Disseram-me que sofro de anorexia sentimental.Mesmo sem saber o que isso é, pessoalmente, arriscaria antes na bulimia...
Disseram-me que sofro de anorexia sentimental.
o sonho é a pior das cocaínas, porque é a mais natural de todas. assim se insinua nos hábitos com a facilidade que uma das outras não tem, se prova sem se querer, como um veneno dado. não dói, não descora, não abate – mas a alma que dele usa fica incurável, porque não há maneira de se separar do seu veneno, que é ela mesma. 

Por um minuto o nosso passado caiu dentro do buraco que se abriu quando o alcatrão da estrada se desfez à minha volta.





- deixe-me ver se percebi: o senhor partiu a arma com um martelo e depois foi entregá-la aos pedaços à GNR.
Caí de tédio entre as dezanove e as vinte, teletransportando-me para uma soneca deprimida e deprimente no sofá da sala. Não me lembro de ter sonhado – reaprendi a sonhar recentemente, depois da milagrosa e ainda inexplicada cura das insónias – mas aposto o meu polegar direito em como o meu sonho foi aborrecido e pessimista numa estranha mistura de criaturas que, de acordo com qualquer dicionário de sonhos, prenuncia milhões de tragédias.
- Não tens nada para confessar?
O meu senhorio israelita da Mossad veio sentar-se na minha mesa no restaurante. Como de costume, era a única mesa ocupada.
Amigo:
Nas noites em que me distraio ainda me assombras os sentidos. Apareces aos pés da cama que há muitos anos nem sequer é minha. Pálido e magro. Olhas-me com a expressão indignada que só adquiriste post mortem e insistes na mesma pergunta.
Não se deixem enganar pelo título. Cuca não escreve posts com conotações políticas.
No altar da perfeição, enfeitado pelo pragmatismo e mascarado de sucesso, todos os dias se oferecem sacrifícios de inocentes.

OS SAPATINHOS SÃO JIMMY CHOO, primavera de 2011

Há motivos racionais e objectivos para a sensação de optimismo que tomou conta de mim. É verdade que ainda não aprendi a fazer bolos. Daqueles grandes, bonitos, deliciosos. Ainda nem sequer tive coragem para comprar farinha e uma batedeira, que presumo essenciais à realização do meu pequeno sonho doméstico. Ainda assim, esta tarde fui dar por mim, feliz e extraordinariamente satisfeita comigo própria, a escolher chávenas de café. Para cúmulo, nem sequer comprei as pretas. Consegui regressar a casa com umas chávenas de flores coloridas. Com a mesma satisfação inimputável, ignorei as coisas importantes que tinha para fazer e destruí duas horas da minha vida, em estado semi-psicopatológico, a desembrulhar as ditas chávenas e a arrancar-lhes os auto-colantes. Por fim, cheguei mesmo ao extremo de fazer um café e de o beber na chávena nova, sentadinha no sofá, a pensar como deve ser bom ser-se uma pessoa normal.
E na noite em que finalmente tudo acabou, não se tinham passado três mas trinta anos. Eles eram dois velhos. Debruçados sobre uma mesa de jogo. De feltro verde carcomido pelo tempo e pelas traças. Dois velhos. De mãos trémulas em redor de dados de faces gastas. Quem os visse assim curvados, já não saberia dizer, entre o bluff e a batota, qual dos dois tinha marcado mais pontos. Em tempos houve um quadro de scores apontados a giz branco. Mas depois, sem apagador, o quadro acabou por se transformar num caos de vitórias e derrotas de saldo nulo. A uma determinada altura da noite, ela juntou os dados na sua mão, despejou-os na dele e, fazendo um gesto de desistência com os ombros, iniciou os pesados movimentos que anunciavam a sua retirada. O vício, apenas o vício, ainda o levou a ele a puxar de um velho baralho de cartas e a iniciar uma lenta distribuição do jogo pelos dois. Mas ela sabia que, também naquele baralho de cantos desfeitos, há muito que não restava nenhuma dama. Saiu da mesa, condenando-o a uma insonsa vitória por desistência do adversário. Na noite em que finalmente tudo acabou, ela deitou-se, dormiu e fez aquilo que já não fazia há muitos anos.