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domingo, 14 de novembro de 2010

Explica-me, enquanto trocas de camisa


Explica-me
Se foi por mera conveniência semântica que chamámos amor à guerra…
Se jamais qualquer um dos dois se contentaria com menos do que a total anexação do outro…
Se o instinto genocida sobreviveu ao armistício posterior à divisão de territórios…
Explica-me
A expressão de mártir apátrida, a dor vazia nos olhos, o torcer das mãos de gigante,
Só porque regurgitei o teu coração e to servi, assim, mastigado
Numa bandeja de prata,
Design Versace.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Pesadelo de uma noite de verão


Logo que me aproximo da varanda do restaurante vejo-o lá em baixo, no bar. A dançar no meio de centenas de pessoas. Acho que ainda tenho os olhos treinados para o encontrar nas festas. Tem vestida uma camisa preta de linho que custou quase um salário mínimo e só pode ser lavada à mão. Sei estas coisas sobre ele. Com a mesma naturalidade com que sei os nove sítios do corpo onde tem cicatrizes. Ou o número dos casacos que usa. Ou o número das camisas. Ou que os ténis Nike são dois números acima do número dos sapatos. Um manancial de informação que não me serve para nada. Sei, pela maneira como distraidamente toca no cotovelo, que irá chover amanhã. Sei, porque estava lá quando ele fez aquela lesão que piora com a humidade. Acho que se pensar um pouco ainda sei de cor o número do passaporte dele. Claro que sei. É o número a seguir ao meu.
Da mesma varanda vejo-te a ti, ao lado dele. Tens um vestido de seda que foste comprar à pressa para a noite de hoje. É demasiado parecido com os meus para teres sido tu a escolhê-lo. Calças uns sapatos impossíveis que ele te comprou. Levou-te à loja, pediu o teu número à empregada, como se nem sequer lá estivesses. Experimentou-tos sem olhar para ti e deu-te o saco depois de saírem da loja. Também sei muitas outras coisas sobre ti. Sei, por exemplo, em que cabeleireiro te estragaram o teu tom de mel natural, com essas madeixas louras que te fazem parecer mais velha. Sei que preferias usar uns ténis. Ter ficado em casa a beber cerveja com as tuas amigas. Aquelas duas que ainda te restam. Agora que a prioridade da tua vida é viver a vida dele. Sei em que carro chegaram. E que ele parou à porta e entregou-o para que alguém o arrumasse. Sei quanto deu de gorjeta. Sei de que piadas não te riste no chatíssimo jantar de dez pessoas que antecedeu a decisão de vir dançar para este sítio. Decisão que, obviamente, não passou por ti.
Sei porque tens uma sombra sobre o teu rosto perfeito. Sei que sabes que foste enganada por ele na noite de ontem. E sabes que serás enganada por ele na próxima semana. Que já lhe procuraste os registos do telemóvel. Que já ligaste para números suspeitos. Que te atendeu uma voz ensonada de mulher. Sei a que te souberam as lágrimas que choraste na cama. A cama escolhida por mim. Num quarto azul. Um azul celeste que demorou três dias e dois pintores a conseguir. Não sei o teu número de passaporte. Nem sequer sei o teu apelido. Mas basta-me ver o movimento ansioso do teu corpo de modelo, ao lado dele, para perceber que já te explicaram que se não estás bem deves mudar-te. Que já te estenderam uma lista de prioridades da qual não fazes parte. Que já percebeste que, logo que a tua beleza foi banalizada, passaste a valer menos que a estátua da entrada da sala. Que também foi escolhida por mim.
Se só o querias a ele, nunca deverias ter aceitado a minha vida.
Estou pendurada na varanda do restaurante e tenho atrás de mim o meu futuro. E à minha frente o meu passado. E é estranho olhar para ti, ainda tão nova e já tão triste, saber estas coisas todas, e não perceber exactamente de quem é que tenho pena.

domingo, 4 de julho de 2010

Semelhança

fotografia DDiarte


semelhança
s. f.
1. Parecença.
2. Conformidade; analogia.
3. Imitação; confronto.

In
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Às vezes adormeço ao lado de um homem parecido contigo.
Despe umas roupas idênticas às tuas que dobra da mesma meticulosa forma. Usa umas mãos que são a perfeita réplica daquelas que te conheci. Copiou-te a voz, os tiques, o riso. Cultivou a essência do teu cheiro e coloca-a, apenas para me enganar.
Quase que és tu. Se não se observar muito de perto. Se não se espreitar para dentro do olhar. Se não se esbarrar na expressão vazia que devolve.
E nos últimos segundos antes de adormecer, com um falso braço caído sobre um colo verdadeiro, lembro-me que
Se conseguisse amar um holograma. ..
Se gostasse de candonga…
Se não tivesse assassinado o verdadeiro…
…Podia acordar feliz, ao lado da tua imitação.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Memória


memória (me-mó-ria)
s. f.
Faculdade de reter idéias, sensações, impressões, adquiridas anteriormente.
Efeito da faculdade de lembrar; a própria lembrança.
Recordação que a posteridade guarda.
Dissertação sobre assunto científico, artístico, literário, destinada a ser apresentada ao governo, a uma instituição cultural etc.
Dispositivo dos calculadores eletrônicos, que registra sinais, resultados parciais etc., que são consignados no momento oportuno para fazê-lo intervir no seguimento das operações: discos de memória.
Informática Unidade funcional que pode receber, conservar e restituir dados.
Informática Memória convencional, a que é armazenada segundo os padrões de um programa altamente abrangente.
De memória, sem a ajuda de notas ou livros, só pela lembrança.
Em memória de, em homenagem a alguém que já morreu.
S.f.pl. Obra literária escrita por quem presenciou os acontecimentos que narra, ou neles tomou parte.
Memória principal ou memória RAM, v. RAM.
Memória secundária, meio de armazenamento de dados e instruções não volátil (p. ex., disquetes), usado para que estes se preservem (p. ex., quando o computador é desligado).

In
Dicionário web

Nessa grande, longa, imensa noite escura que fizeste abater sobre nós, há um luar que insiste em banhar-me todas as noites na minha cama:

A memória da tua expressão de Fabergè, enquanto me pintas de vermelho escuro as unhas dos pés.
A noite em que dançaste comigo no salão vazio de um navio ao largo de Istambul.
Uma entremeada cuspida na feira popular de Lisboa.
Dois corpos febris e verdes numa cama de rede de uma varanda de hotel noutro continente.
Os vários retratos que me pintaste.
A tua mão sobre a minha a ensinar-me o traço perfeito de uma saia de bailarina em aguarela.
A madrugada em que corrigiste a minha bailarina para me tentar convencer que tinha sido eu a criá-la.
O final de tarde em que a pressa de me abraçar quase te deixou morrer debaixo de um autocarro.
A tua permanente capacidade de te surpreenderes com cada um dos meus mais pequenos fracassos.
(...)

sexta-feira, 30 de abril de 2010


Aniversário (a-ni-ver-sá-rio)
adj.
Diz-se da ocasião em que se completa um ou mais anos de um acontecimento: data aniversária.
S.m. O dia que, anualmente, corresponde ao de um acontecimento: o aniversário de uma vitória, de um nascimento.
Aniversário natalício, dia em que se completa mais um ano de vida.
(in Dicionário Web)


E assim, sem mais nem menos, acabo de concluir que este fim-de-semana estou de parabéns.

Só ainda não percebi é se neste tipo de aniversários especiais também devemos fazer uma festa e convidar os amigos.