domingo, 28 de abril de 2013

neo-doenças


A marca proeminente da sociedade contemporânea é a generalizada necessidade de atenção que na última década parece ter atacado todos os seres vivos. Não conheço explicação para a epidémica solidão que transborda por todo o lado mas parece-me que justifica um estudo urgente com retorno do investimento na diminuição das baixas psiquiátricas e comparticipações de anti-depressivos. Já para não falar nos fenómenos de psicopatia que volta e meia acabam com chacinas em infantários e escolas primárias. 
A coincidência no tempo faz-me pensar que existe uma perversa ligação entre a proliferação dos meios de comunicação e esta irritante necessidade de atenção. Pode parecer um paradoxo mas não é. Um telemóvel que não toca ou um post no facebook sem likes terá o efeito de fazer com que as pessoas percebam que ninguém quer saber delas para nada.
Para tornar tudo mais complexo, a doença parece ter evoluído para além dos limites do ser humano e propagou-se aos outros seres vivos.
Duvido que as plantas de antigamente definhassem se as pessoas as ignorassem e se limitassem a atirar-lhes água para cima uma vez por semana. Agora é preciso mantê-las a uma temperatura conveniente, adubá-las, falar-lhes e convencê-las a fazer a fotosíntese. E tenho a certeza que os animais de estimação não deprimiam por passarem oito horas por dia sozinhos, para mais deitados em camas luxuosamente confortáveis e rodeados de brinquedos desenhados para os entreterem.
No outro dia, a brasileira que eu contratei para me tomar conta do cão (antes que adira à moda de deprimir) com o ligeiramente menos burguês pretexto de me limpar a casa, disse-me furiosa que o cão sabia mais sobre a vida dela do que eu, acusando-me de, apesar de ela trabalhar para mim há meses, nunca lhe ter feito uma pergunta pessoal.
Fiquei em choque com a estranheza da fúria porque confesso que, tendo eu uma absoluta falta de curiosidade em relação à senhora, jamais me tinha passado pela cabeça que dar atenção à empregada doméstica fizesse parte das minhas inúmeras obrigações.
Ainda lhe respondi, dizendo-lhe que não se preocupasse, que o cão a seguir contar-me-ia tudo o que eu precisava de saber.
Desde que o mundo é mundo que há gente a envelhecer sentada na soleira de uma porta onde não passa ninguém. 
A solidão é endémica, como não podem deixar de saber aqueles que diariamente têm que tomar decisões difíceis. Estamos sós nesses momentos, estamos sós em todos os desgostos que sofremos, estaremos sós quando morrermos. 
O que não é endémico nem natural é a somatização da solidão. 
Essa irritante mania de querer dividir com os outros o tédio de si próprio.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Jazz this if you can



For the moment, the jazz is playing; there is no melody, just notes, a myriad of tiny tremors. The notes know no rest, an inflexible order gives birth to them then destroys them, without ever leaving them the chance to recuperate and exist for themselves.... I would like to hold them back, but I know that, if I succeeded in stopping one, there would only remain in my hand a corrupt and languishing sound. I must accept their death; I must even want that death: I know of few more bitter or intense impressions.

Jean Paul Sartre, Nausea

quinta-feira, 25 de abril de 2013

do verbo estripar


Antes rica e com saúde do que pobrezinha e doente


A parte positiva de só ter problemas que não consigo resolver é que a impotência é libertadora.
E foi desonerada da obrigação de continuar às voltas com soluções inexistentes que fui festejar a liberdade para o lounge da praia. 
Deitei-me numa das caminhas fantásticas que eles lá têm e passei a manhã inteira a experimentar os sumos naturais da ementa. Nada como abraçar projectos ao alcance da minha capacidade de resolução.
Reparei então que Lisboa moveu-se para o sul e agora tenho o meu lounge infestado de turistas de fim de semana.
Em mim, o primeiro sinal de aculturação aos sítios faz-se pelo protestos contra a chegada de forasteiros. Costuma acontecer exatamente dois meses antes de ter que mudar de terra. 
Confere.
Estava deitado ao meu lado um interessante casal composto por um executivo com mais de cinquenta anos e uma miúda de vinte e cinco. Houve uma altura em que ele se debruçou sobre ela para lhe explicar que a descida da taxa de juro faria aumentar o emprego. Ainda tive esperança que ela lhe dissesse para se desviar por lhe estar a tapar o sol. Mas em vez disso ficou a repetir no ar a expressão "taxa de juro, taxa de juro, taxa de juro" como se estivesse a tentar decorar a lição de economia. Depois ela tirou a parte de cima do biquini e ele lá se calou com a taxa de juro e o emprego e perguntou-lhe se queria ir para o Lago de Como daqui a quinze dias. Percebi que, afinal, era ela o cérebro da relação.
Ocorreu-me que também eu deveria ir de férias para o Lago de Como. E dei por mim a repetir alto "Lago de Como, Lago de Como, Lago de Como" para tentar aprender a lição.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Zero points



Foram ambos desqualificados no campeonato do amor.  
Veio-se a descobrir depois que ele afinal estava louco e tudo não passou de um desajustamento químico do seu cérebro. Um certificado médico garantiu-lhe a impunidade e duas caixas de zoloft devolveram-lhe a vida tal como ela era antes do incidente.  
Quanto a ela, fingiu tudo desde o primeiro instante com uma intenção malévola e pérfida cuja tentativa de explicação deve ser evitada por qualquer boa consciência que tema ser corrompida. Depois de ter sido descoberta, fugiu e nunca mais foi vista. 

Mas também há quem diga que nunca aconteceu. Que foi um daqueles fenómenos de alucinação coletiva, tão próprios dos locais onde até nem faltam registos de atividade alienígena. 

domingo, 21 de abril de 2013

Cuca consulta-se com Júlio de Matos



Cuca - Senhor Doutor Júlio de Matos, não me esconda nada. O que se passa comigo?

Júlio de Matos -  A resposta parece-nos poder derivar-se da doutrina formulada por Tonnini: Estes delirios são paranoicos; e a psychonevrose que os precedeu, impotente em si mesma para os crear, provocou-os todavia, estimulando a peculiar actividade ideativa de um cerebro degenerescente. É possivel que, a não se realisar a incidencia perturbadora do elemento emocional implicado na psychonevrose, esse cerebro tivesse feito a sua evolução sem manifestações delirantes, comquanto houvessem de caracterisal-o sempre um exaggerado subjectivismo e uma apreciavel egocentricidade. Vulneravel, porém, elle não póde resistir ás causas que nos espiritos sãos determinam as psychoses; uma d'estas installou-se, portanto. O que deverá succeder a partir d'esse momento? Naturalmente, alguma coisa diversa do que costuma passar-se nos cerebros normaes: em vez de marchar para a cura ou para a demencia franca, a psychonevrose apressará aquella maturidade degenerativa de que fallam Tanzi e Riva e que tem por expressão intellectual um delirio systematisado. Já em manifesto desequilibrio e já cançado pela “passagem tormentosa da psychonevrose, o cerebro não poderá dar a este delirio secundario a forte seiva de que se alimentam os primitivos; entretanto, dar-lhe-ha ainda a força psychica precisa a uma evolução que póde ser longa e de certo modo movimentada. É n'este especial sentido que, a meu vêr, a Verrücktheit secundaria deve ser admittida.

Cuca - Mas como chegou a essa conclusão? 

Júlio de Matos - Quando o perseguido começa, no periodo chamado de incubação do delirio, a isolar-se da familia e dos amigos, a evitar o convivio, a alterar os seus habitos de existencia, a irritar-se, se o censuram ou simplesmente o interrogam, fal-o já por desconfiança do meio, que reputa hostil. É certo que, a titulo de vaga, mas persistente emoção egocentrica, essa desconfiança, mitigada e ainda compativel com a vida social, o caracterisou sempre; agora, porém, ella tornou-se definido sentimento pela clara apparição no espirito de uma idéa de hostilidade e de perigo. A inquirição perscrutadora do doente a tudo quanto o cerca, a procura minuciosa e subtil de provas palpaveis e evidentes da mal-querença dos outros, a eclosão, emfim, das illusões sensoriaes, tudo prova, irrecusavelmente, que a morbida sensibilidade do perseguido se exerce sob o dominio de um pensamento definido, de uma idéa que a orienta, que lhe imprime uma direcção, que a conduz. A illusão auditiva, phenomeno prodromico dos mais precoces e do qual a allucinação ha de surgir, suppõe já um erethismo sensorial a que preside, consciente e nitida, embora ainda susceptivel de ulteriores desdobramentos, a idéa de uma hostilidade exterior. E é mesmo, é justamente porque essa idéa está presente no espirito e se lhe impõe que o perseguido paralogisticamente exhibe, como provas de uma mal-querença, interpretações aggressivas das palavras mais indifferentes, dos sons mais insignificativos, dos gestos e dos successos mais incaracteristicos; cahindo sinceramente n'uma petição de principio, o perseguido prova que no seu cerebro existe uma idéa que o tyrannisa, que o empolga, e que, tornada um centro de associações psychicas, lhe vicia o raciocinio. Que essa idéa, como todas, proceda de preexistentes emoções, eis o que não contestamos, porque tudo na ordem do pensamento directa ou indirectamente reponta do humus da sensibilidade.

Cuca- Mas então não acha que pode ser apenas melancolia?

Júlio de Matos - O melancolico sente-se mudado, o que é exacto, e torna-se porisso autoobservador, primeiro, e delirante depois; o perseguido, esse, sente mudado em relação a si o mundo exterior, o que é falso, o que presuppõe uma ideação anormal e, portanto, um começo de delirio, que a observação objectiva apenas ajudará a systematisar. Emquanto o melancolico, abatido e humilhado por um sentimento real de dôr, que é a expressão consciente de perturbações cenesthesicas, se concentra e se interroga, fazendo um delirio secundario, o perseguido, egocentrico e autophilico, partindo de uma idéa chimerica de hostilidade, abre os sentidos e observa o mundo externo, delirando primitivamente.

Cuca - Não me leve a mal, mas não me convence assim tão facilmente que estou louca. Preciso de provas concretas.

Júlio de Matos - A demonstração d'esta verdade clinica não será difficil, nem longa.

Uma só passagem de Magnan a fará. Fallando do que se passa no chamado periodo de incubação do delirio persecutorio, escreve n'um dos seus ultimos trabalhos o eminente observador: «Os doentes experimentam um mal-estar, um descontentamento que não sabem explicar-se; tornam-se apprehensivos, inquietos, desconfiados, crendo notar certas mudanças na maneira de ser da familia e mesmo dos extranhos. Dormem mal, teem menos appetite, menos aptidão para o trabalho e para os negocios. N'esta época poderiam ser tomados por hypocondriacos. Pouco a pouco parece-lhes que os observam, que os olham de travez, que os desprezam; duvidam, hesitam, permanecem fluctuantes entre idéas variadas, acceites primeiro, repudiadas em seguida, admittidas pouco a pouco e dando logar, emfim, a interpretações delirantes … O doente persiste assim perturbado, inquieto, por vezes excitado, todo entregue ás concepções penosas que principiam a assaltal-o e indifferente a tudo o que não parece prender-se com o seu delirio. Os grandes acontecimentos não o commovem, as perturbações politicas deixam-no indifferente, as perdas de dinheiro e as luctas de familia não o emocionam. Pelo contrario, factos insignificantes, mas que se relacionam com as suas preoccupações penosas, que as justificam, adquirem uma importancia extrema e provocam-lhe a colera. Se uma pessoa se esquece de o saudar, vê n'isto uma injuria voluntaria; se alguem tosse ou escarra ao pé d'elle, se diante d'elle uma janella ou uma porta se abrem, se-uma cadeira se desloca, reconhece outros tantos testemunhos de despreso. As provas de benevolencia e de afeição tornam-se zombarias, e o proprio silencio é uma offensa. O vago apaga-se pouco a pouco; á hesitação succede a certeza, e, fortificadas por todas estas provas, as suas convicções tornam-se inabalaveis. N'estas condições, o doente, sempre em guarda, espia, escuta, surprehende n'uma conversação uma phrase que se attribue—eis a interpretação delirante; ou se crê aggravado por uma palavra insignificante, mas cujo som apresenta alguma analogia com uma injuria grosseira e que elle confunde com esta—eis a illusão. Depois, a idéa constante de uma perseguição, a tensão incessante da intelligencia acabam por despertar o signal representativo da idéa, a imagem.

Cuca - ok, pronto, convenceu-me. Posso pagar em euros? não tenho reis ou lá a moeda que se usava no seu tempo...


Excerto de: Júlio de Matos. “A Paranoia.” iBooks https://itunes.apple.com/WebObjects/MZStore.woa/wa/viewBook?id=507941051
Um livrinho maravilhoso.

sábado, 20 de abril de 2013

À procura da tribo perfeita para me acolher 2

Hum... demasiado bom para ser verdade.

Desenganados

Éramos os dois tão teimosos e apegados à verdade conveniente que ele só podia continuar a viver bem consigo próprio se acreditasse que eu não valia nada e eu tinha a minha paz de espírito condicionada à crença de que ele valia tudo. 
Foram inúteis todos os esforços para desenganar qualquer um dos dois. 
As pessoas desesperadas acreditam sempre na mentira anestésica, moldando os outros com a forma dos seus próprios erros.
As pessoas teimosas nunca reconhecem o seu desespero

quinta-feira, 18 de abril de 2013

A viúva do pescador

O luto colou-se-me à pele como a camisa da viúva do pescador.
Sentámo-nos as duas na areia e senti-lhe os olhos encherem-se de mar por mim.
Ela espera que as ondas lhe devolvam o marido morto.

- Mas o que pode esta mulher esperar?

Pensou a viúva do pescador. 

segunda-feira, 15 de abril de 2013

À procura da tribo perfeita para me acolher

Estes, por exemplo, têm ar de quem poderia beneficiar enormemente dos meus conhecimentos em filosofia do direito, organização judiciária, mercado de forex, história da arte e informática na óptica do utilizador (desde que seja em ambiente mac). Já me estou a ver a debitar-lhes as teorias dos fins da penas, explicando-lhes que devemos rejeitar qualquer sistema penal assente na ultrapassada ideia da retribuição, porque só a ressocialização é compatível com os princípios da dignidade humana e capaz de garantir a paz social quando o criminoso regressa ao meio social após cumprida a sua dívida para com a sociedade. A seguir, eliminaria um obsoleto sistema judicial assente no senso comum do chefe da tribo para implementar juízos especializados com sistema de recursos obrigatórios, a cargo de pessoas especialmente formadas para esse efeito que, para se distinguirem das outras, até usariam roupas ou pelo menos sapatos (suspeito que teria alguma dificuldade em importar o nosso sistema de impedimentos porque estes devem ser todos da mesma família, mas haveria de se inventar qualquer coisa). Depois desenvolveria a finança através da abertura dos mercados, incentivando investimentos no cross mandioca/feijão com alavancagem de contas. Haveria de lhes contar tudo o que sei sobre Klimt apesar de me parecer que é maior a probabilidade de se identificaram com Gauguin. Nessa altura estariam preparados para uma breve introdução ao desespero de Kierkegaard. Os meios informáticos serviriam apenas para aprenderem que excluir pessoas no facebook ou matá-las produz mais ou menos os mesmos efeitos, requerer muito menos dispêndio de energia e não suja o chão da palhota.
Um ano depois, teriam perdido todo o interesse por atividades ao livre, haveriam de ter percebido que o verdadeiro conceito de poder é muito mais do que o direito de usar a lança maior e escolher primeiro as mulheres da aldeia, estariam familiarizados com a ideia de sucesso social e dispostos a sacrificar as suas vidas para o obterem, encontrariam na arte a única forma de comoção possível e perceberiam naturalmente essa coisa do desespero dos existencialistas.
Sim, eu podia começar por estes. 
Mas a avaliar pelo ar antigo que tem a fotografia, aposto que já alguém teve a mesma ideia e os condenou à miséria humana ainda antes de eu ter decido tornar-me missionária.

domingo, 14 de abril de 2013

Fugir de casa 2



O princípio do fim da fuga foi deixar que as minhas pessoas, esse bando de burgueses inqualificáveis que tem por mim a estima que se desenvolve por uma máquina de fazer dinheiro falso, percebesse que a minha estadia em Lisboa não se devia a uma licença sabática, uma sucessão de feriados locais ou a razões de segurança. Quando lhes disse que fugi mandaram-me regressar imediatamente para a minha estância balnear e nem sequer me disseram que fizesse as malas porque ao quarto dia lá perceberam que o facto de me verem sempre com a mesma roupa não se devia a uma obsessão com um vestido novo. A trágica combinação com os ténis também pode não ter ajudado. Ainda lhes disse que estava a pensar tornar-me missionária em África, mas riram-se de mim, perguntaram-me que livro ando a ler e quando lhes atirei com a moby dick, pensaram que um livro infantil sobre baleiazinhas simpáticas não pode produzir estes efeitos e perguntaram-me, com a mesma disposição de encontrar culpados, então o que é que ando a escrever. Desesperada, tentei um argumento que pudessem entender e disse-lhes que era impossível voltar porque comecei a assistir a uma série interessante na fox e não tenho tv cabo aqui na estância balnear. Isto acalmou-os um pouco, mas só durante o tempo suficiente para resolverem o problema oferecendo-me uma assinatura da meo. O existencialismo não é genético mas o pragmatismo é. 
Usaram as palavras responsabilidade e dever, coisas que não imagino o que sejam porque me parece, sinceramente, que o único dever que tenho é ser missionária em África, onde creio que com o meu curriculum posso revolucionar pelo menos uma tribo e transformá-los em pessoas com vidas de elevação espiritual semelhante à minha, levando-os assim a questionarem-se permanentemente até à insatisfacao total, a quererem desistir de tudo e, quem sabe, partirem para a Europa para montarem um franchising de venda de mandioca que lhes permita ganhar o suficiente para pagarem um bom psiquiatra. 
Depois usaram a palavra cobardia e penso que foi essa, e talvez as obras no andar de cima da minha casa de Lisboa, que me trouxeram de volta.
Seja como for, a fuga terminou.
Cheguei ao final da tarde e percebi que aqui já é verão o que pode significar que fiquei mais tempo em Lisboa do que me recordo. Aquela gente na praia a comer gelados e a transportar-se em bóias, aquele cheiro a protector solar, o parque de estacionamento cheio e a enervante música chill out em todos os cantos, fizeram-me perceber que ainda não estou pronta para mais um verão. O último foi ontem. Tenho as marcas na pele para o provar. Não estou disposta a acreditar que entre o nada que mudou na minha alma e esta gente a jogar futebol na praia tenha passado um ano. Preciso de três invernos que arranquem de mim a memória do ultimo verão antes de viver o próximo. 
Confesso que a primeira reacção que tive foi pegar nas roupas de neve e voltar a fugir, desta vez para longe de pessoas que saibam usar as palavras certas para me devolver aos sítios onde não quero estar. Mas depois percebi que tinha pouco combustível no carro e que as bombas com gasolineiro já estavam fechadas àquela hora.
Mesmo assim, para preservar alguma dignidade no regresso, mantive a rebeldia possível. Fiz de conta que não vi os quilos de papéis inúteis na minha secretária e passei o final dia a investigar tribos em África com ar de merecerem que vá para lá espalhar a miséria humana. 
Pelo menos, o cão parece feliz por ter voltado a casa. 

sábado, 13 de abril de 2013

fugir de casa



Pensei como seria se me fartasse. Se pura e simplesmente tivesse um ataque de prima dona e me viesse embora. Voltando as costas aos papéis, aos prazos, às agendas e ao computador ainda ligado e às pessoas e aos seus problemas e desgraças e tragédias. E aquela imagem foi-se avolumando na minha mente e já não era uma imagem mas uma necessidade. E umas horas depois eu estava dentro do carro em direção a Lisboa e cada quilómetro de auto-estrada sabia ao alívio da fuga. E tive medo de me transformar numa daquelas personagens do Paul Auster e passar muitos anos a fugir sem parar. A renovar a promessa de voltar para trás na próxima saída e nunca o chegar a fazer. Como quem adia por cinco minutos o despertador durante todo o dia até o dia ter passado e já não ser preciso adiar mais o despertador por já se poder dormir outra vez. E um par de horas depois estava na ponte sobre o Tejo e já não valia a pena continuar a desligar o despertador. 
Cheguei à outra casa, à verdadeira casa, e adormeci dois minutos depois de a porta se ter fechado nas minhas costas.
E dormi e dormi e dormi e dormi. 
E fugi e não aconteceu quase nada.  
Só o medo de um dia não conseguir voltar que é próprio dos que já sabem que são capazes de fugir. 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Anna Karenina para génios preguiçosos


Enquanto via ontem, com considerável atraso, o filme Anna Karenina ocorreu-me que aquela triste caricatura barata da obra de Tolstoi, aquela Anna Karenina da fancaria de pobre, só tem um aspecto positivo: quem não tiver lido o livro não perceberá o filme. Mesmo sendo o involuntário resultado de uma ideia falhada, não deixa de ser de elementar justiça. 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Philip Glass - The Kiss


As libelinhas podem ser uma boa opção para quem exterminou as borboletas.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

contabilidades

Se este blogue fosse uma mercearia, eu já nem para os amendoins ganhava.

domingo, 7 de abril de 2013

a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti


BREVE

Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me "bom dia" mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem, há uma semana, há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti.


Rui Costa, in, A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Edições Quasi.

sábado, 6 de abril de 2013

O fim do inverno





Não sei em que dia ou mês estamos (retomei o pleno do meu snobismo existencialista e os calendários voltaram a parecer-me coisa própria de gente sem densidade espiritual. Repare-se que até os maias, essa civilização horrenda, tinham um), ainda assim, desconfio que o inverno deve ter acabado, já que o lounge da praia reabriu.
Eu e o meu cão estreámos os novos sofás brancos, almoçando um temaki não completamente péssimo, com um sumo de morango natural que eles continuam a saber fazer razoavelmente, embora já fosse sendo altura de alguém lhes dizer que os sumos de morango devem ser servidos com palhinhas largas ou sem palhinhas. Isto, disse-me o cão que eu não penso em detalhes tão miseráveis.
Como o mundo nem sempre pode estar contra mim, a música era jazz e não passaram nem uma vez a música da Erykah Badu, oh i´m so in love with you, i don´t care what people says, que no outono passado me teria levado ao suicídio se não fosse a dificuldade de arranjar lâminas de jeito nesta estância balnear (agora já menos abandonada) que desconfio ser uma medida municipal para evitar o suicídio em massa dos mais impacientes velhinhos nórdicos que por aqui pululam, fazendo desta terra um local de transição entre a vida e a morte. De tal forma que, de mim própria, às vezes parece-me que, não estando ainda morta, seria um exagero dizer-se que estou viva.
Estava eu absorta nestes e noutros temas de profundidade existencialista (que eu agora, depois da constatação da crise da psicologia com aquele embuste de Kubler-ross, decidi dedicar-me à filosofia) quando reparei que o meu cão corria alegremente na direção de duas inglesas, mãe e filha, que desataram a berrar histericamente, "i don´t like you", "take it from here". O cão interpretou aquele conjunto de exclamações musicadas e saltinhos como sincero entusiasmo pela sua presença e, educado na generosidade, retribuiu como pode, investindo contra elas. 
Permaneci sentada, decidida a não fazer rigorosamente nada para salvar as inglesas dos ataques ferozes do meu bulldog francês de cinco meses, enquanto refletia sobre o facto de o cão partilhar com a sua dona a trágica incapacidade de admitir como possível que haja no mundo criatura viva que não o ame profundamente. 
E embora me tenha imediatamente consolado com a ideia de que eu, pelo menos, não lambo pessoas que me odeiam, ainda o cão não tinha desistido das inglesas, já eu desenvolvia as mais sérias dúvidas sobre esta minha última assunção.
Depois viemos os dois para casa ouvir a Erykah Badu.

domingo, 31 de março de 2013

Dos feios


Um anúncio assim nesta terra seria a ruína do comerciante. 
Estou aqui há seis meses e ainda não vi uma pessoa bonita. 

sábado, 30 de março de 2013

Postais intergalácticos





Haverias de me odiar hoje pelo peso da nostalgia. Há dois dias que sou atormentada pela tua expressão de placidez etérea estampada na capa de um livro. Acho que o que me perturba é a falta de memória de a ter visto em ti. Talvez seja legítimo photoshopizar os mortos para lhes devolver uma tranquilidade que nunca lhes pertenceu. Fica-te bem. Fez-me pensar que pessoa terias sido se tivesses entrado numa loja dos chineses e comprado aquela expressão. Depois entregavam-ta num saco de plástico azul e irias rua fora a abaná-la ao ritmo de um pensamento mais insistente. Ou talvez a tenha visto e já me tenha esquecido. Dirias que começo a perder o controlo da amnésia e terias a habitual razão. Não sei se o magnésio ainda se vende em ampolas cor-de-rosa pastilha elástica. Se vender, talvez o compre para condizer com as minhas sandálias novas. 
Escrevo-te para te lembrar que é Páscoa porque duvido que haja disso no sítio onde te foste enfiar e não quero que percas hábitos de civilidade para o caso de ter de ter que conviver contigo numa outra vida. Um dia sentámo-nos numa varanda e desembrulhaste um ovo de chocolate gigante que comemos com vinho tinto. Mas também podia já ser Natal. A verdade é que o chocolate sabia a mofo e serviste-me um discurso de uma hora sobre as minhas manias de burguesa. Uma hora depois o chocolate continuava a saber a mofo, o vinho acabou-se e, de acordo com a memória estatística, eu devo ter-me ido embora farta de ti. 
Quanto às minhas manias de burguesa, sobrevieram-te, persistindo até hoje embaladas pelo som da tua voz de censura que por vezes ainda se vem instalar nos meus ouvidos, agora reduzida à triste função de grilo falante de uma consciência carente de apoio em permanência.  
De qualquer forma, acho que atualmente as galinhas já nem sequer põem ovos de chocolate. O mundo parecer-te-ia muito melhor se pudesses voltar. E a convivência com os teus muito mais tolerável. Especialmente agora que nos ensinaste a solidão.
Vê lá isso da Páscoa com cuidado. Ouvi dizer que é boa altura para se ressuscitar. 


enquanto isso...

... em modo emissora invertida...

Ridículos são os que as recebem


Muito depois de o amor ter sido declarado extinto, naquela estação de rádio perdida nos confins do mundo, na sala à esquerda de tudo o resto, continuaram a escrever-se as mesmas cartas de amor.
Mensagens sobre luas cheias e homens vazios aprisionados no terror do esquecimento.
Pareceram-me tão sinceras como antes. 
As ondas hertzianas facilitam no momento de rasurar o nome no envelope. 
E as boas cartas de amor, já se sabe, são aquelas que se podem enviar a mil pessoas diferentes fazendo com que todas se sintam únicas.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Herodoto fala do amor

“Of the crocodile the nature is as follows:—during the four most wintry months this creature eats nothing: she has four feet and is an animal belonging to the land and the water both; for she produces and hatches eggs on the land, and the most part of the day she remains upon dry land, but the whole of the night in the river, for the water in truth is warmer than the unclouded open air and the dew. Of all the mortal creatures of which we have knowledge this grows to the greatest bulk from the smallest beginning; for the eggs which she produces are not much larger than those of geese and the newly-hatched young one is in proportion to the egg, but as he grows he becomes as much as seventeen cubits long and sometimes yet larger. He has eyes like those of a pig and teeth large and tusky, in proportion to the size of his body; but unlike all other beasts he grows no tongue, neither does he move his lower jaw, but brings the upper jaw towards the lower, being in this too unlike all other beasts. He has moreover strong claws and a scaly hide upon his back which cannot be pierced; and he is blind in the water, but in the air he is of very keen sight. Since he has his living in the water he keeps his mouth all full within of leeches; and whereas all other birds and beasts fly from him, the trochilus is a creature which is at peace with him, seeing that from her he receives benefit; for the crocodile having come out of the water to the land and then having opened his mouth (this he is wont to do generally towards the West Wind), the trochilus upon that enters into his mouth and swallows down the leeches, and he being benefited is pleased and does no harm to the trochilus.”



"(...)70. There are many ways in use of catching them and of various kinds: I shall describe that which to me seems the most worthy of being told. A man puts the back of a pig upon a hook as bait, and lets it go into the middle of the river, while he himself upon the bank of the river has a young live pig, which he beats; and the crocodile hearing its cries makes for the direction of the sound, and when he finds the pig's back he swallows it down: then they pull, and when he is drawn out to land, first of all the hunter forthwith plasters up his eyes with mud, and having so done he very easily gets the mastery of him, but if he does not do so he has much trouble.
(...)”



Herodotus, in “The history of Herodotus — Volume 1.” iBooks.

terça-feira, 26 de março de 2013

Zapping ao mundo real


Na televisão estava uma mulher que a única história que tinha para contar é que esteve casada dez anos, foi enganada pelo marido, divorciou-se e depois abriu um café. Aparentemente, alguém achou que esta vida tem suficiente interesse para ser exibida num canal de televisão.
Mudei de canal.
A concorrência oferecia um programa tão idêntico que fiquei com dúvidas se o comando ainda tinha pilhas.
Nesta televisão estava uma mulher que perdeu o emprego e em vez de emigrar abriu uma mercearia. Não consigo apurar se já foi traída pelo marido ou se ainda vai ser.
O problema não está nas senhoras que gentilmente partilham connosco a absoluta banalidade das suas existências, dando-nos qualificados conselhos sobre a melhor maneira se ser feliz com aquilo que se tem e nunca desistir. Seja lá isso, desistir, aquilo que for, quando, convenhamos, o feito destas senhoras não é a investigação da cura para o cancro, mas a simples prossecução da sua própria existência, fazendo aquilo que os humanos fazem fazem desde que são humanos, ou seja, subsistindo.
Talvez o problema nem sequer seja das duas direções de programas que consideram que o tempo em televisão é suficientemente abundante para ocupar meia hora com histórias de vida que a única coisa que têm de extraordinário é a sua profunda banalidade.
Ainda assim há um problema. 
O tamanho dos sonhos faz-se dos exemplos, a evolução faz-se pela aprendizagem e a tacanhez dos povos é proporcional à dos seus líderes.
Algo de grave tem de passar-se numa sociedade que serve aos zombies sentados nos sofás das respectivas salas, com o entusiasmo de quem distribui prozac, o consolo de saber que há pessoas iguais a elas que ainda não se suicidaram.

domingo, 24 de março de 2013

A Louis Vuitton fornece-nos ideias para manter o poder de compra enquanto durar a crise


Que o maior dos dedos do pé seja o segundo


Disseram-me que era uma festa, coisa que eu teria sido incapaz de perceber se não me tivessem avisado. Talvez as mesas enfeitadas de toalhas de alga e as estrelas-do-mar penduradas nas nuvens tivessem sido uma boa pista se não se desse o caso, que se dá, de eu agora já só compreender as coisas quando alguém as explica. O coelho do relógio passou por mim a correr, deu um gritinho despropositado e fez de conta que não me viu. Não ter percebido poupou-me o embaraço. A lagartixa aproximou-se do meu ouvido para se queixar que, no wonderland, já só se fuma tabaco de água. Aceitei o cachimbo sem fazer perguntas e partilhei o ar enojado do Ás de ouros que se sentou na minha frente. Uma abelha levantou-se do lugar para trocar impressões com o meu cão sobre a vida íntima da rainha branca. O cão mordeu-a e uivou entediado. Duas chávenas de chá mais tarde vi um cardume de peixes seguir uma lagosta até ao palco improvisado onde tocaram um blues que não envergonharia em New Orleans. E foi só quando o som do saxofone se calou que dei pela falta do chapeleiro louco. Fiz um gesto na direção do coelho para lhe perguntar por ele. Mas depois, por não saber se hoje sou Alice ou a rainha de copas, calei-me a tempo de evitar a exposição pública do logro que sou. A rainha de copas saberia do chapeleiro. Alice não quereria saber. Eu não deveria estar aqui.
Dei dois cubos de queijo azul ao cão antes de comer os meus. Tornei-me desconfiada depois da minha última passagem pelo wonderland. Ou talvez apenas não me possa dar ao luxo de encolher nem mais um centímetro. É ténue, a linha de fronteira entre a mesquinhez e o instinto de sobrevivência. O gato que ri tirou-me a língua em sinal de discordância e desapareceu devagarinho.
Logo que começou a chover, a festa desfez-se numa bolha que eclodiu em pequenos confettis que caíram sobre dois pés descalços subitamente plantados ao lado dos meus. Dei um salto na cadeira ao reparar que, naqueles pés, o segundo dedo era o maior de todos. Foi assim que reconheci o chapeleiro louco. Mas, nesse instante, o sol eclipsou-se e mergulhámos todos numa escuridão que seria silenciosa se o meu coração não tivesse começado a bater em stereo.
Quando o negrume se dissipou e eu ouvi-me a mim própria gritar “cortem-lhe a cabeça” “cortem-lhe a cabeça”, percebi que, afinal, ainda sou a rainha de copas. 
E nem sequer foi necessário explicarem-me.

sábado, 23 de março de 2013

acusação e defesa


He was powerless because he had no precise desire, and this tortured him because he was vainly seeking something to desire. He could not even make himself stretch out his hand to switch on the light. The simple transition from intention to action seemed an unimaginable miracle.” 

 Vladimir Nabokov, Mary


“...for the human brain can become the best torture house of all those it has invented, established and used in a millions of years, in millions of lands, on millions of howling creatures. 

 Vladimir Nabokov, Ada, or Ardor: A Family Chronicle


Excesso de bagagem


Acontece-me com frequência encontrar as melhores respostas nos objetos.
A etiqueta cor-de-laranja, ainda presa à mala que escondo debaixo da cama, cospe-me um “Heavy” acusador.
Fui catalogada há sete meses atrás por alguém que talvez nem sequer tenha precisado de me pesar a bagagem para perceber que o seu peso excede os padrões estabelecidos. 
Perco a paciência comigo própria e livro-me da etiqueta num raro acesso de auto-censura pelo meu próprio desleixo.
Mas do peso, esse, não tenho como me livrar.
Heavy, diz-me o silêncio.

sexta-feira, 22 de março de 2013

leave me alone with my fever



Don't stand by my window.
Don't knock on my door.
Don't ever enter my chamber.
Don't you bother comin' by anymore.

Leave me alone with my fever.
Leave me alone with my
Leave me alone where you left me.
Leave me alone with my wound.

They won't let me go, no.
They can't let me out, no.
They won't let me walk, no.
And I'm not the only,
They can't let us go, no.
They won't let me out, no.

And don't chase a life that is leaving.
Don't chase a life that is lost.
Say on you side "I got reason
To be alone with my wound."

They won't let me go, no.
They can't let me out, no.
They won't let me walk, no.
And I'm not the only,
They can't let us go, no.
They won't let me out, no. 

I'm staying seventeen
It's all I'll ever be
It's all I ever known
Forever seventeen
My heart is on my sleeve
All I ever known

quinta-feira, 21 de março de 2013

No dia internacional da poesia


a trapezista


Começou a subir aos telhados.
Começou a resolver neles muito tempo.

[Primeiro, os dedos na janela mais acima.          
Depois, era o cabelo que subia.
Um pulso a içar a alma para outra cidade.]

Daqui vê-se tudo.
Os gatos deitam-se e lambem-me os pés.

Os pés sobem molhados pela chuva.
Os homens congeminam negócios estendidos nas mulheres.

As crianças gritam dentro das casas quando os sonhos
lhes arrancam pedaços das costas.

Os homens caminham com quadros pendurados nos joelhos
As pessoas escrevem artigos nas revistas
sobre o que seria o mundo se alguém do outro lado as ouvisse

E é então que eu saio
e sobre os ombros das árvores disponho a economia
cravando-lhe os dentes ou
roçando apenas o meu sexo
no trapézio

Inclino-me sobre a sua demência particular
neste dia emparedado entre sucessos e crisântemos
e  as crises
e ouço as ruas onde lá em baixo uma pessoa
ajeita um pouco melhor os ossos

Aquela mulher fabricou uma cozinha resistente a tudo
atravessou os séculos assoberbada de electrodomésticos
inexpugnáveis – ao fim-de-semana envolvia-os em celofane e espanava
um pouco melhor os filhos

Mais à frente o parque onde as estratégias se apresentam -
o presidente à frente, seguido pelo hidrogénio ou o hélio
 - conforme a posição do sol no buço da democracia –
e o écran reflectindo o écran e a
maresia.

Aqui no alto rodo os pés e alongo mais os braços.
Nos primeiros meses estendia-me com o corpo para baixo e deixava
o sangue inundar a cabeça. Via manchas vermelhas da
menstruação por entre os amigos que prometia esquecer.
Eles traziam-me os seus corpos nus e eu aquecia as suas unhas
cravadas pelo vidro.

Dizem: se os videntes permanecem firmes perante pequenos tiranos
podem chegar a suportar a presença do incognoscível.
Todo o conhecimento é o resultado de uma deslocação.
Se é verdade que todos os caminhos são iguais?
Sim. Pois não te conduzem a lugar nenhum.
Se quiseres fazer como o feiticeiro índio da tribo iaqui,
perguntarás: e esse caminho tem coração?

Perdi a minha agenda de fenómenos electromagnéticos.
Não sei por isso de que lado esperar
este súbito irromper
da melancolia.


Rui Costa


terça-feira, 19 de março de 2013

Constatação do óbvio


1. Quando nos comportamos como loucos, os outros tendem a tratar-nos como loucos.
2. Em geral, os loucos são maltratados.
3. Ser tratado como louco enlouquece qualquer um.

Migration

domingo, 17 de março de 2013

síntese


Diálogos com deus


- Oláaaaa….
- Adeus.
- Literalmente?
- Não abuses da minha paciência.
- Minha filha, vim dar-te mais uma oportunidade para alcançares a verdadeira felicidade. Aquela que nos espera no topo da montanha da redenção.
- hum… obrigada mas não. No meu caso seria necessário material de alpinismo profissional. E deve estar frio lá tão em cima.
- Filha, passaram-se muitos meses desde a última vez. Não é possível que ainda me detestes.
- Sabes o que estava aqui a pensar? Acho-te a menos interessante e mais previsível de todas as criaturas mitológicas.
- Se eu fosse um mito não poderias estar a falar comigo.
- Não me menosprezes. Estamos a falar de mim. A que fala com mortos e já amou criaturas que nunca existiram.
- Dá-me a mão e fica na minha companhia. Aceita que te guie pelo teu destino.
- Nada disso. Além do mais, o destino é meu e decidi não ir a lado nenhum.
- Como assim? Já não vais ao teatro? Por causa desta chuvinha de nada?
- És tão idiota. Queria dizer que decidi ficar plantada neste estádio de evolução. Não vou fazer rigorosamente nada com a minha existência. Apenas gastá-la.
- Mas este é o estádio do egoísmo, da frustração, da agonia, não podes querer realmente permanecer aqui.
- hum… também andaste a ler aquela cena dos estádios kubler-Ross? Conseguiste perceber o que acontece depois de se chegar ao último?
- Começo a fartar-me de ti.
- Ainda bem. A reciprocidade é o equilíbrio de qualquer relação.
- … talvez nem sequer te volte a visitar.
- Isso seria bom sinal. O avanço das ciências da psiquiatria é uma coisa importante para a humanidade.
- Alguma pergunta que me queiras fazer?
- Sabes o número de telefone do take away do sushi? 

sábado, 16 de março de 2013

De dentro da caixa de música


Continuas a arrancar os dias ao ritmo das notas do mesmo contra-baixo. A música colou-se aos teus batimentos cardíacos e talvez morras quando as cordas da guitarra se partirem. Os pés afogados pelas folhas de calendário que fazes cair, há muito que se esqueceram que servem para andar. Giras cimentada na rotação perpétua de uma plataforma. Habitas o espaço da própria ampulheta. Onde já nem o tempo conta.
E se não há marcas a giz nas paredes cinzentas é porque isso ainda seria um sinal de esperança.
Dizem-te que o céu está a cair aos pedaços.
Acreditas, mas não te dás ao trabalho de levantar os olhos.
Além do mais, duvidas que deste lado do mundo também existam estrelas.  

segunda-feira, 11 de março de 2013

escrevê-la em várias línguas até aprender a lição


Vergonha, honte, shame, scham, verguenza, imbarazzo, shande, skam, hamba, náire, skomm, ayip

Para o Noodles


homens sem sombra


Há sombras que devoram os homens em noites sem lua
Afogam-nos com a escuridão que os olhos engolem
E regurgitam-nos em corpos invólucro de alma nua

Há homens que se entregam às sombras que os colhem

E há piratas que rasgam as sombras
E incendeiam-nas com luas roubadas
Antes de partirem no rasto das madrugadas

Há piratas que destroem as sombras que lhes fogem

E eu observo-os daqui, do cimo das estrelas
E eu observo-os daqui, da cauda do cometa

E sei que são faces da mesma velha moeda
de latão.
Uns sem corpo e outros sem sombra
E na boca sempre o mesmo gosto
De vazio de alcatrão

E eu vejo-os daqui do cimo das estrelas
E eu vejo-os daqui da cauda do cometa

E choro os homens que se entregam às sombras que os colhem
E choro os piratas que destroem as sombras que lhes fogem
De vazio de coração

O maior erro que existe.


domingo, 10 de março de 2013

Puccini foi readmitido aqui em casa

Ninguém me convence que o que nos afasta da barbárie é a sensibilidade à arte. Tolero com dificuldades crescentes o convívio com criaturas que passam por um Caravaggio com o mesmo ar com que olham para o quadro do menino da lágrima, nunca se comoveram com um poema e pensam que o interesse do bailado está nas pernas das bailarinas.
Mas aqueles que verdadeiramente me assustam são os revelam indiferença perante a música. A música faz um caminho tão direto para o espírito que, de todas as artes, é aquela que menos necessita de educação.
Foi por isso que, desconfiada do meu cão, decidi testá-lo. 
Fiquei verdadeiramente aliviada por perceber que é menos bárbaro do que alguns humanos que conheço. Por exemplo, o mio bambino caro do Puccini, adormece-o em vinte segundos cronometrados. 
Mas só se for cantado pela Callas.


a água que bebemos


Quando me pediram que o justificasse e eu não quis mentir, só me ocorreu fundamentá-lo numa adolescência emocional tardia. Depois percebi que isso é o mesmo que dizer que tudo não passou de uma inútil tontice. O que, sendo verdade, não deixa de ser triste. 
Mesmo aqueles que não gostam do amor, merecem viver na ilusão de que o mistério está mais nas potencialidades do outro do que nas limitações do próprio.
É, talvez, a diferença entre uma nascente e um charco.

segunda-feira, 4 de março de 2013

five months to go


As razões pelas quais não escrevo sobre a minha nova terra:
1. Isto não é uma terra, é uma estância balnear.
2. Este ano não me deram um povo, deram-me os clientes da tal estância balnear.
3. Cheguei em setembro e ainda não desfiz as malas.
A itinerância ensinou-me o desapego.

Goodbye

partidas

A porta por onde se vai em dobro, aquilo que só me chega pela metade.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Pactos

As equações que envolvem a variável concessão à consciência dão sempre resultado negativo.

Foto daqui

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Bens essenciais

Também fica bem com tudo e já tenho as coisas que a outra menina queria.

pensamento profundo da tarde de domingo


Eu tinha um projeto de vida para mim e para este cão. 
Passava vagamente por longos passeios matinais na praia, entre-cruzados por brincadeiras com a bola, os dois de cabelos aos vento, enérgicos e felizes. 
Seguiam-se tardes de esplanada, entretidos com os nossos jornais, os dois muito Gucci, tranquilos e felizes.
Mas dois meses depois tornou-se evidente que meu cão se está nas tintas para esse projeto de vida. 
Só tem interesse em correr na praia se for para perseguir cães com donos antipáticos. O resto do tempo, prefere ser arrastado pela areia do que dar-se ao incómodo de andar. E sobre os jornais tem um conceito de utilidade muito discutível e nada intelectual. Um conceito que faz questão de demonstrar, ali mesmo, nas tais esplanadas onde não se comporta de uma maneira nada Gucci.
Tudo isso seria tolerável, se ele não se empenhasse tanto para atrair velhinhas nórdicas e crianças barulhentas, ao mesmo tempo que rosna a todos os homens giros.
... Talvez mostrando-lhe a fotografia e dando-lhe guloseimas...

Afinal não fui, foi o meu cérebro.


(…)Like the wallaby we have thousands, if not millions, of wired-in predilections for various actions and choices. I don’t know about wallaby minds, but we humans think we are making all our decisions to act consciously and willfully. We all feel we are wonderfully unified, coherent mental machines and that our underlying brain structure must somehow reflect this overpowering sense we all possess. It doesn’t. Again, no central command center keeps all other brain systems hopping to the instructions of a five-star general. The brain has millions of local processors making important decisions.
(…)The lingering conviction that we humans have a “self” making all the decisions about our actions is not dampened. It is a powerful and overwhelming illusion that is almost impossible to shake. (…)

Da vergonha

O reverso da paixão não é ódio nem a indiferença. É a vergonha.

bizarrias

Voltei a ser assaltada por aquela estranha mania de querer aprender a fazer bolos.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Tabu, ainda.

Tabu, o filme, ensina-nos algumas coisas úteis.
A primeira e mais óbvia é que à fase do "Paraíso" sucederá sempre o "Paraíso Perdido".
A segunda é que os filhos por quem abandonámos a paixão das nossas vidas, nos abandonarão a nós para que nos arrependamos na solidão do leito de morte.
A terceira e, porventura mais triste, é que um amor perdido no tempo nunca chegará em tempo útil.

O mais importante é, tendo-se vivido como Aurora, evitar morrer como Aurora.

há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que darei na sua boca


Chega de saudade porque a vida também se faz de alguns regressos.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Cá em casa, estamos bem.

Aconteceu ali em cima uma pequena catástrofe que tentaremos remediar quando passarem os efeitos do champanhe.
Por agora é melhor tirarmos a coleira e irmos dormir.

Ground Zero

Suponho que ao longo da vida, num ou noutro momento, todos acabaremos por ter o nosso ground zero. 
Pode-se vaguear durante uns tempos pelos destroços a tentar identificar os restos. 
Mas chega um momento em que ninguém se pode dar ao luxo de se continuar a recusar a limpar e reconstruir. 
Faz parte dos mistérios da condição humana.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Ao telefone

- Tens saudades minhas?
- Hum... apenas porque é Carnaval.
- ... Como assim? Por causa do fato de odalisca?
- Não. Porque era a altura das férias na neve.

Das coisas que são realmente graves e têm a capacidade de me chatear

Como cortar as unhas a um cão hiperativo que nunca dorme na nossa presença?

domingo, 10 de fevereiro de 2013

não se pode voltar à simplicidade dos tempos do Plateau?

Duas casas e uma cabeça desorganizada e distraída, deixaram-me sem o iPad e o Melville a encher-me os ouvidos durante um mês inteiro.
O meu cérebro, claro, traiu o voto de confiança que foi esta pradaria de liberdade nocturna. 
Sem o espartilho da odiosa baleia, entreteve-se a ouvir a panóplia de disparates que lhe debita o coração. 
O resultado teria sido catastrófico se não tivesse reiniciado a terapia da alienação.
Os cães são bons no ofício de distrair a mente mas não cansam tanto como a Mobby-Dick.
Além disso, é reconfortante saber que há quem dedique a vida a guerras ainda mais estúpidas do que a minha.

Queria regressar à simplicidade dos tempos do Plateau.

Iconoclastia do homicídio



Pensas
O amor é um boneco de porcelana
Eros de quermesse de igreja com asas mal esculpidas
Em que é a ideia e não o objeto que se ama

E como crês ridícula a adoração iconoclasta
Consomes as minhas veias com a mesma tecla gasta

Faço verdades as tuas mentiras

Enquanto meço a distância entre a mesa e o soalho
Olho o boneco uma última vez nas asas
E dou-lhe uma pancada seca com a mão

Esquerda. A do coração.

Ouço-te estilhaçar de encontro ao chão
Não volto a olhar.
Não o posso apanhar.
O destino natural dos resíduos é a absorção

Penso
O teu amor é um boneco de porcelana
Eros de quermesse de igreja com asas mal esculpidas
Em que é o objeto e não a ideia que se ama

Ouço a porta fechar-se nas minhas costas e mordo o lábio inferior
Um clique. Não foi o que disseste? Que o amor se partiria num clique?

Amanhã serei incapaz de me lembrar da origem deste ligeiro hematoma
Que por hoje, mas apenas por hoje,
Ainda me ensombra o sorriso

Faço mentiras as tuas verdades.