domingo, 26 de junho de 2011

voltamos àquela mania do domingo como dia de elevação espiritual

Ensaio Sobre a Lucidez

“Quando nascemos, quando entramos neste mundo, é como se firmássemos um pacto para toda a vida, mas pode acontecer que um dia tenhamos que nos perguntar Quem assinou isto por mim (…)”


Graças ao Expresso, caiu-me no colo o Ensaio Sobre a Lucidez, de José Saramago, que, de outra forma, embora sem nenhuma razão especial, dificilmente me lembraria de comprar.
Sobre este livro, publicado em 2004, e a propósito da poderosa caricatura das instituições democráticas, Saramago terá dito que só não provocaria polémica se a sociedade estivesse adormecida. Já na altura, pior do que adormecida, estava embrenhada no actual transe hipnótico. O livro não provocou polémica. E foi pena.

disarm



chegou e ela já tinha a armadura completa. espada embainhada. e inteira reluzia, sentada ao espelho.

ele sorriu, franco. ela não disse nada. mas pediu com olhos que ele lhe escovasse o cabelo. tirou o elmo. devagar. e deixou que ele o fizesse como quis. porque ela só queria fechar os olhos e esquecer por um pouco as tantas feridas que em cicatrizes não se transformavam, sempre em chagas permanentes, que nunca saravam e voltavam a sangrar vezes demais. estava exausta de as lavar em alfazema. de as untar com mel. de as esconder nas tiras de linho. exausta de lhe doerem constantemente debaixo das placas de ferro. e estas: cada vez mais pesadas.

com o deslizar da escova, entre dois arrepios de gozo, pensou se valeria assim tanto a pena viver couraçada para proteger um coração tão rasgado. se o exibisse entre os trapos de uma mortalha de mendigo nem iam dar por ele, tal o seu estado. pelo que entre o andrajo e o peso do ferro, imaginou a sua vida dentro do primeiro. e teve uns segundos de pura alegria.

sábado, 25 de junho de 2011

lisa ekdahl - l'aurore


À l'aurore, quand le ciel est cousu d'or
Doucement, je me rendors, je veux encore rêver de toi
Rêver que c'est l'aurore, d'un amour qui vient d'éclore.
Les feux multicolores de l'aurore me font rêver de toi.

Le ciel flamboie et c'est le ciel qui t'envoie jusqu'à moi
Car l'aurore, chaque jour, m'apporte un trésor.
Les feux multicolores de l'aurore me font rêver de toi.

Car l'aurore, chaque jour, m'apporte un trésor.
Les feux multicolores de l'aurore me font rêver de toi.
Et j'aime rêver de toi.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Eis que no destino de Cuca e Estrelita se desenha mais uma viagem

Desta vez não vamos pedir contas a Perseu dos seus desaguisados com a nossa amiga Medusa.

Vamos desvendar os mistérios da caça ao cachalote.

... durante looongos três meses.

Raptaram os velhos da praça




Regressei ontem a esta terra após dez dias de angustiada ausência.
Privada da planície, sofri uma ressaca tão violenta como a da abstinência de cafeína. Na falta da linha do horizonte ao alcance de um piscar de olhos fui dominada pela estranha sensação de que o mundo inteiro encolheu. Não me sentia assim desde a última vez que fiz uma viagem de onze horas num daqueles aviões concebidos para passageiros sem pernas.
Pus-me ao caminho antes de anoitecer com o duplo objectivo de evitar o massacre de mais lebres na estrada e de ainda chegar a tempo de um jogo da poker com os velhos da praça. Os últimos dias na cidade abalaram o meu orçamento mensal e planeei constituir um fundo para ir aos saldos com dinheiro extorquido à reforma dos velhos. O pequeno pormenor de não ter jeito para o jogo resolver-se-ia com o facto de ser eu a ensinar-lhes as regras.
Mas, pela primeira vez, os velhos da praça não estavam no seu lugar.
Ainda pensei que se tivessem debandado para um qualquer bailarico clandestino na sede da “associação cultural”. Fui lá ver e nada. Esperei pelo final da hora do jantar. Nada na mesma. Tentei atraí-los com a invencível fórmula janelas abertas mais Puccini a tocar dentro de casa. Outra vez, nada de velhos.
Com o programa da noite arruinado por falta de comparência dos artistas principais, deu-me para ir vigiar as actividades do faroleiro. Voltei para casa frustrada depois de confirmar que a luz continua a demorar 63 segundos a dar uma volta completa e que o faroleiro continua a não se deixar ver. Entretanto, alguém me explicou que aquilo é tudo orientado por computador e que o Faroleiro, se calhar, com a crise, já nem sequer existe.
Achei que o desaparecimento dos velhos cabia no conceito de "problema com suficiente densidade para justificar um telefonema ao meu senhorio". Atendeu-me uma espanhola a dizer que o telefone estava desligado.
Adormeci amuada mas acordei reconciliada com a desfeita. Ensaiei o meu melhor sorriso para o oferecer aos olhares impávidos que fixam as minhas janelas quando, todas as manhãs, abro as portadas e os encontro nos seus postos a vigiar a minha vida.
Deparei-me com uma praça novamente vazia.
Fui pedir satisfações à falsa dona da papelaria de fachada que me informou que os velhos foram, ontem ao amanhecer, recolhidos por um daqueles autocarros de cinquenta lugares. Ela ainda tentou convencer-me que foram em excursão ao centro comercial Vasco da Gama. Mas isto é a terra em que nada é o que parece e eu sou aquela que não acredita em ninguém.
Desconfiada que o meu senhorio os levou para um campo de treino da Mossad, algures do outro lado da fronteira, telefonei para a GNR para reportar o desaparecimento de uma povoação inteira.
Infelizmente, os GNRs tinham ar de quem não se deixaria enganar no poker e, com isto tudo, amanhã não tenho dinheiro para ir gastar nos saldos.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Lost in Translation

Vivi uma crise de jet lag num Japão incompreensível contigo a fazer de Bill Murray e eu a orientar-me por uma swotização escrita em Braille.
Ao fundo, alguém traduzia para linguagem gestual os balidos dos cordeiros. Os do sacrifício, claro.
Não foi uma experiência nada parecida com a confecção de bolos.

domingo, 19 de junho de 2011

i hope you enjoy it, now that i've switched into self-destruct mode



don´t burn it

"O fumo contém benzeno, nitrosaminas, formaldeído e cianeto de hidrogénio"...
... E, ainda assim, o amor parece-me muito mais perigoso.



A vã esperança de uma criatura

Talvez exista mesmo um guião secreto onde alguém se deu ao trabalho de escrever tudo.
E nem todos os estranhos destinos serão fabulosos.
Talvez ao criar a minha personagem o escritor tenha decidido que farei, sozinha, todas as coisas importantes. Até aquelas, sobretudo aquelas, que em princípio seria impossível fazer sozinha.
Se assim for, só me resta esperar que, pelo menos, o estilo literário não seja o realismo mágico.

Quadro de Magritte

quarta-feira, 15 de junho de 2011

alquimia




qualquer antídoto compõe-se do veneno ele próprio.
fui buscar um frasco cheio. se não me curar é porque a Panacea me enganou.

terça-feira, 14 de junho de 2011

come back and haunt me

come up to meet ya, tell you I'm sorry
you don't know how lovely you are
i had to find you, tell you I need ya
and tell you I set you apart
tell me your secrets, and nurse me your questions
oh let's go back to the start
running in circles, coming in tails
heads on a science apart

nobody said it was easy
it's such a shame for us to part
nobody said it was easy
no one ever said it would be this hard
oh take me back to the start

i was just guessing at numbers and figures
pulling the puzzles apart.
questions of science, science and progress
don't speak as loud as my heart.
tell me you love me, and come back and haunt me,
oh, when I rush to the start
running in circles, chasing tails
coming back as we are.

nobody said it was easy
it's such a shame for us to part
nobody said it was easy.
no one ever said it would be so hard
i'm going back to the start.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

para a K.





quisera eu proteger-te de todas as fúrias, dos desgostos. arredondar-te as dificuldades.
ensolarar-te os dias mais negros de chuva no teu coração.
afastar os demónios. travar as tuas batalhas. levar em cheio no peito as balas a ti destinadas.

mas espero, antes, saber ensinar-te a amar a tua vida como eu amo a minha. e ensinar-te a olhar para trás e ver as pedras onde tropeçaste, as que te atiraram, as que engoliste e deitaste fora e as que carregas, todas sem excepção, a brilhar com a força de um luar no campo.

quadras de santo antónio

Em guerra contra Eros cerro os dentes
Sem tempo para menores delinquentes
Quando conseguir eliminar o cabecilha
logo me ocupo do resto da quadrilha.

senhores equilibristas

Nas grandes horas em que a insónia avulta
Como um novo universo doloroso,
E a mente é clara com um ser que insulta
O uso confuso com que o dia é ocioso,
Cismo, embebido em sombras de repouso
Onde habitam fantasmas e a alma é oculta,
Em quanto errei e quanto ou dor ou gozo
Me farão nada, como frase estulta.
Cismo, cheio de nada, e a noite é tudo.
Meu coração, que fala estando mudo,
Repete seu monótono torpor
Na sombra, no delírio da clareza,
E não há Deus, nem ser, nem Natureza
E a própria mágoa melhor fora dor.


Fernando Pessoa

Anorexia sentimental

Disseram-me que sofro de anorexia sentimental.
Mesmo sem saber o que isso é, pessoalmente, arriscaria antes na bulimia...

Pão-de-ló



És um cacto, c.
Comem-te os burros!

sem emenda. nem remendo.

o sonho é a pior das cocaínas, porque é a mais natural de todas. assim se insinua nos hábitos com a facilidade que uma das outras não tem, se prova sem se querer, como um veneno dado. não dói, não descora, não abate – mas a alma que dele usa fica incurável, porque não há maneira de se separar do seu veneno, que é ela mesma.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

la nuit

na rua, começam a deixar de passar as pessoas com os cães.

de regresso a casa. pelos caminhos ondulantes de uma bebida fresca.
sem sapatos. no sofá.
janela aberta.
na cabeça, tanta coisa floreada. riem juntos.

num discurso de gargalhadas tentou explicar que estudou a sequência dos semáforos do Largo durante três quartos de hora. no fim da tarde de ontem. enquanto lanchou na pastelaria de esquina. determinou o momento de funcionamento das luzes em que há mais trânsito a entrecruzar-se sob as sombras dos jacarandás.

silêncio. e de novo riso, tanto riso que ele quase não conseguiu dar um nó nas meias de ligas. fez delas uma venda sobre os olhos dela. "para que é que queres isto, querida?"

é daquelas noites em que nem tentou pentear o cabelo. e vestiu um vestido verde.
vai, descalça, brincar à roleta russa para o meio do cruzamento.