sexta-feira, 18 de março de 2011

partilhando

A. sempre foi doméstica. fez a escola que foi considerada suficiente pelos seus pais. em casa estudou o piano até ao fim, salvo os exames para o Conservatório. mas a sua dedicação maior foi ao governo da casa – aprendeu a fazer tudo porque – como dizia a sua mãe – “quem não sabe fazer, não sabe mandar”.

já não muito nova casou-se com S.. comerciante de tecidos finos, bem estabelecido e onze anos mais velho. viúvo de um casamento que não sobreviveu ao primeiro parto de I.. o varão concebido na noite de núpcias levou consigo a mãe, deixando S. amargo por muito tempo.

A. veio a dar-lhe três filhas.
um amor imenso. de pura veneração. tudo entendia do seu marido. a tudo acorria e socorria. a solução de muitos problemas encontrou-as S. na ponta dos dedos de A. quando ela lhe desembaraçava os cabelos. conversavam muito. ela bebia-lhe a tristeza que, por vezes, voltava com o vazio daquele filho perdido. daquela I. tão nova e amada. A. entendia tudo.

viveram vida cheia e feliz, com as infelicidades próprias da vida.

a viuvez tocou A. aos 82 anos de idade. a árvore velha e seca em que se tornara S. finalmente tombara. ela aceitou. serena.

uma das filhas quis as partilhas. contra a vontade das outras que queriam esperar que a mãe fosse também. obviamente, era a mais abastada delas.

A. assumiu com dignidade a função de cabeça-de-casal e apresentou-se para relacionar herdeiros e bens.
cabelo pouco grisalho atendendo à idade, arranjado. estatura acima da média da sua geração. perfume a rosas muito concentrado. aquele que é um cheiro velho. bom, mas velho. seco. cheiro de avó.

respondeu às questões que lhe iam sendo colocadas com clareza e calma próprias de quem tem tempo. acompanhada do seu advogado, ilustre causídico que há um par de anos se esquiva à reforma, daqueles cheios de verbo bonito de se ouvir.

findas as declarações e junta a documentação pertinente, após as combinações finais da praxe, A. pediu a palavra. na sua calma abriu a mala que trazia no braço e retirou um papel dobrado em quatro, que abriu. a tinta permanente manchava as costas deixadas em branco. era um pedido de S., que tinha ficado de cumprir.

- “Senhor Dr., há uns anos atrás o meu marido pediu-me que quando chegasse a sua hora a Senhora Dona E. não fosse esquecida. E pretendia que ela ficasse com a casa em que vive. Não sei se também devo juntar esta carta agora…”

- “Oh Senhora Dona A., mas quem é essa Senhora, qual o parentesco com o seu marido? Senhor Dr….”

- “D. A, a Senhora não me falou em nada disto…”

- “Pois não Senhor Dr..”

- “Portanto, esta Senhora é…”

- “Não é parente, Senhor Dr. E eu também quero que ela fique com a casa onde está. Ele queria assim. E eu também quero. Para cumprir a vontade dele.”


quinta-feira, 17 de março de 2011

conversas de café



« a prosa adere ao pensamento, uniformiza-se adapta-se a ele; e muitas vezes um subentendido produz um jogo de luzes e sombras cheios de profunda beleza, amiúde a frase breve produz inesperadas imagens pictóricas, outras vezes antíteses, ou as anedotas enriquecem as sentenças austeras, a argúcia atenua a trágica solenidade do assunto »
Lucius Annaeus Seneca * Corduba, 4 a.C. † Roma, 65 d.C.

o amor que eu aprendi

já só conseguia sentar-se curvado para a frente, cotovelos nos joelhos e a cabeça entre as mãos. há meses.
era como estava quando ouviu do médico que não havia nada a fazer. do muito que já se havia feito. das várias combinações de calmantes. na altura era assim que se tratavam os deprimidos. só algum tempo depois se compreendeu que não precisavam de ser acalmados.
as sessões que duravam horas. o psicólogo. o psiquiatra. o dormir a valium.

“… a não ser que ela regresse para perto da família dela, dos lugares onde viveu em menina… saindo daqui, quem sabe…”
ele não precisou nem quis ouvir mais nada, saiu antes que o homem acabasse a frase com um “…pode não adiantar nada”. estava farto da falta de esperança.

ela trazia o rosto pequenino. cada vez mais pequenino. era só olhos. cabelo curto. pele cinzenta da súplica de não ver a luz do dia. 41 kgs. 2 filhos pequenos. uma vontade imensa de morrer.

meteu-a num avião cheia de instruções.
ele foi um mês depois, esperou o fim do ano lectivo da menina - que pensava que ia de férias, como das outras vezes. ria-se muito quando o pai lhe dizia que a mãe já tinha encontrado uma escola para ela.

chegaram numa manhã gelada. amassados e mal dormidos. a um aeroporto patético do tempo em que não se usava aquecimento. excesso de bagagem – uma pequena fortuna em taxa suplementar por transporte de 20 kgs de brinquedos.
a roupa mais quente que tinham deixava passar o Novembro inteiro até aos ossos.

no almoço cheio de perguntas e pedidos de relatos de factos exóticos olhavam-se os 4, com vontade de fugir.
uma agonia que se prolongou pela hora do chá adentro. era Domingo.

o apartamento que lhes compraram por procuração tinha mobília comprada por procuração. não estavam habituados às cabeceiras de cama com torneados. riram-se muito do conjunto de tapetes do quarto-de-banho que incluía a insólita peça que cobria a tampa da sanita.

uma dia chegou a casa e ela só chorava.
lembro-me de os ver na cozinha, ela bonita e ele aflito.
ela chorava muito porque estava constantemente a queimar a comida por não se habituar ao fogão de discos eléctricos. e tinha medo que o cilindro explodisse.

o meu pai abraçou a minha mãe e disse que ia correr tudo bem.
e correu.

domingo, 13 de março de 2011

advice, like youth, probably just wasted on the young


(...)

understand that friends come and go,
but with a precious few you should hold on.


work hard to bridge the gaps in geography and lifestyle, because the older you get, the more you need the people who knew you when you were young.

(...)

sábado, 12 de março de 2011

carpinteiros de casas nas árvores

Era como se vivêssemos dentro de uma casa na árvore.
Especializámo-nos na arte da construção de um mundo imaginário que pudesse ser o eterno playground do outro. Os brinquedos eram sempre novos e brilhantes. A mesquinhez tinha sido erradicada. Todos nos ríamos muito. Não havia velhos nem doentes nem pobres. E as únicas crianças da casa éramos nós.
Mas um dia esqueceste-te do portão do jardim aberto. O teu desleixo fez entrar a realidade que submergiu o nosso reino de fantasia e me trepou pelos pés descalços. Até ao lábio inferior.
Não cheguei a deixar-me afogar. E se é verdade que perdi o meu lar, também é verdade que aquela nem sequer era uma casa a sério.
E sei isto tudo.
Só não me peçam que à realidade que me violou a consciência ainda entregue, de prémio, o meu apego ao sonho.

Life and Death

Life and Death, 1916, Gustav Klimt

sexta-feira, 11 de março de 2011

Dia menos cento e vinte e quatro

A minha qualidade de vida deu um salto qualitativo. Está tudo relacionado com a aquisição de um termoventilador, de uma manta polar e ainda com uns gritos raivosos que tiveram a virtualidade de pôr os painéis solares a funcionar. Assustado, o meu senhorio atravessou a serra a só parou para me comprar uma mesa e quatro cadeiras que chegaram hoje embrulhadas em celofane. Bastante civilizadas, por sinal.
Entusiasmada com o sucesso, ainda tentei reproduzir os meus guinchos histéricos com os senhores dos serviços de atendimento telefónico da Vodafone mas, aparentemente, talvez por eles saberem que eu não sei onde eles moram, não fui suficientemente incomodativa para justificar a instalação de uma antena extra que me permita ter telemóvel e internet em casa. Depois de muitas horas de investigação científica, descobri que se colocar o telefone no canto superior direito do frigorífico consigo ter rede suficiente para fazer com que o telemóvel toque. Claro que a chamada cai imediatamente a seguir, fazendo-me passar por uma aquelas pessoas intoleravelmente mal criadas que desligam o telefone depois de identificar as chamadas, mas, pelo menos, permite-me tomar conhecimento da identidade dos que ainda se lembram que existo reduzindo drasticamente o meu nível de paranóia do abandono.
Ainda não tenho fogão mas também já não me queixo disso. Depois de ter experimentado as refeições que se compram no Lidl e se aquecem no microondas, concluí que isso dos fogões é coisa de gente dada às futilidades da vida. Além do mais, fiz uma recente amizade com um grupo de pescadores que, devidamente conjugada com o barbecue do terraço, faz presumir a futura absoluta inutilidade do fogão. Claro que para que o futuro se torne presente, ainda terei que fazer amizade com alguém que saiba assar peixe e não tenha nada melhor para fazer entre as oito e trinta e as nove da noite. Tenciono manter os meus horários de refeições. Aqui ou em Lisboa, não sou nenhuma selvagem.
A questão dos animais mortos no lavatório tem andado relativamente controlada. Em contrapartida, relativamente aos vivos, não estou certa de que aquele cão preto que veio uivar para a minha porta de madrugada, não seja, de facto, um lobo.

O amor e a tuberculose

Há nos romances clássicos uma intrigante relação entre o amor e a tuberculose. A heroína apaixona-se, sofre um desgosto de amor e morre de tuberculose. Na versão masculina, mais rara, o herói apanha uma tuberculose, não necessariamente precedida por um desgosto de amor, e depois apaixona-se reciprocamente pela sua incansável cuidadora.
Não é garantido que se trate de mera falta de imaginação. Talvez no subconsciente dos autores clássicos esteja implícita uma interessante ligação entre o amor e as doenças infecciosas pulmonares.
No fundo, enquanto a paixão é um estado gripal curável com chazinhos e canjas de galinha, o amor corresponde à fase evolutiva da doença. Uma vez ultrapassado o ponto de não retorno, a infecção ataca os pulmões afectando a respiração, fazendo expelir sangue e muco e, nos casos mais graves, pode até levar à total falência orgânica. Se pensarmos bem poucas doenças servem a analogia de uma forma tão perfeita. O sarampo e a papeira, por exemplo, são totalmente imprestáveis.
Neste parágrafo, poder-se-ia dar um salto qualitativo de raciocínio explicando que a diferença de versões em função do género está relacionada com o facto de as mulheres se apaixonarem primeiro e amarem depois e de os homens só se apaixonarem pelas mulheres que já amam. Mas isso seria uma parvoíce. A versão masculina do cliché amante tuberculoso justifica-se apenas para que a história permita uma maior taxa de sobrevivência dos homens e deve-se ao facto de os escritores clássicos serem, também eles, maioritariamente homens.

ócio supra-humano









púrpura, azuis cinza
amarelos de reluzir olhos
raios nalguns fios do meu cabelo que transparecem num ar de riso




passei a tarde inteira no canto de um sofá
só para mim
podia esticar as patas à larga mas deixei-me ficar a um canto

um, dois ou três sonos
perdi a conta










e o rio começa a ganhar cor de coisa profunda, o vento que se levanta vai marcando cada vez com mais intensidade as suas ondas pequeninas
usa um crayon preto de pintar os olhos

os azulejos coloridos lá em baixo dão lugar às luzinhas que vão diamantar a noite

os montes ao longe
ganham a névoa de fim de tarde
a bruma das bruxas do Tejo
que se vestem de fadista e gemem pelos becos cheirando os cachaços dos homens





já quase só claridade
e um arrepio fininho





é o tempo das nuvens cor-de-rosa, que imitam a ponte falhando no tom






arquear a espinha
cravar as unhas no estofado alheio um par de vezes

enfado
é já escorrer pelas escadas abaixo


muito mais tarde, fui tentar apanhar as luzinhas que bailavam nas paredes de uma loja no bairro, que o meu sonho era ter uma bola de espelhos só minha. para brincar

Dourados

quarta-feira, 9 de março de 2011

maré de sizígia

não te esqueças. todas as noites.
tens que tornar a empurrar o barco de volta para a água.
e lutar contra esta lua nova que enche as vésperas de breu.
não te esqueças.
o barco tem que desaparecer no mar, longe da vista da praia, antes que venha o crescente.
cuida: bastará um ténue brilho para que se desenhe o carreiro de prata à superfície da água. é essa trilha de que o barco está à espera para voltar.

sente os pés descalços na areia gelada. movediça de engolir.
sente.

exausta. volta para cama.
já sabes que a próxima madrugada será igual.
até conseguires que o barco desapareça.

as mãos gretadas do sal. o rosto seco do vento.
o peito pesado do esforço.
para sempre.
para nada.

terça-feira, 8 de março de 2011

Dia menos cento e vinte e sete


Confirma-se. A vida no campo é dura e a longevidade das suas populações um mistério de difícil resolução.
A minha primeira noite foi marcada por uma tempestade sobrenatural que abriu frestas na terra por onde, entre outras coisas, se sumiu o falso optimismo que andei a reunir nas últimas semanas.
Os fenómenos naturais perdem toda a naturalidade quando os raios estouram a quinhentos metros de nós e não se vive em apartamentos rodeados por gente e pára-raios. Foi assim que os homens inventaram os deuses e os fantasmas. E só não percebe isso quem não esteve cá ontem. Sozinho. Ter ficado encharcada a caminho de casa e depois não ter aquecimento nem água quente para curar a hipotermia também teve um importante contributo no efeito dramático geral.
Ainda me ocorreu a possibilidade de me queixar a alguém, solução que seguramente me faria sentir menos miserável ou, pelo menos, ter-me-ia dado a confortável sensação de morrer acompanhada. Infelizmente, a Vodafone seguiu o exemplo de deus e abandonou-me. A internet nem se dá ao trabalho de me responder e o telemóvel substituiu as mensagens dos amigos pela enigmática e omnipresente inscrição “sem sinal”.
Foi assim que, prestes a ficar também eu sem sinais, vitais, depois de equacionar e descartar a possibilidade de atravessar a rua debaixo da tempestade para me ir enfiar no carro e aquecer-me no ar condicionado, lá me decidi a enrolar-me no lençol, com uma múmia, à espera que a noite e a tempestade fizessem o favor de me engolir.
Para meu espanto acordei viva. O mesmo não se pode dizer da borboleta, da abelha e das duas joaninhas que, prefiro nem saber como, vieram parar ao meu lava-mãos.
Nem tudo é mau. No campo, todos são simpáticos. Quando abri a porta da rua um sapo do tamanho de um prato de sopa coachou-me os bons dias com um ar animado. Fiquei orgulhosa por ter conseguido calar a tempo o grito de horror que se formou dentro de mim. Mas quando levantei a cabeça e percebi que dez das vinte pessoas que compõem a população estavam estrategicamente sentadas na praça em frente à minha casa, a monitorizar a minha existência, esse orgulho transformou-se em verdadeiro alívio.
Fiquei na dúvida se o dinheiro que os vi trocar entre si estava relacionado com o jogo da bisca ou com apostas da véspera sobre a hora em que eu sairia de casa aos gritos e rumaria a Lisboa.
Seja como for, a minha silenciosa sobrevivência à tempestade da noite passada fez-me ganhar alguns créditos entre a população local. Bateram-me à porta para me avisar que, hoje, no café da povoação, o almoço é galinha e cheira bem.
Eu também gostava de cheirar bem. Infelizmente, fui obrigada a perder a galinha por não reunir as condições mínimas de higiene impostas por um evento social dessa grandeza. A possibilidade de um banho está dependente de suficientes horas de sol para aquecer a água. Atendendo à forma como a natureza me tem acolhido, estava capaz de apostar que vai chover durante muitos e muitos dias.
P.S. Entretanto, a vinte quilómetros de casa consegui encontrar uma loja aberta onde me venderam uma manta. Foi um momento de profunda felicidade só ultrapassável pela possibilidade de conseguir ter som no canal 2.
(os caprichos da falta de rede não me permitem arriscar a revisão do texto. Sejam complacentes com as gralhas deste relato enviado do lado de fora de casa)

08.03



... não só mas também porque eu gosto demasiado da minha lingerie, hoje não me apanham a queimar soutiens.

não há entrudo em que eu não anseie pelas cinzas

domingo, 6 de março de 2011

::: hAppY B-dAy, Mr. Blog :::

Aniversário

Este blog faz hoje um ano.
Foi criado sob o signo da inveja e do despeito mas também teve por propósito servir os fins da amizade.
Gosto de pensar neste blog como uma grande casa de banho, numa festa privada, em que os amigos têm as conversas que se têm nas casas de banho, enquanto se olham ao espelho e retocam a maquilhagem. Ou, no caso dos homens, o que quer que seja que fazem lá na casa de banho deles.
Depois volta-se para a festa, porque – é importante lembrá-lo - a festa será sempre lá fora.
Aos que se entretém a ouvir a as conversas em frente ao espelho, aos que decidem participar nessas conversas, aos que aqui vêm por engano e nunca tiveram a indelicadeza de escrever palavrões na porta aberta, o mais sincero obrigada e voltem quando vos apetecer.

24 hours to go

As partidas indesejadas carregam uma nostalgia insuportável.
Especialmente desagradável é o espaço de tempo que fica entre o momento em que ainda não se partiu e aquele em que também já não se está aqui.
Sempre que antecipo este tipo de cenários escondo-os por trás de uma agenda que tenha a virtualidade de ocupar esse miserável espaço de tempo, fazendo-o correr, o mais possível, à margem da minha consciência.
Desta vez, a falta de adequada planificação aliada à coincidência deste período com as férias de Carnaval das pessoas normais, deixou-me sem rigorosamente nada para fazer. E embora fosse de supor que não ter nada para fazer assumisse a encarnação de um imerecido idílio, a verdade é que, nestas circunstâncias, transformou-se um pequeno inferno.
A agonia de assistir desanestesiada ao esvair da areia da detestável ampulheta omnipresente no meu pensamento é de tal forma violenta que já começo a considerar a possibilidade de me ir embora antes daquilo que é indispensável apenas para me esquivar a este tempo intermédio.
Para piorar a situação, constato que ainda não aprendi a fazer malas e que continuo a compensar essa falta de jeito com o hábito de levar comigo tudo quanto me pertence.

sexta-feira, 4 de março de 2011

quinta-feira, 3 de março de 2011

can you make the world stop spinnig round, can you? please... just for a while.


antony and the johnsons.soft black stars.storm.


Little children snuggle under soft black stars
And if you look into their eyes soft black stars
Deliver them from the book and the letter and the word
And let them read the silence bathed in soft black stars
Let them trace the raindrops under soft black stars
Let them follow whispers and scare away the night
Let them kiss the featherbreath of soft black stars
And let them ride their horses licked by the wind and the snow
And tip-toe into twilight where we all one day will go
Caressed with tenderness and with no fear at all
Their faces shining river gold brushed by soft black stars
And angels' wings shall soothe their cares
And all the birds shall sing at dawn
Blessed and wet with joy

You and i will meet one day
Under the night sky lit by soft black stars

Take Control Again

Depois de umas curtas férias pelo reino da loucura a minha mente encontrou sozinha o caminho para casa. Não lhe organizei uma festa da boas vindas porque ainda estou amuada pelo estado caótico em que a sua ausência me deixou a sala de estar.
Agora que ela voltou para tomar conta de mim, dou-me conta que, pensando melhor, as únicas marionetas que me fascinam são mesmo aquelas cujos fios são controlados pelos meus dedos.
Enormes dedos, por sinal.

N.

do nosso encontro casual sobrou muito do pouco que sempre houve.
chamaste-me pelo diminutivo do nome da minha mãe, de quem vocês guardam na memória o rosto que eu decalquei. a falta de visitas conservam-no na idade em que me vão encontrando.

o parentesco longínquo foi sempre medida da fragilidade da afinidade; a diferença de idades, somada à tua vida desregrada, tornou a nossa amizade inverosímil.
sempre fizeste parte de um lote de gente que me foi banida, portadores de uma estrela de David do desvario.
estroinices, demasiadas, com o irmão que acabou por te deixar pelo caminho.
quatro maridos, filhas, uma de cada um dos primeiros três. a primeira, menos de dois anos mais nova que eu.
tantas casas, recomeços. regressos.
sabia-te das infelicidades pelos outros.
não imaginei que ia descobrir que eram, afinal, a tua vida vista sob a luz errada. admirei-te os olhos, que nunca tinha reparado serem herdados da Laura.
e a mulher em que entretanto me tornei percebeu que passaste toda a tua vida apaixonada.

dois beijos e um sorriso franco.
obrigada.


quarta-feira, 2 de março de 2011

um dia de cada vez

http://www.youtube.com/watch?v=QhzbzwPNgXA

coração

há quem simplesmente não o possa manter intacto por toda a vida.

situação semelhante ao do que herda um palacete e nem para o travejamento do telhado tem. um tal imóvel carece de restauros, caríssimos. manutenção.
soalho.
ordem no jardim.
não se desiste do legado. escolhe-se viver só em parcelas que a cada meia dúzia de invernos se vão transferindo para os andares inferiores, diminuindo em área. o tempo cuida de ir degradando os salões. ecos que se vão fechando em quartos e salas que se trancam. chaves que se perdem. um par de incêndios que o descuido deixou arder.
chega-se aos baixos dos criados, onde se confina a três divisões, de entre as quais só uma é assoalhada. últimos alvéolos de um pulmão calcinado de fumo.

por papel de parede, recordações. por onde os seus olhos vagueiam nos dias. e nalgumas noites em claro.
a roupa de cama já não cheira a alfazema. já não há quem a coloque a corar.
ainda assim, sente-se em si. paixões domadas como velhos sabujos esquecidos dos dias de caça. dormitam aos seus pés.

ela entra, decadente. reconhece os cantos e senta-se à lareira. deixam-se ficar. estão em casa.

novo conceito de degredo: precisa-se.


nós as duas, metidas num barco,
dávamos cabo de qualquer Austrália.


domingo, 27 de fevereiro de 2011

Kierkegaard explica-te

Um rapaz apaixona-se por uma princesa e todo o conteúdo da sua vida reside nesse amor, o relacionamento é contudo de tal espécie, que é impossível ser concretizado, é impossível ser traduzido da idealidade para a realidade. Os escravos da miséria, os sapos imersos no pântano da vida, naturalmente que gritariam: um amor destes é uma loucura! Um bom partido, sólido em termos práticos, é a rica viúva do cervejeiro. Deixemo-los em paz a grasnar no pântano. Não é assim que age o cavaleiro da resignação infinita; não desiste do seu amor, nem por toda a glória do mundo. Não é pateta nenhum. Em primeiro lugar, assegura-se de que este amor é realmente o conteúdo da sua vida, e a sua alma é demasiado sã e orgulhosa para se entregar à mínima prodigalidade em estado de embriaguez. Não é cobarde, nem receia que esse amor se insinue por entre os seus mais remotos e recônditos pensamentos, e se enrede em infindáveis enleios por entre todos os ligamentos da sua consciência – viesse o amor a ser infeliz, e nunca chegaria a desembaraçar-se dele. Sente um ditoso prazer em deixar que esse amor lhe ponha todos os nervos a vibrar e, no entanto, a sua alma tem a solenidade da alma de quem esvaziou a taça de veneno e sente como o suco penetra em cada gota de sangue – pois este instante é de vida ou de morte. Quando assim absorveu todo o amor e nele mergulhou, não lhe falta coragem para tentar e arriscar tudo. Examina o conteúdo da vida, reúne os pensamentos apressados que como pombas amestradas obedecem a cada um dos seus gestos, agira sobre eles a sua varinha, e eles lançam-se em todas as direcções. Mas quando ora todos regressam, todos eles como mensageiros da aflição, e lhe explicam que é uma coisa impossível, fica então imóvel, afasta-os, isola-se e empreende então o movimento. (…) Em primeiro lugar, o cavaleiro terá então força para concentrar todo o conteúdo da vida e o significado da realidade num único e só desejo. Falte a um homem esta concentração, este ensimesmamento, fica-lhe logo de início a alma dispersa na multiplicidade e nunca chegará então a fazer o movimento, conduzir-se-á na vida com a inteligência da gente de dinheiro que coloca o seu capital em títulos todos eles diferentes entre si para ganhar num quando perde noutro – em suma, não é assim que é o cavaleiro. Em seguida, o cavaleiro terá força para concentrar o resultado de todas as operações do pensamento num único acto de consciência. Falte-lhe esse ensimesmamento, logo de início fica-lhe a alma dispersa na multiplicidade, e nunca há-de encontrar tempo para fazer o movimento; continuará a tratar das coisas da vida, nunca entrará na eternidade; pois no preciso momento em que estiver mais próximo, ocorrer-lhe-á subitamente que se esqueceu de qualquer coisa e tem que voltar atrás para ir buscá-la. No momento seguinte pensará que é possível, o que também é inteiramente verdade; porém, com semelhantes observações nunca se chegará a fazer o movimento – contando com elas, antes nos afundaremos ainda mais no lamaçal. O cavaleiro faz então o movimento (…)só as naturezas inferiores encontram regras para as suas acções em terceiros, e as premissas para as suas acções fora de si mesmo. (…) Quem isto entender, seja ele homem ou mulher, nunca será enganado, pois apenas as naturezas inferiores imaginam que são enganadas. Nenhuma rapariga que não possua este orgulho entenderá na verdade o que é amar, mas, se o possuir, nem a astúcia, nem o engenho do mundo inteiro poderão enganá-la.

Soren Kierkegaard, in Temor e Tremor, Relógio de Água

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A primeira mulher


Pandora é a primeira mulher. Foi criada por Atena e Hefesto com a contribuição de todos os outros deuses a quem Zeus ordenou que a habilitassem, cada um, com um dom distinto.
Quando Pandora chegou à terra trazia consigo uma caixa que se destinava a servir de presente de casamento ao seu futuro marido e que continha todos os bens e virtudes do Olimpo. Movida pela curiosidade, e ignorando as instruções recebidas, Pandora decidiu abrir a tampa da caixa. Os bens e virtudes que esta continha, à excepção da talvez mais lenta esperança, escaparam da caixa aberta e, antes que a desastrada Pandora tivesse tempo de voltar a colocar a tampa, regressaram ao Olimpo.
Foi assim que a nós, na terra, nos restaram os males e a esperança.
Pandora, a primeira mulher, é uma das minhas personagens mitológicas preferidas. De criação divina resultou de tal forma humana que a primeira coisa que fez quando saiu do Olimpo foi cometer um erro consequente. E só isso já seria suficiente para explicar toda a minha empatia.
Tem sido acusada de ter deixado escapar o bem, tornando-o num privilégio divino. Mas ao fazê-lo, inadvertidamente, Pandora deu à esperança uma dimensão que jamais lhe pertenceria se não se desse o caso de, na terra, o bem e a virtude serem tão escassos.
Se Pandora é a responsável pela perda do bem é também a responsável pela criação da esperança como o bem restante.
E a esperança, sabemo-lo todos, é a única coisa que nos salva do desespero.




Quadro de Jonh William Waterhouse

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Grandes Filósofos

To love is to suffer. To avoid suffering one must not love. But then one suffers from not loving. Therefore, to love is to suffer; not to love is to suffer; to suffer is to suffer. To be happy is to love. To be happy, then, is to suffer, but suffering makes one unhappy. Therefore, to be unhappy, one must love or love to suffer or suffer from too much happiness. I hope you're getting this down.

Sonja, in, Love and Death (1975)

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Dar férias à vida

Fiscalizo anualmente a dimensão de todas as minhas frustrações perguntando-me o que faria se pudesse tirar férias da minha vida.
Já quis integrar um circo, isolar-me numa ilha grega, internar-me num hospício, ser actriz de teatro em Paris, jornalista em Nova Iorque, entrar num coma profundo durante um ano, possuir um spot de água de coco no nordeste brasileiro, trabalhar como skiper nas Maldivas…
Este ano, ao cumprir o ritual do exercício imaginário, percebi que se pudesse tirar férias da minha vida aquilo que me apetecia mesmo era aprender a fazer bolos. Grandes. Bem decorados. Deliciosos.
Inicialmente, o resultado do meu exercício de medição de frustração pessoal deixou-me razoavelmente satisfeita.
Mas a ideia de que a excentricidade da imaginária ocupação estival é proporcional ao grau de frustração pode não passar de uma interpretação optimista. A outra possibilidade, bem mais preocupante, é a de a banalidade dos meus sonhos denunciar uma existência quotidiana insuportavelmente excêntrica.


Das despedidas

Preparam-nos para quase tudo. Sabemos antecipadamente que teremos que lidar com eles. Que nos vão testar até ao limite. Que nos vão estender rasteiras inimagináveis. Espetar facas afiadas em omoplatas sempre demasiado expostas. Que se vão queixar uns dos outros e de nós aos outros. Ensinam-nos a formalidade como armadura para todas as guerras. A necessidade de nos fazermos respeitar. A imposição permanente pela tácita ameaça da força que esperamos jamais ter que usar. Sabemos lidar com o gelo, os amuos, as pequenas vinganças, o quase insulto que se adivinha entre dentes, por trás das nossas costas.
Ninguém nos fala do resto. E para o insólito nunca estamos preparados.
Vieram todos, em ordeira fila, de presente de despedida nas mãos, braços abertos e lágrimas nos olhos.
Vieram todos destruir, com o carinho que de tão proibido nem sequer vem nos códigos, a minha frágil réstia de autoridade.
E foi assim, só no último dia, que me deixaram saber que, afinal, há tanto que os tinha ganho.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Lo Eres Todo


Substituí o Puccini pelos boleros e agora não sei o que pensar disso.
Também não sei o que pensar de todo o resto.
Não seria motivo para comunicação ao mundo, não se desse o caso de eu usar de saber sempre o que pensar sobre as coisas.
Mas parece que isso foi antes. Não o antes que se contrapõe ao depois mas o antes que, pelo menos, não é o agora.

Os boleros no carro a ocuparem o lugar do Puccini são um presságio tão assustador como um corvo negro que decide pousar no meu ombro e atar uma pata ao meu cabelo.
Imagino o Puccini sentado num cadeirão de veludo verde gasto a olhar para mim com um ar desiludido.
O lábio inferior a tremer.

- boleros, Cuca? Mas… boleros?

E eu a encolher os ombros, desajeitada, sem conseguir articular uma explicação plausível para a traição aos clássicos.

O corvo negro a dar-me uma bicada no pescoço.
- pois, Puccini, foi… boleros…



No fundo da sala, a madame Butterfly dança um tango vestida de gueixa.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

a ilusão


de andar toda encantada com os aperitivos
quando sabe perfeitamente que o prato principal pode ser de vísceras cruas.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Indignações

Se o verniz das unhas lasca todos os dias da semana, por que raio é que as manicures fecham aos Domingos?

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Itinerâncias

Há o esforço inconsciente. Aquele de que não gostamos de falar. A recusa mental em decorar mais nomes do que os indispensáveis. O hábito de chamar porteiro ao porteiro e empregada à empregada. O acumular de contactos telefónicos destinados a tornar-se inúteis três estações depois. A preocupação de estabelecer rotinas de sobrevivência mas evitar os hábitos enraizados. Desenvolver relações que devem ser cordiais mas que não podem ser profundas.
Com o tempo deixamos de querer que nos contem as histórias deles. Não temos quiosques de eleição. Preferimos estações de serviço. Compramos a mesma marca de perfume para casas diferentes para que possamos fazer de conta que vivemos dentro da mesma. Não ouvimos o ranger da gaveta partida nem substituímos as lâmpadas que deixarão de ser um problema em breve.
Porque em breve haverá sempre outra casa dentro de outra cidade e outras mãos a cozinharem-nos os jantares e outras paisagens a condizer com o café da manhã.
E nesse jogo viciado pela nossa prévia certeza de efemeridade não são apenas as cidades que se tornam temporárias. É a nossa vida que é aprazada. Como uma caixa de ovos com data de validade carimbada. Com o lixo como destino.
Nós, os itinerantes, treinamos incansavelmente a adaptação mas só conseguimos aprender o desapego.


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Would you dance me?

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
(...)


Leonard Cohen


Perder-nos nos meandros das racionalizações e das relativizações de sentimentos, do be e do want to be, do be in love e do be in lust é um risco do qual ninguém está a salvo. Nem os auto-conscientes. Sobretudo, esses.
Na qualidade de freak control, obcecada com o sistema de detecção de falhas sistémicas, descobri-me uma técnica infalível que funciona como teste à profundidade da minha própria envolvência:
Dançar.
Por razões que presumivelmente estarão ligadas a uma inata dificuldade em deixar-me conduzir, só consigo dançar decentemente com um homem por quem esteja apaixonada.

Como é evidente, desde o momento dessa descoberta acidental, nunca mais corri o risco de dançar com ninguém.

a(m)paro

como se insufla infelicidade numa criança de onze anos? obriga-se a dita a ter aulas de educação visual nas quais faz-se tudo menos desenho livre. e dá-se-lhe um trabalho com caneta de aparo e tinta-da-china. em papel cavalinho.
a destreza que a criança não tem fica retratada nos borrões agravados pelas sofridas tentativas de os corrigir com a borracha azul cáustica. aquela de roda de metal no centro. que não apaga mas arranca camadas do papel. já há choro e ajuda ralada dos pais. que se confrontam com a sua inabilidade para o mecanismo - que possui a subtileza cruel de ter um parafuso rombão para regular a abertura da pena, supostamente transformando-o num instrumento de precisão. e a tinta-da-china, que a esta hora já será qualquer coisa como tinta-d’um-raio. ninguém que não o faça por pelo menos oito horas por dia é capaz de usar com desembaraço o aparo de lata sem sujar meio mundo.
o trabalho é avaliado. e conta para a nota.
a tinta é fraca e também o restante material. que nenhum pai de família em pleno juízo gasta mais que o mínimo em tais inutilidades académicas.
pois que se o filho “dá” para as belas-artes, aos onze anos já “deu” e desenha com qualquer coisa. como o meu avô Pimenta a quem ninguém chamava avô Pimenta mas que a mina avó tratava por Pimenta. para nós, era o Jota. o que espatifou com a ourivesaria por não ter nascido para o comércio e sim para o piano e para a pintura. que não deixaram seguir. que desenhava desde criança. a toda a hora. com qualquer coisa.
mandava-me desenhos feitos com canetas bic-laranja nas cores disponíveis: azul, verde, preto e vermelho. pássaros e outros animais, palhaços, bonecas. pássaros em maior quantidade. remetia-mos em envelopes “via aérea”, debruados de losangos nas cores alternadas azul e vermelha. de papel muito fininho. para a minha querida neta com um xi-coração do Jota. tive alguns a decorar-me o quarto. encaixilhados. muitas vezes acompanhavam encomendas. bonecas. de trajes das províncias. e eu que não sabia o que eram xi-corações, muito menos províncias... mas adorava a remessa de bonecas. pés colados em rodelas de pinho. e aí, um autocolante. “Beira Alta”. “Douro Litoral”. lugares que só existiam para as bonecas. redoma em plástico. a mais bonita era uma noiva de Viana e o seu vestido preto em veludo, carregada de filigranas de lata dourada. a única que tinha par era a varina. o garotinho vestia um par de calças em padrão xadrês e trazia gorro num tecido que picava muito.
lembro-me de que as bonecas sempre me pareceram muito agasalhadas.
eram péssimos brinquedos pois, como já disse, traziam os pés colados à patela de madeira. e as roupas não se conseguiam despir.
ficaram todas. visitei-as sempre.






terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Dos efeitos abrasivos do tempo sobre as superfícies metálicas dos cilícios

Ao telefone:

- podemos jantar hoje?
- não.
- por alguma razão?
- precisamente porque já há vários anos não sobra nenhuma.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Love is Evil

Saberão os três leitores deste blogue que Cuca vive em guerra contra o amor.
Coerentemente, não simpatiza com efemérides que dão pretextos às pessoas, até às civilizadas, para oferecer objectos em forma de coração.
Tinha decidido atribuir a este dia a importância que ele merece relegando-o a um desprezivo silêncio. Mas depois lembrei-me das sábias palavras do grande Slajov Zizek, cuja existência só recentemente descobri mas de quem já me tornei seguidora, e decidi partilhá-las na esperança de salvar uma alma.

...e o sol apareceu, de gigante ficou

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Não sei como dizer-te

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.



In Herberto Helder, Excerto do poema «Tríptico»
Poesia Toda
Lisboa, Assírio & Alvim, 1990

il gattopardo


dei-lhe o Sartre. simplesmente, dei-lhe. e todos os outros que ela pediu.
o medo de que ma descobrissem era tal que passei a assumir, em tudo, tudo diferente.

enquanto ela arranhava o soalho do corredor com os meus slingbacks cor de tabaco eu sofri de cãibras pelos quilómetros em que usei sabrinas de camurça. ela dançou os meus boleros. e eu comprei música que não consigo ouvir até ao fim. tudo fingido. para que não ma descobrissem. ela arranjou-se com a minha maquilhagem e eu deixei-a usar tudo: as sombras escuras e o rímel espesso de que gosto. enquanto isso eu explicava, de cara lavada, alergias a águas muito calcárias. de tudo se foi apossando. os vestidos. até certa roupa interior. o jeito de olhar e aquela forma particular de sorrir. e de chorar. ela foi ficando com tudo. as gargalhadas. eu não me importei pois que era tudo doado de vontade livre. para não saberem que éramos uma só. até ganhei peso. ao ritmo que ela emagreceu. éramos uma e continuamos a ser. e só ela sabe que assim é.

conseguiu lembrar-se


ela não é de contar contos.

tenho nas pernas aquele formigueiro do entorpecimento, não sei se de tanto andar se de tanto não andar. e se eu descobrisse que não ando há anos? era como se não fosse nada porque quanto a isso já nada podia fazer.
é como a rinite.

não sou capaz d’escrever e resvalo. que pena, eu bem gostava descrever qualquer coisa de digno. mas eu sou de surrealismos foleiros de bairro.

e depois vem o espelhinho, aquele que não tenho em casa. não tenho mas ele faz-se convidado. muito educado, toca à campainha. é aquela visita de Domingo à tarde que ninguém espera muito menos quer. que não se pode ignorar porque já viu luz nas janelas. que traz presentes e doces para o lanche. doces enjoativos. e uma compota feita por ele. puta que pariu para ele. instala-se e só vai embora depois de me nausear o bastante. ódio de lágrimas.

acho que vou antes aderir ao tumblr.

a verdade é que.
há noites em que ela nem tem noção. do medo.


sábado, 12 de fevereiro de 2011

Estado de espírito Liliputiana aterrorizada

A Caixa de Pandora


No recôndito fundo de uma cave interdita havia uma arca fechada. Poucas pessoas se lembravam da cave. Menos ainda conheciam a existência da arca. E já nenhum dos vivos poderia imaginar o seu conteúdo.
Mas o tempo corre em todo o lado e para todas as coisas. Até para as que são desconhecidas e estão fechadas dentro de arcas esquecidas nos recônditos fundos das caves interditas.
E há fenómenos físicos potenciados pelo tempo. E o conteúdo da arca desenvolveu-se no esquecimento. E tornou-se maior do que ela. E um dia a arca abriu-se no escuro. E dela se soltaram milhares de bolas de sabão que saíram pelas frestas da porta da cave e se espalharam pela casa.
E os donos da casa acordaram na estupefacção do insólito. Com bolas de sabão que lhes subiram pelos pés lhes roçaram os lábios e se alojaram nos cabelos.
E sem nenhuma vontade de destruir as bolas de sabão, deixaram-se submergir em maravilhosos pedaços circulares de arco-íris.
Até que, finalmente, o tempo deixou de correr.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Casas



Esta nunca foi a minha casa. Até hoje. O primeiro dia em que a senti vazia.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

The Road Not Taken

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim
Because it was grassy and wanted wear,
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I marked the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I,
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.


Robert Frost, The Road Not Taken

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

De como sonhar com duendes é mesmo prenúncio de loucura e não é bonito gozar com os dicionários de sonhos

Psicose - Transtorno mental maior de origem orgânica ou emocional na qual a capacidade para pensar, responder emocionalmente, recordar, comunicar, interpretar a realidade e comportar-se apropriadamente está suficientemente prejudicada, a ponto de interferir amplamente na capacidade para atender às demandas comuns da vida.
in
www.psiquiatriageral.com

A má notícia é que depois da manhã de hoje tornou-se indesmentível que apanhei esta doença num lado qualquer.

A boa notícia é a que, assegura a mesma fonte, há uma espécie, a psicose ciclóide, que dura apenas entre duas a quatro semanas.
Estive a fazer as contas e concluí que, na pior da melhor hipótese, está quase a passar.
Até lá, vou usufruir da imunidade concedida pelo meu estatuto de psicótica auto-diagnosticada .

domingo, 6 de fevereiro de 2011

In Thoughts of You

quadro de Jack Vettriano

Façam-me esse favor

Comprem a Ler.
Mesmo que não a leiam, façam-me o favor de a comprar.
Não tenho parte na distribuição dos lucros e nem sequer fomos linkadas pelo Mexia.
Sucede que, ultimamente, todas as coisas de que eu gosto começaram a desaparecer do mercado.
Tudo começou com umas certas águas francesas, depois foram os básicos da Burberry, a seguir foi o meu perfume que deixou de ser vendido em Portugal, seguiram-se umas bolachas que só se vendiam num supermercado, por fim foi o Eremita que decidiu acabar com o Ouriquense.
Convenci-me que há um vírus e temo que a próxima vítima seja a Ler.
Comprem-na. Evitem-me mais esse desgosto.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Mais uma manhã de sol na minha esplanada em frente ao mar


O sol pensa que é Maio. A melhor mesa da esplanada está livre. O empregado já conseguiu aprender que o café é com adoçante e os pastéis de nata são sem canela. A minha revista cheira a novo. Um telefonema liberta-me as horas seguintes. Nem sequer há gente a mais.
O mundo é um local perfeito até o silêncio da mesa do lado me começar a incomodar.
É então que reparo no casal pálido e olheirento, vestido como se fosse para a neve, com uma criança com o carapuço enfiado pela cabeça e a cabeça, por sua vez, enfiada debaixo da mesa, a jogar PSP. Nenhum dos três abriu a boca durante a primeira meia hora. Ela olha de frente para o mar e ele olha de lado para o mundo. Há doze anos atrás foram excelente matéria-prima para românticas fotografias de casamento em pose apaixonada e com o por-do-sol estrategicamente colocado entre lábios unidos por um beijo moderado mas sincero. Uma dessas fotografias deve estar emoldurada na mesinha de cabeceira do quarto deles. Provavelmente, ao lado de uma outra com o miúdo devidamente mascarado de baptizando deitado em cima da colcha de cetim, que ainda deve ser a mesma. De lá para cá o marido engordou dez quilos e a mulher entrou numa cruzada espiritual contra a maquilhagem e a depilação. Não se falam, não se olham, não se tocam. Tão pouco se vêem. Não estão distraídos com um jornal, separados por um pensamento, interrompidos por um telefonema. Nem sequer estão zangados um com o outro. Pura e simplesmente, não têm mais nada para se dizer. São manequins de uma loja, aprisionados numa montra, com o ar vazio e deprimido de um cachorro em exibição numa loja de animais.
São a personificação das minhas fobias, a génese das minhas exigências, a doença que eu rastreio. Apetece-me pegar nos três e deixá-los, assim, a serem eles próprios, no palco de um anfiteatro, enquanto encho a plateia com todos aqueles que me acusam de intransigência.
Meia hora depois, ele abre a boca para se queixar que tem frio. Ela acena a cabeça e confirma que sim, que está muito frio. O miúdo aquece-se com o homicídio de mais um extra-terrestre e se pensasse alguma coisa também pensaria que estava frio.
Um cão aproxima-se, fareja-os, e afasta-se a ganir.

Na literatura, assim como na vida

Na literatura, as personagens masculinas humanizam-se pela dúvida e as femininas pelo erro.
Tendo em conta que a humanização das personagens passa pela criação do anti-herói, constata-se que, de acordo com o estereotipo, apesar de os homens serem os que estão sempre seguros que têm razão, as mulheres são as que nunca falham.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A mãe de todas as guerras

As minhas desavenças com Eros, o caótico deus menor - no duplo sentido de idade e significância -, ultrapassaram o patamar da mera antipatia e profundo desprezo.
Já nem sequer se dá ao trabalho de se disfarçar em ambientes botticellianos, com fingidas faces rosadas e atrás das saias de Afrodite que, por sinal, não costumam chegar a ser pintadas.
Agora assume-se nesta pose bélica de perigoso terrorista disposto a assassinar-me à mais leve distracção.
O que existe entre mim e Eros já não é um conflito diplomático, uma insubordinação de arruaça ou uma sessão de ataques esporádicos com o propósito de mostrar quem é que manda.
É a guerra declarada. Não se resolve com clausuras, liras partidas ou vacinas feitas de doses imoderadas de boleros.
A minha vida está ameaçada e eu não descanso enquanto não exterminar esta criatura.
Estátua de Alfred Gilbert R. A., em Piccaddily Circus

Operação sorriso


Nos seis ou sete minutos que demoro a chegar ao meu local de trabalho só tenho tempo de ouvir duas músicas e eu ouço sempre Puccini, pela simples razão de que não posso começar um dia de trabalho sem ouvir Puccini.
Desde que fui dispensada do drama das filas de trânsito tornei-me numa rádio-excluída. Por isso, só agora soube que houve por aí uma grande e importantíssima operação em torno da qual se terão unido as rádios portuguesas e que, segundo consta, terá culminado num igualmente grande e suponho que importantíssimo momento, às 18h00.
Não vou comentar o desperdício de energia de tal união, o despropósito da iniciativa ou o ridículo de trocar sorrisos falsos com o condutor do lado. Para isso já temos os nossos funcionários, colegas de trabalho e os empregados dos restaurantes.

Aquilo que realmente impressiona é a constatação de que as pessoas, desde que devidamente confortadas pelo apoio psicológico do efeito manada, fazem tudo, mas tudo, aquilo que lhes mandem fazer. E isso, convenhamos, é coisa que, além de justificar muitas aparentemente injustificáveis barbáries, não deve dar nenhuma vontade de sorrir.

(Noutros dias de maiores cautelas, a tarde podia ter acabado francamente mal para um rapazinho que, percebo-o agora, entusiasmado pela iniciativa, já depois da hora e enquanto eu estacionava o carro, decidiu bater-me no vidro e aproximar-se para me oferecer um sorriso rasgado).

História de uma estória

Atribuí à minha limitada generosidade, já que sabia não se tratar de falta de tentativas, a responsabilidade pelo facto de nunca ter conseguido escrever uma estória para um destinatário concreto. Os meus contos, mesmo aqueles que foram escritos como se fossem dirigidos a alguém, foram criados na absoluta orfandade de interlocutor.
Houve uma dessas estórias que se decidiu vingar de mim e, agora, depois de escrita, numa espécie de twist em jeito de mundo ao contrário, encontrou o sentido que lhe neguei à nascença.
Percebi finalmente a natureza da minha incapacidade de escrever contos para pessoas concretas: a insuportável angústia de saber que a estória nunca conseguirá estar à altura do seu destinatário.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

descubra as diferenças*

obsessão
s. f.
1. Importunação perseverante.
2. Perseguição diabólica.
3. Ideia fixa.
4. Preocupação contínua.
Confrontar: obcecação.

paixão
s. f.
1. Impressão viva.
2. Perturbação ou movimento desordenado do ânimo.
3. Grande inclinação ou predilecção!predileção.
4. Afecto!Afeto violento, amor ardente.
5. O objecto!objeto desse amor.
6. Pena, cuidado, trabalho.
7. Grande desgosto, grande pesar.
8. Parcialidade.
9. Sofrimento ou martírio (falando-se de Cristo ou dos santos martirizados).
10. Parte do Evangelho que narra a Paixão de Cristo.
11. Filos. Impressão recebida de um agente.
12. Aveiro Cada uma das estacas em que se arma o botirão.


In Dicionário Primberam da Língua Portuguesa

* E depois descreva-mas.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

As vitórias que realmente me fascinam

36 anos depois de tudo, Cuca conseguiu descobrir que se puser o pão duro no micro-ondas ele fica novamente comestível.

A internacionalização do crime ao serviço da educação tuga

Os portugueses que andaram durante os vários anos do processo casa pia a tirar o seu cursinho de direito com especialização na vertente criminal têm agora, durante o processo Renato Seabra, a oportunidade de prosseguir os seus estudos através da frequência de um Master em direito da common law.
O nível de disparate dos docentes da telescola também entrou em condicente ascensão estratosférica.