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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Admito

Talvez devesse ter batido à porta em vez de a tentar arrombar.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Razões para amar uma Cidade



Aeroporto de Gatwick.

Cuca ligeiramente atrasada para o boarding. Confusão de casacos, colares, anéis e outras coisas apitáveis. O conteúdo integral de uma bolsa, acidentalmente aberta, espalhado num tabuleiro. O detector de metais aos gritos. O polícia olha desconfiadamente para as botas de Cuca e decide que, my dear, vai ter que as descalçar.

Cuca é o rosto da infelicidade enquanto explica ao senhor que, no way, it´s not possible, porque demorou meia hora a enfiar as calças lá dentro, antes de sair do hotel.
Cuca levanta a perna para demonstrar ao senhor polícia, Sir, a dimensão do problema.
O polícia pergunta a Cuca se não é possível descalçar as botas e depois deixar as calças por cima das botas. Cuca levanta a outra perna para explicar que não, que são demasiado apertadas para ficarem por cima das botas e que, ainda por cima, well, não ficaria bem.
O senhor coça a cabeça enquanto pensa numa solução.
Não lhe ocorre nenhuma.

Ok my dear, have a nice flight.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Problema matemático



O amor das pessoas estúpidas vale o mesmo que o amor das pessoas inteligentes?
Quanto vale o amor de um estúpido?

sábado, 26 de junho de 2010

O rapaz do surf


Fez uma reentrada estrondosa na minha vida em finais de 1998. E, confirmando uma tendência do destino que ainda se mantém actual, como todas as outras bizarrias que me acontecem, tal aparição teve qualquer coisa a ver com a dona doutora Estrelita.
A última vez que o tinha visto, ele era um desses bad boys que passavam o verão na praia da minha adolescência e eu uma pré-adolescente com precoces tiques nerd. O que vale por dizer que ele nunca antes tinha dado pela minha existência.
Em 1998, o destino devolveu-mo numa noite da Kapital, para um relacionamento mais instantâneo que as sopas knorr.
A explicação é simples: o rapaz parecia-me miseravelmente giro, cheirava e sabia a mar e, apesar de já ser Outubro, eu estava em estado de negação perante o fim dos dias de verão.
Tivemos uma relação de sucesso durante três meses exactos, com a inestimável vantagem, relativamente a todos os que o antecederam e que o precederam, de nunca me ter chateado. Admito como possível que o facto de ter consciência que estava apenas a prolongar as férias tenha feito parte da receita do sucesso.
Não me lembro do que fazíamos quando não estávamos dentro de casa. E também não consigo imaginar uma única conversa possível entre mim e o meu namorado surfista que, nas horas vagas, dava aulas de natação aos filhos dos ricos. Tendo em conta que a amnésia não é uma característica normal em mim, desconfio que passámos três meses dentro de portas e que nunca trocámos mais de quatro palavras seguidas. Sei que rapidamente desisti de lhe contar anedotas, porque me afligia ter que lhe explicar a graça, esperar três minutos e finalmente sacar-lhe uma gargalhada genuína.
Dele, conservo a memória de dois episódios distintos, um no início e o outro no fim da relação.
O primeiro, foi num dia em que, depois da quinta imperial, esqueci-me das limitações metafísicas do meu surfista e decidi perguntar-lhe porque raio achava ele que estava apaixonado por mim.
Depois de muito pensar, coçando os lindos caracóis louros, adiantou-me três profundas razões:
- Tens uma boca lindíssima, ris-te muito e estás sempre bem-disposta.
Naquela altura, eu ainda me levava demasiado a sério para não ficar desconcertada com uma resposta que envolvendo o tema “EU”, não contivesse alusões a uma única das minhas incontáveis características profundas.
Pelo sim, pelo não, decidi imediatamente que jamais voltaria a repetir a pergunta a um homem e jamais me submeteria a idêntico escrutínio.

Demorei muitos anos a perceber que, em matéria de razões para amar, aquela foi a resposta mais sincera e genial que ouvi em toda a minha vida.
O segundo episódio que retive na memória coincidiu com o último.
Na passagem do ano, fui atrás dele para o Algarve representar o meu papel de namorada do surfista. O cenário condicente era uma casa manhosa e uns amigos de tal forma indescritíveis que, na tarde em que desisti de os demover do projecto “passeio na marina de Vilamoura”, fui obrigada a seguir uns metros à frente, para fazer de conta que não os conhecia no caso de encontrar alguém das minhas relações.
Nesse final de ano, naquela casa manhosa, nem sequer faltava um cão. Era um pastor alemão preto, com quem desenvolvi uma empática relação de solidariedade, já que, por sermos os únicos dois seres vivos que se recusavam a fumar ganzas, passámos uma boa parte das noites com as respectivas cabeça e língua de fora da varanda.
Quando, no primeiro dia do ano, saí da cama e entrei na sala caótica, constatei que o cão, invejoso da atenção que eu dispensava à literatura, tinha comido metade do meu livro preferido do Raymond Carver.
Até hoje, não sei que raio de dique se partiu dentro de mim diante da imagem do meu livro meio comido, abandonado numa sala cheia de surfistas com falta de banho, léxico e treino mental.
Sei que me rendi ao que terá sido, muito provavelmente, o maior pranto público da minha vida. Foram dez minutos de lágrimas, choro dobrado, guinchos histéricos e muito ranho espalhado por todo o lado.
O cão foi chamar o meu surfista que, surfando a onda ranhosa, abraçou-me de encontro a uma t-shirt cor-de-rosa e teve o instante mais inteligente de toda a sua vida. Enquanto eu acentuava o choro diante da antevisão de um “não chores mais que eu compro-te outro livro” ou “se ele tivesse feito isto ao haxixe eu também chorava assim”, o meu surfista abraçou-me com força e atirou-me com um “às vezes ser muito inteligente não é uma coisa boa”.
Nessa noite, quando parou o jipe carregado de pranchas à minha porta e se despediu de mim com o seu característico sabor a mar, embora não o soubesse, era um homem profundamente respeitado.
Foi a última vez que o vi.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Jogos de Verão

A paixão dói e isso é coisa que se aprende demasiado cedo.
Podemos ter perdoado ao miúdo de 15 anos o facto de não estar a olhar para a porta no preciso instante em que entrámos naquela festa de aniversário onde só fomos para que ele nos visse. Acabamos sempre por não nos perdoar a nós próprios as horas que passámos ao espelho a antecipar a falhada entrada triunfal.
Vão-se coleccionando pequenos e insignificantes instantes de frustração. Com mais lágrimas ou menos ranho consoante a natureza de cada um e a habilidade na escolha do depositário de sentimentos.
Com o tempo e a idade dá-se o salto qualitativo para o amor.
Mas no código cerebral histórico inconsciente de cada adulto fica uma mensagem de alerta. Uma resistência secreta à paixão. Uma espécie de anti-vírus instalado que faz com que a paixão só seja admitida a entrar na sala quando o dono da casa está distraído.
Os adultos têm mais medo da paixão do que do amor. E compreende-se que assim seja.
Do amor sempre colhe uma outra coisa que se guarda numa cave bolorenta ou numa marquise soalheira. Consoante a natureza de cada um e a habilidade na escolha do depositário de sentimentos.
Da paixão nunca ninguém conseguiu retirar nada.
E apesar de entre os dois só a paixão ter cura, é dessa que os adultos mais fogem. Talvez por saberem que tudo o que nada nos deixa, só nos tira alguma coisa.


quarta-feira, 26 de maio de 2010

INVEJA

Sou, por natureza, uma pessoa invejosa.
O alvo da minha inveja é constante desde que me conheço por gente: mulheres mais bonitas do que eu e apaixonadas.
Podem ter a inteligência de uma anémona, as posses de um monge mendicante, o mau gosto de uma esteticista de bairro. A minha inveja é implacável. Desde que sejam mais bonitas do que eu e tenham um ar profundamente apaixonado desencadeiam-me imediatamente uma onda invejosa-rancorosa que me faz imaginar-lhes, para meu próprio consolo, uma vida escondida de tédio, dramas e, se forem mesmo muito bonitas, desgostos profundos.
Com o tempo habituei-me a viver com este defeito de carácter, hiperbolizando-o em vez de o esconder. A assunção pública do meu defeito, não o torna menor mas retira-lhe parte do carácter maligno e rancoroso.
Este domingo, a minha inveja conheceu novos e preocupantes domínios.
Estava eu, por motivos sociais, enfiada numa igreja, quando, subitamente, senti uma onda invejosa inundar-me as sandálias Jimmy Choo. (a inveja a mim ataca-me sempre pelos pés).
Inicialmente ainda tive esperança que o tsunami tivesse sido desencadeado pela perfeita loura de um metro e setenta e cinco, que estava serenamente sentada ao meu lado, nos seus fantásticos caracóis, enquanto mantinha o olhar preso ao do seu igualmente perfeito marido que, por sua vez, vigiava duas geneticamente perfeitas criancinhas, os quatro imbuídos de um irritante ar de família adoravelmente apaixonada por si própria.
Infelizmente, não eram eles que me estavam a incomodar.
O epicentro da minha inveja emitia vibrações directamente da nave da igreja. Era um homem com cerca de trinta e cinco anos, barba mal aparada e batina encarnada que estava despejar um sermão a uma congregação demasiado toldada pelo calor para o ouvir.
Depois de uma rápida sessão de auto-análise, descobri que subi um degrau em matéria de maus sentimentos.
O padre tinha um sorriso estranho, daqueles que vêm de dentro e que raramente conseguimos encontrar nas pessoas. Ria-se enquanto falava do mítico rei Midas, ria-se enquanto os miúdos da catequese se enganavam nas leituras do novo testamento e ria-se enquanto lhes perguntava se renunciavam a santanás.
O padre era profundamente feliz. E isso transbordava de forma tão insultuosa que teve o desplante de centrar o sermão no tema felicidade.
E eu dei por mim a despejar a minha energia invejosa numa criatura de deus que não tem mais nada que se lhe inveje, a não ser a felicidade.
Uma alma mais pura do que a minha, poderia ver nisto uma forma de evolução, uma espécie de espiritualização da inveja, um recentramento numa direcção menos fútil.
Por mim, acho uma catástrofe existencialista. Invejar louras apaixonadas é um tique feminino que, apesar de inconfessado, é habitual. Padres felizes? É o fundo do poço!!!

sexta-feira, 30 de abril de 2010


Aniversário (a-ni-ver-sá-rio)
adj.
Diz-se da ocasião em que se completa um ou mais anos de um acontecimento: data aniversária.
S.m. O dia que, anualmente, corresponde ao de um acontecimento: o aniversário de uma vitória, de um nascimento.
Aniversário natalício, dia em que se completa mais um ano de vida.
(in Dicionário Web)


E assim, sem mais nem menos, acabo de concluir que este fim-de-semana estou de parabéns.

Só ainda não percebi é se neste tipo de aniversários especiais também devemos fazer uma festa e convidar os amigos.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A propósito do circo




Tudo começou um dia, ia eu pelos meus seis anos, já linda, maravilhosa e com grande sentido de estilo, quando chegou um circo à minha cidade natal.
Até então, a minha única referência em matéria circense era mesmo o circo do Monte Carlo, religiosamente exibido na televisão, no dia de Natal.
Não esperei qualidade inferior.
Depois de duas tardes inteiras com uma carrinha azul equipada com um poderoso altifalante a anunciar as maravilhas exóticas do Circo Ribeiro, lá chegou a noite da estreia.
Também a minha referência em matéria de assistência ao circo era a família Grimaldi.
Mais uma vez, não esperei qualidade inferior.
Exigi o meu vestido de veludo azul-escuro, as minhas melhores meias de renda e uma fita prateada no cabelo.
O circo Ribeiro tinha uma tenda remendada e cheia de nódoas, de tamanho inferior a algumas que já tinha visto em exposição nas feiras de campismo de Leiria. Ainda assim, não desconfiei de nada. Sabia que o negócio desta gente é o ilusionismo e naqueles cem metros quadrados poderia caber o tal exótico maravilhoso mundo anunciado pela carrinha azul.
Poderia...
Haviam trinta cadeiras de plástico umas em cima das outras, um homem gordo com um fato coçado a servir de dono do circo, umas colunas de som manhosas, lâmpadas de várias cores e uma minúscula arena onde desfilariam as maravilhas.
A coisa começou miseravelmente mal com uma morena deslavada, mascarada de chinesa, agarrada a um varão que, sei-o hoje, não será muito diferente do das casas de meninas. Foi anunciada como a Ling, vinda directamente da China.
E meia hora depois, logo a seguir à loura vestida de cor-de-rosa que fazia um número com uns caniches pulguentos a guinchar por um banho, a mesma chinesa deslavada apareceu mascarada de russa e foi-me apresentada como a Nikita, grande e poderosa domadora de feras.
Não vou comentar o facto de as feras poderosamente domadas serem dois doberman famintos num estado de espírito partilhado com os caniches. O que foi demais para mim, foi o facto de a russa Nikita não se ter dado ao trabalho nem de apagar o risco dos olhos de quando era chinesa, nem de lavar as purpurinas douradas da cara.
Como nunca gostei de me sentir enganada, expliquei em pânico à minha mãe que estávamos a ser ludibriados por “aquelas pessoas”.
A minha mãe estava claramente perdida para a magia do circo.
- Raio da miúda que é esquisita que se farta e que até do circo diz mal e porque é que nos havia de calhar uma criança assim e põe-se logo a reparar em tudo e nunca mas nunca está contente com nada e os outros todos entusiasmados e esta sempre à espera de mais e melhor e a quem é que ela sai e vê mas é o espectáculo e cala-te.
E eu vi.
Depois da falsa Nikita regressou a loura dos caniches, previsivelmente apresentada como a Lola vinda de Espanha, a servir de assistente a um mágico com ar infeliz.
Não houve pombas sacadas de chapéus, mas haviam uns lenços vermelhos que a loura exibia com ar triunfante.
Dez minutos depois, o mágico tinha despido a capa e estava agarrado a umas argolas de ginasta. Sem a capa, perdeu a nacionalidade argentina e foi rebaptizado como Herinch.
Por fim, tudo acabou com o apresentador gordo no seu natural papel de palhaço pobre.
Não houve cachet para o fato de palhaço rico e os outros membros da família já estavam demasiado ocupados a remendar os trapos para a noite seguinte.
Enquanto o público explodia em palmas eu iniciava um silencioso processo de ódio pelas maravilhas exóticas do circo e respectiva mágica capacidade de me decepcionar.
Com o Circo Ribeiro percebi duas coisas:
Pode-se nascer na santa terrinha com o Mónaco dentro da alma.
Tudo o que não tem a capacidade de nos iludir só nos desilude.

domingo, 18 de abril de 2010

O valor das coisas ou de como o poeta estava errado




Fernando Pessoa disse que o valor das coisas não está no tempo que elas duram mas na intensidade com que acontecem.
Fernando Pessoa existiu nos dias da lentidão, em que uma viagem do Porto a Lisboa ainda não demorava duas horas e um quarto, os quotidianos não se absorviam no ápice da pressa, as mensagens não chegavam ao destinatário em menos de trinta segundos, o verniz das unhas não estalava em dois dias.
O contexto do poeta na definição do tempo que não dura era o de seis meses seguidos, uma estação inteira ou, no mínimo, a gestação de um rato.
Fora desse tempo de dias marcados por relógios de corda, a maioria das vezes parados nas paredes que lhes serviam de sustentáculo, o tempo que as coisas duram condiciona o seu valor.
Numa equação em que um dos termos é o custo e o outro o benefício, até a longevidade de uma mera sensação é condicionante da memória da sua intensidade.