Escolhi uma noite sem lua nem
estrelas. Por ser para ti, usei o meu melhor vestido de seda cinzenta e calcei
uns sapatos prateados. A hora era aquela em que o mundo é entregue aos insones
e aos desesperados e as praias são cantos esquecidos de existência. Cheguei contigo
pela mão absortos no silêncio e na escuridão total. Para que a música não me
distraísse dos batimentos do coração. Para que com a luz não viesse a sombra e
nela a denúncia da demência no reflexo onde tu não aparecerias.
Apertei-te a mão com mais força
quando entrámos no mar gelado e fomos varridos pela primeira onda de noite e
vazio e escuro e nada. Deixei-me enrolar na turbulência e afundar e emergir. Nadei
até ao limite das minhas forças na direção de coisa nenhuma. Reconheci a
derrota para o mar e negociei o preço da minha vida.
O mar deixou-me fazer a viagem de
regresso da escuridão.
Apenas para voltar à praia. Nua e
de mãos vazias.
Talvez, ao fundo, houvesse um
barco a afastar-se na direção da linha do horizonte.
Nunca o saberei. O preço que paguei pela minha vida foi a promessa de não olhar para trás.
Nunca o saberei. O preço que paguei pela minha vida foi a promessa de não olhar para trás.
