora primária; Coelho uma figura patusca lá na minha universidade; Tó Zé o namorado que uma prima trocou por um qualquer Bernardo. 
Não sei porque é que agora todos insistem em falar desta gente ao almoço e também não imagino o que possam ter a ver com as taxas de juro.  

domingo, 30 de junho de 2013

Dói-me o estômago



Começo a desconfiar que Andhrimnir, como cozinheiro, pode ter sido um terrível erro de casting. Para dizer a verdade, quando o vi na rua, nas suas vestes de homem estátua Pirata, imóvel, rodeado por um bando de miúdos ingleses aterrorizados, fiquei tão entusiasmada que o recrutei imediatamente para a função que me fazia mais falta, sem quer me ocorrer perguntar-lhe se sabia cozinhar. 
Habituada às manias e desmandos dos chefes de cozinha, ainda esperei algumas refeições para lhe explicar que Nestum com mel não é propriamente aquilo que se espera de um cozinheiro Pirata num navio em contamos viver, se não no luxo, pelo menos, dentro dos parâmetros de uma elegância muito civilizada. 
Andhrimnir não ficou ofendido com as minhas reclamações, mas adiantou-me a justificação que eu mais temia. Veio para esta vida para torturar pessoas e, por enquanto, ainda só me tem a mim e ao papagaio e eu proibi-o de continuar a arrancar penas ao bicho emprestado (logo a seguir ao tribunal europeu dos direitos do homem, o que mais temo são as organizações de defesa dos direitos dos animais).
Obriguei-o a passar a manhã na cozinha a ensaiar as receitas do livro da Vaqueiro mas, quando me viu cuspir o resultado, atirou com um prato Vista Alegre ao chão e plantou-se no mastro, a fazer de estátua, de onde diz que só sai depois de eu lhe comprar uma bimbi. 
Não sei se aguento mais dois dias sem diretor de departamento de recursos humanos.
Raios partam os vikings. 

Comunicações Intergalácticas



Dizer-te que o verão chegou e grita-se bolas de Berlim com creme nas praias cheias e as pessoas, de alguma forma, parecem felizes assim esticadas na areia e entrincheiradas numa panóplia de coisas de plástico que carregam consigo debaixo do sol tórrido e por cima das solas dos pés escaldados. Se ao menos algum dia te tivesses lembrado de comprar um chapéu de sol, ou uma toalha de praia, que fosse, talvez tivesses engolido o mesmo apaziguamento. Não estou segura que não sejam essas coisas que salvam a vida às pessoas. Baldes encarnados com peixinhos a morrer lá dentro, conchas vazias em cima de uma toalha oferecida por uma marca de cosméticos e derme inflamada podem ser a receita que nos garante o cumprimento da obrigação de uma morte feita de causas naturais. 
Não sei se aí, onde te foste enfiar para te veres livre de nós, há verões de bolas de Berlim com creme ou se se vive uma irritante primavera eterna de vales verdejantes e coelhos brancos que nos vêm lamber os pés. Antes de morreres tinha a certeza que não havia nada, mas o nada é um local demasiado inóspito para se estar e agora sei que a fé é, sobretudo, uma matrícula na colónia de férias inventada que os homens pagam para terem para onde enviar os que já não cabem nos seus dias. 
Dizer-te, ainda, que se vai vivendo aqui em baixo. Toma-se banho e come-se e trabalha-se e ouve-se música e lêem-se livros e compram-se muitas coisas. Os ponteiros de todos os relógios vão dando várias voltas e os dias caem dos calendários e por mais que o tivesse tentado nem sequer consegui impedir o verão. 
- Espera dois meses que isso passa. 
Dir-me-ias em tom sério e com a expressão sisuda e antipática com que usavas afastar os meus momentos drama queen.
E, claro, terias razão. Esperar que o tempo passe sempre foi a principal actividade dos homens. 
Mas são aqueles que anseiam que o tempo lhes leve a memória que a praticam com maior angústia. 


sábado, 29 de junho de 2013

Superioridade moral




Laranja Mecânica (Clockwork orange, Stanley Kubrick, 1971), no seu equivalente  a visitas de estudo obrigatórias a Auschwitz por parte de uma certa direita alemã, é o filme que todos os insiders do sistema  judicial deveriam ter em casa e ser obrigados a rever anualmente, para que não lhes seja possível esquecer uma série de coisas que preferimos acreditar que já saibam, mas que a gestão quotidiana dos problemas tende a deixar esmorecer num perigoso segundo plano.
Não falo apenas da moral imediata do filme, que são os perigos do experimentalismo psicológico na recuperação da delinquência ou a ideia simultaneamente romântica e aberrante de que é possível extrair de dentro das pessoas os seus impulsos para o mal.
A montante da moral imediata, o filme mostra uma outra que é muito mais importante do que a primeira. O sistema escolhe, mais ou menos aleatoriamente, uns para serem seus guardiões e outros para seus guardados. Mas as pessoas, essas, não deixam de partilhar a mesma natureza e apenas ocupam uma ou outra posição no tabuleiro em virtude de uma série de circunstâncias que são ocasionais e temporárias.
Só a consciência permanente dessa álea nos pode salvar dos desastres de um sistema mecânico, posto ao serviço da área onde o humanismo faz mais falta. 

Vem isto tudo a propósito do facto de eu "ir para Pirata".  

sexta-feira, 28 de junho de 2013

15 days to go

A quinze dias do fim, lembro-me que nas minhas missões, como nas guerras, as etapas mais perigosas são sempre o início e o final.

de dentro da caixa de música


Nem sei que impressão me causam as indecorosas notícias da tua infelicidade. A tristeza não endémica é uma mancha de óleo que alastra em chão branco. Toda a gente a nota. 
Se ainda falasse a linguagem do mar, dir-te-ia que é pela mão dos que nos amam que a vida deixa de nos pertencer. 
Que perdeste o direito de ser infeliz. 
Que não foi para isso que agrilhei os meus pés ao mecanismo giratório desta claustrofóbica caixa de música.
Mas as bailarinas de plástico são mudas. Vivem concentradas no esforço de girar ao ritmo de três acordes repetidos até à náusea. 
E nem sequer sabem que impressão lhes causam as indecorosas notícias da tua infelicidade.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Andhrimnir, o cozinheiro Pirata *



Entreguei a casa ao senhorio e mudei-me para o barco. A bandeira assustadora que não paguei aos designers foi hoje colocada no mastro onde, neste instante, abana ao ritmo da brisa suave de final de dia. É de tal forma aterrorizadora que os donos das embarcações vizinhas passaram a tarde à procura de lugares distantes na marina e alguns já decidiram zarpar para paragens mais seguras. A bandeira custou-me o ultraje da retirada de um convite para jantar num iate de uns ingleses que agora já não querem estabelecer relações sociais comigo. Na primeira meia hora fiquei algo dececionada por perceber que os ingleses não têm a mente tão aberta à pirataria como seria de pensar. Mas depois lembrei-me que vim para esta vida para aterrorizar pessoas e não para fazer amigos e, rapidamente, desfiz-me de veleidades e estabeleci um plano para me vingar da desfeita dos ingleses aproveitando o facto de me terem confiado os seus planos de navegação para os próximos seis meses quando ainda pensavam que era uma pessoa de bem. O iate deles será a primeira embarcação que abordaremos.
Venci os problemas da escassez de inscrições colocando um anúncio discreto num estabelecimento prisional. Afinal, não há que ter escrúpulos nesta matéria já que, de uma forma ou de outra, no dia em que partirmos, seremos todos ex-reclusos de alguma coisa. O problema é que estabeleci um sistema de quotas para grupos sociais desfavorecidos por não me querer indispor com o tribunal europeu dos direitos do homem e agora estou com dificuldades em arranjar um anão. Já consultei o calendário estival de festas e, em último caso, raptaremos um ao Circo Chen. 
Por enquanto, ainda ocupo o navio sozinha com Andhrimnir, um viking que trabalhava como homem estátua e que se ofereceu para cozinheiro em troca da possibilidade de torturar pessoas, e Polly, o papagaio que pedi emprestado para nos servir de mascote depois de ter lido um livro sobre a importância das mascotes na fomentação do espírito de grupo.
Os laços de dependência que Andhrimnir criou com Polly foram imediatos. Hoje quis servi-lo duas vezes. Primeiro, ao almoço, com molho bechamel e, depois, ao jantar, com molho de cebolada.
Aguardo com a ansiedade o início da segunda semana de julho, altura em que largaremos amarras e nos tornaremos,  a sério e para sempre, Piratas.

* E Polly, o papagaio emprestado.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Há céus que são violentos



I've seen you all along
The place they called home

Coming down beneath the violent sky

These skies were happy kids
The music going loud
To move here under the cloud of screaming




segunda-feira, 24 de junho de 2013

Para fazer as pazes com a lua...



... deve escolher-se uma que seja suficientemente especial para valer por si.

domingo, 23 de junho de 2013

O amor de um cobarde


O amor de um estúpido, por ser infundado e necessariamente volátil, pode valer muito pouco. Mas em matéria de indignidade dos sentimentos, não há nada pior e mais inútil do que o amor de um cobarde.

Lições


A lição que aprendi é que nem sempre é possível regressar a casa.
Por mais clean, branca e sólida que a tenhas construído. 
Talvez seja ainda mais verdade quanto mais clean, branca e sólida for a casa que construíste. 
Tendemos a pensar que pode voltar-se as costas às realidades paralelas e regressar incólume àquele ponto de intersecção onde antes escolhemos o caminho da esquerda. 
Não é assim.
Há lugares, há pessoas, há coisas que têm o misterioso poder de nos alterar a substância. Para sempre.
E um dia queres voltar a casa e percebes que isso já não é possível. 
Está lá tudo, como deixaste.
Mas faltas tu.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

terça-feira, 18 de junho de 2013

Cuca, a Pirata

Contava adquirir (é propositada a neutralidade do verbo) a embarcação indispensável aos desígnios da Pirataria numa feira chamada Nauticampo. Mas avisaram-me que, além de não se realizar por estes dias, não costumam lá ter expostos para venda barcos com a dimensão necessária para albergar condignamente uma tripulação Pirata. 
Depois de umas negociações falhadas com a Costa Cruise, acabei por aceitar uma daquelas ofertas que as financeiras tão gentil e insistentemente me enviam para a caixa do correio e fiz um leasing para aquisição desse barquinho da fotografia. O processo foi tão incrivelmente simples que, não se desse o caso de eu ser portadora de uma obstinação patológica, teria abandonado o projeto da Pirataria para me dedicar à menos original, mas ainda assim lucrativa, burla de locadoras. 
Dez assinaturas em papelinhos com letras tamanho cinco depois, ofereceram-me o barquinho e ainda me serviram um café.  
Claro que quando se vencer a primeira prestação, já eu e a minha tripulação teremos zarpado para os mares do sul, onde estaremos demasiado ocupados a aterrorizar toda a gente para ter tempo de assinar citações do tribunal. 



sábado, 15 de junho de 2013

de leitura obrigatória




"In short, one may say anything about the history of the world--anything that might enter the most disordered imagination. The only thing one can't say is that it's rational. The very word sticks in one's throat. And, indeed, this is the odd thing that is continually happening: there are continually turning up in life moral and rational persons, sages and lovers of humanity who make it their object to live all their lives as morally and rationally as possible, to be, so to speak, a light to their neighbours simply in order to show them that it is possible to live morally and rationally in this world. And yet we all know that those very people sooner or later have been false to themselves, playing some queer trick, often a most unseemly one. Now I ask you: what can be expected of man since he is a being endowed with strange qualities? Shower upon him every earthly blessing, drown him in a sea of happiness, so that nothing but bubbles of bliss can be seen on the surface; give him economic prosperity, such that he should have nothing else to do but sleep, eat cakes and busy himself with the continuation of his species, and even then out of sheer ingratitude, sheer spite, man would play you some nasty trick. He would even risk his cakes and would deliberately desire the most fatal rubbish, the most uneconomical absurdity, simply to introduce into all this positive good sense his fatal fantastic element. It is just his fantastic dreams, his vulgar folly that he will desire to retain, simply in order to prove to himself--as though that were so necessary--that men still are men and not the keys of a piano, which the laws of nature threaten to control so completely that soon one will be able to desire nothing but by the calendar. (...) If you say that all this, too, can be calculated and tabulated--chaos and darkness and curses, so that the mere possibility of calculating it all beforehand would stop it all, and reason would reassert itself, then man would purposely go mad in order to be rid of reason and gain his point! I believe in it, I answer for it, for the whole work of man really seems to consist in nothing but proving to himself every minute that he is a man and not a piano-key! It may be at the cost of his skin, it may be by cannibalism! And this being so, can one help being tempted to rejoice that it has not yet come off, and that desire still depends on something we don't know?"

Fiodor Dostoievski, in, Notes From the Underground

Eurídice - Na vida real não há romãs


Mandam as insondáveis razões de coerência, que as semanas horríveis terminem em noites de sexta-feira monocromaticamente horrorosas.
Já tinha disciplinado o cérebro para que não se expusesse ao risco do sonho e se limitasse a cumprir, espartilhado, a sua missão de me deixar dormir. A liberdade do sono é um exclusivo dos que nada têm a temer de si próprios e eu não faço parte desse grupo de privilegiados. 
Mas esta semana todos insistem em desobedecer-me e até o meu próprio cérebro aderiu à última tendência fashion do verão que é a rebelião desorganizada contra as estruturas do poder instalado. 
Passei dois terços da noite convencida que ainda vivia numa Ilha e, na violência do pesadelo, pensei tratar-se de um sonho.
Devo ter sido feliz. 
Eram os tempos da inocência em que Orfeu tocava uma lira de melodia doce, Eurídice ainda não tinha sido mordida pela serpente e nenhum dos dois jogava ao galo nas escuras paredes de Hades. 
No último terço, sonhei que a realidade traiu a mitologia. Na vida real não há romãs. Foi a Eurídice que Hades impôs a condição de não poder olhar para trás sob pena de deixar Orfeu, para sempre, enclausurado no reino dos mortos. Em troca, nada mais do que a salvação do único que ainda podia ser salvo. Aquele que não pertencia às caves subterrâneas e só ali chegou em condenada missão de resgate. Na vida real não há romãs.
Caso a subtileza do meu relance não tenha passado despercebida aos deuses, espero que a traição seja relevada pela rebeldia involuntária dos sonhos. 
Orfeu viverá. Nem que isso me custe os olhos. 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

publicidade dirigida


Não sei se são os resquícios da misoginia que grassa por aí ou se às minhas qualidades como futura capitã Pirata falta aquela evidência que costuma ter o condão de arrastar massas. A verdade é que já abri o concurso há mais de vinte e quatro horas e ainda não tenho meios humanos suficientes para constituir uma tripulação capaz de espalhar o medo pelos mares e dominar o mundo.
É certo que nada me demoverá e já decidi que, em último caso, sequestrarei voluntários. Ainda assim, conhecendo eu a importância da diplomacia no ambiente de trabalho e tendo um historial maníaco na intransigente defesa dos direitos humanos, preferia que esta empreitada fosse constituída apenas por pessoas mais ou menos livres.


Lamento alguma agressividade no tom, mas hão-de compreender que isto não é coisa para meninos.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

weirdless

A rede wireless também serve para deixar a nu os problemas de auto-estima dos nossos vizinhos.
Já achava estranho haver quem se identificasse como "casadinho" mas, recentemente, mudou-se para o prédio um tal de "poucochinho".

dois rufias

Destacados sobre um fundo de paredes celestes ou de céu alto, dois rufias cingidos em séria roupa negra bailam com sapatos de mulher uma dança solene, que é a das facas iguais, até que de uma orelha salta um cravo porque a faca entrou num homem, que fecha com a sua morte horizontal uma dança sem música. Resignado, o outro ajeita o chapéu e dedica a sua velhice à narração desse duelo tão puro. Esta é a história pormenorizada e total da nossa maldade. (...)

Jorge Luís Borges, in História Universal da Infâmia 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Projeto Pirataria




Há coisas que uma mulher tem de estar preparada para enfrentar quando decide abandonar tudo para tornar-se Pirata.
Acredito que tenho feito um bom trabalho de preparação para iniciar a minha nova vida de delinquente dos mares e que tenho competências que garantirão o êxito da empreitada.
Depois da estopada do Moby Dick, não deve haver nada que eu não saiba sobre a vida a bordo de um navio cheio de gente sem escrúpulos. E se é provável que existam algumas diferenças relativamente ao meu atual meio profissional, a verdade é que, neste momento, só me ocorre a óbvia instabilidade do solo.
A falta da televisão, aquilo que poderia ser um verdadeiro problema, já foi contornada pelos últimos três meses de absoluta abstinência televisiva.  
Também já consegui aprender a cuidar do cabelo e das unhas sem assistência de terceiros. Claro que, em alto mar, o sal dificultar-me-á a tarefa e suspeito que escovas elétricas estarão fora de questão. Penso contornar essa situação aderindo à moda rastafari que, ao dar-me um certo ar caribeno, só pode contribuir para aumentar a minha credibilidade e potenciar a fama. 
A fama, na carreira de Pirata, não é coisa de somenos importância nem serve apenas para alimentar egos deficientes. A fama far-nos-á poupar em munições e esforços. É imperativo criar uma reputação terrorista que granjeie algumas rendições instantâneas perante a simples visão da nossa bandeira.
Já a pensar nisso, contratei uma equipa de designers, com formação mista em psicologia do terror que, nos próximos dias, se encarregará de criar um logotipo inconfundível e deveras assustador. 
Não lhes vou pagar nada. Enganar os designers será o meu primeiro ato criminoso e contribuirá para a adaptação ética à profissão que decidi abraçar.
Outro problema, em abstrato, poderia ser a alimentação. Mas eu já tive início de escorbuto quando fui anorética e, desses tempos, além de uma admirável indiferença orgânica às carência alimentares, guardei um stock de vitamina C que, apesar de fora de prazo, ainda está em excelentes condições de ser consumido. 
Num plano mais técnico, preocupa-me o facto de não ter carta de marinheiro nem navio.
No entanto, isso da carta não passa de um resquício obsoleto de uma mente legalista. Uma vez Pirata, as minhas relações com a polícia marítima não vão chegar a um nível de intimidade que lhe permita a ousadia de me fiscalizar.
Quanto ao navio, tenho ideia que é nesta altura do ano que se costuma realizar aquela feira chamada Nauticampo. 
As candidaturas a tripulante, acompanhadas dos respetivos curriculos e sem fotografia, para não dar falsas ideias a ninguém, deverão ser enviadas até ao final deste mês. 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A trinta dias de mais um final

Reconheço este sentimento de inquietude. 
Significa que está na altura de mudar de terra.

sábado, 8 de junho de 2013

?????????



Precisei voltar ao Wonderland para expor à lagarta que sabe tudo o problema do mau conto que me persegue. É um conto ruim, de história pobre, estrutura fraca, linguagem requentada e metáforas ordinárias. Sempre que o editor de texto me põe à frente uma imagem branca lá está o conto a ocupar-me o espaço e o tempo. A construir-se nas linhas do meu desprezo e encher-se páginas de contrariedade. 
A lagarta inalou o fumo e olhou para o céu com uma expressão mista de impaciência e nostalgia
- Não podes fazer nada sobre esta proibição do tabaco verdadeiro? Estou farta de fumar chá…
- Talvez. E o meu problema?
Mais um olhar para para o céu, mas agora só de impaciência.
- O que é que já tentaste?
- Para me livrar dele? escrevi-o, claro.
- E continua a aparecer-te? 
- Sempre.
- Tens um problema grave. Tivemos aqui uma situação parecida há uns anos. Um marinheiro com uma obsessão doentia por uma baleia que…
- isso foi no Melville.
A lagarta atirou o cachimbo ao chão furiosa e fixou-me irritada.
- E como esperas que te resolva os problemas com esta porcaria de tabaco de água que me dão para fumar? 
- Já te disse que vou ver o que posso fazer…
- Não chegaste a dizer. Talvez seja esse o problema com o mau conto que te persegue. 
- O implícito?
- dois, três e quatro são nove. Deves fazer como fizemos no caso do marinheiro. Esvazia o mar. 
- Ou seja?
- E isso do tabaco, como é que fica? O dealer era o chapeleiro louco. Desapareceu por tua causa. Isto é tudo por tua causa. Nunca te devíamos ter deixado entrar.
-  Vou-te propor um estatuto de exceção. Agora explica-me como é que esvazio o mar?
A lagarta apanhou o cachimbo no chão e começou a esfregá-lo de encontro ao peito enquanto o olhava como se estivesse à espera que dele saísse o génio do Aladino.
- Apaga o conto hoje mesmo e não escrevas mais uma linha enquanto ele não desistir de ti. Não se negoceia com terroristas. 

Achei que era uma solução muito razoável. 

destinatário desconhecido no local



No início da primavera, chegou a carta. 
Tinha-a esperado durante muitos meses. Passou horas a imaginar o momento em que alguém entraria com aquela carta na mão. Treinou a expressão desinteressada com que a olharia. O gesto casual com que estenderia a mão para a receber. Pensou na curta conversa de circunstância que teria de fazer para que não transparecesse a avidez pelo momento a sós. Convenceu-se que a carta chegaria numa segunda-feira e os domingos do inverno foram aquecidos pela antevisão de um envelope no dia seguinte. Mas aos domingos, seguiu-se a desilusão de segunda-feira. Sem que se saiba dizer quando, acabou por lhe perder a esperança.
Uma tarde, no regresso do almoço, encontrou-a já nascida e autónoma no meio da secretária. O envelope era branco e extraordinariamente imaculado, considerando a distância que teve que percorrer até chegar às suas mãos. Primeiro, analisou-lhe as datas dos carimbos, como se a única explicação possível fosse a carta ter-se perdido no circuito da distribuição postal e ter dado a volta ao mundo várias vezes até lhe ser entregue. Depois, tomou-lhe o peso e adivinhou-lhe três páginas. Ficou a olhar para ela durante uns minutos e decidiu que só a deveria abrir fora dali. Talvez em casa. Talvez numa praia deserta que lhe desse a dignidade dramática que merecia. 
Enfiou-a entre as páginas da agenda decidida a, naquele dia, sair mais cedo para se dedicar à atividade de ler a carta.
Mas esse dia prolongou-se pela noite e decidiu abri-la apenas no dia seguinte.
E no dia seguinte decidiu o mesmo. E no outro, e no outro e no outro.
A carta continuou fechada dentro da agenda onde desempenhou a útil função de marcador de todas as segundas-feiras.
Até ao dia em que, quando a ia fazer avançar mais uma semana, ficou parada a olhar para o seu nome escrito naquela caligrafia inclinada e decidida e percebeu, finalmente, a verdadeira razão pela qual não a abriu. 
A carta chegou muito depois de a verdadeira destinatária ter partido, levando consigo a mensagem do silêncio, que foi aquela que, em tempo, recebeu.
Não ler correspondência de outras pessoas é um escrúpulo. Não entregar recados a quem já não é deste mundo, um princípio de sanidade.
No desinteresse em devolvê-la ao remetente, atirou-a ao lixo.
Foi a mais eloquente carta de amor que nunca ninguém recebeu. 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Heartless coward bird of beak, when life is too short to speak



honestidade compulsiva

Sempre que recebo um daqueles mails da Louis Vuitton fico na dúvida se não teria o dever de responder e explicar-lhes que não, agradeço muito, mas agora já não.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Chess pieces




Quando os nosso olhos se cruzam e exibes o teu ódio catapultado para expoentes de contenção física impossível, encontras os meus esvaziados de expressão.
Cerras com a boca a raiva que te corta até à carne e a minha abre-se para te oferecer meio sorriso.
Ambos já fizemos este jogo várias vezes. Tu com pessoas iguais a mim e eu com pessoas iguais a ti. Conhecemos de cor as regras e ajeitamos o corpo ao tabuleiro. Tu terás de perder. Só um dos dois pode dominar o espaço desta sala e é melhor para todos para seja eu. 
Até tu precisas dessa certeza.
Levas a mão à cabeça e simulas discretamente o gesto de um tiro na tua, que é a minha, têmpora. 
Encosto-me para trás na cadeira, aumento o sorriso sem nunca deixar de te olhar e não te digo uma palavra. Sacudo com a mão o sangue imaginário que me escorre pelos cabelos. 
É nessa altura, quando te devolvo o medo intacto, que percebes que já perdeste. 
Hás-de sair da minha sala vergado pelo peso do ódio que te sobra nos cofres. 
Nas tuas costas, desfaço-me da minha inútil máscara de vazio.
No fim de tudo, fica o som das vozes das mulheres que gritam o seu amor de encontro à tua indiferença. E fico eu, a sofrer com elas o eco daquilo que se perdeu em ti. 
E é nesses momentos, e apenas nesses momentos, que tenho a certeza que cada um de nós ocupa o lugar certo no tabuleiro.
Levo a mão à têmpora para fechar o buraco do tiro.

terça-feira, 4 de junho de 2013

são piratas são. são homens perdidos. não sabem que este medo vem do chão.



Pensando bem, uma alternativa a tornar-me missionária em África, com a vantagem de alguma originalidade e sem os riscos de contribuir para a ruína de almas puras, poderia passar por roubar um navio, recrutar uma tripulação e dedicar-me à pirataria. 
Acho mesmo que seria uma empreitada de sucesso garantido.

domingo, 2 de junho de 2013

Anne Bonny, esse modelo de sapiência


Anne Bonny, a pirata, essa senhora de elevadíssimo espírito moral, de quem nunca tinha ouvido falar mas que agora prometo não mais esquecer, é o verdadeiro role model do universo feminino. Uma precursora na arte do justo tratamento do sexo oposto. O guru da frase de despedida ao amante que se deixou apanhar numa noite de bebedeira.
Penso nas bonitas últimas palavras que dirigiu ao seu amante, imediatamente antes da execução da sentença de enforcamento, e não posso deixar de pensar que é deliberada a contribuição do ocidente para a deseducação feminina, e consequente extinção masculina, ao omitir dos curriculae os ensinamentos que esta senhora tem para nos dar. 
Amputam-nos a alma com a ousadia cândida de uma shakespeareana Julieta apaixonada, com a Austeniana paciência estóica de gente chamada Emma, Elinor, Elizabeth, com a dignidade conformada da tennyssoniana Lady of Shalott. Ensinam-nos que acabam mal as insatisfeitas Karenina de Tolstoi, Bovary de Flaubert, Nana de Zola e até a pobre da Scarlett O'hara que nunca quis mais que uns vestidos bonitos e um homem lhe desse atenção.  
Escondem-nos Anne Bonny, a mulher que já em 1720, deu o seu exemplo na luta contra a androginia masculina, que é a forma mais elegante que arranjei para dizer mariquice, tratando o homem que amava da maneira como ele tem que ser tratado.

"Se te tivesses batido como um homem, não te enforcariam como um cão".


Depois mandou uma mensagem ao pai, advogado rico, que a livrou a ela da forca.

É de um pragmatismo visionário.
Não via nada tão poético desde que Salomé exigiu a cabeça de João Baptista. 

Grandes filósofos

"Se te tivesses batido como um homem, não te enforcariam como um cão".

Anne Bonny, a mulher pirata, "citada" por Jorge Luís Borges, in "História Universal da Infâmia"

foi assim...não foi assim...




- Vês cão, olha ali aquele casal tão fofinho a fazer um piquenique na relva.
- Emanas uma energia invejosa que me deixa perplexo e preocupado.
- Oh, vê como a felicidade pode ser tão simples.
- E barata. Já te aflorou o espírito a ideia de que ele pode não ter dinheiro para a levar a um restaurante?
- Estragas sempre tudo, cão.
- Só mobiliário sueco. Sempre respeitei a cómoda herdada. 
- Podia ser feliz com um homem que me fizesse um piquenique num jardim no meio da cidade.
- A minha percepção canídea diz-me que te perdeste neste jardim na primeira vez que vieste aqui comigo. Ora, vivendo tu aqui ao lado, é legítimo concluir que essa fase bucólica-romântica é recente e passageira.
- Percebes pouco da natureza humana, cão. Um humano pode evoluir com as experiências anteriores e constatar que só na simplicidade pode encontrar a magia de um coração puro.
- E essa epifania surgiu, assim, subitamente? Diante da visão de dois jovens de esquerda a comer comida de lata, em cima de uma toalha de praia?
- A evolução, cão, faz-se pela substituição dos quadros mentais anteriores.
- Sim, sim. Mas agora, se não te importas, antes que o processo se conclua e cheguemos à fase do parque de campismo pulguento, leva-me a jantar a um sítio decente e bem frequentado. De preferência, daqueles onde não deixam entrar os outros cães. Dona.
- És um snob, cão. Não imagino com quem possas ter aprendido essas manias…

sábado, 1 de junho de 2013

Não gosto


Não gosto das duas da tarde nos domingos de verão junto ao mar. Não gosto do cheiro a cemitério que há nos blogues abandonados sem mensagem de despedida. Não gosto dos meus dedos dos pés quando saem da banheira. Não gosto do sabor do gengibre misturado com coisa nenhuma. Não gosto da sensação do fumo a passar pela garganta inflamada. Não gosto do som dos travões dos comboios sobre os carris. Não gosto do cheiro das salas cheias de pessoas. Não gosto das fitas encarnadas e brancas que delimitam cenários. Não gosto de mergulhar dentro das lagoas escuras das grutas. Não gosto da sensação do cobre sobre a pele. Não gosto do ruído de fundo do aeroporto Madrid-barajas. Não gosto de tocas de banho. Não gosto que demorem mais de uma hora a devolver-me as chamadas. Não gosto de mexer em papéis envelhecidos. Não gosto de vestir jeans lavados. Não gosto da expressão do rosto dos mortos aprisionados em fotografias. Não gosto de entrar na casa de banho das outras pessoas. Não gosto da pimenta no puré de batata. Não gosto das janelas trancadas nos hotéis. Não gosto do som dos tremores de terra. Não gosto da areia entre os pés e os sapatos. Não gosto de cabides vazios. Não gosto de bonecas de porcelana. Não gosto de narradores que se dirigem diretamente aos leitores. Não gosto de conversar nas galerias de arte. Não gosto do som do fecho das algemas. Não gosto que me ofereçam flores. Não gosto do espaçamento dos parágrafos nos livros. Não gosto dos gritos histéricos das gaivotas. Não gosto do olhar de solidão dos velhos. Não gosto de ouvir o som da minha voz nas gravações. Não gosto de restaurantes self-service. Não gosto das seis da tarde nos dias de inverno longe do mar.