terça-feira, 18 de junho de 2013

Cuca, a Pirata

Contava adquirir (é propositada a neutralidade do verbo) a embarcação indispensável aos desígnios da Pirataria numa feira chamada Nauticampo. Mas avisaram-me que, além de não se realizar por estes dias, não costumam lá ter expostos para venda barcos com a dimensão necessária para albergar condignamente uma tripulação Pirata. 
Depois de umas negociações falhadas com a Costa Cruise, acabei por aceitar uma daquelas ofertas que as financeiras tão gentil e insistentemente me enviam para a caixa do correio e fiz um leasing para aquisição desse barquinho da fotografia. O processo foi tão incrivelmente simples que, não se desse o caso de eu ser portadora de uma obstinação patológica, teria abandonado o projeto da Pirataria para me dedicar à menos original, mas ainda assim lucrativa, burla de locadoras. 
Dez assinaturas em papelinhos com letras tamanho cinco depois, ofereceram-me o barquinho e ainda me serviram um café.  
Claro que quando se vencer a primeira prestação, já eu e a minha tripulação teremos zarpado para os mares do sul, onde estaremos demasiado ocupados a aterrorizar toda a gente para ter tempo de assinar citações do tribunal. 



sábado, 15 de junho de 2013

de leitura obrigatória




"In short, one may say anything about the history of the world--anything that might enter the most disordered imagination. The only thing one can't say is that it's rational. The very word sticks in one's throat. And, indeed, this is the odd thing that is continually happening: there are continually turning up in life moral and rational persons, sages and lovers of humanity who make it their object to live all their lives as morally and rationally as possible, to be, so to speak, a light to their neighbours simply in order to show them that it is possible to live morally and rationally in this world. And yet we all know that those very people sooner or later have been false to themselves, playing some queer trick, often a most unseemly one. Now I ask you: what can be expected of man since he is a being endowed with strange qualities? Shower upon him every earthly blessing, drown him in a sea of happiness, so that nothing but bubbles of bliss can be seen on the surface; give him economic prosperity, such that he should have nothing else to do but sleep, eat cakes and busy himself with the continuation of his species, and even then out of sheer ingratitude, sheer spite, man would play you some nasty trick. He would even risk his cakes and would deliberately desire the most fatal rubbish, the most uneconomical absurdity, simply to introduce into all this positive good sense his fatal fantastic element. It is just his fantastic dreams, his vulgar folly that he will desire to retain, simply in order to prove to himself--as though that were so necessary--that men still are men and not the keys of a piano, which the laws of nature threaten to control so completely that soon one will be able to desire nothing but by the calendar. (...) If you say that all this, too, can be calculated and tabulated--chaos and darkness and curses, so that the mere possibility of calculating it all beforehand would stop it all, and reason would reassert itself, then man would purposely go mad in order to be rid of reason and gain his point! I believe in it, I answer for it, for the whole work of man really seems to consist in nothing but proving to himself every minute that he is a man and not a piano-key! It may be at the cost of his skin, it may be by cannibalism! And this being so, can one help being tempted to rejoice that it has not yet come off, and that desire still depends on something we don't know?"

Fiodor Dostoievski, in, Notes From the Underground

Eurídice - Na vida real não há romãs


Mandam as insondáveis razões de coerência, que as semanas horríveis terminem em noites de sexta-feira monocromaticamente horrorosas.
Já tinha disciplinado o cérebro para que não se expusesse ao risco do sonho e se limitasse a cumprir, espartilhado, a sua missão de me deixar dormir. A liberdade do sono é um exclusivo dos que nada têm a temer de si próprios e eu não faço parte desse grupo de privilegiados. 
Mas esta semana todos insistem em desobedecer-me e até o meu próprio cérebro aderiu à última tendência fashion do verão que é a rebelião desorganizada contra as estruturas do poder instalado. 
Passei dois terços da noite convencida que ainda vivia numa Ilha e, na violência do pesadelo, pensei tratar-se de um sonho.
Devo ter sido feliz. 
Eram os tempos da inocência em que Orfeu tocava uma lira de melodia doce, Eurídice ainda não tinha sido mordida pela serpente e nenhum dos dois jogava ao galo nas escuras paredes de Hades. 
No último terço, sonhei que a realidade traiu a mitologia. Na vida real não há romãs. Foi a Eurídice que Hades impôs a condição de não poder olhar para trás sob pena de deixar Orfeu, para sempre, enclausurado no reino dos mortos. Em troca, nada mais do que a salvação do único que ainda podia ser salvo. Aquele que não pertencia às caves subterrâneas e só ali chegou em condenada missão de resgate. Na vida real não há romãs.
Caso a subtileza do meu relance não tenha passado despercebida aos deuses, espero que a traição seja relevada pela rebeldia involuntária dos sonhos. 
Orfeu viverá. Nem que isso me custe os olhos. 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

publicidade dirigida


Não sei se são os resquícios da misoginia que grassa por aí ou se às minhas qualidades como futura capitã Pirata falta aquela evidência que costuma ter o condão de arrastar massas. A verdade é que já abri o concurso há mais de vinte e quatro horas e ainda não tenho meios humanos suficientes para constituir uma tripulação capaz de espalhar o medo pelos mares e dominar o mundo.
É certo que nada me demoverá e já decidi que, em último caso, sequestrarei voluntários. Ainda assim, conhecendo eu a importância da diplomacia no ambiente de trabalho e tendo um historial maníaco na intransigente defesa dos direitos humanos, preferia que esta empreitada fosse constituída apenas por pessoas mais ou menos livres.


Lamento alguma agressividade no tom, mas hão-de compreender que isto não é coisa para meninos.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

weirdless

A rede wireless também serve para deixar a nu os problemas de auto-estima dos nossos vizinhos.
Já achava estranho haver quem se identificasse como "casadinho" mas, recentemente, mudou-se para o prédio um tal de "poucochinho".

dois rufias

Destacados sobre um fundo de paredes celestes ou de céu alto, dois rufias cingidos em séria roupa negra bailam com sapatos de mulher uma dança solene, que é a das facas iguais, até que de uma orelha salta um cravo porque a faca entrou num homem, que fecha com a sua morte horizontal uma dança sem música. Resignado, o outro ajeita o chapéu e dedica a sua velhice à narração desse duelo tão puro. Esta é a história pormenorizada e total da nossa maldade. (...)

Jorge Luís Borges, in História Universal da Infâmia 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Projeto Pirataria




Há coisas que uma mulher tem de estar preparada para enfrentar quando decide abandonar tudo para tornar-se Pirata.
Acredito que tenho feito um bom trabalho de preparação para iniciar a minha nova vida de delinquente dos mares e que tenho competências que garantirão o êxito da empreitada.
Depois da estopada do Moby Dick, não deve haver nada que eu não saiba sobre a vida a bordo de um navio cheio de gente sem escrúpulos. E se é provável que existam algumas diferenças relativamente ao meu atual meio profissional, a verdade é que, neste momento, só me ocorre a óbvia instabilidade do solo.
A falta da televisão, aquilo que poderia ser um verdadeiro problema, já foi contornada pelos últimos três meses de absoluta abstinência televisiva.  
Também já consegui aprender a cuidar do cabelo e das unhas sem assistência de terceiros. Claro que, em alto mar, o sal dificultar-me-á a tarefa e suspeito que escovas elétricas estarão fora de questão. Penso contornar essa situação aderindo à moda rastafari que, ao dar-me um certo ar caribeno, só pode contribuir para aumentar a minha credibilidade e potenciar a fama. 
A fama, na carreira de Pirata, não é coisa de somenos importância nem serve apenas para alimentar egos deficientes. A fama far-nos-á poupar em munições e esforços. É imperativo criar uma reputação terrorista que granjeie algumas rendições instantâneas perante a simples visão da nossa bandeira.
Já a pensar nisso, contratei uma equipa de designers, com formação mista em psicologia do terror que, nos próximos dias, se encarregará de criar um logotipo inconfundível e deveras assustador. 
Não lhes vou pagar nada. Enganar os designers será o meu primeiro ato criminoso e contribuirá para a adaptação ética à profissão que decidi abraçar.
Outro problema, em abstrato, poderia ser a alimentação. Mas eu já tive início de escorbuto quando fui anorética e, desses tempos, além de uma admirável indiferença orgânica às carência alimentares, guardei um stock de vitamina C que, apesar de fora de prazo, ainda está em excelentes condições de ser consumido. 
Num plano mais técnico, preocupa-me o facto de não ter carta de marinheiro nem navio.
No entanto, isso da carta não passa de um resquício obsoleto de uma mente legalista. Uma vez Pirata, as minhas relações com a polícia marítima não vão chegar a um nível de intimidade que lhe permita a ousadia de me fiscalizar.
Quanto ao navio, tenho ideia que é nesta altura do ano que se costuma realizar aquela feira chamada Nauticampo. 
As candidaturas a tripulante, acompanhadas dos respetivos curriculos e sem fotografia, para não dar falsas ideias a ninguém, deverão ser enviadas até ao final deste mês. 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A trinta dias de mais um final

Reconheço este sentimento de inquietude. 
Significa que está na altura de mudar de terra.

sábado, 8 de junho de 2013

?????????



Precisei voltar ao Wonderland para expor à lagarta que sabe tudo o problema do mau conto que me persegue. É um conto ruim, de história pobre, estrutura fraca, linguagem requentada e metáforas ordinárias. Sempre que o editor de texto me põe à frente uma imagem branca lá está o conto a ocupar-me o espaço e o tempo. A construir-se nas linhas do meu desprezo e encher-se páginas de contrariedade. 
A lagarta inalou o fumo e olhou para o céu com uma expressão mista de impaciência e nostalgia
- Não podes fazer nada sobre esta proibição do tabaco verdadeiro? Estou farta de fumar chá…
- Talvez. E o meu problema?
Mais um olhar para para o céu, mas agora só de impaciência.
- O que é que já tentaste?
- Para me livrar dele? escrevi-o, claro.
- E continua a aparecer-te? 
- Sempre.
- Tens um problema grave. Tivemos aqui uma situação parecida há uns anos. Um marinheiro com uma obsessão doentia por uma baleia que…
- isso foi no Melville.
A lagarta atirou o cachimbo ao chão furiosa e fixou-me irritada.
- E como esperas que te resolva os problemas com esta porcaria de tabaco de água que me dão para fumar? 
- Já te disse que vou ver o que posso fazer…
- Não chegaste a dizer. Talvez seja esse o problema com o mau conto que te persegue. 
- O implícito?
- dois, três e quatro são nove. Deves fazer como fizemos no caso do marinheiro. Esvazia o mar. 
- Ou seja?
- E isso do tabaco, como é que fica? O dealer era o chapeleiro louco. Desapareceu por tua causa. Isto é tudo por tua causa. Nunca te devíamos ter deixado entrar.
-  Vou-te propor um estatuto de exceção. Agora explica-me como é que esvazio o mar?
A lagarta apanhou o cachimbo no chão e começou a esfregá-lo de encontro ao peito enquanto o olhava como se estivesse à espera que dele saísse o génio do Aladino.
- Apaga o conto hoje mesmo e não escrevas mais uma linha enquanto ele não desistir de ti. Não se negoceia com terroristas. 

Achei que era uma solução muito razoável. 

destinatário desconhecido no local



No início da primavera, chegou a carta. 
Tinha-a esperado durante muitos meses. Passou horas a imaginar o momento em que alguém entraria com aquela carta na mão. Treinou a expressão desinteressada com que a olharia. O gesto casual com que estenderia a mão para a receber. Pensou na curta conversa de circunstância que teria de fazer para que não transparecesse a avidez pelo momento a sós. Convenceu-se que a carta chegaria numa segunda-feira e os domingos do inverno foram aquecidos pela antevisão de um envelope no dia seguinte. Mas aos domingos, seguiu-se a desilusão de segunda-feira. Sem que se saiba dizer quando, acabou por lhe perder a esperança.
Uma tarde, no regresso do almoço, encontrou-a já nascida e autónoma no meio da secretária. O envelope era branco e extraordinariamente imaculado, considerando a distância que teve que percorrer até chegar às suas mãos. Primeiro, analisou-lhe as datas dos carimbos, como se a única explicação possível fosse a carta ter-se perdido no circuito da distribuição postal e ter dado a volta ao mundo várias vezes até lhe ser entregue. Depois, tomou-lhe o peso e adivinhou-lhe três páginas. Ficou a olhar para ela durante uns minutos e decidiu que só a deveria abrir fora dali. Talvez em casa. Talvez numa praia deserta que lhe desse a dignidade dramática que merecia. 
Enfiou-a entre as páginas da agenda decidida a, naquele dia, sair mais cedo para se dedicar à atividade de ler a carta.
Mas esse dia prolongou-se pela noite e decidiu abri-la apenas no dia seguinte.
E no dia seguinte decidiu o mesmo. E no outro, e no outro e no outro.
A carta continuou fechada dentro da agenda onde desempenhou a útil função de marcador de todas as segundas-feiras.
Até ao dia em que, quando a ia fazer avançar mais uma semana, ficou parada a olhar para o seu nome escrito naquela caligrafia inclinada e decidida e percebeu, finalmente, a verdadeira razão pela qual não a abriu. 
A carta chegou muito depois de a verdadeira destinatária ter partido, levando consigo a mensagem do silêncio, que foi aquela que, em tempo, recebeu.
Não ler correspondência de outras pessoas é um escrúpulo. Não entregar recados a quem já não é deste mundo, um princípio de sanidade.
No desinteresse em devolvê-la ao remetente, atirou-a ao lixo.
Foi a mais eloquente carta de amor que nunca ninguém recebeu. 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Heartless coward bird of beak, when life is too short to speak



honestidade compulsiva

Sempre que recebo um daqueles mails da Louis Vuitton fico na dúvida se não teria o dever de responder e explicar-lhes que não, agradeço muito, mas agora já não.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Chess pieces




Quando os nosso olhos se cruzam e exibes o teu ódio catapultado para expoentes de contenção física impossível, encontras os meus esvaziados de expressão.
Cerras com a boca a raiva que te corta até à carne e a minha abre-se para te oferecer meio sorriso.
Ambos já fizemos este jogo várias vezes. Tu com pessoas iguais a mim e eu com pessoas iguais a ti. Conhecemos de cor as regras e ajeitamos o corpo ao tabuleiro. Tu terás de perder. Só um dos dois pode dominar o espaço desta sala e é melhor para todos para seja eu. 
Até tu precisas dessa certeza.
Levas a mão à cabeça e simulas discretamente o gesto de um tiro na tua, que é a minha, têmpora. 
Encosto-me para trás na cadeira, aumento o sorriso sem nunca deixar de te olhar e não te digo uma palavra. Sacudo com a mão o sangue imaginário que me escorre pelos cabelos. 
É nessa altura, quando te devolvo o medo intacto, que percebes que já perdeste. 
Hás-de sair da minha sala vergado pelo peso do ódio que te sobra nos cofres. 
Nas tuas costas, desfaço-me da minha inútil máscara de vazio.
No fim de tudo, fica o som das vozes das mulheres que gritam o seu amor de encontro à tua indiferença. E fico eu, a sofrer com elas o eco daquilo que se perdeu em ti. 
E é nesses momentos, e apenas nesses momentos, que tenho a certeza que cada um de nós ocupa o lugar certo no tabuleiro.
Levo a mão à têmpora para fechar o buraco do tiro.

terça-feira, 4 de junho de 2013

são piratas são. são homens perdidos. não sabem que este medo vem do chão.



Pensando bem, uma alternativa a tornar-me missionária em África, com a vantagem de alguma originalidade e sem os riscos de contribuir para a ruína de almas puras, poderia passar por roubar um navio, recrutar uma tripulação e dedicar-me à pirataria. 
Acho mesmo que seria uma empreitada de sucesso garantido.

domingo, 2 de junho de 2013

Anne Bonny, esse modelo de sapiência


Anne Bonny, a pirata, essa senhora de elevadíssimo espírito moral, de quem nunca tinha ouvido falar mas que agora prometo não mais esquecer, é o verdadeiro role model do universo feminino. Uma precursora na arte do justo tratamento do sexo oposto. O guru da frase de despedida ao amante que se deixou apanhar numa noite de bebedeira.
Penso nas bonitas últimas palavras que dirigiu ao seu amante, imediatamente antes da execução da sentença de enforcamento, e não posso deixar de pensar que é deliberada a contribuição do ocidente para a deseducação feminina, e consequente extinção masculina, ao omitir dos curriculae os ensinamentos que esta senhora tem para nos dar. 
Amputam-nos a alma com a ousadia cândida de uma shakespeareana Julieta apaixonada, com a Austeniana paciência estóica de gente chamada Emma, Elinor, Elizabeth, com a dignidade conformada da tennyssoniana Lady of Shalott. Ensinam-nos que acabam mal as insatisfeitas Karenina de Tolstoi, Bovary de Flaubert, Nana de Zola e até a pobre da Scarlett O'hara que nunca quis mais que uns vestidos bonitos e um homem lhe desse atenção.  
Escondem-nos Anne Bonny, a mulher que já em 1720, deu o seu exemplo na luta contra a androginia masculina, que é a forma mais elegante que arranjei para dizer mariquice, tratando o homem que amava da maneira como ele tem que ser tratado.

"Se te tivesses batido como um homem, não te enforcariam como um cão".


Depois mandou uma mensagem ao pai, advogado rico, que a livrou a ela da forca.

É de um pragmatismo visionário.
Não via nada tão poético desde que Salomé exigiu a cabeça de João Baptista. 

Grandes filósofos

"Se te tivesses batido como um homem, não te enforcariam como um cão".

Anne Bonny, a mulher pirata, "citada" por Jorge Luís Borges, in "História Universal da Infâmia"

foi assim...não foi assim...




- Vês cão, olha ali aquele casal tão fofinho a fazer um piquenique na relva.
- Emanas uma energia invejosa que me deixa perplexo e preocupado.
- Oh, vê como a felicidade pode ser tão simples.
- E barata. Já te aflorou o espírito a ideia de que ele pode não ter dinheiro para a levar a um restaurante?
- Estragas sempre tudo, cão.
- Só mobiliário sueco. Sempre respeitei a cómoda herdada. 
- Podia ser feliz com um homem que me fizesse um piquenique num jardim no meio da cidade.
- A minha percepção canídea diz-me que te perdeste neste jardim na primeira vez que vieste aqui comigo. Ora, vivendo tu aqui ao lado, é legítimo concluir que essa fase bucólica-romântica é recente e passageira.
- Percebes pouco da natureza humana, cão. Um humano pode evoluir com as experiências anteriores e constatar que só na simplicidade pode encontrar a magia de um coração puro.
- E essa epifania surgiu, assim, subitamente? Diante da visão de dois jovens de esquerda a comer comida de lata, em cima de uma toalha de praia?
- A evolução, cão, faz-se pela substituição dos quadros mentais anteriores.
- Sim, sim. Mas agora, se não te importas, antes que o processo se conclua e cheguemos à fase do parque de campismo pulguento, leva-me a jantar a um sítio decente e bem frequentado. De preferência, daqueles onde não deixam entrar os outros cães. Dona.
- És um snob, cão. Não imagino com quem possas ter aprendido essas manias…

sábado, 1 de junho de 2013

Não gosto


Não gosto das duas da tarde nos domingos de verão junto ao mar. Não gosto do cheiro a cemitério que há nos blogues abandonados sem mensagem de despedida. Não gosto dos meus dedos dos pés quando saem da banheira. Não gosto do sabor do gengibre misturado com coisa nenhuma. Não gosto da sensação do fumo a passar pela garganta inflamada. Não gosto do som dos travões dos comboios sobre os carris. Não gosto do cheiro das salas cheias de pessoas. Não gosto das fitas encarnadas e brancas que delimitam cenários. Não gosto de mergulhar dentro das lagoas escuras das grutas. Não gosto da sensação do cobre sobre a pele. Não gosto do ruído de fundo do aeroporto Madrid-barajas. Não gosto de tocas de banho. Não gosto que demorem mais de uma hora a devolver-me as chamadas. Não gosto de mexer em papéis envelhecidos. Não gosto de vestir jeans lavados. Não gosto da expressão do rosto dos mortos aprisionados em fotografias. Não gosto de entrar na casa de banho das outras pessoas. Não gosto da pimenta no puré de batata. Não gosto das janelas trancadas nos hotéis. Não gosto do som dos tremores de terra. Não gosto da areia entre os pés e os sapatos. Não gosto de cabides vazios. Não gosto de bonecas de porcelana. Não gosto de narradores que se dirigem diretamente aos leitores. Não gosto de conversar nas galerias de arte. Não gosto do som do fecho das algemas. Não gosto que me ofereçam flores. Não gosto do espaçamento dos parágrafos nos livros. Não gosto dos gritos histéricos das gaivotas. Não gosto do olhar de solidão dos velhos. Não gosto de ouvir o som da minha voz nas gravações. Não gosto de restaurantes self-service. Não gosto das seis da tarde nos dias de inverno longe do mar. 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

À pergunta: "de que foge"?


As cidades não são apenas cidades. 
São contentores de pedaços soltos da nossa história.
Por trás das avenidas existem jardins com árvores que foram plantadas por nós. Mas também existem as ruas e as praças que jazem no papel vegetal amarelecido num canto da varanda.  
E esta ponte não é apenas uma travessia. 

sábado, 25 de maio de 2013

Se a moda pega...

Esqueçamos por um instante que se tratam de Miguel e Aníbal.

dois desgraçados



No processo de inventário que se seguiu à separação dos amantes, ele ficou com a lua, com as constelações conhecidas, com o arco-íris duplo que lhe tinha sido oferecido a ela. 
Deu-lhe de tornas a cidade.
Cortaram o oceano ao meio e dividiram-no entre os dois.
Mas a lua tornou-se um local de solidão e foi preciso associar-lhe novas memórias, como fazem as pessoas que redecoram as casas onde lhes sobram os dias depois da partida da vida.
Esperou pela lua cheia, fez uma festa, chamou uma multidão, decidido a dissipar por todos os restos do património comum.
À meia noite menos um minuto, o campo encheu-se de gente e as fogueiras foram acesas e os primeiros acordes da música que lhe saiu dos dedos tingiram a noite de esquecimento. 
Enquanto isso, à distância de meio oceano, debaixo das luzes da cidade, ela desfazia-se dos restos do coração em contratos selados com agiotas de fato italiano, maneiras inglesas e alma do reino de prestes joão. 
À lua que o iluminou a ele, ela apenas a pode espreitar pelo vidro transparente do quarto, sentindo-se como se sente quem pára em frente à montra da loja onde brilha o antigo anel de noivado devolvido. 

- Dois desgraçados.

 Disse, envergonhada, a lua, ao ouvido do oceano. 

terça-feira, 21 de maio de 2013

inimigos poderosos


"Love feels like a great misfortune, a monstrous parasite, a permanent state of emergency that ruins all small pleasures.”
Slavoj Zizek

Da minha experiência de guerra contra o meu arqui-inimigo Eros, a criança assassina, aprendi que, apesar de tudo, a técnica mais inteligente para o derrotar, continua a ser deixá-lo morrer à fome.

trincheiras

"Love feels like a great misfortune, a monstrous parasite, a permanent state of emergency that ruins all small pleasures.”
Slavoj Zizek

Da minha experiência de guerra contra o meu arqui-inimigo Eros, a criança assassina, aprendi que, apesar de tudo, a técnica mais inteligente para o derrotar, continua a ser deixá-lo morrer à fome.

porque as pessoas apenas sabem ver ao longe

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA

[ensaio sobre celebridades]

com as rugas escondidas de uma distância esticada,
o útero mudo, uma língua fóssil, a emoção mortífera.
o seu fruto é frígido, o seu todo tem as partes por unir.
as alíneas do seu índice são duvidosas e a música
que lhe enche o quarto é de vinil branco. o seu
tempo não tem a densidade que o nome exige,
apesar de ninguém o saber. dos seus olhos saem
porcelanas, o seu inverno é subterrâneo, a sua história
conta-se por carta. no seu exílio conheceu gente
que traduziu goethe e hölderlin e lhes acrescentou versos
por graça. os seus erros nunca couberam dentro de versos
porque o seu coração sempre mudou com as novas
grafias. nunca ninguém colocou um dedo que fosse
nas suas feridas porque sempre as soube esconder
fora dos locais do rosto. o seu sigilo tem a duração
do olhar, e este, sem distinguir planos, descontinua
a discrição dos movimentos dos outros. o seu infinito
oscila na memória inconsciente, a sua água é
vaporizada com as sombras do corpo contra a luz
quente. o seu alheamento é um pequeno subúrbio
onde os carros não passam e o passado das pessoas
que lá vivem fica na grande cidade. a sua imaginação
é solitária, a sua razão sempre extirpou a matéria fluida.
as suas pétalas são autónomas em relação às flores,
as suas cores envelhecem como se por esse facto
deixassem de ser úteis. a partir de certa altura
a sua natureza torna-se sonora e inexprimível, e
as suas obsessões são indefesas e frágeis. rilke
um dia escreve-lhe uma carta que veio devolvida
e nela constava um poema escrito à mão e pingos
de suor nocturno. todos os seus princípios eram
oficialmente os seus fins, e o silêncio do público
estranhamente o fazia notar ainda mais. até que ela
morre, morre mais do que a lei da vida, e o seu abismo
continua exuberante. apesar de ter vivido uma vida
corrosiva, ela permanece como um protótipo, porque
as pessoas não vêem as pequenas coisas, porque as
pessoas não se revêem nos equilíbrios, porque as pessoas
parecem sobreviver quando alguém morre, porque
as pessoas apenas sabem ver ao longe.

Tiago Nené, in "Polishop"
Punta Umbría, 2010
Colecção Palavra Ibérica

domingo, 19 de maio de 2013

o universo é vingativo


Um dia, enquanto passava casualmente por uma daquelas apresentações literárias, senti tanta pena de um rapaz infeliz sentado sozinho numa mesa ao sol que lhe comprei um livro, sem qualquer intenção de o ler. Apesar de o rapaz ter ar de quem não comia há alguns dias, o objetivo não era dar-lhe dinheiro para que suprisse necessidades básicas de alimentação, mas apenas fazê-lo um bocadinho menos triste. 
Muitos anos mais tarde, com o episódio completamente eclipsado da minha mente, encontrei caído na parte traseira do armário dos sapatos um saco de plástico com um livro, nunca aberto, autografado pelo, então já conhecido, José Luis Peixoto. 
Dizem-me que o livro é bom, mas eu recuso-me a lê-lo por não querer conspurcar retroativamente um dos meus raros momentos de pura generosidade com a venalidade de uma troca comercial. 
Lembrei-me desta estória ontem, ao reconhecer nos olhos de Esmeralda o mesmíssimo sentimento de piedade.
Espero, sinceramente, que também nunca leia o livrou que pagou.

terça-feira, 14 de maio de 2013

- "can you handle the truth"?

O pouco que sabemos sobre nós próprios é o património de ilusão em que assentam os mínimos de auto-respeito funcional.

sábado, 11 de maio de 2013

queria ter acordado Alice



Acordei no auge da minha confusão mental sem saber se sou Alice, a rainha de copas, uma vaca sagrada, a esfinge, um ser humano ou uma lagartixa de cauda escamada. Também não consegui situar o candeeiro da mesinha de cabeceira em nenhuma década da minha vida e tive de abrir a gaveta à procura de meias de homem para tentar perceber se dividia a vida com algum e qual. É uma boa técnica porque os homens distinguem-se todos pelas meias que usam e assim conseguimos sempre saber em que fase do passado estamos a viver. Para que esta técnica identificativa e de apreciável auxílio no controlo dos incómodos do alzheimer seja verdadeiramente eficaz, nunca podemos ser nós, pelo menos usando os critérios estéticos próprios, a comprar meias ao nosso homem. Mas a mim nunca me passaria pela cabeça comprar meias a um homem e talvez também a isso se devam os meus fracassos relacionais. 
Encontrei na gaveta uma trela de cão e depois de ter passado algum tempo a avaliar as possibilidades de uma relação sado-masoquista ou, pelo menos, de contornos mais kinky, lá me situei na realidade possível.
Para fugir dela muito rapidamente, decidi ir para a praia à procura de uma toca de coelho que me permitisse escorregar para um mundo em que o encolhimento só dependa da ingestão de uma fatia de tarte de maçã. Ainda comi a dita da tarte mas, desta vez, não apareceu nem o coelho do relógio, nem nenhuma outra criatura da sua trupe. Já nem falo no chapeleiro louco que, tanto quanto percebi, morreu vítima de hipotermia no meio de uma caçada à baleia.
Zanzei inconformada pela maré baixa à procura de um búzio que me trouxesse vozes de outras margens do oceano. Mas os búzios já só sussurram murmúrios incompreensíveis e eu pareço ter desaprendido a linguagem do mar.
Um resto de juízo ordenou-me que voltasse para casa e tomasse conta dos papéis espalhados pela sala a implorarem soluções urgentes.
Pensei que, se não tenho cuidado, ainda me transformo numa pessoa normal.
Houve tempos em que esse foi o meu maior desejo. Mas isso foi há muito tempo. 

Itinerâncias

E chegou aquela altura do ano em que eu desdobro o mapa de Portugal e escolho o buraco onde me vou enterrar no ano seguinte.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

este medo de ser o que eles são: mortos.


hello, how are you?
this fear of being what they are:
dead.
at least they are not out on the street, they
are careful to stay indoors, those
pasty mad who sit alone before their tv sets,
their lives full of canned, mutilated laughter.
their ideal neighborhood
of parked cars
of little green lawns
of little homes
the little doors that open and close
as their relatives visit
throughout the holidays
the doors closing
behind the dying who die so slowly
behind the dead who are still alive
in your quiet average neighborhood
of winding streets
of agony
of confusion
of horror
of fear
of ignorance.
a dog standing behind a fence.
a man silent at the window

Charles Bukowski

sábado, 4 de maio de 2013

Raivinha de dentes



Deu-me muito trabalho escrever aquela carta em tom cool, como se nada importasse muito. Estava cheia de mentiras, é claro. 
Mereceu uma resposta magnífica e que suponho também ter dado muito trabalho a elaborar. 
Chegou aos poucos. Dia após dia. Ainda a recebo, a cada minuto que passa. 
Tantos códigos depois, tantos meios de comunicação mais tarde, continua a ser o silêncio a forma mais pura e inequívoca de se expressar o desprezo. 

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Lisboa

Desta vez não vim fugida.
Expliquei que tinha de vir à manifestação da CGTP e concederam-me uma precária até domingo.
Eu e o meu cão vamos manifestar-nos para o jardim da Estrela.
Pendurei-lhe um cartaz a dizer "pelo direito a trabalhar só 10 horas por dia".

domingo, 28 de abril de 2013

Tudo o que não pode faltar em qualquer boa história sobre o desprezo


neo-doenças


A marca proeminente da sociedade contemporânea é a generalizada necessidade de atenção que na última década parece ter atacado todos os seres vivos. Não conheço explicação para a epidémica solidão que transborda por todo o lado mas parece-me que justifica um estudo urgente com retorno do investimento na diminuição das baixas psiquiátricas e comparticipações de anti-depressivos. Já para não falar nos fenómenos de psicopatia que volta e meia acabam com chacinas em infantários e escolas primárias. 
A coincidência no tempo faz-me pensar que existe uma perversa ligação entre a proliferação dos meios de comunicação e esta irritante necessidade de atenção. Pode parecer um paradoxo mas não é. Um telemóvel que não toca ou um post no facebook sem likes terá o efeito de fazer com que as pessoas percebam que ninguém quer saber delas para nada.
Para tornar tudo mais complexo, a doença parece ter evoluído para além dos limites do ser humano e propagou-se aos outros seres vivos.
Duvido que as plantas de antigamente definhassem se as pessoas as ignorassem e se limitassem a atirar-lhes água para cima uma vez por semana. Agora é preciso mantê-las a uma temperatura conveniente, adubá-las, falar-lhes e convencê-las a fazer a fotosíntese. E tenho a certeza que os animais de estimação não deprimiam por passarem oito horas por dia sozinhos, para mais deitados em camas luxuosamente confortáveis e rodeados de brinquedos desenhados para os entreterem.
No outro dia, a brasileira que eu contratei para me tomar conta do cão (antes que adira à moda de deprimir) com o ligeiramente menos burguês pretexto de me limpar a casa, disse-me furiosa que o cão sabia mais sobre a vida dela do que eu, acusando-me de, apesar de ela trabalhar para mim há meses, nunca lhe ter feito uma pergunta pessoal.
Fiquei em choque com a estranheza da fúria porque confesso que, tendo eu uma absoluta falta de curiosidade em relação à senhora, jamais me tinha passado pela cabeça que dar atenção à empregada doméstica fizesse parte das minhas inúmeras obrigações.
Ainda lhe respondi, dizendo-lhe que não se preocupasse, que o cão a seguir contar-me-ia tudo o que eu precisava de saber.
Desde que o mundo é mundo que há gente a envelhecer sentada na soleira de uma porta onde não passa ninguém. 
A solidão é endémica, como não podem deixar de saber aqueles que diariamente têm que tomar decisões difíceis. Estamos sós nesses momentos, estamos sós em todos os desgostos que sofremos, estaremos sós quando morrermos. 
O que não é endémico nem natural é a somatização da solidão. 
Essa irritante mania de querer dividir com os outros o tédio de si próprio.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Jazz this if you can



For the moment, the jazz is playing; there is no melody, just notes, a myriad of tiny tremors. The notes know no rest, an inflexible order gives birth to them then destroys them, without ever leaving them the chance to recuperate and exist for themselves.... I would like to hold them back, but I know that, if I succeeded in stopping one, there would only remain in my hand a corrupt and languishing sound. I must accept their death; I must even want that death: I know of few more bitter or intense impressions.

Jean Paul Sartre, Nausea

quinta-feira, 25 de abril de 2013

do verbo estripar


Antes rica e com saúde do que pobrezinha e doente


A parte positiva de só ter problemas que não consigo resolver é que a impotência é libertadora.
E foi desonerada da obrigação de continuar às voltas com soluções inexistentes que fui festejar a liberdade para o lounge da praia. 
Deitei-me numa das caminhas fantásticas que eles lá têm e passei a manhã inteira a experimentar os sumos naturais da ementa. Nada como abraçar projectos ao alcance da minha capacidade de resolução.
Reparei então que Lisboa moveu-se para o sul e agora tenho o meu lounge infestado de turistas de fim de semana.
Em mim, o primeiro sinal de aculturação aos sítios faz-se pelo protestos contra a chegada de forasteiros. Costuma acontecer exatamente dois meses antes de ter que mudar de terra. 
Confere.
Estava deitado ao meu lado um interessante casal composto por um executivo com mais de cinquenta anos e uma miúda de vinte e cinco. Houve uma altura em que ele se debruçou sobre ela para lhe explicar que a descida da taxa de juro faria aumentar o emprego. Ainda tive esperança que ela lhe dissesse para se desviar por lhe estar a tapar o sol. Mas em vez disso ficou a repetir no ar a expressão "taxa de juro, taxa de juro, taxa de juro" como se estivesse a tentar decorar a lição de economia. Depois ela tirou a parte de cima do biquini e ele lá se calou com a taxa de juro e o emprego e perguntou-lhe se queria ir para o Lago de Como daqui a quinze dias. Percebi que, afinal, era ela o cérebro da relação.
Ocorreu-me que também eu deveria ir de férias para o Lago de Como. E dei por mim a repetir alto "Lago de Como, Lago de Como, Lago de Como" para tentar aprender a lição.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Zero points



Foram ambos desqualificados no campeonato do amor.  
Veio-se a descobrir depois que ele afinal estava louco e tudo não passou de um desajustamento químico do seu cérebro. Um certificado médico garantiu-lhe a impunidade e duas caixas de zoloft devolveram-lhe a vida tal como ela era antes do incidente.  
Quanto a ela, fingiu tudo desde o primeiro instante com uma intenção malévola e pérfida cuja tentativa de explicação deve ser evitada por qualquer boa consciência que tema ser corrompida. Depois de ter sido descoberta, fugiu e nunca mais foi vista. 

Mas também há quem diga que nunca aconteceu. Que foi um daqueles fenómenos de alucinação coletiva, tão próprios dos locais onde até nem faltam registos de atividade alienígena. 

domingo, 21 de abril de 2013

Cuca consulta-se com Júlio de Matos



Cuca - Senhor Doutor Júlio de Matos, não me esconda nada. O que se passa comigo?

Júlio de Matos -  A resposta parece-nos poder derivar-se da doutrina formulada por Tonnini: Estes delirios são paranoicos; e a psychonevrose que os precedeu, impotente em si mesma para os crear, provocou-os todavia, estimulando a peculiar actividade ideativa de um cerebro degenerescente. É possivel que, a não se realisar a incidencia perturbadora do elemento emocional implicado na psychonevrose, esse cerebro tivesse feito a sua evolução sem manifestações delirantes, comquanto houvessem de caracterisal-o sempre um exaggerado subjectivismo e uma apreciavel egocentricidade. Vulneravel, porém, elle não póde resistir ás causas que nos espiritos sãos determinam as psychoses; uma d'estas installou-se, portanto. O que deverá succeder a partir d'esse momento? Naturalmente, alguma coisa diversa do que costuma passar-se nos cerebros normaes: em vez de marchar para a cura ou para a demencia franca, a psychonevrose apressará aquella maturidade degenerativa de que fallam Tanzi e Riva e que tem por expressão intellectual um delirio systematisado. Já em manifesto desequilibrio e já cançado pela “passagem tormentosa da psychonevrose, o cerebro não poderá dar a este delirio secundario a forte seiva de que se alimentam os primitivos; entretanto, dar-lhe-ha ainda a força psychica precisa a uma evolução que póde ser longa e de certo modo movimentada. É n'este especial sentido que, a meu vêr, a Verrücktheit secundaria deve ser admittida.

Cuca - Mas como chegou a essa conclusão? 

Júlio de Matos - Quando o perseguido começa, no periodo chamado de incubação do delirio, a isolar-se da familia e dos amigos, a evitar o convivio, a alterar os seus habitos de existencia, a irritar-se, se o censuram ou simplesmente o interrogam, fal-o já por desconfiança do meio, que reputa hostil. É certo que, a titulo de vaga, mas persistente emoção egocentrica, essa desconfiança, mitigada e ainda compativel com a vida social, o caracterisou sempre; agora, porém, ella tornou-se definido sentimento pela clara apparição no espirito de uma idéa de hostilidade e de perigo. A inquirição perscrutadora do doente a tudo quanto o cerca, a procura minuciosa e subtil de provas palpaveis e evidentes da mal-querença dos outros, a eclosão, emfim, das illusões sensoriaes, tudo prova, irrecusavelmente, que a morbida sensibilidade do perseguido se exerce sob o dominio de um pensamento definido, de uma idéa que a orienta, que lhe imprime uma direcção, que a conduz. A illusão auditiva, phenomeno prodromico dos mais precoces e do qual a allucinação ha de surgir, suppõe já um erethismo sensorial a que preside, consciente e nitida, embora ainda susceptivel de ulteriores desdobramentos, a idéa de uma hostilidade exterior. E é mesmo, é justamente porque essa idéa está presente no espirito e se lhe impõe que o perseguido paralogisticamente exhibe, como provas de uma mal-querença, interpretações aggressivas das palavras mais indifferentes, dos sons mais insignificativos, dos gestos e dos successos mais incaracteristicos; cahindo sinceramente n'uma petição de principio, o perseguido prova que no seu cerebro existe uma idéa que o tyrannisa, que o empolga, e que, tornada um centro de associações psychicas, lhe vicia o raciocinio. Que essa idéa, como todas, proceda de preexistentes emoções, eis o que não contestamos, porque tudo na ordem do pensamento directa ou indirectamente reponta do humus da sensibilidade.

Cuca- Mas então não acha que pode ser apenas melancolia?

Júlio de Matos - O melancolico sente-se mudado, o que é exacto, e torna-se porisso autoobservador, primeiro, e delirante depois; o perseguido, esse, sente mudado em relação a si o mundo exterior, o que é falso, o que presuppõe uma ideação anormal e, portanto, um começo de delirio, que a observação objectiva apenas ajudará a systematisar. Emquanto o melancolico, abatido e humilhado por um sentimento real de dôr, que é a expressão consciente de perturbações cenesthesicas, se concentra e se interroga, fazendo um delirio secundario, o perseguido, egocentrico e autophilico, partindo de uma idéa chimerica de hostilidade, abre os sentidos e observa o mundo externo, delirando primitivamente.

Cuca - Não me leve a mal, mas não me convence assim tão facilmente que estou louca. Preciso de provas concretas.

Júlio de Matos - A demonstração d'esta verdade clinica não será difficil, nem longa.

Uma só passagem de Magnan a fará. Fallando do que se passa no chamado periodo de incubação do delirio persecutorio, escreve n'um dos seus ultimos trabalhos o eminente observador: «Os doentes experimentam um mal-estar, um descontentamento que não sabem explicar-se; tornam-se apprehensivos, inquietos, desconfiados, crendo notar certas mudanças na maneira de ser da familia e mesmo dos extranhos. Dormem mal, teem menos appetite, menos aptidão para o trabalho e para os negocios. N'esta época poderiam ser tomados por hypocondriacos. Pouco a pouco parece-lhes que os observam, que os olham de travez, que os desprezam; duvidam, hesitam, permanecem fluctuantes entre idéas variadas, acceites primeiro, repudiadas em seguida, admittidas pouco a pouco e dando logar, emfim, a interpretações delirantes … O doente persiste assim perturbado, inquieto, por vezes excitado, todo entregue ás concepções penosas que principiam a assaltal-o e indifferente a tudo o que não parece prender-se com o seu delirio. Os grandes acontecimentos não o commovem, as perturbações politicas deixam-no indifferente, as perdas de dinheiro e as luctas de familia não o emocionam. Pelo contrario, factos insignificantes, mas que se relacionam com as suas preoccupações penosas, que as justificam, adquirem uma importancia extrema e provocam-lhe a colera. Se uma pessoa se esquece de o saudar, vê n'isto uma injuria voluntaria; se alguem tosse ou escarra ao pé d'elle, se diante d'elle uma janella ou uma porta se abrem, se-uma cadeira se desloca, reconhece outros tantos testemunhos de despreso. As provas de benevolencia e de afeição tornam-se zombarias, e o proprio silencio é uma offensa. O vago apaga-se pouco a pouco; á hesitação succede a certeza, e, fortificadas por todas estas provas, as suas convicções tornam-se inabalaveis. N'estas condições, o doente, sempre em guarda, espia, escuta, surprehende n'uma conversação uma phrase que se attribue—eis a interpretação delirante; ou se crê aggravado por uma palavra insignificante, mas cujo som apresenta alguma analogia com uma injuria grosseira e que elle confunde com esta—eis a illusão. Depois, a idéa constante de uma perseguição, a tensão incessante da intelligencia acabam por despertar o signal representativo da idéa, a imagem.

Cuca - ok, pronto, convenceu-me. Posso pagar em euros? não tenho reis ou lá a moeda que se usava no seu tempo...


Excerto de: Júlio de Matos. “A Paranoia.” iBooks https://itunes.apple.com/WebObjects/MZStore.woa/wa/viewBook?id=507941051
Um livrinho maravilhoso.

sábado, 20 de abril de 2013

À procura da tribo perfeita para me acolher 2

Hum... demasiado bom para ser verdade.

Desenganados

Éramos os dois tão teimosos e apegados à verdade conveniente que ele só podia continuar a viver bem consigo próprio se acreditasse que eu não valia nada e eu tinha a minha paz de espírito condicionada à crença de que ele valia tudo. 
Foram inúteis todos os esforços para desenganar qualquer um dos dois. 
As pessoas desesperadas acreditam sempre na mentira anestésica, moldando os outros com a forma dos seus próprios erros.
As pessoas teimosas nunca reconhecem o seu desespero

quinta-feira, 18 de abril de 2013

A viúva do pescador

O luto colou-se-me à pele como a camisa da viúva do pescador.
Sentámo-nos as duas na areia e senti-lhe os olhos encherem-se de mar por mim.
Ela espera que as ondas lhe devolvam o marido morto.

- Mas o que pode esta mulher esperar?

Pensou a viúva do pescador. 

segunda-feira, 15 de abril de 2013

À procura da tribo perfeita para me acolher

Estes, por exemplo, têm ar de quem poderia beneficiar enormemente dos meus conhecimentos em filosofia do direito, organização judiciária, mercado de forex, história da arte e informática na óptica do utilizador (desde que seja em ambiente mac). Já me estou a ver a debitar-lhes as teorias dos fins da penas, explicando-lhes que devemos rejeitar qualquer sistema penal assente na ultrapassada ideia da retribuição, porque só a ressocialização é compatível com os princípios da dignidade humana e capaz de garantir a paz social quando o criminoso regressa ao meio social após cumprida a sua dívida para com a sociedade. A seguir, eliminaria um obsoleto sistema judicial assente no senso comum do chefe da tribo para implementar juízos especializados com sistema de recursos obrigatórios, a cargo de pessoas especialmente formadas para esse efeito que, para se distinguirem das outras, até usariam roupas ou pelo menos sapatos (suspeito que teria alguma dificuldade em importar o nosso sistema de impedimentos porque estes devem ser todos da mesma família, mas haveria de se inventar qualquer coisa). Depois desenvolveria a finança através da abertura dos mercados, incentivando investimentos no cross mandioca/feijão com alavancagem de contas. Haveria de lhes contar tudo o que sei sobre Klimt apesar de me parecer que é maior a probabilidade de se identificaram com Gauguin. Nessa altura estariam preparados para uma breve introdução ao desespero de Kierkegaard. Os meios informáticos serviriam apenas para aprenderem que excluir pessoas no facebook ou matá-las produz mais ou menos os mesmos efeitos, requerer muito menos dispêndio de energia e não suja o chão da palhota.
Um ano depois, teriam perdido todo o interesse por atividades ao livre, haveriam de ter percebido que o verdadeiro conceito de poder é muito mais do que o direito de usar a lança maior e escolher primeiro as mulheres da aldeia, estariam familiarizados com a ideia de sucesso social e dispostos a sacrificar as suas vidas para o obterem, encontrariam na arte a única forma de comoção possível e perceberiam naturalmente essa coisa do desespero dos existencialistas.
Sim, eu podia começar por estes. 
Mas a avaliar pelo ar antigo que tem a fotografia, aposto que já alguém teve a mesma ideia e os condenou à miséria humana ainda antes de eu ter decido tornar-me missionária.

domingo, 14 de abril de 2013

Fugir de casa 2



O princípio do fim da fuga foi deixar que as minhas pessoas, esse bando de burgueses inqualificáveis que tem por mim a estima que se desenvolve por uma máquina de fazer dinheiro falso, percebesse que a minha estadia em Lisboa não se devia a uma licença sabática, uma sucessão de feriados locais ou a razões de segurança. Quando lhes disse que fugi mandaram-me regressar imediatamente para a minha estância balnear e nem sequer me disseram que fizesse as malas porque ao quarto dia lá perceberam que o facto de me verem sempre com a mesma roupa não se devia a uma obsessão com um vestido novo. A trágica combinação com os ténis também pode não ter ajudado. Ainda lhes disse que estava a pensar tornar-me missionária em África, mas riram-se de mim, perguntaram-me que livro ando a ler e quando lhes atirei com a moby dick, pensaram que um livro infantil sobre baleiazinhas simpáticas não pode produzir estes efeitos e perguntaram-me, com a mesma disposição de encontrar culpados, então o que é que ando a escrever. Desesperada, tentei um argumento que pudessem entender e disse-lhes que era impossível voltar porque comecei a assistir a uma série interessante na fox e não tenho tv cabo aqui na estância balnear. Isto acalmou-os um pouco, mas só durante o tempo suficiente para resolverem o problema oferecendo-me uma assinatura da meo. O existencialismo não é genético mas o pragmatismo é. 
Usaram as palavras responsabilidade e dever, coisas que não imagino o que sejam porque me parece, sinceramente, que o único dever que tenho é ser missionária em África, onde creio que com o meu curriculum posso revolucionar pelo menos uma tribo e transformá-los em pessoas com vidas de elevação espiritual semelhante à minha, levando-os assim a questionarem-se permanentemente até à insatisfacao total, a quererem desistir de tudo e, quem sabe, partirem para a Europa para montarem um franchising de venda de mandioca que lhes permita ganhar o suficiente para pagarem um bom psiquiatra. 
Depois usaram a palavra cobardia e penso que foi essa, e talvez as obras no andar de cima da minha casa de Lisboa, que me trouxeram de volta.
Seja como for, a fuga terminou.
Cheguei ao final da tarde e percebi que aqui já é verão o que pode significar que fiquei mais tempo em Lisboa do que me recordo. Aquela gente na praia a comer gelados e a transportar-se em bóias, aquele cheiro a protector solar, o parque de estacionamento cheio e a enervante música chill out em todos os cantos, fizeram-me perceber que ainda não estou pronta para mais um verão. O último foi ontem. Tenho as marcas na pele para o provar. Não estou disposta a acreditar que entre o nada que mudou na minha alma e esta gente a jogar futebol na praia tenha passado um ano. Preciso de três invernos que arranquem de mim a memória do ultimo verão antes de viver o próximo. 
Confesso que a primeira reacção que tive foi pegar nas roupas de neve e voltar a fugir, desta vez para longe de pessoas que saibam usar as palavras certas para me devolver aos sítios onde não quero estar. Mas depois percebi que tinha pouco combustível no carro e que as bombas com gasolineiro já estavam fechadas àquela hora.
Mesmo assim, para preservar alguma dignidade no regresso, mantive a rebeldia possível. Fiz de conta que não vi os quilos de papéis inúteis na minha secretária e passei o final dia a investigar tribos em África com ar de merecerem que vá para lá espalhar a miséria humana. 
Pelo menos, o cão parece feliz por ter voltado a casa. 

sábado, 13 de abril de 2013

fugir de casa



Pensei como seria se me fartasse. Se pura e simplesmente tivesse um ataque de prima dona e me viesse embora. Voltando as costas aos papéis, aos prazos, às agendas e ao computador ainda ligado e às pessoas e aos seus problemas e desgraças e tragédias. E aquela imagem foi-se avolumando na minha mente e já não era uma imagem mas uma necessidade. E umas horas depois eu estava dentro do carro em direção a Lisboa e cada quilómetro de auto-estrada sabia ao alívio da fuga. E tive medo de me transformar numa daquelas personagens do Paul Auster e passar muitos anos a fugir sem parar. A renovar a promessa de voltar para trás na próxima saída e nunca o chegar a fazer. Como quem adia por cinco minutos o despertador durante todo o dia até o dia ter passado e já não ser preciso adiar mais o despertador por já se poder dormir outra vez. E um par de horas depois estava na ponte sobre o Tejo e já não valia a pena continuar a desligar o despertador. 
Cheguei à outra casa, à verdadeira casa, e adormeci dois minutos depois de a porta se ter fechado nas minhas costas.
E dormi e dormi e dormi e dormi. 
E fugi e não aconteceu quase nada.  
Só o medo de um dia não conseguir voltar que é próprio dos que já sabem que são capazes de fugir. 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Anna Karenina para génios preguiçosos


Enquanto via ontem, com considerável atraso, o filme Anna Karenina ocorreu-me que aquela triste caricatura barata da obra de Tolstoi, aquela Anna Karenina da fancaria de pobre, só tem um aspecto positivo: quem não tiver lido o livro não perceberá o filme. Mesmo sendo o involuntário resultado de uma ideia falhada, não deixa de ser de elementar justiça. 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Philip Glass - The Kiss


As libelinhas podem ser uma boa opção para quem exterminou as borboletas.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

contabilidades

Se este blogue fosse uma mercearia, eu já nem para os amendoins ganhava.

domingo, 7 de abril de 2013

a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti


BREVE

Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me "bom dia" mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem, há uma semana, há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti.


Rui Costa, in, A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Edições Quasi.

sábado, 6 de abril de 2013

O fim do inverno





Não sei em que dia ou mês estamos (retomei o pleno do meu snobismo existencialista e os calendários voltaram a parecer-me coisa própria de gente sem densidade espiritual. Repare-se que até os maias, essa civilização horrenda, tinham um), ainda assim, desconfio que o inverno deve ter acabado, já que o lounge da praia reabriu.
Eu e o meu cão estreámos os novos sofás brancos, almoçando um temaki não completamente péssimo, com um sumo de morango natural que eles continuam a saber fazer razoavelmente, embora já fosse sendo altura de alguém lhes dizer que os sumos de morango devem ser servidos com palhinhas largas ou sem palhinhas. Isto, disse-me o cão que eu não penso em detalhes tão miseráveis.
Como o mundo nem sempre pode estar contra mim, a música era jazz e não passaram nem uma vez a música da Erykah Badu, oh i´m so in love with you, i don´t care what people says, que no outono passado me teria levado ao suicídio se não fosse a dificuldade de arranjar lâminas de jeito nesta estância balnear (agora já menos abandonada) que desconfio ser uma medida municipal para evitar o suicídio em massa dos mais impacientes velhinhos nórdicos que por aqui pululam, fazendo desta terra um local de transição entre a vida e a morte. De tal forma que, de mim própria, às vezes parece-me que, não estando ainda morta, seria um exagero dizer-se que estou viva.
Estava eu absorta nestes e noutros temas de profundidade existencialista (que eu agora, depois da constatação da crise da psicologia com aquele embuste de Kubler-ross, decidi dedicar-me à filosofia) quando reparei que o meu cão corria alegremente na direção de duas inglesas, mãe e filha, que desataram a berrar histericamente, "i don´t like you", "take it from here". O cão interpretou aquele conjunto de exclamações musicadas e saltinhos como sincero entusiasmo pela sua presença e, educado na generosidade, retribuiu como pode, investindo contra elas. 
Permaneci sentada, decidida a não fazer rigorosamente nada para salvar as inglesas dos ataques ferozes do meu bulldog francês de cinco meses, enquanto refletia sobre o facto de o cão partilhar com a sua dona a trágica incapacidade de admitir como possível que haja no mundo criatura viva que não o ame profundamente. 
E embora me tenha imediatamente consolado com a ideia de que eu, pelo menos, não lambo pessoas que me odeiam, ainda o cão não tinha desistido das inglesas, já eu desenvolvia as mais sérias dúvidas sobre esta minha última assunção.
Depois viemos os dois para casa ouvir a Erykah Badu.