Se o conhecimento é uma forma de escrita, mesmo sem palavras, uma respiração calada, a narrativa que o silêncio faz de si mesmo, então não se deve escrever, nem mesmo admitindo que fazê-lo seria o reconhecimento do conhecimento. Pode escrever-se acerca do silêncio, porque é um modo de alcançá-lo, embora impertinente. Pode também escrever-se por asfixia, porque essa não é maneira de morrer. Pode escrever-se ainda por ilusão criminal: às vezes imagina-se que uma palavra conseguirá atingir mortalmente o mundo. A alegria de um assassinato enorme é legítima, se embebeda o espírito, libertando-o da melancolia da fraternidade universal. Mas se apesar de tudo se escrever, escreva-se sempre para estar só. A escrita afasta concretamente o mundo. Não é o melhor método, mas é um. Os outros requerem uma energia espiritual que suspeita do próprio uso da escrita, como a religiosidade suspeita da religião e o demonismo da demonologia. A escrita - inferior na ordem dos actos simbólicos - concilia-se mal com a metamorfose interior - finalidade e símbolo, ela mesma, da energia espiritual. O espírito tende a transformar o espírito, e transforma-o. O resultado é misterioso. O resultado da escrita, não.
Herberto Helder, in 'Photomaton & Vox'
quinta-feira, 18 de julho de 2013
quarta-feira, 17 de julho de 2013
terça-feira, 16 de julho de 2013
Das origens do tráfico de estupefacientes
“29E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento.
30E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi.
31E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.”
Excerto de: Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil. “Bíblia Sagrada.” Fábio Medeiros. iBooks.
https://itunes.apple.com/pt/book/biblia-sagrada/id575058767?mt=11
sábado, 13 de julho de 2013
Gualtiero, o Italiano
Os ex-reclusos contratados para Piratas chegaram ontem à noite ao navio e, por razões que não consigo de forma alguma compreender, insistem em ficar discretamente recolhidos nas suas camaratas, dizendo que até sairmos de águas nacionais não estão interessados em ver a paisagem. A única justificação que me ocorre para esta atitude é que estejam a atravessar uma fase de "desmame", numa progressiva habituação à liberdade. Ainda pensei em confirmar esta ideia através dessa ciência útil e séria que é a psicologia mas depois lembrei-me que, no dia em que me mudei para o navio e decidi só trazer o essencial, a primeira coisa que queimei na grande fogueira que fiz lá no jardim do condomínio privado onde vivia foram todos os meus livros de psicologia. Arderam lindamente, por sinal.
Para evitar lidar diretamente com o grupo dos ex-reclusos; não ser obrigada a decorar-lhes os nomes e poupar-me os incómodos das relações humanas (para isso já me bastam as crises de prima dona do Andhrimnir, o cozinheiro Pirata), pedi-lhes que elegessem um porta voz.
O eleito chama-se Gualtiero, diz-se italiano e esta tarde sentámo-nos os dois na proa a almoçar um suportável bacalhau com natas feito na bimbi que fui obrigada a comprar a Andhrimnir, o cozinheiro Pirata.
Os italianos têm um incansável prazer em verbalizar coisas e, apesar do meu evidente desinteresse pela sua vida, passou as duas horas do almoço a debitar-me esta história:
Gualtiero, o Italiano, foi para Pirata aos dezoito anos para curar um desgosto de amor por uma tal de Imogene. Uma certa madrugada, o navio onde pirateava naufragou (naufraga-se sempre de madrugada, toda a gente sabe) e ele acabou recolhido num castelo que, por força daquelas coincidências do destino que eu pensava que só me aconteciam a mim, pertencia à dita da Imogene e ao homem com quem esta, entretanto, se havia casado. Imogene, certamente uma intriguista a querer aproveitar-se do coração de ouro de Gualtiero, o Italiano, convenceu-o que só se casou com Ernesto sob coação e para salvar a vida do seu velho pai (nesta parte da história posso ter adormecido).
Então, decidido a salvar a sua amada das garras do marido mau, Gualtiero desafiou Ernesto para um duelo e acabou por o matar, tendo-se entregue, sabe-se lá por que razões, à polícia portuguesa ali para os lados de Elvas. Foi condenado e preso e a parte mais trágica é que a ingrata Imogene, demasiado ocupada a administrar a fortuna que herdou de Ernesto, nem um mísero panetone lhe foi levar à prisão.
Enquanto ele secava as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto e eu contemplava a marina, imbuída de um profundo sentimento de simpatia por Imogene e já a congeminar uma forma de descobrir a morada desse tal castelo para lhe enviar um convite formal para esta empreitada, veio-me à memória uma certa noite passada no La Fenice, em Veneza, onde, pasme-se, vi encenada em palco, a vida do meu porta voz dos ex-reclusos, Gualtiero, o Italiano.
Foi disto que me lembrei:
Só fiquei um bocado confusa porque dizia-se no libretto que a ópera de Vincenzo Bellini, esse usurpador de histórias de vida dos meus piratas, estreou no Scala em 1827, o que faria de Gualtiero, o Italiano, o homem mais bem conservado de sempre.
Agora, assim a frio, penso que deve ter sido um lapso da gráfica.
lavar os dentes
O exercício diário de me esquecer de ti, que se aperfeiçoa dentro da máquina do tempo, exige-me a mesma energia irreflectida do gesto de lavar os dentes.
Evita-se o amor com o afinco mecânico de quem evita uma cárie e pensa-se... se isto é possível, como pode a humanidade valer alguma coisa?
quarta-feira, 10 de julho de 2013
A cinco dias de casa
Lisboa.
Espero encontrá-la vazia, sufocante e tão esquizofrénica como de costume.
Fotografia de Hugo Augusto
sábado, 6 de julho de 2013
Pai afasta de mim esse cálice... de vinho tinto de sangue
(...)
"Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado.
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado permaneço atento
Na arquibancada, para a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa
(...)
Talvez o mundo não seja pequeno
(cale-se)
Nem a vida um facto consumado
(cale-se)
Quero inventar o meu próprio pecado
(cale-se)
Quero morrer do meu próprio veneno
(cale-se)
Quero perder de vez a cabeça
(cale-se)
Minha cabeça perder teu juízo
(cale-se)
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
(cale-se)
Me embriagar até que alguém me esqueça
(cale-se)"
A culpa, claro, é do vento Sudoeste.
De que adianta trancar portas e janelas e aprisionar-nos em casa, para nos protegermos a nós e aos outros de nós, quando se mantém o telefone e a internet? A sociedade conspira contra os loucos, especialmente os temporariamente loucos, dando-lhes meios de comunicação para que, em tempo real e à distância, espalhem a sua loucura. Mas não costuma ser cruel ao ponto de lhes dar também os meios para que, em tempo real e à distância, recebam o reflexo destrutivo dos efeitos da sua loucura.
Uma coisa é querer lançar o grito desumano de que fala a música e outra é, atordoado, permanecer atento a ver emergir o monstro da lagoa.
Mandam as regras da psicopatia moderada que quando se ateia um fogo não se lhe fique a assistir sentado no sofá da sala.
Mas como é que se pode prever que, depois de a loucura nos fazer perder a guerra do silêncio, quando se levantam os olhos do telefone, a pessoa a quem se acabou de enviar a mensagem esteja em direto na televisão, a recebê-la?
Como é que nos podemos proteger, a nós e aos outros, desta verdade, instantânea, indisfarçada, obscenamente intrusiva, irrevogável?
Ainda falta um dia para o vento virar a Oeste.
(cale-se)
O vento sudoeste 2
Tenho que estar aqui fechada em casa, às escuras e com as janelas fechadas, à espera que o vento que traz a loucura desapareça.
sexta-feira, 5 de julho de 2013
hey oohhh!!!!
Apesar de só eu, Andhrimnir (o cozinheiro viking), o meu cão e Polly (o papagaio emprestado), ocuparmos o navio, uma boa parte da tripulação já está contratada.
Fui perentória na recusa de gente que se identificou como descendente de Barbarossa, Francis Drake, Calico Jack, Henry Morgan, Bartolomeu Roberts, Ching Shih e mesmo Anne Bonney, que, com a clarividência de uma simples frase, me deu a coragem necessária para mudar de vida e liderar este projeto conjunto de difusão do terror pelos mares do mundo.
As razões para a recusa prendem-se com a minha insistência em fazer da meritocracia a regra predominante da nossa futura comunidade. Na verdade, será a única regra. Pensei muito nisto e concluí que, como seremos todos fora-da-lei, seria absurdo e inútil criar regras já que ninguém teria legitimidade natural, nem paciência, para as fazer aplicar. Além do mais, seria um dispêndio de tempo, meios e energia que só serviria para nos distrair dos nossos objetivos.
Assim, de cada um, será apenas esperado que faça aquilo que sabe e gosta, sendo que todos temos em comum, saber aterrorizar pessoas e gostar de dominar os mares e o mundo.
(A exceção será Andhminir que, agora que fui obrigada a gastar mil euros para lhe comprar uma bimbi, queira ou não queira, há-de ser cozinheiro até ao fim).
A tripulação até agora inscrita é constituída por dezasseis homens, oito dos quais ex-reclusos, ou que assim o serão logo que conseguirem fugir dos respetivos estabelecimentos prisionais, quatro mulheres, um cão snob que sabe dizer Kierkegaard, uma cadela vip e fashionista, uma gatinha impositiva que adota pessoas e um papagaio emprestado. Não aceitaremos ratos de espécie nenhuma.
Não consegui recrutar um anão para assegurar a quota das minorias mas, considerando que eu própria tenho pouco mais de metro e meio, se houver chatices com uma das centenas de comissões para a igualdade, resolvo o problema descalçando-me.
Como a vida de capitão-Pirata em regime de permanência é desgastante, e eu preciso de tempo para apanhar banhos de sol na proa, convidei uma espécie de amigo para assegurar as funções de capitão-Pirata em part time. Espero que aceite.
Levantaremos amarras na próxima lua cheia, na calada da noite, para não levantar suspeitas aos senhores da empresa de leasing que fizeram o favor de me financiar a embarcação.
O vento sudoeste
Hoje acordámos todos loucos.
Com os primeiros raios de sol, os gritos histéricos das gaivotas rebentaram-me no peito e incendiaram-me com a incerteza se vinham de fora ou nasciam por dentro. Vi os meus dedos dos pés retorcidos de unhas vermelho sangue e o espelho da casa de banho devolveu-me a miúda de franja que devo ter sido aos dez anos de idade. Ficou sentada no cesto da roupa suja a olhar para mim com desdém.
Ainda antes de abrir a porta, o vento entrou pelo buraco da fechadura e fez bater todas as janelas da casa que se transformaram em mariposas de vidros blindados a esvoaçar de encontro à liberdade.
Lá fora, o vento já tinha levado os chapéus das esplanadas e trazido o lixo dos homens que se lhes enrolou à volta dos sapatos como se fosse uma cauda gigante composta por todas as coisas que se querem esquecer. As crianças gritavam de horror, talvez com desdém dos rostos sem franja que se tornarão daqui a poucos anos. Passei por um grupo de pessoas que se contorcia de encontro aos postes da eletricidade e entrei no café de todos os dias, fazendo um esforço para esconder os dedos dos pés ainda retorcidos. Serviram-me um chá a escaldar na concha da mão.
Entrei na garagem do edifício onde gasto os dias, fazendo, por pudor, um esforço para não ver ninguém. Mas pelo canto do olho, apercebi-me que havia homens pendurados nos candeeiros e mulheres com a pele dos braços arrancada e apenas um olho pintado.
Dentro do meu gabinete as persianas gemiam ao ritmo do vento como carpideiras debruçadas sobre caixões abertos. Tentei fechar as janelas para me livrar de todos os sons e da miúda da franja, a olhar para mim com desdém. Mas o vento fez-me refém dessa cauda feita do lixo que se quer esquecer.
Salvou-me o meu secretário, homem do mar e conhecedor dos mistérios da vida, que, com os olhos postos nos meus dedos dos pés, ainda retorcidos, apressou-se a explicar-me.
- É o vento sudoeste, Senhora. Não ligue. Vamos andar todos loucos durante três dias.
quinta-feira, 4 de julho de 2013
quarta-feira, 3 de julho de 2013
Alienação de sobrevivência
É incrível como há uma série de coisa que perdem completamente o sentido depois de três ou quatro meses sem televisão. Gaspar era o marido da minha professora primária; Coelho uma figura patusca lá na minha universidade; Tó Zé o namorado que uma prima trocou por um qualquer Bernardo.
Não sei porque é que agora todos insistem em falar desta gente ao almoço e também não imagino o que possam ter a ver com as taxas de juro.
terça-feira, 2 de julho de 2013
domingo, 30 de junho de 2013
Dói-me o estômago
Começo a desconfiar que Andhrimnir, como cozinheiro, pode ter sido um terrível erro de casting. Para dizer a verdade, quando o vi na rua, nas suas vestes de homem estátua Pirata, imóvel, rodeado por um bando de miúdos ingleses aterrorizados, fiquei tão entusiasmada que o recrutei imediatamente para a função que me fazia mais falta, sem quer me ocorrer perguntar-lhe se sabia cozinhar.
Habituada às manias e desmandos dos chefes de cozinha, ainda esperei algumas refeições para lhe explicar que Nestum com mel não é propriamente aquilo que se espera de um cozinheiro Pirata num navio em contamos viver, se não no luxo, pelo menos, dentro dos parâmetros de uma elegância muito civilizada.
Andhrimnir não ficou ofendido com as minhas reclamações, mas adiantou-me a justificação que eu mais temia. Veio para esta vida para torturar pessoas e, por enquanto, ainda só me tem a mim e ao papagaio e eu proibi-o de continuar a arrancar penas ao bicho emprestado (logo a seguir ao tribunal europeu dos direitos do homem, o que mais temo são as organizações de defesa dos direitos dos animais).
Obriguei-o a passar a manhã na cozinha a ensaiar as receitas do livro da Vaqueiro mas, quando me viu cuspir o resultado, atirou com um prato Vista Alegre ao chão e plantou-se no mastro, a fazer de estátua, de onde diz que só sai depois de eu lhe comprar uma bimbi.
Não sei se aguento mais dois dias sem diretor de departamento de recursos humanos.
Raios partam os vikings.
Comunicações Intergalácticas
Dizer-te que o verão chegou e grita-se bolas de Berlim com creme nas praias cheias e as pessoas, de alguma forma, parecem felizes assim esticadas na areia e entrincheiradas numa panóplia de coisas de plástico que carregam consigo debaixo do sol tórrido e por cima das solas dos pés escaldados. Se ao menos algum dia te tivesses lembrado de comprar um chapéu de sol, ou uma toalha de praia, que fosse, talvez tivesses engolido o mesmo apaziguamento. Não estou segura que não sejam essas coisas que salvam a vida às pessoas. Baldes encarnados com peixinhos a morrer lá dentro, conchas vazias em cima de uma toalha oferecida por uma marca de cosméticos e derme inflamada podem ser a receita que nos garante o cumprimento da obrigação de uma morte feita de causas naturais.
Não sei se aí, onde te foste enfiar para te veres livre de nós, há verões de bolas de Berlim com creme ou se se vive uma irritante primavera eterna de vales verdejantes e coelhos brancos que nos vêm lamber os pés. Antes de morreres tinha a certeza que não havia nada, mas o nada é um local demasiado inóspito para se estar e agora sei que a fé é, sobretudo, uma matrícula na colónia de férias inventada que os homens pagam para terem para onde enviar os que já não cabem nos seus dias.
Dizer-te, ainda, que se vai vivendo aqui em baixo. Toma-se banho e come-se e trabalha-se e ouve-se música e lêem-se livros e compram-se muitas coisas. Os ponteiros de todos os relógios vão dando várias voltas e os dias caem dos calendários e por mais que o tivesse tentado nem sequer consegui impedir o verão.
- Espera dois meses que isso passa.
Dir-me-ias em tom sério e com a expressão sisuda e antipática com que usavas afastar os meus momentos drama queen.
E, claro, terias razão. Esperar que o tempo passe sempre foi a principal actividade dos homens.
Mas são aqueles que anseiam que o tempo lhes leve a memória que a praticam com maior angústia.
sábado, 29 de junho de 2013
Superioridade moral
Laranja Mecânica (Clockwork orange, Stanley Kubrick, 1971), no seu equivalente a visitas de estudo obrigatórias a Auschwitz por parte de uma certa direita alemã, é o filme que todos os insiders do sistema judicial deveriam ter em casa e ser obrigados a rever anualmente, para que não lhes seja possível esquecer uma série de coisas que preferimos acreditar que já saibam, mas que a gestão quotidiana dos problemas tende a deixar esmorecer num perigoso segundo plano.
Não falo apenas da moral imediata do filme, que são os perigos do experimentalismo psicológico na recuperação da delinquência ou a ideia simultaneamente romântica e aberrante de que é possível extrair de dentro das pessoas os seus impulsos para o mal.
A montante da moral imediata, o filme mostra uma outra que é muito mais importante do que a primeira. O sistema escolhe, mais ou menos aleatoriamente, uns para serem seus guardiões e outros para seus guardados. Mas as pessoas, essas, não deixam de partilhar a mesma natureza e apenas ocupam uma ou outra posição no tabuleiro em virtude de uma série de circunstâncias que são ocasionais e temporárias.
Só a consciência permanente dessa álea nos pode salvar dos desastres de um sistema mecânico, posto ao serviço da área onde o humanismo faz mais falta.
Vem isto tudo a propósito do facto de eu "ir para Pirata".
sexta-feira, 28 de junho de 2013
15 days to go
A quinze dias do fim, lembro-me que nas minhas missões, como nas guerras, as etapas mais perigosas são sempre o início e o final.
de dentro da caixa de música
Nem sei que impressão me causam as indecorosas notícias da tua infelicidade. A tristeza não endémica é uma mancha de óleo que alastra em chão branco. Toda a gente a nota.
Se ainda falasse a linguagem do mar, dir-te-ia que é pela mão dos que nos amam que a vida deixa de nos pertencer.
Que perdeste o direito de ser infeliz.
Que não foi para isso que agrilhei os meus pés ao mecanismo giratório desta claustrofóbica caixa de música.
Mas as bailarinas de plástico são mudas. Vivem concentradas no esforço de girar ao ritmo de três acordes repetidos até à náusea.
E nem sequer sabem que impressão lhes causam as indecorosas notícias da tua infelicidade.
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Andhrimnir, o cozinheiro Pirata *
Entreguei a casa ao senhorio e mudei-me para o barco. A bandeira assustadora que não paguei aos designers foi hoje colocada no mastro onde, neste instante, abana ao ritmo da brisa suave de final de dia. É de tal forma aterrorizadora que os donos das embarcações vizinhas passaram a tarde à procura de lugares distantes na marina e alguns já decidiram zarpar para paragens mais seguras. A bandeira custou-me o ultraje da retirada de um convite para jantar num iate de uns ingleses que agora já não querem estabelecer relações sociais comigo. Na primeira meia hora fiquei algo dececionada por perceber que os ingleses não têm a mente tão aberta à pirataria como seria de pensar. Mas depois lembrei-me que vim para esta vida para aterrorizar pessoas e não para fazer amigos e, rapidamente, desfiz-me de veleidades e estabeleci um plano para me vingar da desfeita dos ingleses aproveitando o facto de me terem confiado os seus planos de navegação para os próximos seis meses quando ainda pensavam que era uma pessoa de bem. O iate deles será a primeira embarcação que abordaremos.
Venci os problemas da escassez de inscrições colocando um anúncio discreto num estabelecimento prisional. Afinal, não há que ter escrúpulos nesta matéria já que, de uma forma ou de outra, no dia em que partirmos, seremos todos ex-reclusos de alguma coisa. O problema é que estabeleci um sistema de quotas para grupos sociais desfavorecidos por não me querer indispor com o tribunal europeu dos direitos do homem e agora estou com dificuldades em arranjar um anão. Já consultei o calendário estival de festas e, em último caso, raptaremos um ao Circo Chen.
Por enquanto, ainda ocupo o navio sozinha com Andhrimnir, um viking que trabalhava como homem estátua e que se ofereceu para cozinheiro em troca da possibilidade de torturar pessoas, e Polly, o papagaio que pedi emprestado para nos servir de mascote depois de ter lido um livro sobre a importância das mascotes na fomentação do espírito de grupo.
Os laços de dependência que Andhrimnir criou com Polly foram imediatos. Hoje quis servi-lo duas vezes. Primeiro, ao almoço, com molho bechamel e, depois, ao jantar, com molho de cebolada.
Aguardo com a ansiedade o início da segunda semana de julho, altura em que largaremos amarras e nos tornaremos, a sério e para sempre, Piratas.
* E Polly, o papagaio emprestado.
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Cuca a Pirata
quarta-feira, 26 de junho de 2013
Há céus que são violentos
I've seen you all along
The place they called home
Coming down beneath the violent sky
These skies were happy kids
The music going loud
To move here under the cloud of screaming
segunda-feira, 24 de junho de 2013
Para fazer as pazes com a lua...
... deve escolher-se uma que seja suficientemente especial para valer por si.
domingo, 23 de junho de 2013
O amor de um cobarde
O amor de um estúpido, por ser infundado e necessariamente volátil, pode valer muito pouco. Mas em matéria de indignidade dos sentimentos, não há nada pior e mais inútil do que o amor de um cobarde.
Lições
A lição que aprendi é que nem sempre é possível regressar a casa.
Por mais clean, branca e sólida que a tenhas construído.
Talvez seja ainda mais verdade quanto mais clean, branca e sólida for a casa que construíste.
Tendemos a pensar que pode voltar-se as costas às realidades paralelas e regressar incólume àquele ponto de intersecção onde antes escolhemos o caminho da esquerda.
Não é assim.
Há lugares, há pessoas, há coisas que têm o misterioso poder de nos alterar a substância. Para sempre.
E um dia queres voltar a casa e percebes que isso já não é possível.
Está lá tudo, como deixaste.
Mas faltas tu.
sexta-feira, 21 de junho de 2013
quarta-feira, 19 de junho de 2013
terça-feira, 18 de junho de 2013
Cuca, a Pirata
Contava adquirir (é propositada a neutralidade do verbo) a embarcação indispensável aos desígnios da Pirataria numa feira chamada Nauticampo. Mas avisaram-me que, além de não se realizar por estes dias, não costumam lá ter expostos para venda barcos com a dimensão necessária para albergar condignamente uma tripulação Pirata.
Depois de umas negociações falhadas com a Costa Cruise, acabei por aceitar uma daquelas ofertas que as financeiras tão gentil e insistentemente me enviam para a caixa do correio e fiz um leasing para aquisição desse barquinho da fotografia. O processo foi tão incrivelmente simples que, não se desse o caso de eu ser portadora de uma obstinação patológica, teria abandonado o projeto da Pirataria para me dedicar à menos original, mas ainda assim lucrativa, burla de locadoras.
Dez assinaturas em papelinhos com letras tamanho cinco depois, ofereceram-me o barquinho e ainda me serviram um café.
Claro que quando se vencer a primeira prestação, já eu e a minha tripulação teremos zarpado para os mares do sul, onde estaremos demasiado ocupados a aterrorizar toda a gente para ter tempo de assinar citações do tribunal.
segunda-feira, 17 de junho de 2013
sábado, 15 de junho de 2013
de leitura obrigatória
"In short, one may say anything about the history of the world--anything that might enter the most disordered imagination. The only thing one can't say is that it's rational. The very word sticks in one's throat. And, indeed, this is the odd thing that is continually happening: there are continually turning up in life moral and rational persons, sages and lovers of humanity who make it their object to live all their lives as morally and rationally as possible, to be, so to speak, a light to their neighbours simply in order to show them that it is possible to live morally and rationally in this world. And yet we all know that those very people sooner or later have been false to themselves, playing some queer trick, often a most unseemly one. Now I ask you: what can be expected of man since he is a being endowed with strange qualities? Shower upon him every earthly blessing, drown him in a sea of happiness, so that nothing but bubbles of bliss can be seen on the surface; give him economic prosperity, such that he should have nothing else to do but sleep, eat cakes and busy himself with the continuation of his species, and even then out of sheer ingratitude, sheer spite, man would play you some nasty trick. He would even risk his cakes and would deliberately desire the most fatal rubbish, the most uneconomical absurdity, simply to introduce into all this positive good sense his fatal fantastic element. It is just his fantastic dreams, his vulgar folly that he will desire to retain, simply in order to prove to himself--as though that were so necessary--that men still are men and not the keys of a piano, which the laws of nature threaten to control so completely that soon one will be able to desire nothing but by the calendar. (...) If you say that all this, too, can be calculated and tabulated--chaos and darkness and curses, so that the mere possibility of calculating it all beforehand would stop it all, and reason would reassert itself, then man would purposely go mad in order to be rid of reason and gain his point! I believe in it, I answer for it, for the whole work of man really seems to consist in nothing but proving to himself every minute that he is a man and not a piano-key! It may be at the cost of his skin, it may be by cannibalism! And this being so, can one help being tempted to rejoice that it has not yet come off, and that desire still depends on something we don't know?"
Fiodor Dostoievski, in, Notes From the Underground
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da natureza humana.
Eurídice - Na vida real não há romãs
Mandam as insondáveis razões de coerência, que as semanas horríveis terminem em noites de sexta-feira monocromaticamente horrorosas.
Já tinha disciplinado o cérebro para que não se expusesse ao risco do sonho e se limitasse a cumprir, espartilhado, a sua missão de me deixar dormir. A liberdade do sono é um exclusivo dos que nada têm a temer de si próprios e eu não faço parte desse grupo de privilegiados.
Mas esta semana todos insistem em desobedecer-me e até o meu próprio cérebro aderiu à última tendência fashion do verão que é a rebelião desorganizada contra as estruturas do poder instalado.
Passei dois terços da noite convencida que ainda vivia numa Ilha e, na violência do pesadelo, pensei tratar-se de um sonho.
Devo ter sido feliz.
Eram os tempos da inocência em que Orfeu tocava uma lira de melodia doce, Eurídice ainda não tinha sido mordida pela serpente e nenhum dos dois jogava ao galo nas escuras paredes de Hades.
No último terço, sonhei que a realidade traiu a mitologia. Na vida real não há romãs. Foi a Eurídice que Hades impôs a condição de não poder olhar para trás sob pena de deixar Orfeu, para sempre, enclausurado no reino dos mortos. Em troca, nada mais do que a salvação do único que ainda podia ser salvo. Aquele que não pertencia às caves subterrâneas e só ali chegou em condenada missão de resgate. Na vida real não há romãs.
Caso a subtileza do meu relance não tenha passado despercebida aos deuses, espero que a traição seja relevada pela rebeldia involuntária dos sonhos.
Orfeu viverá. Nem que isso me custe os olhos.
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o meu reino pelo teu.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
publicidade dirigida
Não sei se são os resquícios da misoginia que grassa por aí ou se às minhas qualidades como futura capitã Pirata falta aquela evidência que costuma ter o condão de arrastar massas. A verdade é que já abri o concurso há mais de vinte e quatro horas e ainda não tenho meios humanos suficientes para constituir uma tripulação capaz de espalhar o medo pelos mares e dominar o mundo.
É certo que nada me demoverá e já decidi que, em último caso, sequestrarei voluntários. Ainda assim, conhecendo eu a importância da diplomacia no ambiente de trabalho e tendo um historial maníaco na intransigente defesa dos direitos humanos, preferia que esta empreitada fosse constituída apenas por pessoas mais ou menos livres.
quinta-feira, 13 de junho de 2013
weirdless
A rede wireless também serve para deixar a nu os problemas de auto-estima dos nossos vizinhos.
Já achava estranho haver quem se identificasse como "casadinho" mas, recentemente, mudou-se para o prédio um tal de "poucochinho".
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strange people.
dois rufias
Destacados sobre um fundo de paredes celestes ou de céu alto, dois rufias cingidos em séria roupa negra bailam com sapatos de mulher uma dança solene, que é a das facas iguais, até que de uma orelha salta um cravo porque a faca entrou num homem, que fecha com a sua morte horizontal uma dança sem música. Resignado, o outro ajeita o chapéu e dedica a sua velhice à narração desse duelo tão puro. Esta é a história pormenorizada e total da nossa maldade. (...)
Jorge Luís Borges, in História Universal da Infâmia
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Assassinos.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Projeto Pirataria
Há coisas que uma mulher tem de estar preparada para enfrentar quando decide abandonar tudo para tornar-se Pirata.
Acredito que tenho feito um bom trabalho de preparação para iniciar a minha nova vida de delinquente dos mares e que tenho competências que garantirão o êxito da empreitada.
Depois da estopada do Moby Dick, não deve haver nada que eu não saiba sobre a vida a bordo de um navio cheio de gente sem escrúpulos. E se é provável que existam algumas diferenças relativamente ao meu atual meio profissional, a verdade é que, neste momento, só me ocorre a óbvia instabilidade do solo.
A falta da televisão, aquilo que poderia ser um verdadeiro problema, já foi contornada pelos últimos três meses de absoluta abstinência televisiva.
Também já consegui aprender a cuidar do cabelo e das unhas sem assistência de terceiros. Claro que, em alto mar, o sal dificultar-me-á a tarefa e suspeito que escovas elétricas estarão fora de questão. Penso contornar essa situação aderindo à moda rastafari que, ao dar-me um certo ar caribeno, só pode contribuir para aumentar a minha credibilidade e potenciar a fama.
A fama, na carreira de Pirata, não é coisa de somenos importância nem serve apenas para alimentar egos deficientes. A fama far-nos-á poupar em munições e esforços. É imperativo criar uma reputação terrorista que granjeie algumas rendições instantâneas perante a simples visão da nossa bandeira.
Já a pensar nisso, contratei uma equipa de designers, com formação mista em psicologia do terror que, nos próximos dias, se encarregará de criar um logotipo inconfundível e deveras assustador.
Não lhes vou pagar nada. Enganar os designers será o meu primeiro ato criminoso e contribuirá para a adaptação ética à profissão que decidi abraçar.
Outro problema, em abstrato, poderia ser a alimentação. Mas eu já tive início de escorbuto quando fui anorética e, desses tempos, além de uma admirável indiferença orgânica às carência alimentares, guardei um stock de vitamina C que, apesar de fora de prazo, ainda está em excelentes condições de ser consumido.
Num plano mais técnico, preocupa-me o facto de não ter carta de marinheiro nem navio.
No entanto, isso da carta não passa de um resquício obsoleto de uma mente legalista. Uma vez Pirata, as minhas relações com a polícia marítima não vão chegar a um nível de intimidade que lhe permita a ousadia de me fiscalizar.
Quanto ao navio, tenho ideia que é nesta altura do ano que se costuma realizar aquela feira chamada Nauticampo.
As candidaturas a tripulante, acompanhadas dos respetivos curriculos e sem fotografia, para não dar falsas ideias a ninguém, deverão ser enviadas até ao final deste mês.
segunda-feira, 10 de junho de 2013
sábado, 8 de junho de 2013
?????????
Precisei voltar ao Wonderland para expor à lagarta que sabe tudo o problema do mau conto que me persegue. É um conto ruim, de história pobre, estrutura fraca, linguagem requentada e metáforas ordinárias. Sempre que o editor de texto me põe à frente uma imagem branca lá está o conto a ocupar-me o espaço e o tempo. A construir-se nas linhas do meu desprezo e encher-se páginas de contrariedade.
A lagarta inalou o fumo e olhou para o céu com uma expressão mista de impaciência e nostalgia
- Não podes fazer nada sobre esta proibição do tabaco verdadeiro? Estou farta de fumar chá…
- Talvez. E o meu problema?
Mais um olhar para para o céu, mas agora só de impaciência.
- O que é que já tentaste?
- Para me livrar dele? escrevi-o, claro.
- E continua a aparecer-te?
- Sempre.
- Tens um problema grave. Tivemos aqui uma situação parecida há uns anos. Um marinheiro com uma obsessão doentia por uma baleia que…
- isso foi no Melville.
A lagarta atirou o cachimbo ao chão furiosa e fixou-me irritada.
- E como esperas que te resolva os problemas com esta porcaria de tabaco de água que me dão para fumar?
- Já te disse que vou ver o que posso fazer…
- Não chegaste a dizer. Talvez seja esse o problema com o mau conto que te persegue.
- O implícito?
- dois, três e quatro são nove. Deves fazer como fizemos no caso do marinheiro. Esvazia o mar.
- Ou seja?
- E isso do tabaco, como é que fica? O dealer era o chapeleiro louco. Desapareceu por tua causa. Isto é tudo por tua causa. Nunca te devíamos ter deixado entrar.
- Vou-te propor um estatuto de exceção. Agora explica-me como é que esvazio o mar?
A lagarta apanhou o cachimbo no chão e começou a esfregá-lo de encontro ao peito enquanto o olhava como se estivesse à espera que dele saísse o génio do Aladino.
- Apaga o conto hoje mesmo e não escrevas mais uma linha enquanto ele não desistir de ti. Não se negoceia com terroristas.
Achei que era uma solução muito razoável.
destinatário desconhecido no local
No início da primavera, chegou a carta.
Tinha-a esperado durante muitos meses. Passou horas a imaginar o momento em que alguém entraria com aquela carta na mão. Treinou a expressão desinteressada com que a olharia. O gesto casual com que estenderia a mão para a receber. Pensou na curta conversa de circunstância que teria de fazer para que não transparecesse a avidez pelo momento a sós. Convenceu-se que a carta chegaria numa segunda-feira e os domingos do inverno foram aquecidos pela antevisão de um envelope no dia seguinte. Mas aos domingos, seguiu-se a desilusão de segunda-feira. Sem que se saiba dizer quando, acabou por lhe perder a esperança.
Uma tarde, no regresso do almoço, encontrou-a já nascida e autónoma no meio da secretária. O envelope era branco e extraordinariamente imaculado, considerando a distância que teve que percorrer até chegar às suas mãos. Primeiro, analisou-lhe as datas dos carimbos, como se a única explicação possível fosse a carta ter-se perdido no circuito da distribuição postal e ter dado a volta ao mundo várias vezes até lhe ser entregue. Depois, tomou-lhe o peso e adivinhou-lhe três páginas. Ficou a olhar para ela durante uns minutos e decidiu que só a deveria abrir fora dali. Talvez em casa. Talvez numa praia deserta que lhe desse a dignidade dramática que merecia.
Enfiou-a entre as páginas da agenda decidida a, naquele dia, sair mais cedo para se dedicar à atividade de ler a carta.
Mas esse dia prolongou-se pela noite e decidiu abri-la apenas no dia seguinte.
E no dia seguinte decidiu o mesmo. E no outro, e no outro e no outro.
A carta continuou fechada dentro da agenda onde desempenhou a útil função de marcador de todas as segundas-feiras.
Até ao dia em que, quando a ia fazer avançar mais uma semana, ficou parada a olhar para o seu nome escrito naquela caligrafia inclinada e decidida e percebeu, finalmente, a verdadeira razão pela qual não a abriu.
A carta chegou muito depois de a verdadeira destinatária ter partido, levando consigo a mensagem do silêncio, que foi aquela que, em tempo, recebeu.
Não ler correspondência de outras pessoas é um escrúpulo. Não entregar recados a quem já não é deste mundo, um princípio de sanidade.
No desinteresse em devolvê-la ao remetente, atirou-a ao lixo.
Foi a mais eloquente carta de amor que nunca ninguém recebeu.
quinta-feira, 6 de junho de 2013
honestidade compulsiva
Sempre que recebo um daqueles mails da Louis Vuitton fico na dúvida se não teria o dever de responder e explicar-lhes que não, agradeço muito, mas agora já não.
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Chess pieces
Quando os nosso olhos se cruzam e exibes o teu ódio catapultado para expoentes de contenção física impossível, encontras os meus esvaziados de expressão.
Cerras com a boca a raiva que te corta até à carne e a minha abre-se para te oferecer meio sorriso.
Ambos já fizemos este jogo várias vezes. Tu com pessoas iguais a mim e eu com pessoas iguais a ti. Conhecemos de cor as regras e ajeitamos o corpo ao tabuleiro. Tu terás de perder. Só um dos dois pode dominar o espaço desta sala e é melhor para todos para seja eu.
Até tu precisas dessa certeza.
Levas a mão à cabeça e simulas discretamente o gesto de um tiro na tua, que é a minha, têmpora.
Encosto-me para trás na cadeira, aumento o sorriso sem nunca deixar de te olhar e não te digo uma palavra. Sacudo com a mão o sangue imaginário que me escorre pelos cabelos.
É nessa altura, quando te devolvo o medo intacto, que percebes que já perdeste.
Hás-de sair da minha sala vergado pelo peso do ódio que te sobra nos cofres.
Nas tuas costas, desfaço-me da minha inútil máscara de vazio.
No fim de tudo, fica o som das vozes das mulheres que gritam o seu amor de encontro à tua indiferença. E fico eu, a sofrer com elas o eco daquilo que se perdeu em ti.
E é nesses momentos, e apenas nesses momentos, que tenho a certeza que cada um de nós ocupa o lugar certo no tabuleiro.
Levo a mão à têmpora para fechar o buraco do tiro.
terça-feira, 4 de junho de 2013
são piratas são. são homens perdidos. não sabem que este medo vem do chão.
Pensando bem, uma alternativa a tornar-me missionária em África, com a vantagem de alguma originalidade e sem os riscos de contribuir para a ruína de almas puras, poderia passar por roubar um navio, recrutar uma tripulação e dedicar-me à pirataria.
Acho mesmo que seria uma empreitada de sucesso garantido.
segunda-feira, 3 de junho de 2013
domingo, 2 de junho de 2013
Anne Bonny, esse modelo de sapiência
Anne Bonny, a pirata, essa senhora de elevadíssimo espírito moral, de quem nunca tinha ouvido falar mas que agora prometo não mais esquecer, é o verdadeiro role model do universo feminino. Uma precursora na arte do justo tratamento do sexo oposto. O guru da frase de despedida ao amante que se deixou apanhar numa noite de bebedeira.
Penso nas bonitas últimas palavras que dirigiu ao seu amante, imediatamente antes da execução da sentença de enforcamento, e não posso deixar de pensar que é deliberada a contribuição do ocidente para a deseducação feminina, e consequente extinção masculina, ao omitir dos curriculae os ensinamentos que esta senhora tem para nos dar.
Amputam-nos a alma com a ousadia cândida de uma shakespeareana Julieta apaixonada, com a Austeniana paciência estóica de gente chamada Emma, Elinor, Elizabeth, com a dignidade conformada da tennyssoniana Lady of Shalott. Ensinam-nos que acabam mal as insatisfeitas Karenina de Tolstoi, Bovary de Flaubert, Nana de Zola e até a pobre da Scarlett O'hara que nunca quis mais que uns vestidos bonitos e um homem lhe desse atenção.
Escondem-nos Anne Bonny, a mulher que já em 1720, deu o seu exemplo na luta contra a androginia masculina, que é a forma mais elegante que arranjei para dizer mariquice, tratando o homem que amava da maneira como ele tem que ser tratado.
"Se te tivesses batido como um homem, não te enforcariam como um cão".
Depois mandou uma mensagem ao pai, advogado rico, que a livrou a ela da forca.
É de um pragmatismo visionário.
Não via nada tão poético desde que Salomé exigiu a cabeça de João Baptista.
Grandes filósofos
"Se te tivesses batido como um homem, não te enforcariam como um cão".
Anne Bonny, a mulher pirata, "citada" por Jorge Luís Borges, in "História Universal da Infâmia"
Anne Bonny, a mulher pirata, "citada" por Jorge Luís Borges, in "História Universal da Infâmia"
foi assim...não foi assim...
- Vês cão, olha ali aquele casal tão fofinho a fazer um piquenique na relva.
- Emanas uma energia invejosa que me deixa perplexo e preocupado.
- Oh, vê como a felicidade pode ser tão simples.
- E barata. Já te aflorou o espírito a ideia de que ele pode não ter dinheiro para a levar a um restaurante?
- Estragas sempre tudo, cão.
- Só mobiliário sueco. Sempre respeitei a cómoda herdada.
- Podia ser feliz com um homem que me fizesse um piquenique num jardim no meio da cidade.
- A minha percepção canídea diz-me que te perdeste neste jardim na primeira vez que vieste aqui comigo. Ora, vivendo tu aqui ao lado, é legítimo concluir que essa fase bucólica-romântica é recente e passageira.
- Percebes pouco da natureza humana, cão. Um humano pode evoluir com as experiências anteriores e constatar que só na simplicidade pode encontrar a magia de um coração puro.
- E essa epifania surgiu, assim, subitamente? Diante da visão de dois jovens de esquerda a comer comida de lata, em cima de uma toalha de praia?
- A evolução, cão, faz-se pela substituição dos quadros mentais anteriores.
- Sim, sim. Mas agora, se não te importas, antes que o processo se conclua e cheguemos à fase do parque de campismo pulguento, leva-me a jantar a um sítio decente e bem frequentado. De preferência, daqueles onde não deixam entrar os outros cães. Dona.
- És um snob, cão. Não imagino com quem possas ter aprendido essas manias…
sábado, 1 de junho de 2013
Não gosto
Não gosto das duas da tarde nos domingos de verão junto ao mar. Não gosto do cheiro a cemitério que há nos blogues abandonados sem mensagem de despedida. Não gosto dos meus dedos dos pés quando saem da banheira. Não gosto do sabor do gengibre misturado com coisa nenhuma. Não gosto da sensação do fumo a passar pela garganta inflamada. Não gosto do som dos travões dos comboios sobre os carris. Não gosto do cheiro das salas cheias de pessoas. Não gosto das fitas encarnadas e brancas que delimitam cenários. Não gosto de mergulhar dentro das lagoas escuras das grutas. Não gosto da sensação do cobre sobre a pele. Não gosto do ruído de fundo do aeroporto Madrid-barajas. Não gosto de tocas de banho. Não gosto que demorem mais de uma hora a devolver-me as chamadas. Não gosto de mexer em papéis envelhecidos. Não gosto de vestir jeans lavados. Não gosto da expressão do rosto dos mortos aprisionados em fotografias. Não gosto de entrar na casa de banho das outras pessoas. Não gosto da pimenta no puré de batata. Não gosto das janelas trancadas nos hotéis. Não gosto do som dos tremores de terra. Não gosto da areia entre os pés e os sapatos. Não gosto de cabides vazios. Não gosto de bonecas de porcelana. Não gosto de narradores que se dirigem diretamente aos leitores. Não gosto de conversar nas galerias de arte. Não gosto do som do fecho das algemas. Não gosto que me ofereçam flores. Não gosto do espaçamento dos parágrafos nos livros. Não gosto dos gritos histéricos das gaivotas. Não gosto do olhar de solidão dos velhos. Não gosto de ouvir o som da minha voz nas gravações. Não gosto de restaurantes self-service. Não gosto das seis da tarde nos dias de inverno longe do mar.
sexta-feira, 31 de maio de 2013
À pergunta: "de que foge"?
As cidades não são apenas cidades.
São contentores de pedaços soltos da nossa história.
Por trás das avenidas existem jardins com árvores que foram plantadas por nós. Mas também existem as ruas e as praças que jazem no papel vegetal amarelecido num canto da varanda.
E esta ponte não é apenas uma travessia.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
sábado, 25 de maio de 2013
dois desgraçados
No processo de inventário que se seguiu à separação dos amantes, ele ficou com a lua, com as constelações conhecidas, com o arco-íris duplo que lhe tinha sido oferecido a ela.
Deu-lhe de tornas a cidade.
Cortaram o oceano ao meio e dividiram-no entre os dois.
Mas a lua tornou-se um local de solidão e foi preciso associar-lhe novas memórias, como fazem as pessoas que redecoram as casas onde lhes sobram os dias depois da partida da vida.
Esperou pela lua cheia, fez uma festa, chamou uma multidão, decidido a dissipar por todos os restos do património comum.
À meia noite menos um minuto, o campo encheu-se de gente e as fogueiras foram acesas e os primeiros acordes da música que lhe saiu dos dedos tingiram a noite de esquecimento.
Enquanto isso, à distância de meio oceano, debaixo das luzes da cidade, ela desfazia-se dos restos do coração em contratos selados com agiotas de fato italiano, maneiras inglesas e alma do reino de prestes joão.
À lua que o iluminou a ele, ela apenas a pode espreitar pelo vidro transparente do quarto, sentindo-se como se sente quem pára em frente à montra da loja onde brilha o antigo anel de noivado devolvido.
- Dois desgraçados.
Disse, envergonhada, a lua, ao ouvido do oceano.
terça-feira, 21 de maio de 2013
inimigos poderosos
"Love feels like a great misfortune, a monstrous parasite, a permanent state of emergency that ruins all small pleasures.”
Slavoj Zizek
Da minha experiência de guerra contra o meu arqui-inimigo Eros, a criança assassina, aprendi que, apesar de tudo, a técnica mais inteligente para o derrotar, continua a ser deixá-lo morrer à fome.
Etiquetas:
Cuca; o amor é a minha Moby Dick
trincheiras
"Love feels like a great misfortune, a monstrous parasite, a permanent state of emergency that ruins all small pleasures.”
Slavoj Zizek
Da minha experiência de guerra contra o meu arqui-inimigo Eros, a criança assassina, aprendi que, apesar de tudo, a técnica mais inteligente para o derrotar, continua a ser deixá-lo morrer à fome.
Etiquetas:
Cuca. O amor é a minha moby dick.
porque as pessoas apenas sabem ver ao longe
MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA
[ensaio sobre celebridades]
com as rugas escondidas de uma distância esticada,
o útero mudo, uma língua fóssil, a emoção mortífera.
o seu fruto é frígido, o seu todo tem as partes por unir.
as alíneas do seu índice são duvidosas e a música
que lhe enche o quarto é de vinil branco. o seu
tempo não tem a densidade que o nome exige,
apesar de ninguém o saber. dos seus olhos saem
porcelanas, o seu inverno é subterrâneo, a sua história
conta-se por carta. no seu exílio conheceu gente
que traduziu goethe e hölderlin e lhes acrescentou versos
por graça. os seus erros nunca couberam dentro de versos
porque o seu coração sempre mudou com as novas
grafias. nunca ninguém colocou um dedo que fosse
nas suas feridas porque sempre as soube esconder
fora dos locais do rosto. o seu sigilo tem a duração
do olhar, e este, sem distinguir planos, descontinua
a discrição dos movimentos dos outros. o seu infinito
oscila na memória inconsciente, a sua água é
vaporizada com as sombras do corpo contra a luz
quente. o seu alheamento é um pequeno subúrbio
onde os carros não passam e o passado das pessoas
que lá vivem fica na grande cidade. a sua imaginação
é solitária, a sua razão sempre extirpou a matéria fluida.
as suas pétalas são autónomas em relação às flores,
as suas cores envelhecem como se por esse facto
deixassem de ser úteis. a partir de certa altura
a sua natureza torna-se sonora e inexprimível, e
as suas obsessões são indefesas e frágeis. rilke
um dia escreve-lhe uma carta que veio devolvida
e nela constava um poema escrito à mão e pingos
de suor nocturno. todos os seus princípios eram
oficialmente os seus fins, e o silêncio do público
estranhamente o fazia notar ainda mais. até que ela
morre, morre mais do que a lei da vida, e o seu abismo
continua exuberante. apesar de ter vivido uma vida
corrosiva, ela permanece como um protótipo, porque
as pessoas não vêem as pequenas coisas, porque as
pessoas não se revêem nos equilíbrios, porque as pessoas
parecem sobreviver quando alguém morre, porque
as pessoas apenas sabem ver ao longe.
Tiago Nené, in "Polishop"
Punta Umbría, 2010Colecção Palavra Ibérica
domingo, 19 de maio de 2013
o universo é vingativo
Um dia, enquanto passava casualmente por uma daquelas apresentações literárias, senti tanta pena de um rapaz infeliz sentado sozinho numa mesa ao sol que lhe comprei um livro, sem qualquer intenção de o ler. Apesar de o rapaz ter ar de quem não comia há alguns dias, o objetivo não era dar-lhe dinheiro para que suprisse necessidades básicas de alimentação, mas apenas fazê-lo um bocadinho menos triste.
Muitos anos mais tarde, com o episódio completamente eclipsado da minha mente, encontrei caído na parte traseira do armário dos sapatos um saco de plástico com um livro, nunca aberto, autografado pelo, então já conhecido, José Luis Peixoto.
Dizem-me que o livro é bom, mas eu recuso-me a lê-lo por não querer conspurcar retroativamente um dos meus raros momentos de pura generosidade com a venalidade de uma troca comercial.
Lembrei-me desta estória ontem, ao reconhecer nos olhos de Esmeralda o mesmíssimo sentimento de piedade.
Espero, sinceramente, que também nunca leia o livrou que pagou.
sábado, 18 de maio de 2013
terça-feira, 14 de maio de 2013
- "can you handle the truth"?
O pouco que sabemos sobre nós próprios é o património de ilusão em que assentam os mínimos de auto-respeito funcional.
sábado, 11 de maio de 2013
queria ter acordado Alice
Acordei no auge da minha confusão mental sem saber se sou Alice, a rainha de copas, uma vaca sagrada, a esfinge, um ser humano ou uma lagartixa de cauda escamada. Também não consegui situar o candeeiro da mesinha de cabeceira em nenhuma década da minha vida e tive de abrir a gaveta à procura de meias de homem para tentar perceber se dividia a vida com algum e qual. É uma boa técnica porque os homens distinguem-se todos pelas meias que usam e assim conseguimos sempre saber em que fase do passado estamos a viver. Para que esta técnica identificativa e de apreciável auxílio no controlo dos incómodos do alzheimer seja verdadeiramente eficaz, nunca podemos ser nós, pelo menos usando os critérios estéticos próprios, a comprar meias ao nosso homem. Mas a mim nunca me passaria pela cabeça comprar meias a um homem e talvez também a isso se devam os meus fracassos relacionais.
Encontrei na gaveta uma trela de cão e depois de ter passado algum tempo a avaliar as possibilidades de uma relação sado-masoquista ou, pelo menos, de contornos mais kinky, lá me situei na realidade possível.
Para fugir dela muito rapidamente, decidi ir para a praia à procura de uma toca de coelho que me permitisse escorregar para um mundo em que o encolhimento só dependa da ingestão de uma fatia de tarte de maçã. Ainda comi a dita da tarte mas, desta vez, não apareceu nem o coelho do relógio, nem nenhuma outra criatura da sua trupe. Já nem falo no chapeleiro louco que, tanto quanto percebi, morreu vítima de hipotermia no meio de uma caçada à baleia.
Zanzei inconformada pela maré baixa à procura de um búzio que me trouxesse vozes de outras margens do oceano. Mas os búzios já só sussurram murmúrios incompreensíveis e eu pareço ter desaprendido a linguagem do mar.
Um resto de juízo ordenou-me que voltasse para casa e tomasse conta dos papéis espalhados pela sala a implorarem soluções urgentes.
Pensei que, se não tenho cuidado, ainda me transformo numa pessoa normal.
Houve tempos em que esse foi o meu maior desejo. Mas isso foi há muito tempo.
Itinerâncias
E chegou aquela altura do ano em que eu desdobro o mapa de Portugal e escolho o buraco onde me vou enterrar no ano seguinte.
sexta-feira, 10 de maio de 2013
quinta-feira, 9 de maio de 2013
este medo de ser o que eles são: mortos.
hello, how are you?
this fear of being what they are:
dead.
dead.
at least they are not out on the street, they
are careful to stay indoors, those
pasty mad who sit alone before their tv sets,
their lives full of canned, mutilated laughter.
are careful to stay indoors, those
pasty mad who sit alone before their tv sets,
their lives full of canned, mutilated laughter.
their ideal neighborhood
of parked cars
of little green lawns
of little homes
the little doors that open and close
as their relatives visit
throughout the holidays
the doors closing
behind the dying who die so slowly
behind the dead who are still alive
in your quiet average neighborhood
of winding streets
of agony
of confusion
of horror
of fear
of ignorance.
of parked cars
of little green lawns
of little homes
the little doors that open and close
as their relatives visit
throughout the holidays
the doors closing
behind the dying who die so slowly
behind the dead who are still alive
in your quiet average neighborhood
of winding streets
of agony
of confusion
of horror
of fear
of ignorance.
a dog standing behind a fence.
a man silent at the window
Charles Bukowski
sábado, 4 de maio de 2013
Raivinha de dentes
Deu-me muito trabalho escrever aquela carta em tom cool, como se nada importasse muito. Estava cheia de mentiras, é claro.
Mereceu uma resposta magnífica e que suponho também ter dado muito trabalho a elaborar.
Chegou aos poucos. Dia após dia. Ainda a recebo, a cada minuto que passa.
Tantos códigos depois, tantos meios de comunicação mais tarde, continua a ser o silêncio a forma mais pura e inequívoca de se expressar o desprezo.
quarta-feira, 1 de maio de 2013
Lisboa
Desta vez não vim fugida.
Expliquei que tinha de vir à manifestação da CGTP e concederam-me uma precária até domingo.
Eu e o meu cão vamos manifestar-nos para o jardim da Estrela.
Pendurei-lhe um cartaz a dizer "pelo direito a trabalhar só 10 horas por dia".
Expliquei que tinha de vir à manifestação da CGTP e concederam-me uma precária até domingo.
Eu e o meu cão vamos manifestar-nos para o jardim da Estrela.
Pendurei-lhe um cartaz a dizer "pelo direito a trabalhar só 10 horas por dia".
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