domingo, 31 de outubro de 2010
Uma canseira...

Foi ali em cima, no AdLib, que Cuca e Estrelita decidiram repor as energias, depois de um extenuante dia, passado entre a luta pela sobrevivência nas águas termais do jacuzzi do SPA e o espancamento, levado a cabo por duas massagistas. Daquelas que são tão verdadeiramente tailandesas que, espero eu, não percebem uma única palavra de português.
Entre o carpaccio e o duo de bacalhau, depois de ouvir a descrição das actividades da tarde, a mais velha das filhas de Estrelita, percebeu o espírito da coisa e comentou:
- A vida dos adultos é mesmo muito difícil! Vocês estão sempre tão ocupadas!!
Entre o carpaccio e o duo de bacalhau, depois de ouvir a descrição das actividades da tarde, a mais velha das filhas de Estrelita, percebeu o espírito da coisa e comentou:
- A vida dos adultos é mesmo muito difícil! Vocês estão sempre tão ocupadas!!
Khop kun ka, Estrelita.
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Cuca.,
Há vidas mais baratas mas não são tão boas
O homem insuportável
Com o limite da má educação já largamente ultrapassado, fui obrigada a atender-lhe o telefone e a penitenciar-me com um jantar que já se adivinhava de profundo sofrimento.Aproveitei o estado de espírito de voyeur de sinistrados de auto-estrada, para o deixar escolher o restaurante. Não fiquei surpreendida por ser a única cliente numa sala presunçoso-decadente que deve ter estado na moda há vinte anos atrás. Apelei à minha tolerância e fiz de conta que aquilo não era importante.
Logo que nos sentámos, a sádica gerente, talvez aborrecida por ter dois clientes, fez questão de lhe vir perguntar se foi ele quem telefonou às cinco da tarde a marcar uma mesa e informar-se sobre os detalhes da ementa. Recostei-me na cadeira para assistir a esse triste espectáculo que é um homem a tentar a todo o custo manter o disfarce cool, mesmo que, para tanto, tenha que se digladiar desajeitadamente com uma desconhecida que não se costuma enganar nestas coisas e não está suficientemente sensibilizada para admitir falsos equívocos. Apelei à minha tolerância e fiz de conta que aquilo não era ridículo.
A partir dali, foi mais ou menos como aquelas actuações dos rapazinhos dos Ídolos, quando se lhes rebenta a corda na guitarra.
Com a expressão de quem lê um manual de instruções numa língua desconhecida, resolveu fazer-me uma, não solicitada, síntese de um curriculum meticulosamente construído para culminar no retrato robot daquilo que se convenceu ser o meu homem de sonho.
E apesar da velocidade supersónica com que degluti o queijo e o presunto que me puseram na frente, ainda antes de ter terminado já estava informada de que o meu acompanhante tem qualidades tão relevantes como o facto de ser saudável e nunca ter tido uma doença nem sequer colesterol, não ter dívidas, ter uma casa já paga ao banco com um pequeno jardim que costuma regar nas tardes de Domingo, gostar muito de crianças e cães, ser primo e ou amigo de pelo menos trinta personalidades mediáticas, frequentar o ginásio três vezes por semana, ter dois mestrados em áreas que seria incapaz de reproduzir, ser a favor da divisão de tarefas domésticas entre os casais, ser contra essa coisa da homossexualidade e ser o tipo de homem que, além de acreditar em relações sexuais diárias, tem uma ex-mulher que acha que ele é bom na cama. E claro, sentir que a sua vida é óptima e gostar muito de si próprio.
Esta última parte, repetida três vezes, em estrutura de refrão.
O problema dos amigos dos amigos é que quando se comete a asneira de aceitar jantar com eles, perde-se a liberdade de, entre as entradas e o primeiro prato, beber o resto do vinho de um único trago, sair da mesa em absoluto silêncio, virar as costas e voltar para casa. Apelei à minha tolerância e fiz de conta que aquilo não era insuportável.
Esperei que ele se calasse, engoli o resto do presunto e olhei-o nos olhos com uma expressão roubada aos psiquiatras dos filmes americanos.
- Foi a tua mulher que te deixou, não foi? Trocou-te por outro?
Paguei a minha maldade com três agonizantes quartos de hora feitos de mesquinhos pormenores quotidianos da tragédia de uma separação, acompanhados por olhos vermelhos e voz genuinamente embargada.
Enquanto bebia sozinha a garrafa de vinho - além de ser manifesto que eu necessitava mais dela, também já se tinha percebido que ele gostava mesmo era de Sumol de ananás - tentei acabar com aquela miséria.
- Pois, pois, já percebi. É uma chatice! Nem vale a pena dizeres mais…
Ele desculpou-se, prometeu mudar de assunto e, para aligeirar a conversa, escolheu falar das doenças da mãe e de como o facto de ser filho único e ter que assistir a família o tem distraído do tal do desgosto do divórcio.
Apelei à minha tolerância, mas já não restava nenhuma.
E foi no momento da transição da rinite alérgica da senhora mãe dele para a descrição da operação às varizes que, finalmente, eu perdi o controlo.
Mandei-o calar com um gesto, levei as mãos à cabeça e dei por mim a murmurar para uma sala vazia:
- Tenho que sair já daqui! Não aguento mais isto!
Os meus amigos, amigos dele, concluíram que tenho uma extrema falta de tolerância.
(pintura de René Magritte)
Blue Train

E se, quando os minutos chegassem ao zero, a última hora fosse completamente apagada da existência? Toda a história de uma hora dissipada no vazio do tempo. E se os gestos, as palavras e as criações pudessem passar em voo picado na direcção do lixo cósmico?
Se toda essa hora se perdesse para sempre, deixando apenas o rasto de um espaço livre de consequências, tu poderias, finalmente, descansar a cabeça no presente e respirar o ar frio da verdade. O que lhe dirias? O que lhe dirias, nos teus sessenta minutos de liberdade?
Se toda essa hora se perdesse para sempre, deixando apenas o rasto de um espaço livre de consequências, tu poderias, finalmente, descansar a cabeça no presente e respirar o ar frio da verdade. O que lhe dirias? O que lhe dirias, nos teus sessenta minutos de liberdade?
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Cuca; instrospecções
sábado, 30 de outubro de 2010
Comédias negras
Nell: Nothing is funnier than unhappiness.
Nagg: Oh?
Nell: Yes, yes, it's the most comical thing in the world. And we laugh, we laugh, with a will, in the beginning. But it's always the same thing. Yes, it's like the funny story we have heard too often, we still find it funny, but we don't laugh any more.
Samuel Beckett, in Endgame
Nagg: Oh?
Nell: Yes, yes, it's the most comical thing in the world. And we laugh, we laugh, with a will, in the beginning. But it's always the same thing. Yes, it's like the funny story we have heard too often, we still find it funny, but we don't laugh any more.
Samuel Beckett, in Endgame
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Cuca
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Já não engano ninguém

Agarrei o meu sorriso complacente até à cãibra maxilar. Não me esqueci de pousar as mãos no colo, evocando uma plácida Mona Lisa. Mantive a voz pastosamente doce, num timbre próprio para adormecer carneiros. Turvei o olhar para lhe roubar firmeza, enfeitando-o com bondade telenovelística. Os passos foram suaves, entrecortados com uma ou outra nota de fingida indecisão. Os modos, de princesa russa que se alimenta a fabergés.
Encenei o choque perante os horrores da vida. O êxtase diante dos poucos finais felizes. A temperança conformada em presença da mediania.
Nos tempos mortos, espelhei a plácida felicidade dos patetas.
Fui perfeita na encarnação do meu papel. Mantive-o dia após dia. Fiz as vénias obrigatórias antes do cair do pano.
Ontem, o ingrato público cuspiu-me a crítica desenganada:
Pragmática.
(Esse terrível eufemismo para besta humana, com falta de sensibilidade e excesso de arrogância).
Encenei o choque perante os horrores da vida. O êxtase diante dos poucos finais felizes. A temperança conformada em presença da mediania.
Nos tempos mortos, espelhei a plácida felicidade dos patetas.
Fui perfeita na encarnação do meu papel. Mantive-o dia após dia. Fiz as vénias obrigatórias antes do cair do pano.
Ontem, o ingrato público cuspiu-me a crítica desenganada:
Pragmática.
(Esse terrível eufemismo para besta humana, com falta de sensibilidade e excesso de arrogância).
Depois de uma semana com o super mega bólide no mecânico...

... pagava para não saber o que é uma cambota, ignorar o que é uma polí, não ter noção do perigo de uma correia de distribuição em mau estado, desconhecer em absoluto o que significa ter os pistons desregulados e não conseguir detectar a má afinação das válvulas, e continuar furiosa e alegremente a manter as rotações acima das 3000!
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Tecidos orgânicos

Quando te deitas sobre o teu lado esquerdo, nesse espaço que se forma entre o pescoço e a clavícula, guardas aquilo que, durante quase um terço da minha vida, foi a almofada em que dormi.
As almofadas são o talismã dos insones.
E, hoje, eu tenho uma desesperada necessidade de dormir.
E, hoje, eu tenho uma desesperada necessidade de dormir.
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camas desfeitas,
Cuca.
hoje pinto as unhas de lilás
o esquadrão de mulherzinhas-cada-vez-mais-cabide.
de escuro. preto. cinza. marinho. algum verde, desde que lembre coisas sem vida.
no vestir, a idade das suas mães. um desperdício do tempo que não passou ainda.
couraçadas, armaduradas.
baratas de casca rija e riso amarelo, de olheiras cavadas a horas roubadas.
divertem-se a pintar-lhes “um telão sombrio e acabrunhante, a ondear entre o esconjuro espingardeado de demonizações avulsas e a promessa catastrofal do fogo dos infernos.”
todas as manhãs, antes de sair de casa, engolem um garfo de sobremesa.
de escuro. preto. cinza. marinho. algum verde, desde que lembre coisas sem vida.
no vestir, a idade das suas mães. um desperdício do tempo que não passou ainda.
couraçadas, armaduradas.
baratas de casca rija e riso amarelo, de olheiras cavadas a horas roubadas.
divertem-se a pintar-lhes “um telão sombrio e acabrunhante, a ondear entre o esconjuro espingardeado de demonizações avulsas e a promessa catastrofal do fogo dos infernos.”
todas as manhãs, antes de sair de casa, engolem um garfo de sobremesa.
Razões para amar uma Cidade

Aeroporto de Gatwick.
Cuca ligeiramente atrasada para o boarding. Confusão de casacos, colares, anéis e outras coisas apitáveis. O conteúdo integral de uma bolsa, acidentalmente aberta, espalhado num tabuleiro. O detector de metais aos gritos. O polícia olha desconfiadamente para as botas de Cuca e decide que, my dear, vai ter que as descalçar.
Cuca ligeiramente atrasada para o boarding. Confusão de casacos, colares, anéis e outras coisas apitáveis. O conteúdo integral de uma bolsa, acidentalmente aberta, espalhado num tabuleiro. O detector de metais aos gritos. O polícia olha desconfiadamente para as botas de Cuca e decide que, my dear, vai ter que as descalçar.
Cuca é o rosto da infelicidade enquanto explica ao senhor que, no way, it´s not possible, porque demorou meia hora a enfiar as calças lá dentro, antes de sair do hotel.
Cuca levanta a perna para demonstrar ao senhor polícia, Sir, a dimensão do problema.
O polícia pergunta a Cuca se não é possível descalçar as botas e depois deixar as calças por cima das botas. Cuca levanta a outra perna para explicar que não, que são demasiado apertadas para ficarem por cima das botas e que, ainda por cima, well, não ficaria bem.
O senhor coça a cabeça enquanto pensa numa solução.
Não lhe ocorre nenhuma.
Ok my dear, have a nice flight.
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Cuquisses
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Um Gelado No Inverno
Um gelado no inverno
Querida compreende a minha ilusão
e pensa que sou um gelado no inverno
que doce cabeça vazia a alimentar
salas de espera com conversas
sentadas no disparate imobiliário
e tu vens lamber o meu juízo em ruínas
na margem onde se instala o lobo à espera de comer
uma das tuas bonecas de trapinhos sentimentais
oh que solidão formidável quando o quarto está cheio
e a cama composta de teias de aranha
porque o amor é uma lição que não se aprende
quando o coração é um balde de despejo inútil
e tu perdes a vida em troco da frontalidade
e a minha escrita vive destas mortes
vestidas para viver na ilusão
eu sei eu sei tu és a prendinha da consciência
para meninos de gostos integrais
e depois tanto barulho tanto barulho meu deus
deves estar louca ou apaixonada
pelas moscas que cantam no silêncio.
Poemas, Fernando Esteves Pinto
Querida compreende a minha ilusão
e pensa que sou um gelado no inverno
que doce cabeça vazia a alimentar
salas de espera com conversas
sentadas no disparate imobiliário
e tu vens lamber o meu juízo em ruínas
na margem onde se instala o lobo à espera de comer
uma das tuas bonecas de trapinhos sentimentais
oh que solidão formidável quando o quarto está cheio
e a cama composta de teias de aranha
porque o amor é uma lição que não se aprende
quando o coração é um balde de despejo inútil
e tu perdes a vida em troco da frontalidade
e a minha escrita vive destas mortes
vestidas para viver na ilusão
eu sei eu sei tu és a prendinha da consciência
para meninos de gostos integrais
e depois tanto barulho tanto barulho meu deus
deves estar louca ou apaixonada
pelas moscas que cantam no silêncio.
Poemas, Fernando Esteves Pinto
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Frio
A cura clínica é o estado que se atinge, não apenas quando as lesões desaparecem, mas também quando se tornam insusceptíveis de melhoras, ainda que com terapêutica adequada.
Este Outono parece-me mais quente que o Outono passado. E incomparavelmente menos gélido que o do ano anterior.
E embora não falte quem garanta que isso se deve a uma ligeiríssima alteração climática, eu decidi que é um sintoma do aumento da minha capacidade de retenção do calor.
Este Outono parece-me mais quente que o Outono passado. E incomparavelmente menos gélido que o do ano anterior.
E embora não falte quem garanta que isso se deve a uma ligeiríssima alteração climática, eu decidi que é um sintoma do aumento da minha capacidade de retenção do calor.
domingo, 24 de outubro de 2010
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Protecção solar
Ele: No fundo é como se te escondesses atrás de uma personagem…Ela: É. É capaz de ser parecido.
Ele: Mas qual é o interesse de viver assim?
Ela: Viver uma vida bonitinha, obviamente
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Obviamente. Cuca.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
sábado, 16 de outubro de 2010
Um homem com esperança
Em meados de Março, quando tudo aquilo se tornou maior do que ele, inventou um pretexto socialmente aceitável e dispôs-se a fazer quinhentos quilómetros, apenas para a ver.
Na entrada do centro comercial deteve-se por uns minutos, incrédulo com o facto de ela não ter tido a ânsia, deferência ou, pelo menos, gentileza, de o esperar à porta.
Na verdade, não era nada que não estivesse em total coerência com a gélida conversa telefónica que antecedeu aquele encontro. Ele precisou de vinte minutos e toda a sua capacidade persuasiva para a convencer a emprestar-lhe a sua boa vontade na concretização do propósito da viagem.
Ao telefone, ela mostrou-se tão ausente e desconcertante como era habitual, adiantando como justificação para a impossibilidade de tomar um café com ele o simples facto de não lhe dar muito jeito e não ter sido antecipadamente avisada daquela viagem. Ele esforçou-se por esconder o desapontamento e a humilhação que se seguiram, quando, finalmente, num discurso em que a palavra hipoteticamente foi utilizada cinco vezes, ela o informou que o acontecimento “vê-la” vinha associado a uma interminável lista de condições que teriam que ser expressamente aceites.
Foi assim que deu por si a jurar solenemente que não lhe dirigiria uma palavra sobre os seus sentimentos, que não a tentaria beijar, que nem sequer lhe tocaria e que o único tema sobre o qual falariam seria literatura.
Como se não fosse suficientemente humilhante, para um homem com mais de quarenta anos e com uma mulher e um filho em casa, sujeitar-se a estas cláusulas contratuais, ela fez questão de lhe mostrar que o considerava um louco perigoso, exigindo-lhe que o encontro se desse num local tão público como um restaurante de um centro comercial, num sábado à tarde.
Num optimismo infantil, que ela qualificou como despropositado, ainda lhe pediu que o fosse buscar a um famoso café na baixa de Lisboa. A resposta que o atingiu foi um seco “Lamento, mas não sou o tipo de mulher que vá buscar homens a cafés. Terás de vir de táxi, apanhar o metro ou fazer os três quilómetros a pé.”
Depois de uns minutos de espera, já à porta do centro comercial, foi obrigado a desfazer-se da imagem mental que o aqueceu durante o último mês, e que envolvia uma corrida para um abraço apaixonado, num reencontro íntimo e inesquecível, preferencialmente debaixo de chuva, em plena rua de Lisboa.
Abanou a cabeça e entrou no centro comercial à procura dela.
Quando a viu ao longe, sentada em frente a uma chávena vazia e a brincar com o telemóvel, apesar de o coração ter disparado ao nível da taquicardia, sentiu um misto de alívio por, sem o vestido institucional que tanto o intimidou, ela ter o confortável aspecto de uma qualquer outra mulher. No seu contexto, uma mulher tangível.
Ela só desviou os olhos do telemóvel quando o sentiu a vinte centímetros de distância, a respirar-lhe no pescoço. Sem se dar ao trabalho de se levantar, estendeu-lhe o lado esquerdo do rosto, usou a mão direita para estabelecer, instintivamente, um espaço de segurança física entre ambos, e apontou-lhe a cadeira vazia na sua frente.
Aquela confortável imagem de normalidade que o encheu de esperança e auto-confiança, foi como uma miragem que se desfez com a proximidade. Com o vestido sofisticado ou de camisa branca e jeans, ela continuava a intimidá-lo. A perturbadora intangibilidade não estava na qualidade da seda do vestido. Vinha de dentro.
Tentou fazer uma graça com o facto de estar a tremer como um miúdo de dez anos, mas ela olhou-o fixamente sem se rir. A primeira frase que lhe dirigiu foi uma ameaçadora síntese das condições contratuais da sua presença.
Meia hora depois, a necessidade de lhe despejar os seus sentimentos impôs-se à vontade de evitar que ela se levantasse e fosse embora.
Enquanto ela lhe falava de literatura em tom de crítico de jornal, ele pediu-a em casamento.
Sem se dar ao trabalho de o lembrar que ele já era casado, ela continuou a falar-lhe de literatura, fazendo, em presença, aquilo que nos últimos meses se tinha especializado a fazer por correspondência, ou seja, exibindo uma profunda indiferença e surdez diante da exteriorização dos sentimentos dele.
O encontro durou pouco mais de uma hora. Quando ele insistiu em segurar-lhe as mãos de encontro ao tampo da mesa, olhando-a nos olhos enquanto repetia uma lenga-lenga de clichés românticos, percebeu que aquilo que o olhar dela lhe devolvia era muito mais do que impaciência e frieza. Estava verdadeiramente zangada. Daquela forma horrível que só conseguem as mulheres a quem o amor dos outros as ofende.
Ela recuperou as mãos num gesto violento e colocou-se imediatamente de pé.
- Não sou uma personagem dos teus livros.
Sozinho, com o vazio do espaço dela como cenário, ele encontrou naquela frase a esperança que nos últimos seis meses lhe foi negada.
Desde que se seja absurdamente insistente, há mais do que uma maneira de se ter os direitos de autor sobre a vida de quem se ama.
O encontro durou pouco mais de uma hora. Quando ele insistiu em segurar-lhe as mãos de encontro ao tampo da mesa, olhando-a nos olhos enquanto repetia uma lenga-lenga de clichés românticos, percebeu que aquilo que o olhar dela lhe devolvia era muito mais do que impaciência e frieza. Estava verdadeiramente zangada. Daquela forma horrível que só conseguem as mulheres a quem o amor dos outros as ofende.
Ela recuperou as mãos num gesto violento e colocou-se imediatamente de pé.
- Não sou uma personagem dos teus livros.
Sozinho, com o vazio do espaço dela como cenário, ele encontrou naquela frase a esperança que nos últimos seis meses lhe foi negada.
Desde que se seja absurdamente insistente, há mais do que uma maneira de se ter os direitos de autor sobre a vida de quem se ama.
Voltou para casa e transformou-a na personagem de um dos seus livros.
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Cuca; teimosias; os malefícios do amor
For Estrelita, with love

Querida amiga,
Se olhares para o canto superior direito deste blogue (mais acima… sobe o cursor!) encontrarás uma lista sob a epígrafe “contribuidores”.
Nessa lista está escrito “Estrelita”. Tu, querida amiga, não te lembras, mas és a Estrelita. O que faz de ti contribuidora deste blogue.
Por definição, um contribuidor é aquele que contribui.
Sei que gostas deste estatuto free-lancer que te permite resumir as tuas aparições a desempates de radicalismos entre mim e a Medusa e a exibições públicas de despudorada paixão doméstica (não confundir com domesticada).
Sucede que eu me apercebi que a tua infame preguiça anda a ser confundida com “recato”, elevando-te ao estatuto de a criatura mais mítica.
Desculpar-me-ás, mas tu, melhor do que ninguém, sabes que sofro de súbitos ataques febris quando sou ignorada e que reajo pessimamente ao facto de alguém ser “a mais” – nem que seja a mais lunática – numa lista na qual eu voluntariamente me incluí.
E são estes os fundamentos da decisão – repara na estrutura do post: relatório, fundamentação, dispositivo – nos termos da qual tu passarás a contribuir.
Isto dos blogues é exactamente como os impostos. Ou seja, como todas as três sabemos que te ensinaram nas aulas de finanças públicas (o professor era aquele que punha a língua de fora, era! O teorema de cujo nome não te lembras é Havelmo, é!), há os contribuintes directos e os contribuintes indirectos.
Todos aqui estamos conscientes, porque eu passo a vida a apregoá-lo, que a liberdade de escolha é a minha máxima individual. Como tal, ofereço-te gentilmente a liberdade de escolher entre o estatuto de contribuinte directa ou indirecta.
No entanto, é meu dever informar-te que, na qualidade de contribuinte indirecta, inspirarás longos e inesquecíveis posts nos quais serão mencionados os seguintes países: Itália; Luxemburgo; Tailândia (sim, sim, leste bem, estou a ameaçar-te com a Tailândia). E isto, apenas na primeira fase, dedicada à história mundial. Seguir-se-á um outro módulo, dedicado à história nacional.
Certa (oh, certíssima!) das tuas breves notícias, despeço-me com elevada estima e consideração (Tailândia, Tailândia, Tailândia).
Tua
Cuca
Se olhares para o canto superior direito deste blogue (mais acima… sobe o cursor!) encontrarás uma lista sob a epígrafe “contribuidores”.
Nessa lista está escrito “Estrelita”. Tu, querida amiga, não te lembras, mas és a Estrelita. O que faz de ti contribuidora deste blogue.
Por definição, um contribuidor é aquele que contribui.
Sei que gostas deste estatuto free-lancer que te permite resumir as tuas aparições a desempates de radicalismos entre mim e a Medusa e a exibições públicas de despudorada paixão doméstica (não confundir com domesticada).
Sucede que eu me apercebi que a tua infame preguiça anda a ser confundida com “recato”, elevando-te ao estatuto de a criatura mais mítica.
Desculpar-me-ás, mas tu, melhor do que ninguém, sabes que sofro de súbitos ataques febris quando sou ignorada e que reajo pessimamente ao facto de alguém ser “a mais” – nem que seja a mais lunática – numa lista na qual eu voluntariamente me incluí.
E são estes os fundamentos da decisão – repara na estrutura do post: relatório, fundamentação, dispositivo – nos termos da qual tu passarás a contribuir.
Isto dos blogues é exactamente como os impostos. Ou seja, como todas as três sabemos que te ensinaram nas aulas de finanças públicas (o professor era aquele que punha a língua de fora, era! O teorema de cujo nome não te lembras é Havelmo, é!), há os contribuintes directos e os contribuintes indirectos.
Todos aqui estamos conscientes, porque eu passo a vida a apregoá-lo, que a liberdade de escolha é a minha máxima individual. Como tal, ofereço-te gentilmente a liberdade de escolher entre o estatuto de contribuinte directa ou indirecta.
No entanto, é meu dever informar-te que, na qualidade de contribuinte indirecta, inspirarás longos e inesquecíveis posts nos quais serão mencionados os seguintes países: Itália; Luxemburgo; Tailândia (sim, sim, leste bem, estou a ameaçar-te com a Tailândia). E isto, apenas na primeira fase, dedicada à história mundial. Seguir-se-á um outro módulo, dedicado à história nacional.
Certa (oh, certíssima!) das tuas breves notícias, despeço-me com elevada estima e consideração (Tailândia, Tailândia, Tailândia).
Tua
Cuca
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
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