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domingo, 10 de fevereiro de 2013

Iconoclastia do homicídio



Pensas
O amor é um boneco de porcelana
Eros de quermesse de igreja com asas mal esculpidas
Em que é a ideia e não o objeto que se ama

E como crês ridícula a adoração iconoclasta
Consomes as minhas veias com a mesma tecla gasta

Faço verdades as tuas mentiras

Enquanto meço a distância entre a mesa e o soalho
Olho o boneco uma última vez nas asas
E dou-lhe uma pancada seca com a mão

Esquerda. A do coração.

Ouço-te estilhaçar de encontro ao chão
Não volto a olhar.
Não o posso apanhar.
O destino natural dos resíduos é a absorção

Penso
O teu amor é um boneco de porcelana
Eros de quermesse de igreja com asas mal esculpidas
Em que é o objeto e não a ideia que se ama

Ouço a porta fechar-se nas minhas costas e mordo o lábio inferior
Um clique. Não foi o que disseste? Que o amor se partiria num clique?

Amanhã serei incapaz de me lembrar da origem deste ligeiro hematoma
Que por hoje, mas apenas por hoje,
Ainda me ensombra o sorriso

Faço mentiras as tuas verdades.

sábado, 8 de setembro de 2012

manhã de sábado na minha rua

As cadeiras da esplanada onde gastámos horas a alimentar pombos a migalhas de tosta mista ainda são as mesmas. E alguns dos empregados também. Agravaram o vagar nos gestos e a surdez aos apelos. Passaram-se doze anos. Havia miúdas que se sentavam sozinhas ocupadas com o telemóvel que agora se sentam com os filhos ocupadas em carrinhos de criança. Havia homens que liam o jornal indiferentes às mulheres que, sentadas ao lado, contemplavam o demasiado lento crescimento das árvores e que agora lêem o jornal indiferentes às novas mulheres que, sentadas ao lado, contemplam o demasiado lento crescimento das árvores. Uns mudaram-se para casas maiores na margem sul, libertando-se para sempre do problema do estacionamento e do chiar irritante dos elétricos. Outros morreram. Também é a mesma a cigana que me tenta vender o último modelo Prada de óculos de sol. Reconhece-me na impaciência de me livrar dela e acusa a visão do fantasma que talvez eu seja. Diz-me que às vezes se lembra de mim. Pergunto-lhe pela filha que adivinho suficientemente crescida para ter o seu próprio negócio de pedinchice. Responde-me sobre quatro outros filhos. Conta-me que o marido foi condenado e preso por tráfico de droga. Inocente, como não poderia deixar de ser. Diz que soube que o senhor doutor morreu num acidente com um avião. Um desperdício de homem. Rezou muito por ele. Hesito em denunciá-lo vivo no outro extremo da cidade. Sei que lhe fazem falta as rezas dela. Recuso-lhe a mão para que me invente uma sina melhorada. Compro-lhe um lenço que esqueço na mesa da esplanada e atravesso a rua em direção à casa que voltou a ser minha. Passaram-se doze anos. Diz-me o espelho grande do hall de entrada. Passaram-se duzentos. Responde-lhe o fantasma.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Não é um exílio, é um lar

Disseram-me que o problema estaria na minha zona de conforto. Desconfiada, engoli a mezinha. Comprei uma viagem com destino à realidade. Aterrei num submundo detestável pejado de mesquinhez e fealdade.
Descobri que não tenho o menor interesse em instalar-me dentro da realidade. Aliás, nem sequer tenho interesse em passar por lá de férias.
E no regresso, constato que a solidão é uma módica renda que não paga o privilégio da casa na árvore.