Estes senhores enviaram-me um email a sugerir que dê um toque de sofisticação parisiense ao meu guarda-roupa.sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
big brother is watching you
Estes senhores enviaram-me um email a sugerir que dê um toque de sofisticação parisiense ao meu guarda-roupa.quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Amigo, que saudades tuas
Como deves ter reparado, deixei cair o sotaque brasileiro que antes usava nos postais inter-continentais que te escrevia. De qualquer forma, aí para onde agora te mudaste, os sotaques não fazem sentido porque devem ter formas avançadas de comunicação onde nem sequer é necessário mexer os lábios ou esforçar as cordas vocais.Como o meu processo de realização do mundo passa por te contar todas as coisas, a tua recente indisponibilidade para me ouvires deixou-me, qual zombie, refém num mundo paralelo em que o me acontece não chega a ser verdadeiro por falta de processamento.
Depois descobri esta solução de me fazer acreditar que podes ler-me em qualquer lado. Sabes como sou. Descubro sempre uma solução. Quase sempre passa por fazer-me acreditar em qualquer coisa disparatada.
Foi uma semana com penas de gaivotas espalhadas pela areia vazia da praia. É estranha e triste a ideia da praia vazia como o local onde as gaivotas vão perder as penas. Também havia uma espécie de bolhas de pastilha elástica com tons de azul que afinal eram tentáculos de águas vivas. Tudo isto foi parar à minha praia. E também um homem corpulento e grave que juntava aqueles selos dos maços de cigarros para comprar uma cadeira de rodas eléctrica. Precisava de cinco quilos daquilo. Não lhe perguntei se não seria mais rápido organizar um peditório. Os outros também têm direito às suas soluções. Tenho pensado no homem, grande, a pesar selos, levíssimos, e a acreditar optimisticamente que agora já só lhe faltam dez milhões. É um número ao acaso porque não imagino quanto pesa cada um dos selos. Há também a questão logística, claro. Sacos de selos empilhados até ao tecto dentro de um quarto com cama de solteiro. Isto da cama de solteiro é só porque gosto do conceito. Quase tanto como cama de “corpo e meio”. Que é outra daquelas coisas que nunca consegui perceber, mas sobre a qual tu terias imenso gosto em discorrer uma tese de três horas, se me tivesse lembrado de te expor este problema a tempo.
Em vez disso perdi o tempo que não imaginava que se esgotaria a ouvir-te dizer que morrer e lavar os dentes assume a mesma importância cósmica e outras tontarias sobre transferências de energia.
Importante mesmo é dizer-te que tenho uma nova ruga na testa. Quase que a senti formar-se ao longo da semana. Penas de gaivota e tentáculos de águas marinhas espalhados pela praia, pensando melhor, até foi a coisa menos triste que me aconteceu. E agora, ainda por cima, a tal ruga tornou-se verdadeira.
Da próxima, agradeço que vás antes lavar os dentes.
domingo, 29 de janeiro de 2012
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
sleep tight
As pérolas de quase todos os dias, muitas pérolas e de diferentes tamanhos, enleiam-se nas meias e no vison que lhe aqueceu o colo ao longo do dia. E que lho protegeu dos olhares, cobiçosos dos homens da faina, e ávidos das mulheres sedentas de coisas bonitas.
Indecisas entre a madeira do pavimento e o veludo da coberta da cama, para onde atirou o corpo moído da dressage da tarde, as pérolas balançam na cadência das ondas que se desfazem lá fora.
A própria se desfez de todas as coisas que trazia em si nesse dia. E tristemente o fez, na certeza de que nenhuma desordem da alma, ou de outra natureza, lhe trariam inquietação, também nessa noite.
domingo, 22 de janeiro de 2012
Nota de Culpa
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
E agora, os vivos.
A miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.
José Saramago, in Os Poemas Possíveis.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Coisas do Calhau # 1
Nela, uma pequena aeronave aguardava impaciente o condenado, a caminho do seu período de reclusão semanal. O dos dias livres.
A graça está em que, a seu lado, era ainda aguardada a mulher que para lá o remetera. Ela e as suas crias.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Os loucos, pois claro
Percebe-se assim melhor o meu entusiasmo por ter sido convidada para assistir a um concerto.
Aconteceu na exígua esplanada de um café ordinário e dado que choveu o tempo todo e eu estava encostada ao limite do toldo de lona esburacada que nos protegia da intempérie, acabei com as costas encharcadas e a com a T-Shirt pseudo punk-chic debotada.
Tamanho das almas à parte, claro que só poderia ter valido a pena.
O momento alto da noite deu-se quando os rapazes cantaram os Loucos de Lisboa e eu percebi que tinha a cara molhada e que não era por causa da chuva.
Cinco meses após a minha chegada instalou-se uma inquietação que, de acordo com o que me recordo dos tempos em que ainda tinha sentimentos, aproxima-se perigosamente do conceito de saudades.
Amanhã voo para Lisboa.
Uma Lisboa vazia de todos os meus loucos.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Encaminho-me pouco divirto-me assim nas copas
Das árvores soprando pensamentos para o mundo que há de noite.
As pessoas quando acordam são outras, já sabias,
Essa névoa contemporânea do medo miudinho
Que perdemos nas cidades e nos corpos, tu entraste
Antes de mim nos jogos, o enxofre da música e o
Lago do feitiço, inocente homem breve que sonha
Tu bem sabes.
Depois aluguei a bruxa por uma vasta noite.
E a minha vida mudou, a noite cresceu,
A vertigem ardeu-me nos braços até a sangria
Do tédio quando para sempre julguei que te perdia.
Na luta perdi um ou dois braços,
Mais do que o que tinha. Mas esta memória é um palácio,
São corais no pensamento. Jardins e fantasmas,
O gume nas mãos sorvendo, criança estratosférica
E profunda: sem braços e agora sem mais nada.
Não me percebeste, enchi-me de fúria.
É uma arte, queria eu dizer, matar sem retrocesso e
Atraso – ah aqueles braços para apoiar as mãos - ,
Ceifando. Saturno.e.o.vento.na.proa.erguendo.
O: navio:no:mar:parado:parado: completamente.
Parado.como dizer? Não dizer, eu sou.uma vida
Medonha e múltipla. E agora descanso
Deitado nestas mãos que mexem
Sem apoio, sabes, nascendo dos teus olhos
P’la manhã
Rui Costa, in A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Edições Quasi, 2005
domingo, 8 de janeiro de 2012
O poder da persistência
J.D. Salinger, Franny e Zooey
sábado, 7 de janeiro de 2012
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Next, please.
Três diferentes casas e duas terras novas. A planície na alma. O mar nas veias. Incontáveis despedidas. Um reencontro inesquecível. Pelas piores razões. Um desencontro. O encontro. Caixotes bolorentos no lixo a que pertencem. Puccini sem borboletas. Boleros com tragédias. Jazz com salero. Berlim na amizade. Jantares marcados sobre o horário das companhias aéreas. Porco preto e bifes de atum. O disponível colo dos meus amigos. Quente. Zizek e o regresso de Kierkegaard. Cervantes e Thomas Mann. Vargas Llosa e Rushdie. O exorcismo das almas penadas. Pequenos-almoços de biscoito de orelha com post it´s colados no tabuleiro. Duas crises criativas. Uma infindável. Muitas horas de pôr-do-sol. Galochas azuis com pintas brancas.
Nove meses no sol tórrido do deserto. Três meses na sombra da árvore da vida.
Assim se passou um ano.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Fazer as malas para o Natal
Perguntam-me quando parto para o Natal.A pergunta faz sentido, porque aqui não há Natal.
Enfeitaram duas igrejas e fizeram um presépio. Mas as luzes são azuis e o presépio tem estrelícias.
É mais ou menos como se tivesse ido a uma loja dos chineses comprar um Natal da candonga.
Daqui a dois dias faço as malas. Faço as malas para o Natal.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Permitam-me discordar, sr Osman e respectivo boi
“Qual dos dois será mais doido” segredou o palhaço Osman ao ouvido do boi enquanto lhe escovava o pelo no seu pequeno estábulo, “a louca ou o tonto que ama a louca?”. O boi não respondeu. “Talvez devêssemos ter continuado a ser intocáveis”, prosseguiu Osman. “Um oceano obrigatório parece-me coisa bem pior do que um poço proibido”. E o boi acenou duas vezes com a cabeça, concordando com o dono, bum bum”.
in Salman Rushdie, Os Versículos Satânicos.
sábado, 17 de dezembro de 2011
é mais ou menos isso
It's a look
This game we play
We can't escape
We have to attend
It's life you see
When i have tried to amuse myself
To celebrate the fun fair
The pleasures i seek
Are far too discreet for me
And all the time
The world unwinds
I can't deny the way i feel
The truth is lost beyond this lonely carousel
And all these words
They mean nothing at all
Just a cruel remedy
A strange tragedy
Of what will be
After i tried
To discover the answers to why
To look for a meaning
Inside of this dreaming i had
And words that i've said
Are spinning 'round
Would sing alone inside my head
Nothing will change
It's always the same
Please make it stop
And all the time
The world unwinds
I can't deny the way i feel
The truth is lost beyond this lonely carousel
And all these words
They mean nothing at all
Just a cruel remedy
A strange tragedy
Of what will be
And all the time
The world unwinds
I can't deny the way i feel
The truth is lost beyond this carousel
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
domingo, 27 de novembro de 2011
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Oligofernia
Corresponde a um estado de enfermidade mental, com três graus possíveis;
idiotia (grau da pessoa que não atinge a idade mental de uma criança de 6 anos)
imbecilidade (grau da pessoa que não atinge o desenvolvimento mental do início da puberdade)
debilidade mental (própria dos indivíduos com dificuldades de aprendizagem muito profundas).
terça-feira, 22 de novembro de 2011
procurar onde, o quê?
Se a Estrelita tivesse tais inquietações aqui tinha um tema fácil para belíssimos post.
Para um blogue inteiro, aliás.
Não é o caso.
http://youtu.be/XJT0uhfcCkw?t=4m10s
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
E uma cota de malha.
Trocáva-as por um pateo e uns sapatos de cetim.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
terça-feira, 8 de novembro de 2011
domingo, 6 de novembro de 2011
Chama-Anjos
Comprei-o numa ourivesaria centenária perdida no meio do Atlântico.quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Enquanto dormíamos
A noite roubou alguns minutos ao dia. O mar engoliu a praia e regurgitou pedras redondas e escuras. Entre a minha janela e o mar surgiu um campo verde habitado por vacas. Uma aranha construiu uma teia por baixo da portada do quarto. Dentro do Doutor Fausto, aproximadamente cinquenta páginas depois do final da primeira aparição do demónio, um marcador largou uma mancha de tinta. Um estranho cheiro a bolo de limão apoderou-se da minha cozinha.Em 1615 assim como hoje
domingo, 23 de outubro de 2011
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Armistícios
A interrupção de uma guerra nem sempre nos deve fazer concluir pela alteração no posicionamento dos contendores.segunda-feira, 17 de outubro de 2011
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
terça-feira, 11 de outubro de 2011
nos corredores de outubro
a sorrir para os meus olhos, existe um
trovão de céu sobre a montanha.
as tuas mãos são finas e claras, vês-me
sorrir, brisas incendeiam o mundo,
respiro a luz sobre as folhas da olaia.
entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos,
este dia será sempre hoje na memória.
hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas,
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
sem pés nem cabeça mas com flores
Disse-me que às vezes também chovem flores. E que enchem as ruas formando tapetes macios por onde se pode caminhar. De pés nus.Comecei por não acreditar.
Depois lembrei-me que às vezes até chovem sapos.
E não encontrei nenhuma razão válida para que possam chover sapos e não possam chover flores.
Descalcei-me.
sábado, 8 de outubro de 2011
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Midnight in... Wherever!
vítima de um rapto, Medusa foi rever Paris pelos olhos mais de Woody que de Allen. terça-feira, 4 de outubro de 2011
Midnight in Lisbon

Talvez seja mesmo necessário passar duas horas e meia enfiada num avião, aterrar em Lisboa e assistir sozinha a "Midnight in Paris" (Woody Allen), para perceber que existe qualquer coisa de absurdo em ficar debaixo do campanário de uma igreja à espera da boleia de um automóvel de outros tempos que nos transporte para uma era que, por já ter passado, não pode nunca mais ser a nossa.
Há quem consiga ocupar o mesmo espaço em diferentes tempos. E há quem tenha de apanhar aviões, abdicando do espaço, para conseguir viver no tempo presente.
da síndrome dos sapatos de verniz e meias até ao joelho
chegou a horas. o que significa que teve a atenção de se atrasar cerca de seis minutos. vestia de alfaiataria, a camisa era engomada e os botões de punho discretos. o sorriso era ainda de rapaz, pois que aos homens é inato conservar o ar descontraído da juventude. formal, mas sem demandar criados de libré.
vamos conversar?
perguntou-me pelo sobrenome e ficou feliz por me situar entre os seus pares.
os sorrisos encontraram-se, cegos da diferença de idades.
não surpreendeu pela gentileza nas portas e na escadaria, passando depois de mim nas primeiras, adiantando-se na descida da segunda para amparar a eventualidade da minha queda.
presumo que a nossa demora tenha gerado alguma apreensão àqueles a quem ele dá sono. quando demos pelas horas, já todos nos esperavam para o almoço. estávamos tão bem. estávamos tão bem no meu entusiasmo que se lhe pegou, com a sua serenidade a assistir, feliz, aos meus lampejos de olhar num futuro maior que o dele. foi com pena que nos despedimos daquele gabinete.
quando lhes tomo amizade estimo-os como a um aparador herdado. um verdadeiro aparador aparece-nos depois de anos de chocolates. de amêndoas confeitadas. de caixas de chá. há um número mínimo de latas de shortbread ou buttercookies que têm que se suceder. o açúcar deve permanecer nos três açucareiros por várias estações e ser sempre acrescentado. nas gavetas, as toalhas têm que misturar-se com as velas de aniversário que já ouviram as suas palmas e guardaram o desejo pensado naquele momento do sopro. partidas mas seguras pelo pavio sem arder. não dispensa as duas marcas redondas da garrafa de vinho do porto a manchar a prateleira, escondidas debaixo da caixa do faqueiro.
gostei tanto de conversar com ele.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
isto começa a ficar meio estranho... não achas, António?

sexta-feira, 30 de setembro de 2011
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
and so on, and so on...
Eu explicar-te-ia que não há nada que possas dizer-me que estejas a sentir agora que não tenha já ouvido da boca de outros. Que a estranheza que sentes e engrandeces não é mais do que um efeito que tem como naturalíssima causa o facto de eu ser uma pessoa estranha. Que só acreditas que estamos predestinados um ao outro porque toda a gente pensa que está predestinado na minha existência. Que se faço este ar entediado não é porque não creia na verdade do que dizes mas porque sei que em breve deixará de ser verdade. Explicar-te-ia que a beleza é surpresa que o nosso cérebro anula ao fim de poucos dias. Logo que passa a acreditar que tudo continuará lá no dia seguinte. Que depois de superada a euforia da auto-satisfação pela (apenas) aparente improvável conquista, surge uma serenidade visionária. Que, num processo inverso ao das miragens, se tornam nítidos os contornos dos defeitos que sempre estiveram ali à vista. Que se entretanto tivesses o azar de eu me interessar por ti faria tudo o que pudesse para te convencer que sou detestável. Que não terias inteligência para discernir uma verdade entre artifícios. Que mesmo que tivesses essa inteligência não terias a paciência. E que se tivesses a inteligência e a paciência não terias a coragem. E que se por milagre tivesses essas qualidades todas seria eu quem se iria imediatamente embora.
Depois de eu te explicar isto, tu entenderias tudo. E depois acreditarias. E desistirias. E levantar-te-ias da mesa e devolver-me-ias os dados.
Sim, poderíamos pousar os dados no feltro verde da mesa e passar já para a fase final do jogo.
Mas como não fui eu que escrevi as regras e sou demasiado honesta para fazer batota teremos que perder imenso tempo a atirar os dados e a empurrar as peças pelas casinhas enquanto fazemos de conta que este jogo tem um propósito nobre. No processo, gastaremos todas as fichas que nos deram à entrada do casino e talvez ainda aquelas que o nosso sistema de crédito nos permitir.
Depois tu desistes. Levantas-te da mesa. Devolves-me os dados.
Premonições kitschianas
O vinho superou em muito a qualidade da comida e nós continuámos sentados a adiantar as horas numa tortura conjunta amplificada por um programa de karaoke.
No final da noite, ele subiu ao palco e eu apostei cinco euros no My Way do Frank Sinatra.
Quando pegou no microfone e anunciou que a música era minha paguei a aposta ainda antes do primeiro acorde.
Numa voz impossível e com expressão de sofrimento ouvi-o cantar em sotaque brasileiro:
tou fazendo amor com outra pessoa,
Mas meu coração vai ser pra sempre teu…
O kitsch ficava-nos muito bem.
Eu ri-me muito. Ele também se riu. Em nosso redor vinte outras pessoas riram-se com ainda mais vontade.
Jamais uma confissão pública de infidelidade foi tão confundida com uma declaração de amor.
Talvez por nunca me ter interessado pela gramática, naquela noite, não consegui perceber que nesse presente do indicativo seguido de um futuro imperfeito estava contida toda a verdade da nossa existência.
“E depois acabou uma ilusão que eu criei, a emoção foi embora e a gente só pede para o tempo correr, lá, lá”
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
A Frau
Os novos tempos são de austeridade e é necessário que conformemos os nossos hábitos com as especificidades da época. (Pelo menos, é o que me dizem).Natureza versus Natureza
Depois, a planície irrompeu pela rocha e abriu-se, imensa, à minha frente.
Para competir com a natureza, os homens inventaram um mecanismo chamado MMS que, além de várias outras utilidades que lhe adivinho, tem a capacidade de secar os rios, fazer explodir as rochas, mover ilhas e atravessar oceanos.
Foi assim que a natureza foi derrotada por uma fotografia.
Sem inscrição, mensagem ou explicação.
- Um homem montado no seu cavalo.
às 5, chá.

- ...
- é. é assim, filha.
- ... sempre?
- sim, linda. o homem que ama não é o homem que volta. é aquele que, simplesmente, não se vai embora.
domingo, 25 de setembro de 2011
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Não tinha pilhas no comando, tá?
O meu cérebro não se importa nada de confessar que o conteúdo do livro retido foi percentualmente inferior ao do programa.
Já a minha alma, olha de esguelha para o cérebro, encolhe os ombros de vergonha e insiste no seu papel de irmã siamesa permanentemente desavinda.
recordo a manhã para aguentar a noitada de trabalho

- olha, uma máquina de nuvens!
- não querida, aquilo é uma fábrica...
- não! não! é uma máquina de nuvens!
terça-feira, 20 de setembro de 2011
No more boleros
No ganas nada en intentar,
el olvidarme,
durante mucho mucho tiempo
en tu vida yo voy a vivir.
No No, no ganas nada en intentar el olvidarme.
No No ganas nada al intentar

O som proibido que inunda a sala. O gesto de surpresa que derruba a tela. Uma mancha de tinta prateada entre os dedos. O telefone a acordar para outras vidas. A mosca que bate de encontro aos vidros da porta. Desesperada. A estatelar-se na liberdade. Uma música que sobrevive à esterilização. Os passos na direcção do som. Maldizer todas as formas de desmaterialização. A dificuldade de aprisionar em caixotes o que não é objectivável. Uma vela acesa na qual se tropeça. Perceber que se chegará sempre depois do som. Queimada. A canção indestrutível. Uma promessa? Uma praga?
E o off finalmente ao alcance dos dedos. E o olhar preso na mancha de tinta prateada. E o telefone a desligar-se. Em vez da música.
Abrir a porta à mosca.
Para que voe livre na rua? Para que se afogue na chuva?
Uma promessa? Uma praga?
Detalhes.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
a mais gélida das guerras frias
até àquela segunda-feira em que apareces com um vestido que elas adoram mas que só a ti fica bem.
domingo, 18 de setembro de 2011
Desenganem-se os que pensavam que se tinham livrado daquela mania do domingo como dia de elevação espiritual
Mas muita coisa acontece ainda antes que o andamento termine. Porém, quando finda e no decorrer do seu final, depois de tanta raiva, tanta pertinácia, tanta obstinação, tanta extravagância, sobrevém algo que, na sua brandura e bondade, é totalmente inesperado e comovente. O motivo que, curtido por inúmeras vicissitudes se despede, e, ao fazê-lo, se converte inteiramente em despedida, grito e aceno de adeus, sofre, no seu ré-sol-sol, uma leve modificação. (…)
É como uma carícia dolorosamente amorosa, que passa pelos cabelos, pela face; um olhar inquieto, intenso, que se aprofunda nos olhos do outro, pela última vez. Abençoa o objecto, a fórmula terrivelmente atormentada, conferindo-lhe irresistível humanidade e confiando-a ao coração do ouvinte num adeus, num eterno adeus, pronunciado com tamanha doçura que os olhos se lhe enchem de lágrimas. “Deixa - de sofrer!” diz ele, “Deus ajudou – nos”, “Belo sonho foi”, “Ama-me sempre”. Assim termina. Rápidos e duros tercilhos correm em direcção a uma conclusão qualquer, pela qual muita outra peça também se poderia acabar.
Thomas Mann, sobre Opus 111, in Doutor Fausto, Edit. D. Quixote.
sábado, 17 de setembro de 2011
Manhã no mercado
- Bom dia, meu senhor (“Olha que querido que é este pescador tão típico. Isto é tudo tão lindo. Vou conseguir viver aqui. vou conseguir viver aqui.”)
- Diga. (“É impressão minha ou esta anormal está a olhar para mim como se eu tivesse os pés enfiados num pedestal de madeira plantado num museu etnográfico?”)
- Queria um quilo de lapas, por favor. (“Este gentil pescador ensinar-me-á a cozinhar as lapas e eu terei um saudável almoço típico.”)
- Lapas?? (“oh, não… não vou conseguir despachar-lhe o atum”)
- Sim, lapas. (“não deve estar habituado a que se interessem pela gastronomia local e este ar aparentemente rude é uma forma de defesa. Esta gente é estranha. Respeito pelas idiossincrasias, blá, blá”.)
- Não vendemos cá disso, menina. (“mesmo que vendesse não as saberias cozinhar”)
- Não?? Como não? É uma comida típica! E eu sei que há disso na ilha (“Esta criatura horrível está-me a esconder as lapas todas para as vender aos restaurantes. E só tem dois dentes. Valha-me deus, onde eu vim parar.”)
- É. Mas se ninguém as apanhar elas não vêm de autocarro para o mercado, sabe? (“era dar com um atum na cabeça destes gajos que escrevem os guias turísticos até os deixar com os miolos de fora”)
- E agora?? Onde é que vou arranjar lapas para o almoço?? (“um…dois…três…respira…um…dois…três…não sejas malcriada…um…dois…três…aprender a amar um povo, blá, blá...infinita paciência, blá, blá”)
- Apanhe-as nas rochas. (“Aproveita e leva esses saltos, pode ser que caias de lá abaixo tu e esse teu sotaque continental”)
- Hum… Assim farei. (“Devias era ver o que eu fazia com esta gente toda se ao menos me dessem uma porcaria de um pelourinho…”)
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Embrulho em seda preta uma alma rastafari

digo-te com quem ando. diz-me quem sou.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Ah, então era isso...
Voltaire
terça-feira, 13 de setembro de 2011
boxing night

tirei esta a preto e branco para se parecer com o que costumávamos ver na ESPNClassic no sofá lá de casa.
tenho saudades de chamar por ti.
sabes, passou-me o alívio de te ver sofrer.
o meu coração mudou; começou a doer-me de uma forma insuportável.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Altares
A imagem é do Altar de Pérgamo, no museu Pergamon, Berlim.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Amigo, qui saudajde dji ocê
Aqui não me posso sentar na soleira da porta. Fico mais bonita engomada, de pernas cruzadas, no sofá da sala, com uma chávena de chá de camomila entre as mãos. O serviço é de porcelana, não te preocupes. Também se ouve o som do trote de cavalos mas eles agora dirigem-se sempre para outra direcção. Nas primeiras vezes, cheguei a achar que tinha enlouquecido de saudades da planície. Estranho como o nosso juízo é mais resistente do que aquilo que conseguimos acreditar.
Entre uma coisa e outra passei uns dias num sítio que ainda se parecia vagamente com Lisboa. Sobre isso, nada. Os cemitérios continuam movimentados e as flores apodrecidas.
Li muitos livros. Nenhum escrito por ti. Nenhum escrito por algum dos nossos amigos.
No final de Agosto, um médico receitou-me a amnésia e eu comprei-a na farmácia. Deixaram-me ficar com as memórias da família e dos amigos. Isso e um último caso insignificante que estou decidida a guardar na alma como se fosse uma grande história de amor.
Li qualquer coisa parecida em Miguel Cervantes.
Tu percebes. És o tipo dos moinhos. Tens de perceber.
Vou fazer a mala e apanhar o próximo avião para o jantar das nove. Aqui marcam-se os jantares com os horários dos aviões sobre a mesa. É giro. Parecemos todos muito nova iorquinos, enfiados nestas pequenas rochas.
Dei-me conta que não sei nada de ti há mais de sessenta dias.
São demasiadas horas. Não me faças esperar.
O médico fanático está decidido a exterminar todos quantos me causem a mínima ansiedade. Não gostaria nada de me esquecer de ti.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
terça-feira, 6 de setembro de 2011
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Giacomo Girolamo Casanova de Seingalt
a profissão também não era de "aventureiro".
a figura não era propriamente triste, mas não chamava a atenção entre os seus pares.
hoje vi de perto um Casanova.
nunca tinha ouvido nada tão perigoso.
mesmo preso, destruiu três mulheres.
as alegações do seu defensor, brilhante, ficaram-se por "o amor é louco".
arranhei o código penal todo à procura do degredo no capítulo das penas.
O inventário da tua morte
Do imenso espólio que me roubaste recuperei recentemente uma pequena peça:
O prazer da pintura.
Um dia, conseguirei voltar a pintar bailarinas.
Nesse dia terás deixado de existir.
espaços de não existência
Chove há três dias consecutivos.
Descobri que é difícil manter a pose institucional quando se chega encharcada até aos ossos e se percebe que as pessoas que nos devem respeito estão cheias de vontade de nos embrulhar num cobertor, sentar-nos no colo, e despejar-nos uma chávena de chá fumegante pela goela abaixo.
Ao invés, fizeram-me uma visita guiada pelo meu novo local de trabalho. Demorou um minuto. Não lhes disse que pela minha vida já passaram arrecadações com maior dignidade do que a suposta sala grande. Eles retribuíram-me não me dizendo que já o sabem.
Também descobri que até uma ateia incorrigível sente em horas desertas um certo conforto no nepotismo da proximidade dos favores divinos. É a primeira vez que me instalam num edifício com capela incorporada. Ocorreu-me que, algures em 1700, um visionário previu a minha chegada.
Em casa tenho uma figueira. E vinte e seis galinhas, um peru e respectiva fêmea...
E a última frase não é uma figura de estilo.
Com o tempo percebe-se que a dificuldade reside menos em aprender a amar um povo do que em ensiná-los a não nos odiarem.
sábado, 3 de setembro de 2011
Exilada
Se a Lisboa das luzes a rir-se dentro dos meus olhos na última noite. Se o choro que tive que engolir dentro de um abraço na última manhã. Se a dor que aumentou à medida que a minha vida passou a ser um pontinho distante visto lá do alto. Se o desespero de, aqui, a fuga possível se fazer pelo afogamento.
Cheguei ontem à minha décima quinta casa.
Foi com estranheza de extra-terrestre que me recordei que as lágrimas são quentes.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
no final da tarde fazia tanto frio...
o teu jeito de sorrir. reflectido em todas as vidraças da cidade.
tudo no cenário da nossa vida. sem vestígios de escombros.
nem a um sítio onde nunca estivemos posso ir sem ti.
é assim.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Berlim Report - o amor tem as unhas dos pés sujas
A mais perfeita figuração de Eros, o meu arqui-inimigo, veio do pincel de Caravaggio. É na Gemaldegalerie, em Berlim, que, com aquele irritante e tétrico sorriso de quem acaba de destruir mais uma vida, vive o pequeno malfeitor.
Numa cinzenta manhã de frio decidi matá-lo. Com um x-acto.
(Para dar um efeito mais dramático podemos agora imaginar que o x-acto tinha um cabo de madrepérola.)
À porta da galeria não estavam simples seguranças mas guardiães de formação militarizada especialmente treinados para o defender.
Apesar de ter feito o meu melhor ar inocente disseram-me logo que só me deixavam entrar sem a mala. E sem o casaco. E sem o cachecol. Foi assim que me vi obrigada a caminhar, descalça e praticamente nua, com o x-acto de cabo de madrepérola guardado no soutien e a minha determinação assassina na alma, pelos corredores da galeria.
Três anos de guerra apuraram os meus instintos localizadores a tal ponto que um minuto depois de ter enganado a segurança, já os meus olhos se cruzavam com o insuportável sorriso de Eros. Nem o facto de estar pregado numa parede, mudo e indefeso, sozinho com os meus intentos revanchistas lhe atenuou o sorriso de moca. Não é coragem. É psicopatia.
Foi então que, com a sala completamente vazia, me aproximei de Eros e tirei do peito a arma com que tencionava destruir a figuração do meu mais poderoso inimigo. Examinei-o de perto com o olhar do falcão prestes a devorar a presa.
Mas ali, sozinha com Eros, com os pés dele ao nível do meu mais directo olhar, apercebi-me de uma coisa:
Eros tem as unhas dos pés sujas.
Caravaggio sabia muito bem o que fazia.
Não é um enaltecimento. É um aviso. Um aviso contra o amor.
(O facto de o quadro estar protegido por um vidro e eu não ter levado nenhuma picareta nada teve a ver com a minha desistência).

























