segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

furtos literários


Damos festas, abandonamos as nossas famílias para vivermos sós no Canadá, batalhamos para escrever livros que não mudam o mundo apesar das nossas dádivas e dos nossos melhores esforços, das nossas absurdas esperanças. Vivemos as nossas vidas, fazemos seja o que for que fazemos e depois dormimos: é tão simples e tão normal como isso. Alguns atiram-se de janelas, ou afogam-se ou tomam comprimidos; um número maior morre por acidente, e a maioria, a imensa maioria é lentamente devorada por alguma doença ou, com muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas uma consolação: uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as expectativas, abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imaginámos, embora todos, excepto as crianças (e talvez até elas) saibamos que a estas horas se seguirão inevitavelmente outras, muito mais negras e mais difíceis. Mesmo assim, adoramos a cidade, a manhã, mesmo assim desejamos, acima de tudo, mais.
Só Deus sabe porque amamos tanto isso.
Michael Cunningham, in, As Horas, gradiva

Marionetas

Somos a excêntrica fantasia do outro que se desenvolve na imaginação de um lugar ocupado a espaços intermitentes.
Como não somos reais, não existimos e nem sequer pesamos, estamos libertos da obrigação de fazer sentido.
Somos marionetas dos nossos desejos, presos entre duas dimensões que se sustentam na intangibilidade.
Mas foi num calendário real e deste mundo que hoje contei os dias que me separam de ti.

domingo, 30 de janeiro de 2011

(...)

In parting.— Not how one soul comes close to another but how it moves away shows me their kinship and how much they belong together.


Friedrich Nietzsche

O equilibrismo aplicado às relações


O segredo do equilibrismo é a sincronia absoluta entre o espaço e o tempo. Um gesto fora do segundo certo pode precipitar uma queda no abismo. Nas cordas mais estreitas o acerto dos movimentos só se consegue obter através do esvaziamento cerebral. É preciso manter um balanço constante e contínuo em que o ritmo é ditado pelo posicionamento do corpo e a mente se demite de qualquer outra actividade que não seja a de fazer adaptar o espaço ao tempo.
É por isso que não se pode parar, observar o abismo debaixo dos pés, ou tecer concepções lógicas sobre a actividade que se está a desenvolver.
Medir os riscos, quando já se está em cima da corda, tem tanto de inútil como de perigoso.

Antony and The Jonhsons



I am a bird girl now
I've got my heart
Here in my hands now
I've been searching
For my wings some time
I'm gonna be born
Into soon the sky
'Cause I'm a bird girl
And the bird girls go to heaven
I'm a bird girl
And the bird girls can fly
Bird girls can fly

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Telefonemas do inferno

Havia um telefonema que eu não queria atender.
Atendi-o ontem.
Pela voz entusiasmada do homem dir-se-ia que eu tinha ganho uma casa num daqueles sorteios de enciclopédias que não estou certa que existam.
E mesmo não tendo havido sorteio algum, nem eu tendo comprado enciclopédias, o homem não deixou de me anunciar uma nova casa. Numa nova cidade. A muitos quilómetros de todos os meus lugares.
Será a minha 14.ª casa. E suspeito que jamais venha a ser um lugar meu.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Ascensões e quedas


Foi numa tarde de Agosto, em Veneza, que vivi o mais próximo daquilo que se costuma chamar uma experiência mística.
O santo padroeiro da trip foi Giovanni Antonio Fumiani.
Atrasada para um almoço tardio com uns amigos, acabei por me desorientar nas praças de Veneza e perdi-me. Se não se desse o caso de ter sido apanhada por uma súbita e improvável tempestade de verão, dificilmente teria entrado na igreja de St. Pantalon. Inexplicavelmente, não vem na maior parte dos guias turísticos e o aspecto exterior da igreja não é convidativo. Para mais, St. Pantalon é uma igreja com serviço religioso regular, menos frequentada por turistas do que por velhos paroquianos.
Quando entrei na igreja com o único objectivo de evitar que a chuva me estragasse a maquilhagem, aborrecida e atrasada, fui imediatamente esmagada por Fumiani. Tive uma ligeira sensação de desmaio, sentei-me no primeiro banco que vi e passei os quarenta minutos seguintes com os olhos fixos no tecto, num estado de semi-nirvana.
Fumiani pintou a subida das almas ao céu através do tecto da igreja. Mas pintou-as de uma forma tridimensional, com um movimento frenético e um ritmo tão intenso que, logo que se entra, é-se assolado pela visão de um corropio de almas em hora de ponta que escolheram o tecto de St. Pantalon para o momento da ascensão.
Sugestionado, o meu cérebro convenceu-se que também eu estava morta e desencadeou um processo pavloviano de libertação de qualquer coisa que temo que fosse a minha alma.
Foi a única vez que a senti.
Fumiani nasceu em 1645 em Veneza, andou por Bolonha, pintou algumas coisas de que nunca ninguém normal ouviu falar e depois voltou para Veneza onde passou vinte e quatro anos a pintar o tecto que quase me desalmou. A poucas pinceladas do final, diz-se, desequilibrou-se enquanto pintava, caiu do escadote e morreu. Está lá enterrado até hoje.
Quando a minha alma estava quase a ver-se livre de mim apareceu um padre antipático que correu comigo para fora da igreja e terminou abruptamente o processo de ascensão aos céus.
Só espero que, se tiver mesmo uma alma, coisa que ainda não decidi, a interrupção selvagem não lhe tenha provocado nenhum trauma que a aprisione para sempre neste mundo de gente doida. Ou que, tendo-se habituado ao melhor, insista em só ascender através do tecto de Fumiani.
Pelo sim, pelo não, recuso-me a morrer fora de Veneza.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Presidenciais


Disseram-me que ontem decorreram umas eleições para presidente da república. Ou isso. Não é totalmente inverosímil. Quando saí à rua para o meu passeio matinal de Domingo havia menos cães pela trela e mais gente vestida como se fosse à missa.
Expliquei logo que esse assunto não me interessa nada.
Descobri recentemente as vantagens de viver em negação e tenciono elevar o estado de graça ao nível da desorientação geográfica. Para todos os efeitos, eu vivo em Los Angeles, Malibu, em frente à praia onde atléticos adolescentes em rollerblades se cruzam com descapotáveis conduzidos por trintões com o nariz operado.
O meu presidente não pode ter vindo de Boliqueime. Nasceu em Honolulu e chama-se Barack Hussein Obama.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Excesso de bagagem

Se eu traçasse o mapa de todos os meus sítios e tu traçasses o mapa de todos os teus sítios e juntássemos os dois para, assim, obter um mapa mundi ocupado por forças alienígenas, ainda haveria uma Suíça onde nos pudéssemos exilar?
E se houvesse essa Suiça e se nos deixassem viver nela e se nos exilássemos um no outro, o que faríamos das histórias que não poderíamos levar connosco por pertencerem a outras pessoas?

O preço do amor

Estive uma boa parte do meu dia a ouvir os boleros que comprei ontem numa daquelas lojas francesas que também vendem televisões. Passar várias horas embrenhada na melancolia dos boleros é uma terapia preventiva anti-amor semelhante àquelas sessões de hipnose que fazem com que se enjoe o tabaco. Na luta contra Eros, a criança assassina, devemos rodearmo-nos de armas insólitas porque, como se sabe, igualmente insólitos são os seus mais temíveis ataques.
Além do mais, cinco euros parece-me um justo preço a pagar por todas as histórias de paixão profunda, traição, ciúme, amor, ódio e saudade que vêm lá dentro da caixa.
Dei por mim a pensar que o justo valor de mercado do amor, mesmo fora da caixa dos CDs, não será muito diferente.
Cinco euros. Nem mais um cêntimo.

sábado, 22 de janeiro de 2011

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

pressinto que estou a arranjar desculpas para fazer asneiras

Sou uma especialista em protecções. Estudei todas as formas possíveis de evitar o sofrimento, o desgosto e a decepção. Testei com êxito a maior parte delas. Desde a mais ligeira escoriação na pele à mais profunda devastação de alma, pouco haverá que não se consiga evitar com a adequada protecção.
Excepto, claro, o dano que resta pela perda da vida que as protecções nos impedem de viver.

domingo, 16 de janeiro de 2011

é preciso regressar a Paris


Viens, fais la fête
Viens dancer toujour
Célébrer l'amour

Séche tes larmes
Regarde autour de toi
Souris a n'importe quois

Il faut toucher les choses
Bois ton vin
Sens tes roses

Suis les mots, du poète
Prends la vie
Fais la fête

Viens, vis la valse
Vis l'éclat des jours
Viens chanter l'amour

Ouvre tes portes
Reçois la vie chez toi
Gonfle ton coeur de joie

Il faut toucher les choses
Bois ton vin
Sens tes roses

Suis les mots, du poète
Prends la vie
Fais la fête

sábado, 15 de janeiro de 2011

Rossiya Matushka

Depois de anos de sofrimento silencioso a tentar resolver os problemas das pessoas que se lamentam, tive uma epifania determinada por um raro momento de inteligência, durante a qual percebi que, com elevado grau de probabilidade estatística, se eu própria me passasse a lamentar também teria em meu redor silenciosos sofredores ocupados a tentar resolver os meus problemas.
Um segundo depois do meu momento Eureka comecei a queixar-me tanto quanto possível a todas as pessoas que encontro pela frente. E foi no decurso de uma dessas sessões de lamentação, e subsequente onda de solidariedade forçada que infalivelmente desencadeiam, que me revelaram a identidade de um russo capaz de pôr um fim aos meus mais recentes tormentos quotidianos.
Devo aqui admitir que comecei por oferecer alguma resistência à ideia de um soviético nunca visto, sozinho em casa comigo, dentro do meu quarto a arrancar-me os lençóis da cama e a mexer na minha roupa interior. E se acabei por me conformar com tal ideia, foi menos por intervenção da natureza excêntrica de que injustamente me acusam e mais por a urgência de resolver um problema prático não se compadecer com preconceitos de género e xenofobias diversas.
Esta manhã chegou o russo.
Pelas minhas fantasias domésticas já tinham passado mainatos africanos vestidos de branco, em estilo África Minha mas tamanho pigmeu, e asiáticos de quimono prateado num misto samurai e gueixa, também em versão anã. Como nunca tinha imaginado um russo a desempenhar estas funções, não tive tempo para lhe fantasiar nem uma altura nem um outfit. Não fiquei especialmente surpreendida quando o russo me apareceu em casa, grande e de fato-macaco caqui.
O russo começou por me grunhir um bom dia; vistoriar os produtos de limpeza e desdenhar do meu aspirador pouco bélico.
Meia hora depois, quando tive coragem para sair da casa de banho, encontrei os vidros desmontados, os móveis deslocados dos sítios, os livros no chão da sala e a minha roupa espalhada pela cama. À beira do colapso nervoso, mas incapaz de protestar com medo que o russo me assassinasse a tiro, optei por fugir de casa.
Seis horas e muita coragem mais tarde fui obrigada a regressar a casa. A máquina soviética de guerra tinha lavado vidros e paredes, exterminado o pó, desfeito a gordura do forno e assassinado o caos.
Fui dar com o russo a engomar uma camisa de seda com a mesma expressão de gelo e eficiência com que os soldados do exército montavam kalashnikovs.
Olhou para mim como se eu fosse uma mosca e não disse uma palavra.
Obviamente, contratei-o logo.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Grandes Filósofos


Now that I've met you, would you object to never seeing me again?
Claudia Wilson Gator, in Magnolia

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Nas antípodas de Salomé

Ofélia é uma fraquíssima personagem da literatura que Shakespeare só se terá dado ao incómodo de criar por, num erro de avaliação, ter considerado que Hamlet não teria suficiente dimensão trágica sem uma mulher morta a boiar num rio.
O fascínio por Ofélia é de tal forma incompreensível e injusto que me intriga verdadeiramente que uma criatura tão insípida tenha servido de inspiração a tantos pintores. Nalguns casos, como demonstra a imagem que ilustra o post, com indesmentível sucesso.
Ofélia era uma mulher insignificante e destituída de personalidade que passou a primeira parte da sua existência enquanto personagem a obedecer ao seu pai, a segunda parte a alimentar uma morna e despropositada paixoneta pelo enlouquecido Hamlet, depois lembrou-se de enlouquecer ela própria - temo que por mera solidariedade com Hamlet ou absoluta falta de originalidade - e por fim, lá se decidiu a suicidar.
Ofélia, que nem sequer chega a ser misteriosa nas suas metamorfoses, limita-se a ser patética.
E por mais beleza que possa existir num bucólico suicídio por afogamento, a verdade é que o suicídio se purifica nos seus fundamentos. Não se sabendo se Ofélia morre por ter sido rejeitada por Hamlet, se pelo desgosto da orfandade, se pelo simples facto de ter enlouquecido, ainda que morrendo na água, morre sem se limpar. Ofélia suicida-se com a mesma falta de intensidade de quem acidentalmente cai na sua própria cova antecipadamente aberta para receber o corpo.
Shakespeare retirou-lhe qualquer legitimidade na pretensão ao estatuto de mártir. E essa é a única e verdadeira tragédia de Ofélia. Foi traída pelo seu criador.
Vendo bem, dificilmente haverá tragédia maior do que essa.
P.s. A pintura - da qual o texto é mero pretexto - é a "Ofélia" de Jonh Everett Millais.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Private jokes for unknown people


Só compro viagens no tempo se o destino for o futuro

Eu não gosto de nostalgia de nenhuma espécie.
Em particular, incomoda-me aquela que se insinua pelas frestas das janelas fechadas quando reencontramos alguém que fez parte da nossa vida há muitos anos atrás. Acredito que o passado, uma vez consolidado nessa dimensão temporal, não deve fazer parte do futuro sob pena de nos transtornar o presente.
A minha ideia de um bom pesadelo é aquele filme do Nicolas Cage, que acho que se chama Family Man, em que um broker da Wall Street acorda no meio da vida que teria se tivesse ficado com a sua ex-namorada suburbana.
Coerentemente, também detesto descobrir peças de roupa esquecidas que um dia gostei de usar e que, por alguma razão, decidi deixar para trás.
Num caso e noutro, porque a vida não é assim tão diferente de um roupeiro, houve uma razão concreta para o abandono. A distância temporal pode ter um efeito atenuador sobre as motivações. Mas nós sabemos que elas existiram, embora possamos até não nos lembrar quais foram.
O borboto, a malha puxada, o tecido que pica, as cavas apertadas, aquela estranha prega assimétrica ou a eterna impossibilidade de combinação com o nosso estado espírito continuam lá. Só estão à espera da altura mais inoportuna possível para se revelarem. Com a agravante da redobrada sensação de desconsolo que acompanha o vício de se ter sempre razão.
Também não gosto de saldos. Mas isso já são indefensáveis manias de superioridade.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

furtos literários

Para acabar a parábola, porque tu tens o dom de me interromper e desviar os meus pensamentos, quero dizer que, de certo modo, também me encontro dividida entre três torturas íntimas, a principal das quais é a ambição, claro. Sei que nunca serei bióloga; a minha paixão pelos seres rastejantes é grande, mas não absoluta, consumidora. Sei que adorarei sempre orquídeas, cogumelos e violetas e que continuarás a ver-me sair sozinha, para vaguear sozinha pelos bosques e regressar sozinha com um liriozinho solitário; mas as flores, por muito irresistíveis que sejam, também terão de ser abandonadas, assim que tiver força suficiente para isso. Resta a grande ambição e o maior terror: o sonho das escaladas dramáticas mais azuis, mais remotas, mais difíceis…o pavor de acabar provavelmente como uma de um cento de solteironas, a ensinar estudantes de teatro, a saber que, como tu insistes, sinistro insist(id)or, não podemos casar e a ter sempre diante de mim o terrível exemplo da patética e corajosa Marina, de segunda categoria.

Vladimir Nabokov, In Ada ou Ardor, teorema