sexta-feira, 7 de outubro de 2011
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Midnight in... Wherever!
vítima de um rapto, Medusa foi rever Paris pelos olhos mais de Woody que de Allen. terça-feira, 4 de outubro de 2011
Midnight in Lisbon

Talvez seja mesmo necessário passar duas horas e meia enfiada num avião, aterrar em Lisboa e assistir sozinha a "Midnight in Paris" (Woody Allen), para perceber que existe qualquer coisa de absurdo em ficar debaixo do campanário de uma igreja à espera da boleia de um automóvel de outros tempos que nos transporte para uma era que, por já ter passado, não pode nunca mais ser a nossa.
Há quem consiga ocupar o mesmo espaço em diferentes tempos. E há quem tenha de apanhar aviões, abdicando do espaço, para conseguir viver no tempo presente.
da síndrome dos sapatos de verniz e meias até ao joelho
chegou a horas. o que significa que teve a atenção de se atrasar cerca de seis minutos. vestia de alfaiataria, a camisa era engomada e os botões de punho discretos. o sorriso era ainda de rapaz, pois que aos homens é inato conservar o ar descontraído da juventude. formal, mas sem demandar criados de libré.
vamos conversar?
perguntou-me pelo sobrenome e ficou feliz por me situar entre os seus pares.
os sorrisos encontraram-se, cegos da diferença de idades.
não surpreendeu pela gentileza nas portas e na escadaria, passando depois de mim nas primeiras, adiantando-se na descida da segunda para amparar a eventualidade da minha queda.
presumo que a nossa demora tenha gerado alguma apreensão àqueles a quem ele dá sono. quando demos pelas horas, já todos nos esperavam para o almoço. estávamos tão bem. estávamos tão bem no meu entusiasmo que se lhe pegou, com a sua serenidade a assistir, feliz, aos meus lampejos de olhar num futuro maior que o dele. foi com pena que nos despedimos daquele gabinete.
quando lhes tomo amizade estimo-os como a um aparador herdado. um verdadeiro aparador aparece-nos depois de anos de chocolates. de amêndoas confeitadas. de caixas de chá. há um número mínimo de latas de shortbread ou buttercookies que têm que se suceder. o açúcar deve permanecer nos três açucareiros por várias estações e ser sempre acrescentado. nas gavetas, as toalhas têm que misturar-se com as velas de aniversário que já ouviram as suas palmas e guardaram o desejo pensado naquele momento do sopro. partidas mas seguras pelo pavio sem arder. não dispensa as duas marcas redondas da garrafa de vinho do porto a manchar a prateleira, escondidas debaixo da caixa do faqueiro.
gostei tanto de conversar com ele.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
isto começa a ficar meio estranho... não achas, António?

sexta-feira, 30 de setembro de 2011
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
and so on, and so on...
Eu explicar-te-ia que não há nada que possas dizer-me que estejas a sentir agora que não tenha já ouvido da boca de outros. Que a estranheza que sentes e engrandeces não é mais do que um efeito que tem como naturalíssima causa o facto de eu ser uma pessoa estranha. Que só acreditas que estamos predestinados um ao outro porque toda a gente pensa que está predestinado na minha existência. Que se faço este ar entediado não é porque não creia na verdade do que dizes mas porque sei que em breve deixará de ser verdade. Explicar-te-ia que a beleza é surpresa que o nosso cérebro anula ao fim de poucos dias. Logo que passa a acreditar que tudo continuará lá no dia seguinte. Que depois de superada a euforia da auto-satisfação pela (apenas) aparente improvável conquista, surge uma serenidade visionária. Que, num processo inverso ao das miragens, se tornam nítidos os contornos dos defeitos que sempre estiveram ali à vista. Que se entretanto tivesses o azar de eu me interessar por ti faria tudo o que pudesse para te convencer que sou detestável. Que não terias inteligência para discernir uma verdade entre artifícios. Que mesmo que tivesses essa inteligência não terias a paciência. E que se tivesses a inteligência e a paciência não terias a coragem. E que se por milagre tivesses essas qualidades todas seria eu quem se iria imediatamente embora.
Depois de eu te explicar isto, tu entenderias tudo. E depois acreditarias. E desistirias. E levantar-te-ias da mesa e devolver-me-ias os dados.
Sim, poderíamos pousar os dados no feltro verde da mesa e passar já para a fase final do jogo.
Mas como não fui eu que escrevi as regras e sou demasiado honesta para fazer batota teremos que perder imenso tempo a atirar os dados e a empurrar as peças pelas casinhas enquanto fazemos de conta que este jogo tem um propósito nobre. No processo, gastaremos todas as fichas que nos deram à entrada do casino e talvez ainda aquelas que o nosso sistema de crédito nos permitir.
Depois tu desistes. Levantas-te da mesa. Devolves-me os dados.
Premonições kitschianas
O vinho superou em muito a qualidade da comida e nós continuámos sentados a adiantar as horas numa tortura conjunta amplificada por um programa de karaoke.
No final da noite, ele subiu ao palco e eu apostei cinco euros no My Way do Frank Sinatra.
Quando pegou no microfone e anunciou que a música era minha paguei a aposta ainda antes do primeiro acorde.
Numa voz impossível e com expressão de sofrimento ouvi-o cantar em sotaque brasileiro:
tou fazendo amor com outra pessoa,
Mas meu coração vai ser pra sempre teu…
O kitsch ficava-nos muito bem.
Eu ri-me muito. Ele também se riu. Em nosso redor vinte outras pessoas riram-se com ainda mais vontade.
Jamais uma confissão pública de infidelidade foi tão confundida com uma declaração de amor.
Talvez por nunca me ter interessado pela gramática, naquela noite, não consegui perceber que nesse presente do indicativo seguido de um futuro imperfeito estava contida toda a verdade da nossa existência.
“E depois acabou uma ilusão que eu criei, a emoção foi embora e a gente só pede para o tempo correr, lá, lá”
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
A Frau
Os novos tempos são de austeridade e é necessário que conformemos os nossos hábitos com as especificidades da época. (Pelo menos, é o que me dizem).Natureza versus Natureza
Depois, a planície irrompeu pela rocha e abriu-se, imensa, à minha frente.
Para competir com a natureza, os homens inventaram um mecanismo chamado MMS que, além de várias outras utilidades que lhe adivinho, tem a capacidade de secar os rios, fazer explodir as rochas, mover ilhas e atravessar oceanos.
Foi assim que a natureza foi derrotada por uma fotografia.
Sem inscrição, mensagem ou explicação.
- Um homem montado no seu cavalo.
às 5, chá.

- ...
- é. é assim, filha.
- ... sempre?
- sim, linda. o homem que ama não é o homem que volta. é aquele que, simplesmente, não se vai embora.
domingo, 25 de setembro de 2011
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Não tinha pilhas no comando, tá?
O meu cérebro não se importa nada de confessar que o conteúdo do livro retido foi percentualmente inferior ao do programa.
Já a minha alma, olha de esguelha para o cérebro, encolhe os ombros de vergonha e insiste no seu papel de irmã siamesa permanentemente desavinda.
recordo a manhã para aguentar a noitada de trabalho

- olha, uma máquina de nuvens!
- não querida, aquilo é uma fábrica...
- não! não! é uma máquina de nuvens!
terça-feira, 20 de setembro de 2011
No more boleros
No ganas nada en intentar,
el olvidarme,
durante mucho mucho tiempo
en tu vida yo voy a vivir.
No No, no ganas nada en intentar el olvidarme.
No No ganas nada al intentar

O som proibido que inunda a sala. O gesto de surpresa que derruba a tela. Uma mancha de tinta prateada entre os dedos. O telefone a acordar para outras vidas. A mosca que bate de encontro aos vidros da porta. Desesperada. A estatelar-se na liberdade. Uma música que sobrevive à esterilização. Os passos na direcção do som. Maldizer todas as formas de desmaterialização. A dificuldade de aprisionar em caixotes o que não é objectivável. Uma vela acesa na qual se tropeça. Perceber que se chegará sempre depois do som. Queimada. A canção indestrutível. Uma promessa? Uma praga?
E o off finalmente ao alcance dos dedos. E o olhar preso na mancha de tinta prateada. E o telefone a desligar-se. Em vez da música.
Abrir a porta à mosca.
Para que voe livre na rua? Para que se afogue na chuva?
Uma promessa? Uma praga?
Detalhes.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
a mais gélida das guerras frias
até àquela segunda-feira em que apareces com um vestido que elas adoram mas que só a ti fica bem.
domingo, 18 de setembro de 2011
Desenganem-se os que pensavam que se tinham livrado daquela mania do domingo como dia de elevação espiritual
Mas muita coisa acontece ainda antes que o andamento termine. Porém, quando finda e no decorrer do seu final, depois de tanta raiva, tanta pertinácia, tanta obstinação, tanta extravagância, sobrevém algo que, na sua brandura e bondade, é totalmente inesperado e comovente. O motivo que, curtido por inúmeras vicissitudes se despede, e, ao fazê-lo, se converte inteiramente em despedida, grito e aceno de adeus, sofre, no seu ré-sol-sol, uma leve modificação. (…)
É como uma carícia dolorosamente amorosa, que passa pelos cabelos, pela face; um olhar inquieto, intenso, que se aprofunda nos olhos do outro, pela última vez. Abençoa o objecto, a fórmula terrivelmente atormentada, conferindo-lhe irresistível humanidade e confiando-a ao coração do ouvinte num adeus, num eterno adeus, pronunciado com tamanha doçura que os olhos se lhe enchem de lágrimas. “Deixa - de sofrer!” diz ele, “Deus ajudou – nos”, “Belo sonho foi”, “Ama-me sempre”. Assim termina. Rápidos e duros tercilhos correm em direcção a uma conclusão qualquer, pela qual muita outra peça também se poderia acabar.
Thomas Mann, sobre Opus 111, in Doutor Fausto, Edit. D. Quixote.
sábado, 17 de setembro de 2011
Manhã no mercado
- Bom dia, meu senhor (“Olha que querido que é este pescador tão típico. Isto é tudo tão lindo. Vou conseguir viver aqui. vou conseguir viver aqui.”)
- Diga. (“É impressão minha ou esta anormal está a olhar para mim como se eu tivesse os pés enfiados num pedestal de madeira plantado num museu etnográfico?”)
- Queria um quilo de lapas, por favor. (“Este gentil pescador ensinar-me-á a cozinhar as lapas e eu terei um saudável almoço típico.”)
- Lapas?? (“oh, não… não vou conseguir despachar-lhe o atum”)
- Sim, lapas. (“não deve estar habituado a que se interessem pela gastronomia local e este ar aparentemente rude é uma forma de defesa. Esta gente é estranha. Respeito pelas idiossincrasias, blá, blá”.)
- Não vendemos cá disso, menina. (“mesmo que vendesse não as saberias cozinhar”)
- Não?? Como não? É uma comida típica! E eu sei que há disso na ilha (“Esta criatura horrível está-me a esconder as lapas todas para as vender aos restaurantes. E só tem dois dentes. Valha-me deus, onde eu vim parar.”)
- É. Mas se ninguém as apanhar elas não vêm de autocarro para o mercado, sabe? (“era dar com um atum na cabeça destes gajos que escrevem os guias turísticos até os deixar com os miolos de fora”)
- E agora?? Onde é que vou arranjar lapas para o almoço?? (“um…dois…três…respira…um…dois…três…não sejas malcriada…um…dois…três…aprender a amar um povo, blá, blá...infinita paciência, blá, blá”)
- Apanhe-as nas rochas. (“Aproveita e leva esses saltos, pode ser que caias de lá abaixo tu e esse teu sotaque continental”)
- Hum… Assim farei. (“Devias era ver o que eu fazia com esta gente toda se ao menos me dessem uma porcaria de um pelourinho…”)
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Embrulho em seda preta uma alma rastafari

digo-te com quem ando. diz-me quem sou.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Ah, então era isso...
Voltaire
terça-feira, 13 de setembro de 2011
boxing night

tirei esta a preto e branco para se parecer com o que costumávamos ver na ESPNClassic no sofá lá de casa.
tenho saudades de chamar por ti.
sabes, passou-me o alívio de te ver sofrer.
o meu coração mudou; começou a doer-me de uma forma insuportável.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Altares
A imagem é do Altar de Pérgamo, no museu Pergamon, Berlim.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Amigo, qui saudajde dji ocê
Aqui não me posso sentar na soleira da porta. Fico mais bonita engomada, de pernas cruzadas, no sofá da sala, com uma chávena de chá de camomila entre as mãos. O serviço é de porcelana, não te preocupes. Também se ouve o som do trote de cavalos mas eles agora dirigem-se sempre para outra direcção. Nas primeiras vezes, cheguei a achar que tinha enlouquecido de saudades da planície. Estranho como o nosso juízo é mais resistente do que aquilo que conseguimos acreditar.
Entre uma coisa e outra passei uns dias num sítio que ainda se parecia vagamente com Lisboa. Sobre isso, nada. Os cemitérios continuam movimentados e as flores apodrecidas.
Li muitos livros. Nenhum escrito por ti. Nenhum escrito por algum dos nossos amigos.
No final de Agosto, um médico receitou-me a amnésia e eu comprei-a na farmácia. Deixaram-me ficar com as memórias da família e dos amigos. Isso e um último caso insignificante que estou decidida a guardar na alma como se fosse uma grande história de amor.
Li qualquer coisa parecida em Miguel Cervantes.
Tu percebes. És o tipo dos moinhos. Tens de perceber.
Vou fazer a mala e apanhar o próximo avião para o jantar das nove. Aqui marcam-se os jantares com os horários dos aviões sobre a mesa. É giro. Parecemos todos muito nova iorquinos, enfiados nestas pequenas rochas.
Dei-me conta que não sei nada de ti há mais de sessenta dias.
São demasiadas horas. Não me faças esperar.
O médico fanático está decidido a exterminar todos quantos me causem a mínima ansiedade. Não gostaria nada de me esquecer de ti.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
terça-feira, 6 de setembro de 2011
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Giacomo Girolamo Casanova de Seingalt
a profissão também não era de "aventureiro".
a figura não era propriamente triste, mas não chamava a atenção entre os seus pares.
hoje vi de perto um Casanova.
nunca tinha ouvido nada tão perigoso.
mesmo preso, destruiu três mulheres.
as alegações do seu defensor, brilhante, ficaram-se por "o amor é louco".
arranhei o código penal todo à procura do degredo no capítulo das penas.
O inventário da tua morte
Do imenso espólio que me roubaste recuperei recentemente uma pequena peça:
O prazer da pintura.
Um dia, conseguirei voltar a pintar bailarinas.
Nesse dia terás deixado de existir.
espaços de não existência
Chove há três dias consecutivos.
Descobri que é difícil manter a pose institucional quando se chega encharcada até aos ossos e se percebe que as pessoas que nos devem respeito estão cheias de vontade de nos embrulhar num cobertor, sentar-nos no colo, e despejar-nos uma chávena de chá fumegante pela goela abaixo.
Ao invés, fizeram-me uma visita guiada pelo meu novo local de trabalho. Demorou um minuto. Não lhes disse que pela minha vida já passaram arrecadações com maior dignidade do que a suposta sala grande. Eles retribuíram-me não me dizendo que já o sabem.
Também descobri que até uma ateia incorrigível sente em horas desertas um certo conforto no nepotismo da proximidade dos favores divinos. É a primeira vez que me instalam num edifício com capela incorporada. Ocorreu-me que, algures em 1700, um visionário previu a minha chegada.
Em casa tenho uma figueira. E vinte e seis galinhas, um peru e respectiva fêmea...
E a última frase não é uma figura de estilo.
Com o tempo percebe-se que a dificuldade reside menos em aprender a amar um povo do que em ensiná-los a não nos odiarem.
sábado, 3 de setembro de 2011
Exilada
Se a Lisboa das luzes a rir-se dentro dos meus olhos na última noite. Se o choro que tive que engolir dentro de um abraço na última manhã. Se a dor que aumentou à medida que a minha vida passou a ser um pontinho distante visto lá do alto. Se o desespero de, aqui, a fuga possível se fazer pelo afogamento.
Cheguei ontem à minha décima quinta casa.
Foi com estranheza de extra-terrestre que me recordei que as lágrimas são quentes.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
no final da tarde fazia tanto frio...
o teu jeito de sorrir. reflectido em todas as vidraças da cidade.
tudo no cenário da nossa vida. sem vestígios de escombros.
nem a um sítio onde nunca estivemos posso ir sem ti.
é assim.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Berlim Report - o amor tem as unhas dos pés sujas
A mais perfeita figuração de Eros, o meu arqui-inimigo, veio do pincel de Caravaggio. É na Gemaldegalerie, em Berlim, que, com aquele irritante e tétrico sorriso de quem acaba de destruir mais uma vida, vive o pequeno malfeitor.
Numa cinzenta manhã de frio decidi matá-lo. Com um x-acto.
(Para dar um efeito mais dramático podemos agora imaginar que o x-acto tinha um cabo de madrepérola.)
À porta da galeria não estavam simples seguranças mas guardiães de formação militarizada especialmente treinados para o defender.
Apesar de ter feito o meu melhor ar inocente disseram-me logo que só me deixavam entrar sem a mala. E sem o casaco. E sem o cachecol. Foi assim que me vi obrigada a caminhar, descalça e praticamente nua, com o x-acto de cabo de madrepérola guardado no soutien e a minha determinação assassina na alma, pelos corredores da galeria.
Três anos de guerra apuraram os meus instintos localizadores a tal ponto que um minuto depois de ter enganado a segurança, já os meus olhos se cruzavam com o insuportável sorriso de Eros. Nem o facto de estar pregado numa parede, mudo e indefeso, sozinho com os meus intentos revanchistas lhe atenuou o sorriso de moca. Não é coragem. É psicopatia.
Foi então que, com a sala completamente vazia, me aproximei de Eros e tirei do peito a arma com que tencionava destruir a figuração do meu mais poderoso inimigo. Examinei-o de perto com o olhar do falcão prestes a devorar a presa.
Mas ali, sozinha com Eros, com os pés dele ao nível do meu mais directo olhar, apercebi-me de uma coisa:
Eros tem as unhas dos pés sujas.
Caravaggio sabia muito bem o que fazia.
Não é um enaltecimento. É um aviso. Um aviso contra o amor.
(O facto de o quadro estar protegido por um vidro e eu não ter levado nenhuma picareta nada teve a ver com a minha desistência).
sábado, 27 de agosto de 2011
Ich bin ein Berliner
Cuca e Medusa vão às compras a Berlim. Também há a música clássica, os caliços do muro, o meu Caravaggio preferido, três ou quatro ícones de arte nova, etc. Mas isso são meros álibis que escondem o verdadeiro escopo da peregrinação: comprar coisas, passear nas ruas e jantar nos restaurantes da moda. sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Nas ruínas de um sanatório
- Quero o meu carpaccio sem rúcula.
- Mas tu gostas de rúcula.
- Gosto? Nesse caso, devo ter enjoado.
- Desde quando é que usas vestidos tão curtos?
- Não é um vestido, é uma camisola. Limão. Quero muito limão.
- Não deverias usar alguma coisa por baixo?
- Talvez. Vesti-me à pressa. Estou com fome.
- Nem pareces a mesma. O teu ar alienado começa a irritar-me.
- Por favor, não insista nessa falsa familiaridade. Já lhe expliquei que não tenho nenhuma memória de si.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
20x40x55
Medusa joga tetris com o demónio. é óbvia a vantagem do demónio, pois está claro. ele joga no nível 9 e eu já não jogo há mais de 15 anos. as peças caem a um ritmo tal que nem as consigo virar para tentar encaixar.
nunca me passou pela cabeça não despachar malas. nunca fiz isso. e tenho medo.
“no fundo da mala, estenda os jeans abertos e deixe as pernas de fora; vá colocando as peças de roupa aberta… blá blá blá; e termine dobrando as pernas dos jeans em sentidos opostos por cima de tudo, o que impedirá que as peças se amarrotem…”
primeiro, queria levar dois jeans. aparentemente, não posso.
tetris. com os pares de sapatos. não vale a pena ir sem levar um par de saltos para ir jantar. também inegociável.
de soslaio, a minha mala trans-atlântica – a MINHA mala. onde cabem três lobos da alsácia adultos e dois saxofones. todos juntos. esta mala tem dois cabides lá dentro, onde habitualmentre viajam, pelo menos, dois blazers. DOIS CABIDES. é só para terem uma ideia do espaço de bagagem a que estou habituada.
a temperatura máxima local vai descer 14 graus no dia da nossa chegada. não preciso explicar o que isso significa em termos de roupa.
sem camisa de noite. sem bras.
necessaire: desde que a indústria de aviação resolveu inverter, digo, revogar o mecanismo do ónus da prova, somos todos MacGyvers capazes de fazer explodir um avião com uma mistura de foundation com contour des yeux.
encontrei os frascos. neste momento em que escrevo, estou a fazer os papelinhos para o sorteio dos líquidos que não vou poder levar. isto, obviamente, por não conseguir decidir. de seguida, ainda vou pesquisar na net se existe algum método caseiro de solidificação de cosméticos. é que para sólidos não há o limite.
só para me satisfazer, vou tentar passar com uma ameaçadora garrafa plástica de 50ml de água do Luso na mala. palavra que vou. se passar, para a próxima subo a parada para o meu frasco de 75ml de perigoso desmaquilhante de olhos bifásico.
objectos pontiagudos. os brincos contam…? contenção ortodontica nocturna: inegociável. já não possuo a prescrição médica. mas não andei dois anos a sonhar com a trinca na maçã da Branca de Neve para arruinar o meu tratamento dentário.
não me pressionem… deve haver ajuda sobre como ultrapassar tudo isto no site da Al-Qaeda.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Tatuagens III
Alice sabe que não deve voltar ao país das maravilhas. Mas a mágica aguardente de medronho pesa-lhe no bolso do vestido.
Telegrama
Pronta para Berlim.
Beijos
p.s. crianças inteiras e devolvidas
domingo, 21 de agosto de 2011
sábado, 20 de agosto de 2011
o fim das mudanças
na pequena ladeira de chegar a casa onde voltei a ser visita.
neste tempo todo… eu desejei tanta coisa. que já não fizesse tanto calor às 18h57. que o dia viesse. que os jacarandás não florissem tanto. que o Domingo acabasse depressa. que estivesses sentado no passeio a fumar; à minha espera. que fosse Natal. que a chuva se aguentasse nas nuvens só até eu meter a chave na fechadura – e a ponta dos ciprestes a rasgá-las só para me irritar. que deixassem de me chamar como ele me chamava.
ele podia ser o empregado de mesa da cervejaria onde jantei esta noite. tem pinta de empregado de mesa, sabes? aquele que grita ao balcão pelos bifes só pela parte da vaca de onde foram talhados, acrescentando-lhes o sobrenome de “mal” ou “bem” passado. imagina a cena… imagina lá. e dirias, convencido: ele seria muito feliz.
o que aconteceu para tudo virar do avesso de um dia para o outro?
não acredito na tua felicidade.
não por nada em especial, apenas porque eu sei que precisas de não ser feliz. para poder fantasiar as coisas, as pessoas. vais fazer tudo de novo. aceita. é normal.
não tenho rancores, salvo alguns de mim mesma e que não posso expor aqui.
desconfio. aliás, tenho a certeza. infelizmente, é sempre assim.
sabes, tenho um amigo a quem os dias o enfadam. a mim, engulham-me.
sou frágil.
mas és tu que dormes com um olho aberto.
descansei bem a noite passada. pouco, mas bem.
pena ter estado tão escuro. que eu gosto de conversar a fazer sombras à lua. foi para enganar a memória, eu entendi. que os olhos decoram melhor e mandam nos outros sentidos.
tu lembras-te do que acontecia quando os nossos olhos? os nossos olhos eram.
amanhã fico na cama. doente. só me levanto para ir para a praia. e espero que chova fininho.
ando desesperadamente a precisar que os meus dias não sejam tão felizes. tenho mesmo que voltar para casa.
só quando se está mesmo muito magro se percebe que as costelas começam logo abaixo do pescoço.
vou salvá-lo. saiam da frente, por favor.
hoje trouxe de Lisboa o meu último vestido.
preciso descansar.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Tia...Tia...Tia
Ter uma família, preferencialmente numerosa e hiperactiva, percebo agora, é, não apenas a melhor cura possível para a nostalgia, como o único antídoto contra o existencialismo. Desconfio, até, que foi unicamente para esse efeito que as inventaram.
Não estou a falar de amor, mas da eficácia dos trabalhos forçados no tratamento das doenças do espírito.
Desde as oito da manhã, nos dias melhores, até à meia-noite:
C - deixa-me dormir, deve ser de madrugada.
- quero ir para a praia.
C -come os cereais, vá.
- quero levar a bola e as raquetes e o colchão e uma baliza e uns baldes e…
C - não há espaço na praia.
- … e o outro colchão em forma de golfinho e a playstation e…
C - não atires areia para as pessoas. Põe protector solar. Não te afogues. Não fiques na água até estares roxo.
- quero uma bola de Berlim.
- e eu quero uma bolacha americana.
- quero antes um gelado.
C - deixam-me ler um bocadinho?
- tenho xixi.
C - vistam-se para irmos almoçar. Vistam-se para irmos almoçar. Vistam-se para irmos almoçar.
- tenho fome.
- temos fome.
C- está quase.
- não gosto desta marca de sumos. Quero outro tipo de pão. Aquele lugar era o meu.
C - comam também as batatas.
- quero jogar bingo.
- Não. Bullshit.
- ela fez batota.
- era a minha vez de rodar a tômbola.
C - Não, ainda não podem ir à piscina.
- vem connosco para a água. Vem connosco para a água. Vem connosco para a água.
C - não molhem as pessoas. não gritem. Não se insultem. Não me molhem, ao menos, a mim.
- queremos voltar para a praia.
C - protector solar. Protector solar.
- quero ir ao outro lado da praia procurar o meu amigo.
- quero ir andar de gaivota.
- não quero que ele vá para o outro lado da praia procurar o amigo.
C - Não. Já não há mais nada para comer. E não me atirem areia para o telemóvel.
- não queremos ir já embora.
- quero ir fazer um buraco.
- ainda não joguei à bola.
C - Vistam-se para sair da praia. Vistam-se para sair da praia. Onde é que se enfiou o teu irmão? Não vais para o mar agora. Não, não compro mais gelados.
- Ainda nem sequer é de noite. É ridículo sair da praia durante o dia.
- ya.
C- tirem a areia dos pés. vão tomar banho. Voltem para a banheira. Sequem o cabelo em condições. Essas calças não. Estamos atrasados para jantar.
- tenho fome. Tenho fome. Tenho fome.
- paga a conta. Queremos ir passear.
- não bebas café. Queremos ir comprar gelados.
- vamos. Vamos. Vamos.
- tenho sono.
- dói-me os pés.
- quero ir para casa.
C - lavem os dentes. Não, não podes dormir vestido.
- quero beber leite antes de dormir.
C - Estão proibidos de me voltar a chamar até amanhã às oito da manhã, aconteça o que acontecer.
Claro que ainda sobram perigosos quinze minutos. Aqueles que medeiam entre o instante em que a casa se cala e a minha energia se esgota por completo.
Mas eu nunca fui pessoa de correr riscos. Para esses quinze minutos de ameaçadora nostalgia, trouxe o Zizek. Em Inglês.
Passaram a dois...
terça-feira, 16 de agosto de 2011
"vamos fugir"
eu, sorria. porque não entendia fugir de quê.
tu, sempre adolescente. explicavas qualquer coisa com pouco nexo adulto. qualquer coisa rastafári. qualquer coisa assim:
Vamos Fugir
Pra outro lugar, baby
Vamos fugir
To cansado de esperar
Que você me carregue
Vamos fugir
Desse lugar,baby
Ah, Vamos fugir
To cansado de esperar
Que você me caregue
Pois diga que irá
Irajá, Irajá
Pra onde o sol veja você
Você veja-me só
Marajó, Marajó
Qualquer outro lugar comum
Outro lugar qualquer
Guaporé, Guaporé
Qualquer outro lugar ao sol,
Outro lugar ao sul,
Céu azul, céu azul
Onde haja só meu corpo nu
Junto ao seu corpo nu
Vamos fugir
Desse lugar, baby
Ah, vamos fugir
Tô cansado de esperar
Que você me caregue
Vamos fugir
Pra outro lugar, baby
Ah, vamos fugir
To cansado de esperar
Que você me carregue
Pois diga que irá
Irajá, Irajá
Pra onde o sol veja você
Você veja-me só
Marajó, Marajó
Qualquer outro lugar comum
Outro lugar qualquer
Guaporé, Guaporé
Qualquer outro lugar ao sol,
Outro lugar ao sul,
Céu azul, céu azul
Onde haja só meu corpo nu
Junto ao seu corpo nu
Vamos fugir
Desse lugar, baby
Ah, vamos fugir
Pra onde quer que você vai
Que você me caregue
Uma banda de maçã
Outra banda de reggae
Todo dia de manhã
Flores que a gente regue
Pra onde haja um tobogã
Onde a gente escorregue
Outra banda de reggae
Todo dia de manhã
Flores que a gente regue
Pra onde haja um tobogã
Onde a gente escorregue
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
::: khôl :::
andei a cismar porque havemos de manter o fundo do stars em preto. é bonito, fica sempre bem e qualquer mulher precisa de um lbd, mas achei que podia ser positivo mudar para um azul-céu ou um rosa-algodão-doce... até um branco OMO cheguei a considerar. só por hoje, para vos pregar um susto à la silly season.
mas não.
"não é possível neste modelo".
estamos presas. neste luto sem riso e de garatujos em branco.
receitas populares contra a melancolia
s. f.
Tristeza vaga, indefinida: atingiu-o a melancolia da tarde.
Estado de depressão intensa, traduzindo sentimento de dor moral e caracterizado pela inibição das funções motoras e psicomotoras
In Dicionárioweb
Já se disse demasiado sobre a melancolia e, ainda por cima, quase tudo se resume a afirmações mentirosas destinadas a disfaçar a cobarde derrota dos psicanalistas perante este incómodo e estúpido estado de inquietação.
Nestas alturas, quando a ciência nos falha, há que procurar as soluções junto do povo, esse anónimo e global proprietário do senso comum. Diz, pois, o senso comum, que a única coisa que nos deve interessar sobre a melancolia é a forma de a anestesiar. A saber:
Dar uma martelada num pé que nos faça falta; enfiar duas caixas de prozac no estômago; arranjar um emprego na apanha do morango ou nas vindimas; tomar um purgante; fazer um doutoramento sobre a importância da analogia no direito civil; ir para o Algarve de férias no mês de Agosto sozinha com dois pré-adolescentes; e.t.c., e.t.c.
Apesar da evidente semelhança de resultados expectáveis, optei pela última das soluções em detrimento da primeira, porque tenho o cérebro deformado pelos meus vícios de burguesa e mantenho desconfiança em relação a remédios que não reunam a dupla condição de saberem mal e custarem muito dinheiro.
Partimos os três pela manhã para evitar o imperdoável desperdício que seria perder a fila da hora do almoço no único restaurante da praia. Aquela praia para onde se mudou Lisboa inteira.
Espanta-espíritos
Ficarias surpreendido, tu que apenas me conheces da vigilância angustiada de ampulhetas apressadas, se me visses, em passos tão lentos, deixar cair o tempo, assim.
A tarde dissolve-se no rio espelhado à minha frente e eu gasto-a a ler Virgínia e a pensar, a cada cinco minutos, como seria agradável patinar-se o rio se o pudéssemos congelar para depois nele deixar quatro rastos de um número de pares. Tenho saudades de patinar mas perdi a coragem para o fazer. E é uma daquelas coisas que, simplesmente, sem qualquer razão, sei que nunca mais farei. Também nunca mais montarei um cavalo e ninguém se preocupa com isso.
Ontem queimei um dedo na sopa aquecida no micro-ondas e lembrei-me imediatamente de ti. Só sobraste tu para eu me lembrar porque todos os outros foram expulsos das minhas memórias, exilados da minha cabeça, aprisionados no vácuo da felicidade artificial. Condenados pelo crime da mentira, da crueldade e da ingratidão. Sobraste tu que não tiveste tempo para me mentir, oportunidade para ser cruel ou graça que desprezar.
Se aqui estivesses terias olhado para mim daquela maneira cómica, com as sobrancelhas torcidas, que fazias sempre que me vias cometer uma inabilidade qualquer. Dir-me-ias que abaixo do Tejo as mulheres sabem, ao menos, aquecer uma sopa no micro-ondas sem se queimarem. Depois lembrar-me-ias que aquilo que eu precisava mesmo era de encontrar um marido palerma que me sustentasse, tratasse da casa e me fizesse as vontades todas.
Hoje concordaria contigo.
Fecho o livro da Virgínia e deito a cabeça na relva húmida. Não há uma única nuvem no céu. Olho para o pulso onde, pela primeira vez em oito anos, vive um relógio. Branco. Ainda tenho tempo para mais uma memória.
da condição de humano
tem várias causas: afogamento, enforcamento, paragem dos músculos respiratórios, envenenamento, aspiração de substâncias nocivas ou broncoaspiração.
isto vale para os animais.
no caso particular dos humanos, é também causa de asfixia a relativa proximidade de outro ser da mesma espécie. frequentíssima. o que só não acontece quando, em vez de só andar de bilhete na mão a ver os outros, dois indivíduos resolvem dar uma voltinha no rollercoaster...
sábado, 13 de agosto de 2011
he's back
fui ver e o tempo não está para praia, todo o céu é um cinza espelho brilhante. ainda sentia o orvalhar nos braços.
pesei-me ontem e desci a barreira dos 46,5. fingi importar-me.
a minha cabeça parece um funpark com todos os brinquedos a funcionar em simultâneo. as músicas trocadas, plissadas, os palhaços, a nuvem gigante de algodão doce. as luzes a piscar numa cadência mais forte do que a que os meus olhos aguentam.
e a lagarta de cartola à espera dos 50 cêntimos para chocalhar-se toda debaixo de uma criança. enquanto a empregada foi buscar o galão e o pão com manteiga, fi-la sofrer: 50 cêntimos para se abanar toda sem os 15 quilos de carne em cima. os olhos piscaram de gozo enquanto a ladaínha fanhosa tocou. a volta de lagarta durou 37 anos e deixou ma mancha no meu pulmão esquerdo.
engoli a comida, o fim já em desespero. chegava mais gente ao café e eu não ia suportar. paguei a mais, não me virei quando gritaram da porta dizendo que faltava o troco. atravessei a rua carregando uma pedreira inteira dentro do peito e cheguei à porta de casa já de quatro, os joelhos esfolados.
o elevador subiu 3 anos luz numa lentidão sufocante. no 1 e no 2 o pânico da paragem e a possibilidade de ter que fazer o sorriso amarelo inerente à condição de vizinho.
fechei a porta atrás de mim e entrei aos tropeções pela casa, a tentar lembrar-me onde havia escondido a caixa de mim mesma. não o parti a meio. foi inteiro.
i hope i can make it through the day. o horóscopo alerta para gastos desproporcionados. vou às compras.
berlin means nothing to me
no trapeze on full-moon nights.
not the last time, the very last time.
i have to wake up from this dream.
the circus is over.
all over.
once again night falls inside my head.
fear…
why not die?
sometimes, beauty is the only thing that matters.
to look in the mirror is to watch yourself think.
so what are you thinking?
i think i still have the right to be afraid, but not to talk about it.
you haven’t gone blind yet. your heart is still beating.
and now you’re crying.
you’d like to cry like a very sad little girl.
do you know why you’re crying? for whom?
not for me. i don’t know anymore.
i’d like to know. i know nothing.
i’m a little afraid.
it’s gone already. all gone.
it’ll come back…
it doesn’t matter.
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Marmelada de banana e sacis com próteses
Um dia houve espelhos. Mobílias trabalhadas. Veludos encarnados. O peito nu da dona da casa emoldurado em talha dourada. As tais das tábuas de madeira verdadeira. Janelas que dão para o rio. Uma cozinha com bancadas de mármore. Branco. O cheiro de compota na cozinha. O cheiro de rosas na sala. O cheiro da manhã no quarto. Todas as coisas nos seus precisos lugares. A dona da casa de vestido de seda verde e bracelete com flores de ouro desenhadas. Cabelos escorridos enfeitados por fitas estreitas. Umas mãos enormes a segurar um jornal e uma chávena de chá de frutos silvestres. A voz do homem da casa a declamar notícias como quem anuncia Byron. Um braço que se deixa cair sobre um pé descalço e lhe toma a temperatura. Cenas domésticas de perturbadora felicidade feita das harmonias impossíveis.
Mas uma manhã chegou a guerra.
E uma bomba fez estilhaçar os espelhos e quebrar as mobílias e arrancar as tábuas e cobrir de negro o óleo dos quadros e substituir todos os cheiros da casa por um omnipresente cheiro a pólvora e a carne queimada.
A casa abateu-se numa cratera. O rio secou de tristeza. Os donos foram cuspidos por um fragmento de bomba.
Ficou o fumo negro que suja e, por baixo do fumo, um imenso deserto poluído onde nenhum ser vivo conseguirá medrar.
teorias
- como "mesmo eu"!?
- mesmo tu. como me lembro de ti. e gosto do vestido.
- obrigada.
- se o trouxeres quando me vieres ver, sou um homem feliz...
- tonto... posso levar...
- e os brincos. são compridos, não são? gosto...
- são. são várias borboletas pequeninas.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
giving up.
Post sobre sapatos, excepcionalmente não acompanhado de um texto de Nietzsche
terça-feira, 9 de agosto de 2011
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
dos tesouros nos roupeiros
pelo que, no interim desta vida de neo-nómada que escolhi, hoje foi dia de organizar vestidos (no sentido lato da palavra).
já três cadeiras da sala de jantar seguravam, aflitas, as tristes peças mortas de mangas a pingar para o chão quando passei às caixas das malas. tinha um objectivo: as não usadas há mais de duas temporadas iam para braços diferentes dos meus, sendo a única restrição a mesma que se faz aos vestidos de festa, aos casacos de inverno, e aos sapatos: aqueles que são investimento, ficam.
encontrei uma mala de pele tostada Miguel Vieira, do tempo em que o Miguel vinha connosco beber um copo ao Pé de Salsa e ainda não desenhava sapatos brancos e bicudos para homem. para além de assumir-se como investimento, é bonita e muito seventie’s, pelo que fica com a dona e vai sair para dar umas voltinhas ainda este Verão.
abri (porque encontro sempre qualquer coisa dentro de malas guardadas) e encontrei isto. não me perguntem a razão de as pessoas se apaixonarem. não sei porque acontece. mas quando acontece, é assim:
“saberás porventura que não é suficiente o tempo,
e que será logicamente curta a vida,
para que nela percorramos por inteiro este país de entrega, de nudez,
o território de sintonia que trazemos pelo coração?
saberás…?
soube essa certeza um outro dia, num acaso de tempo que assim nos transtorna,
enquanto se escurecia o céu, num esgotamento.
soube que assim não serão suficientes os dias e todo o brilho prateado agregado nas luas.
que não serão suficientes as horas, pois nelas não se dividem em suficientes, os minutos.
e que assim, não chegarão as palavras que haveremos ainda de trocar,
e desse modo tornar mais extensa, a língua tão circunscrita dos dicionários.
soube pois que será o conceito de segundo que nos conduzirá à morte
– à minha ou à tua morte, a morte de ambos –
aborrecendo-nos de sobremaneira esse simples facto, por tudo ter sido tão magnificamente fulminante.
sei que nos causará também aborrecimento esse fim,
por não podermos alongar um pouco mais esta nossa luz.
e nesse acaso fulminante, escurecido,
compreendi que a eternidade das coisas nossas
começou no exacto segundo em que por mim te cruzaste,
trazendo já a marca sábia das teocracias:
a do destino infinito.
e fora assim, já em eternidade, o nosso encontro…
a eternidade és tu, sou eu,
são todas as horas que consigamos imaginar por cada segundo,
e na paixão iludir a monotonia cansada dos dias, inventando impossíveis,
arquitectando novas medidas para nelas aferir um curso mais pausado do tempo…”
sábado, 6 de agosto de 2011
Odeio o amor
Gloria Victis, de Antonin MerciéEstiveste alguma vez apaixonado? É horrível, não é? fica-se tão vulnerável? Ficas com o peito e o coração abertos e outra pessoa pode entrar dentro de ti e revolver-te por dentro. Constróis todas essas defesas, constróis uma armadura que te cobre de alto a baixo para que ninguém te possa ferir, e depois uma pessoa estúpida, igual a qualquer outra pessoa estúpida, atravessa-se na tua estúpida vida… Dás-lhes um bocado de ti. Não to pediram. Fizeram um dia uma estupidez qualquer, como beijar-te ou sorrir-te, e a tua vida deixou daí em diante de ser tua. O amor faz reféns. Entra dentro de ti. Come-te e deixa-te a chorar no escuro, e é assim que uma simples frase do tipo “talvez devêssemos ser só amigos” se transforma num estilhaço de vidro que te vai direito ao coração. Dói. Não é só na imaginação. Não é só mental. É uma dor da alma, uma dor real que te invade e te rasga e te parte. Odeio o amor.”
devolve-me, ao menos, o sono
Cinco noites. O tempo que a insónia demorou a descobrir-me nesta cidade. Veio sentar-se aos pés da minha cama. Ficou a velar-me a angústia. Um desfile de mesquinharia que de dia é invisível e de noite é um monstro que ameaça engolir-me. Ficou a olhar-me de soslaio. E eu a fechar os olhos com força na esperança de deixar de ser vista. A fugir do quarto numa bicicleta. Azul. A pedalar na direcção do rio. A perder-me no nevoeiro. Sem farol. A bater de encontro à porta daquilo que acho que foi a nossa casa.Cinco noites. O tempo que o teu fantasma demorou a descobrir-me nesta cidade. Veio abrir-me a porta de casa. Empurrar-me pelos corredores até ao quarto. Azul. Da cor dos lençóis onde já não há rugas que são trilhos de corpos. Lençóis esticados pela ausência. Ficou a olhar-me de soslaio. E eu a abrir os olhos para não sentir. O bafo gelado da tua memória incrustado na minha nuca.
Esta cidade é o teu sepulcro. Não admira que eu seja incapaz de dormir dentro dela.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Meninas de cabelos azuis e seus irmãozinhos de nariz comprido
AQUI JAZ A MENINA DOS CABELOS AZUIS MORTA DE DOR POR TER SIDO ABANDONADA PELO SEU IRMÃOZINHO PINÓQUIO”.
Esta discreta exploração da mão-de-obra infantil, além de ser uma razoável e económica alternativa ao áudio livro – só custa o preço de duas pizzas, alguns gelados e umas quantas garrafas de água – tem a vantagem de trazer incorporada, além da mais honesta e perspicaz crítica literária, a análise do perfil psicológico do autor.
Nenhum outro método de leitura me teria feito perceber que a dado passo Collodi se engana, e depois de explicar que o burro foi atirado ao mar preso por uma pata, refere que o mesmo asno havia sido preso pelo pescoço.
Por outro lado, a cerca de dois terços do livro já os meus pequenos leitores estavam em condições de concluir que Collodi era, de acordo com a de doze anos, um psicopata reprimido e, na visão do de nove, um tarado violento.
A melhor qualidade das crianças é a sua desassombrada lucidez.
Pensando nisto, parece-me que deve ser qualquer coisa que se perde quando a menina de cabelos azuis é abandonada pelo seu irmãozinho Pinóquio e a tal da Casinha branca dá lugar à lápide de mármore.
cat people
comentávamos que se apagassem as luzes todas não conseguirias voltar para casa. que não sabes orientar-te pelas estrelas (e por isso desististe da vida no campo).
de olhar vazio. sempre. como nas fotografias em que colocas o teu sorriso como um autocolante. sempre à parte. desinteressado. o enfado dos dias. e das pessoas.os gatos movem-se pelo entusiasmo. seja de que for: entusiasmo de fome. de caça. até da melancolia solitária de um fim de tarde no parapeito de uma varanda. como esta.
por vezes, nem o sorriso te enche os olhos.
o que é feito da tua história?
até estavas embalado na conversa; mas subitamente cortas-me o miado.
de regresso da cozinha, apareces com um pires numa mão e uma garrafa de leite na outra. serves-me, sério. fechas o janelão devagar sem desviar o olhar, como quem aplica um castigo.
eu sei onde vais. onde estás. agora.
quando voltas e espalhas a tua pele toda na cama, ignoras as minhas patas e focinho contra o vidro.
por hoje chega. salto. vou vadiar.














